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REGINA  NAVARRO  LINS

a cama
NA VARANDA
Arejando nossas idias
a respeito de amor e sexo.
            
            
             
        
CIP-BRASIL CATALOGAO-NA-FONTE 
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVRO, RJ

L733c
Lins, Regina Navarro, 1948-
      A cama na varanda: arejando nossas idias a respeito de amor e sexo: novas tendncias / Regina Navarro Lins. - Ed. rev. e ampliada. - Rio de Janeiro: BestSeller, 2007.
      Inclui bibliografia
      ISBN 978-85-7684-186-9
      1. Amor. 2. Sexo. 3. Comportamento sexual. 4. Relaes homem-mulher. 
I. Ttulo.

07-0464 
                                                      		CDD: 306.7
      CDU: 392.6


A CAMA NA VARANDA
Copyright  2005 by Regina Navarro Lins
Publicado inicialmente em 1997 pela Editora Rocco.
Projeto grfico de capa e miolo: Folio Design 
Editorao eletrnica: Ktia Regina de A. Silva

Todos os direitos reservados. Proibida a reproduo,
no todo ou em parte, sem autorizao prvia por escrito da editora,
sejam quais forem os meios empregados.
Direitos exclusivos desta edio reservados pela
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Impresso no Brasil

ISBN 978-85-7684-186-9

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Para
        
        
        
Giovanni de Polli, amigo sempre presente, que possibilitou a realizao deste livro.
	
Victoria Issa Navarro Lins, minha me, que me apoiou incondicionalmente, apesar de nunca ter concordado com minhas idias.

Flvio Braga, com quem, h sete anos, divido vida e trabalho.

Tasa e Deni, meus filhos, e Diana, minha neta.
     
     
     
     
     
     
     
Todas as declaraes apresentadas neste livro so verdadeiras. Nomes e qualificaes dos autores dos depoimentos foram trocados para proteger sua privacidade.





Agradeo

     
     Aos amigos que me ajudaram e tambm aos meus clientes, alunos e leitores, por terem me contado suas histrias.
     
Sumrio
Prefcio
Introduo

Primeira parte  O passado distante
O princpio
	A paz primitiva
	Culto  deusa
	A descoberta da paternidade.
	A Deusa e a mulher
	O culto ao falo
	O pai: o nico criador 
	O patriarcado 
	O Deus nico: o pai poderoso 
	Eva
	Lilith: o primeiro conflito sexual da histria
	A mulher: um ser maligno
	Vagina: o grande perigo 
	Maria: a chance que as mulheres perderam
	Horror ao sexo

Segunda Parte  Amor
Amor corts: comeando a falar de amor 
	O mito do amor romntico
	A inveno da maternidade
	Inaugura-se o Amor Romntico
	A mulher feminina
	A mulher autnoma
	O homem masculino
	O homem dependente

Terceira parte  casamento
O casamento como soluo
	Amor conjugal
	As expectativas do amor no casamento
O sexo no casamento
A crise do casamento
	Cime
	Fidelidade
Separao
O casamento  necessrio?

Quarta parte  Sexo
A represso sexual
Prostituio 
Homossexualismo
Virgindade
Orgasmo
	Dificuldades sexuais
	Prticas sexuais
	O desempenho sexual 

Quinta Parte  O Futuro que se Anuncia
Amor
	O amor romntico comea a sair de sena
	Amor Virtual
	Poliamor
	Sem medo de ser sozinho
Casamento
	Mnage  trois
	Swing
	Separao
	A famlia
Sexo
	Sexo grupal
	Sexo virtual
	Sex Shops
	Androginia
	bissexualidade

Concluso
Referncias
Bibliografia








Prefcio 
     
     A primeira edio deste livro  de 1997. Decorridos dez anos de sua publicao, ainda desperta interesse em leitores de idades variadas. Agora, A cama na varanda troca de casa, e, com isso, tornou-se necessria uma observao atenta, na busca de possveis alteraes impostas pelo tempo. Nada foi desmentido pela realidade, mas novos caminhos e tendncias surgiram.
     Nesta nova edio, acrescentou-se uma quinta parte, "O futuro que se anuncia", abordando algumas questes contemporneas. Nas trs grandes vias em que o texto  conduzido  amor, casamento e sexo , o que chama a ateno  a busca de uma vida mais livre e desvinculada de regras autoritrias.
     O amor, na forma como o conhecemos, comea a sair de cena, levando consigo a idealizao do par romntico, com sua proposta de os dois se transformarem num s, e a idia de exclusividade. Essa mudana bem-vinda foi analisada no novo captulo, sobre o amor. Observamos a tendncia de substituir a idealizao pela amizade e pelo companheirismo nas relaes amorosas.
     Assistimos a um novo mundo de possibilidades, em que o leque de escolhas diante do amor se amplia. A crena na idia de que se deve encontrar toda a satisfao num nico parceiro fica abalada com a hiptese de se amar mais de uma pessoa simultaneamente.
     Tempos to permissivos s poderiam gerar algo como o poliamor. Uma verdadeira revoluo nos relacionamentos, que a edio anterior deste livro apenas insinuava. Desvendamos aqui o que poder ser a mais importante mudana na vida amorosa das pessoas desde a revoluo sexual.
     O casamento experimenta profundas transformaes. Num futuro prximo, casais podem estar ligados por laos afetivos, profissionais ou mesmo familiares, sem que isso impea sua vida amorosa de se multiplicar com outros parceiros.
     A admisso de uma terceira pessoa ou a troca de afetos e prazeres com outros casais ganha fora. Clubes voltados para esses relacionamentos especiais surgem com sucesso nas grandes cidades. Nesta edio revista, so descritas experincias dessas novas formas de casamento.
     O sculo XXI dever assistir ao estabelecimento de uma indita sociedade de solteiros. As famlias de um nico genitor se tornaro predominantes. O mito da necessidade de pai e me viverem juntos para a formao sadia do indivduo caiu quase definitivamente.
     O conceito de famlia ampliou-se. Os casais homossexuais so aceitos com mais naturalidade, e o nmero de pases que admitem a unio estvel entre gays cresce a cada ano. Alguns do aos cnjuges do mesmo sexo todos os benefcios que tm os casais heterossexuais, inclusive os direitos a herana, penso para o vivo, adoo de crianas e divrcio.
     O sexo perde, aos poucos, a viso moralista que predominou sobre ele ao longo da histria da civilizao. O reconhecimento de que sua prtica  fator de equilbrio e princpio de vida saudvel, amplamente anunciado por W. Reich nos primrdios do sculo XX, tornou-se consensual.
     As dificuldades de encontrar parceiros so superadas pelo sexo virtual. Ningum sabe quem est do outro lado, mas isso no impede que se vivam fortes emoes. A rede permite as relaes entre estranhos com mais facilidade que em boates, bares ou festas. Os cybergames erticos devem reproduzir o prazer sexual num futuro que se anuncia prximo.
     Os milenares dildos que mulheres usam desde a Antigidade so substitudos por vibradores sofisticados, fazendo aflorar intensos orgasmos, em uso individual ou durante o sexo com o parceiro. As sex shops tornam-se negcios altamente lucrativos, e o prazer  acessvel a ambos os sexos e a qualquer faixa etria.
     H sinais de que caminhamos para o fim do gnero sexual. A androginia refere-se a uma maneira especfica de juntar os aspectos "masculinos" e "femininos" de um nico ser humano.  possvel que, num futuro no muito distante, com a dissoluo da fronteira entre masculino e feminino, as pessoas escolham seus parceiros amorosos e sexuais pelas caractersticas de personalidade, no mais pela condio de serem homens ou mulheres.
     Bem, a cama est novamente na varanda, recebendo a brisa fresca dos novos tempos.



Introduo
       
       
       
     
     Jlio, engenheiro de 54 anos, casou-se trs vezes. Aps algum tempo sozinho, conheceu Snia, dentista, de 48 anos, me de dois filhos maiores. Namorando h um ano, sentiu que desejava morar com Snia, "constituir uma famlia", ter, enfim, uma vida tranqila.
     
     "No consigo entender. Ela diz que me ama, quer continuar nosso namoro, mas no quer casar. E o pior no  isso. No durmo h vrias noites pensando no que ela me falou. Com toda a calma, explicou que adora fazer sexo comigo, mas que tambm deseja outros homens. No sente teso s por mim, e, portanto no acha justo se reprimir. No sei o que pensar. No me conformo, afinal sou um homem experiente, sei satisfazer uma mulher. Sempre tive certeza disso."
     
     Suzana  pedagoga e tem 26 anos. H quase trs mora com Fbio, mas faz questo de manter o apartamento que divide com duas amigas, onde vivia. De vez em quando, ao menos uma vez por semana, dorme no antigo endereo. No momento, sente-se pressionada a tomar uma deciso.
     
     "Fbio quer ter um filho de qualquer maneira este ano.  o grande sonho da vida dele, e desde que nos conhecemos fala nisso. De uns tempos para c, discutimos todos os meses, sempre que ele percebe que no parei de tomar plula. No quero ter filho agora. Alis, nem tenho certeza de quer-lo algum dia. A situao est ficando insuportvel. Ele entende isso como falta de amor. Diz que se tivermos um filho nossa relao ficar mais estvel e ele, mais tranqilo. Mas  justamente essa estabilidade que me apavora."

     Parece que alguma coisa nova est ocorrendo nas relaes entre homens e mulheres. O que sabemos e o que presenciamos na vida, nos filmes e nas novelas so as mulheres desejando casar, ter uma relao estvel e segura. Alm disso, s sentiriam desejo sexual pelo homem que amam, seja namorado ou marido. Sempre se acreditou que as diferenas entre o homem e a mulher incluam a monogamia natural dela, para quem amor e sexo seriam inseparveis. Seria da natureza do homem a infidelidade e tambm o hbito de tentar se esquivar de um compromisso. O garanho enaltecido, entretanto, em algum momento deixa-se fisgar, quase como uma concesso. Seus direitos de macho, todavia, continuam intactos.
     As mulheres desde cedo aprendem uma srie interminvel de normas de conduta, cujo objetivo  corresponder  expectativa de um possvel pretendente ao casamento. Estudar e trabalhar tornaram-se atividades comuns para a mulher, mas ela deve estar preparada para o papel materno, permanecendo o casamento a principal meta a ser alcanada.
     Ao ler os relatos anteriores, poderamos supor que se trata de casos isolados, de mais um aspecto excntrico observado nas transformaes sofridas nas relaes entre homens e mulheres. Pensamos assim porque estamos habituados  idia de que os costumes e os comportamentos esto sempre evoluindo, modificando-se. No incio do sculo XX, por exemplo, os maios cobriam as pernas. Foram diminuindo at chegar ao duas-peas, uma ousadia no incio da dcada de 1960. Hoje, a tanga ou o fio dental passam despercebidos. Da mesma forma, o namoro foi evoluindo. Da troca de olhares na sala de casa e na presena da tia carrancuda aos bailes na companhia de um adulto ou ao cinema  tarde nos anos 50.
     Talvez seja um equvoco imaginar que esses novos anseios e comportamentos, que se delineiam nos exemplos, faam parte de um simples processo natural de evoluo e modificao dos costumes. O que vemos hoje  diferente.
     Vivemos um momento de ruptura, em que aspectos bsicos da espcie humana esto sendo reformulados. Esse processo de mutao da histria da humanidade no  facilmente perceptvel, pois o que ocorre hoje se confunde com a evoluo que existe em todas as pocas, e, decerto, s se tornar evidente quando o processo for concludo.
     O novo nos assusta, nos faz sentir desprotegidos, por isso nos vinculamos ao j conhecido. Estamos acostumados a usar, no presente, modelos do passado. Entretanto, isso se torna cada vez menos possvel. O ser humano comea a se libertar das sujeies que o limitam h cinco mil anos, desde o surgimento do patriarcado, cuja histria se confunde com a prpria histria da nossa civilizao. Seu tempo entre ns  to longo que nossa forma de sentir e pensar foi considerada parte da natureza humana.
     Temos informao de outra histria anterior, muito mais longa, mas a ignoramos. No  a nossa histria. A nossa histria se define e foi sustentada por dois aspectos fundamentais: a diviso sexual das tarefas e o controle da fecundidade da mulher. Trata-se de uma estrutura social nascida do poder do pai, com um rgido controle da sexualidade feminina. A ideologia patriarcal colocou em oposio homens e mulheres. Ao contrrio do que se pensa, essa diviso permitiu a dominao e, dessa forma, a submisso de ambos os sexos, no s das mulheres. A elas coube o status de "inferiores", e aos homens o de "superiores". Eles pagam um alto preo para manter a adequao social imposta: no podem falhar. Homens e mulheres, por milhares de anos, abriram mo de sua autonomia e de sua liberdade, visto que esse sistema e a liberdade pessoal so antagnicos.
     H cerca de 40 anos, o patriarcado comeou a perder suas bases. O avano tecnolgico eliminou a diviso sexual de tarefas. O advento dos anticoncepcionais eficazes e acessveis desferiu o golpe definitivo nesse sistema, que ainda tem no controle da fecundidade da mulher sua principal razo de ser e, por estar calcado na natureza biolgica, sempre foi considerado universal e eterno.
     Hoje, a mulher pode no s dividir o poder econmico com o homem, como ter filhos se quiser ou quando quiser. Essa transformao radical se distingue do processo de evoluo observado at agora. A partir daqui, no temos como avaliar as conseqncias. Estamos vivendo um processo de mutao, aps milnios, da nica ideologia de que temos registro. Talvez tenhamos que aguardar vrias geraes para v-lo concludo. Mas os sinais j comeam a se esboar.
     Pressentimos a destruio de valores estabelecidos como inquestionveis, entre os quais o amor, o casamento e, conseqentemente, a sexualidade. Os modelos do passado perdem sua utilidade como referncia. Abre-se espao para novas formas de pensar e viver em todas as reas da experimentao humana.
     A partir da relao com o mundo e com os outros, de forma at agora desconhecida, podemos ser afetados por novas sensaes. Uma outra sensibilidade emerge nos novos tipos de arte, msica, filosofia, no momento em que se rompe com a moral que julgou e subjugou, durante tanto tempo e atravs de seus cdigos, os desejos e o prazer das pessoas. As singularidades de cada um encontram novo campo de expresso.
     Sem nos darmos conta, estamos assistindo ao fim do patriarcado e ao nascimento de uma nova era.
     
     


I - O PASSADO DISTANTE


  
O princpio
      
      
      
      
     A histria humana divide-se em dois grandes perodos: a Idade da Pedra e a Idade dos Metais. H registros escritos deste ltimo, iniciado por volta do ano 3000 a.C, correspondendo  histria das naes civilizadas. A idade da Pedra subdivide-se em: Paleoltico (antiga Idade da Pedra) e Neoltico (nova Idade da Pedra). O perodo Paleoltico da pr-histria  muito longo  de 500000 a 10000 a.C.
     Vivia-se nos bosques, provavelmente nas rvores, a maior parte do tempo, devido  presena de animais selvagens, e a alimentao consistia apenas em razes e frutos. A descoberta do fogo tornou os homens mais independentes do clima e do lugar. Podiam cozinhar, afugentar animais, iluminar as cavernas. Adquiriram maior autonomia.
     O primeiro representante do Homo sapiens foi o homem de Cro-Magnon, no Paleoltico superior, isto , nos ltimos 35 mil anos. Na caverna de Cro-Magnon, em Les Eysies, Frana, foram encontrados, em 1868, os primeiros restos desses nossos ancestrais. Eram fortes e tinham, em mdia, 1,80 metro. Viviam da caa e da coleta de alimentos, e, para sobreviver, dependiam da parceria entre homens e mulheres.
     O temor diante do mistrio da vida e da morte era expresso em rituais e mitos associados  crena de que os mortos pudessem renascer. Desconhecia-se o vnculo entre sexo e procriao.
     Os homens no imaginavam que tivessem alguma participao no nascimento de uma criana, o que continuou sendo ignorado por milnios. A fertilidade era caracterstica exclusivamente feminina, estando a mulher associada aos poderes que governam a vida e a morte. Embora tudo indique que tivesse mais poder do que o homem, no havia submisso. A idia de casal era desconhecida. Cada mulher pertencia igualmente a todos os homens, e cada homem, a todas as mulheres. O matrimnio era por grupos. Cada criana tinha vrios pais e vrias mes e s havia a linhagem materna.
     Arquelogos encontraram quase 200 estatuetas que testemunham o culto  fecundao. Nenhuma representa o ato sexual ou qualquer sinal de erotismo. A maioria foi descoberta na Europa Central e data de uma poca entre 30000 e 25000 a.C. Eram feitas de marfim de mamute, pedra macia ou argila misturada com cinza e depois cozida. O rosto nunca era retratado.
     Ao que parece, o smbolo sexual do perodo Paleoltico foi a mais famosa dessas estatuetas: a Vnus de Willendorf, desenterrada nesse local, prximo a Viena, na ustria. Tem mais ou menos 12 centmetros de altura e representa uma mulher de ndegas e seios imensos, quadris largos, barriga muito proeminente e uma grande fenda vaginal. Seu significado  discutido. O mais provvel  que seja uma deusa primitiva da fertilidade. Supem alguns, entretanto, ser expresso do erotismo masculino, isto , "um anlogo remoto da atual revista Playboy" 1
     O prazer encontrado nessas figuras sexuais causou indignao em alguns historiadores contemporneos. "A vida sexual na era Paleoltica deve ter sido sem qualquer erotismo, porque essa Vnus no passava de um monte de banha",2 afirma um deles. Talvez a gordura funcionasse como proteo contra o frio, mas, tambm, nada indica que a esttica ocidental moderna se aplique ao Paleoltico. Ao contrrio, temos de levar em conta que o homem da Idade da Pedra pudesse v-la como objeto de seu desejo, ansiando por refestelar-se nas banhas de sua Vnus aps um dia exaustivo dedicado  caa.
     Os vestgios Paleolticos de estatuetas femininas, assim como as pinturas e os objetos encontrados em mais de 60 cavernas desse perodo, revelam uma forma de religio em que o feminino ocupava um lugar primordial. So manifestaes do culto a uma deusa-me como fonte regeneradora de todas as formas de vida. Ao longo dos milhares de anos que se seguiram, a adorao  Deusa intensificou-se em culturas cada vez mais avanadas.

A paz primitiva
       
     No ano 10000 a.C. o gelo comeou a recuar para o Norte, modificando o clima e, com isso, a vegetao. No Oriente, surgiram campos naturais de trigo e cevada. Na ausncia da roda e de animais de carga, era impossvel para os homens transportar os alimentos colhidos. Decidiram, ento, mudar-se para perto das plantaes, fazendo surgir, assim, as primeiras aldeias. Alm de colher, passaram tambm a plantar cereais. Do VIII ao VI milnio, houve uma transformao radical na vida das populaes.  a chamada Revoluo Neoltica.
     A agricultura estabeleceu-se definitivamente em 6500 a.C. Presume-se ter sido uma inveno da mulher, devido s constantes ausncias do homem. Com o passar do tempo, os homens foram-se dando conta de que, matando sistematicamente os animais, poderiam provocar sua extino. Comearam, ento, a domestic-los, e foram abandonando a caa; assim, a agricultura ganhava mais importncia. Acreditava-se que a fecundidade da mulher influenciava a fertilidade dos campos. Tal associao fez com que ela alcanasse um prestgio nunca antes vivenciado. A me era a personagem central nessa sociedade. A mulher, assim como a Deusa, tornava-se poderosa no imaginrio da poca.
     Entre 6500 e 5600 a.C, na Anatlia do Sul, atual Turquia, surge a maior e mais antiga cidade conhecida: atal Huyuk. Nela foram encontradas casas decoradas com relevos femininos: mulheres grvidas e figuras com pares de seios. A deusa de atal Huyuk, Ptnia,  representada com uma pantera de cada lado, em cujas cabeas ela coloca as mos, demonstrando seu poder de me e, ao mesmo tempo, de senhora da natureza. Origem de inmeras divindades femininas que reinaram durante muito tempo, mais tarde foi sendo personificada, adquirindo caractersticas prprias.
     Apesar de mltipla, a Deusa manteve a universalidade. Aps a inveno da escrita, em 3000 a.C, foi venerada com o nome de Inanna, na Sumria; Ishtar, na Babilnia; Anat, em Cana; Astarte, na Fencia; sis, no Egito; Nukua, na China; Freya, na Escandinvia; e Kunapipi, na Austrlia. Era sempre reverenciada como fonte de vida, como a fora que proporciona a existncia das plantas e da fertilidade.3
     O Neoltico foi um longo perodo pacfico. As cidades no possuam defesas. Na arte Neoltica, em vez da representao de guerras, sepultamento de chefes de grupos ou fortificaes militares, h a presena de smbolos, admirao e respeito pela beleza e pelo mistrio da vida.
     No mais tendo que arriscar a vida como caador, os valores viris do homem no eram enaltecidos, da a ausncia de deuses masculinos. As splicas e os sacrifcios eram dirigidos  Deusa e toda atividade econmica estava ligada ao seu culto. Os homens no tinham motivos para se sentir superiores ou exercer qualquer tipo de opresso sobre as mulheres. Continuavam ignorando sua participao na procriao e supunham que a vida pr-natal das crianas comeava nas guas, nas pedras, nas rvores ou nas grutas, no corao da terra-me, antes de ser introduzida por um sopro no ventre de sua me humana.4
      
Culto  Deusa
      
     Ao mesmo tempo que a Deusa era adorada sob nomes diferentes, tambm assumia formas variadas, como animais e plantas. Apesar disso, podemos falar em f na Deusa, como sendo rtica, da mesma forma que falamos em f em Deus, como uma entidade transcendente. Curiosamente, o culto , ao mesmo tempo, politesta e monotesta.5
     A Deusa-Me reinou absoluta por todo o mundo desde o fim do perodo Paleoltico at o incio da Idade do Bronze. Esse fato est diretamente ligado ao desenvolvimento da agricultura, fazendo com que os valores da vida se tornem predominantes e venam o fascnio da morte. Durante esse longo reinado, foram encontradas, no sudeste da Europa, aproximadamente 30 mil estatuetas representando personagens femininas. Suas caractersticas fsicas assemelham-se  Vnus do perodo Paleoltico: ancas largas, seios volumosos e ventre saliente. Como smbolo de fertilidade, era associada, sobretudo,  serpente, significando regenerao e metamorfose. Era comum tomar a forma dos animais com que se acasalava e, assim, engendrava cada espcie. Poderosa, produzia todos os seres. Na sua forma humana, trs aspectos estavam sempre presentes: nudez, obesidade e acentuada feminilidade.6
     O Universo era uma me generosa. A Deusa o governa, proporcionando bem-estar a seu povo. Nos santurios de atal Huyuk e Hacilar foram encontradas representaes da Deusa grvida e dando  luz. Assim como toda vida nasce dela, retorna a ela, na morte, para renascer. "Se a imagem religiosa central era a de uma mulher dando  luz e no, como em nosso tempo, um homem morrendo na cruz, no deixaria de ter sentido deduzir que a vida e o amor  vida  em vez da morte e o medo da morte  dominavam a sociedade, assim como a arte." 7
     Por meio da arte neoltica, percebe-se que o objetivo da vida no  a conquista e o domnio, nem o propsito da Deusa  o de exigir obedincia, punir e destruir, mas, ao contrrio, o de dar.  o cultivo da terra e o fornecimento de meios materiais e espirituais para uma existncia satisfatria. A ausncia de imagens de dominao ou guerra reflete uma ordem social em que homens e mulheres trabalhavam juntos, em parceria igualitria, em prol do bem comum.8
     Durante muito tempo acreditou-se que, se a pr-histria no era patriarcal, com certeza teria sido matriarcal. A idia geral era que, se os homens no dominavam as mulheres, obviamente, as mulheres dominavam os homens. A dificuldade em admitir uma organizao social em que uns no dominem os outros  caracterstica do pensamento patriarcal da nossa poca. As descobertas arqueolgicas de que dispomos hoje, aliadas a novas tecnologias, trouxeram valiosos conhecimentos, aumentando a compreenso do passado. A estrutura social pr-patriarcal era igualitria. Apesar da linhagem ter sido traada por parte da me e as mulheres representarem papis predominantes na religio e em todos os aspectos da vida, no h sinais de que a posio do homem fosse de subordinao.
     Os mais de 15 mil anos de paz, em que homens e mulheres viviam em harmonia consigo mesmos e com a natureza, foram encerrados quando um deus masculino decretou que a mulher era inferior ao homem e que deveria ser subserviente a ele. Dividida, assim, a humanidade, em duas partes, feminina e masculina, com o domnio de uma sobre a outra, todas as relaes humanas se adaptariam a esse modelo.9
    

A descoberta da paternidade
      
     Quando abandonaram a caa, os homens comearam a participar das atividades das mulheres. Inicialmente, ajudavam na rdua tarefa de desbravar a terra com enxadas de madeira, o que exigia bastante fora fsica. Tempos depois, domesticaram os animais e os incorporaram  agricultura, usando um arado primitivo. A convivncia cotidiana com os animais fez com que percebessem dois fatos surpreendentes: as ovelhas segregadas no geravam cordeiros nem produziam leite, porm, num intervalo de tempo constante, aps o carneiro cobrir a ovelha, nasciam filhotes. A contribuio do macho para a procriao foi, enfim, descoberta, mas no apenas isso. Os homens perceberam que um carneiro podia emprenhar mais de 50 ovelhas! Com um poder similar a esse, o que o homem no conseguiria fazer? 10
     No  difcil imaginar o impacto dessa revelao para a humanidade. Aps milhares de anos acreditando que a fertilidade e a fecundao eram atributos exclusivamente femininos, os homens constatam, surpresos, que o que fertiliza uma mulher  uma substncia nela colocada: o smen do macho! A partir da, h uma ruptura na histria da humanidade. Transformam-se as relaes entre homem e mulher, assim como a arte e a religio. O homem, enfim, descobriu seu papel imprescindvel num terreno em que sua potncia havia sido negada.
     A reao masculina eclodiu com a fora e a ira de quem fora durante muito tempo enganado. O homem foi desenvolvendo um comportamento autoritrio e arrogante. Daquele parceiro igualitrio de tanto tempo, a mulher assistiu ao surgimento do dspota opressor. A superioridade fsica encontra, ento, espao para se estender  superioridade ideolgica.
                                                                                                                                                                                                                       Diminui a importncia da mulher
      
     No perodo Neoltico, surgiram dois tipos de sociedade: a agrcola e a pastoril. A primeira era fixada  terra que cultivava e a alimentao era o produto da lavoura. Na pastoril, vagavam pelas plancies, buscando melhores pastagens. A sobrevivncia dependia dos rebanhos.
     Entre 4400 e 2900 a.C, os agricultores da Mesopotmia, do Egito e do Noroeste da ndia sofreram trs invases de ondas migratrias de pastores das estepes ou povo kurgo. As ondas kurgas varreram a Europa, suplantando as culturas pacficas l estabelecidas. Ao interromperem um longo perodo de desenvolvimento estvel, de parceria, impuseram um sistema totalmente diferente de organizao social, em cuja essncia "havia a importncia do poder que toma vida, em vez de d-la". 11
     As tribos invasoras eram guerreiras, dominadas pelo homem, com religies tambm dominadas por deuses masculinos. Seus mitos e crenas penetraram nas estruturas sociais existentes. Foram ampliando seus domnios.  medida que as riquezas aumentavam, o homem ia se tornando mais importante que a mulher. Da mesma forma que a filiao passou a ser masculina, a herana, tambm. O homem apoderou-se da direo da casa. As colnias agrcolas foram se expandindo e era necessrio mais gente para trabalhar. Quanto mais filhos, melhor. As mulheres, fornecedoras da futura mo-de-obra, passaram a ser encaradas como objetos e tornaram-se mercadorias preciosas. Eram trocadas entre as tribos ou, se no fosse possvel, roubadas. O sexo feminino, representado pela mulher e pela Deusa, foi gradualmente sendo despojado do seu poder. 12
     Num estudo atual de 853 culturas, apenas 16% so monogmicas. Isso significa que 84% das sociedades humanas permitem ao homem ter mais de uma esposa de cada vez  sistema denominado poligamia.  O Livro dos recordes aponta Moulay Ismael, imperador do Marrocos, como o homem que teve o maior harm de que se tem registro. Ele tem 888 filhos com suas vrias esposas.13 Alguns imperadores chineses tiveram relaes sexuais com mais de mil mulheres que, num rodzio cuidadoso, eram colocadas no quarto do imperador quando estavam no perodo frtil.
    


A Deusa e a mulher

A Deusa se casa
      
     Num primeiro momento, aps a descoberta da participao do homem na procriao, tanto o poder do pai como o da me eram reconhecidos. A Deusa ainda era venerada, mas um deus masculino e viril desponta para lhe fazer companhia. Da condio inicial de subordinado, passa mais tarde  de amante da Deusa. Inicialmente concebido como acontecimento temporrio, o casal divino passou depois a ser considerado casado para a eternidade. 14 Vrios mitos do casal divino fazem a associao dele com ritos de fertilidade, deixando claro que, nessa poca, j estavam bastante conscientes do papel do homem na procriao. O coito sagrado do Deus e da Deusa era encenado pela sacerdotisa do templo e pelo sacerdote ou rei, escolhidos por vontade divina. Celebravam o mistrio do sexo e da fertilidade da natureza.15
     Gradualmente, os deuses foram adquirindo mais poder, que aumentava na mesma proporo em que o desequilbrio se tornava evidente nas relaes entre homem e mulher.
     sis e Osris, um casal divino, apareceu no Egito durante o III milnio. Seu casamento simbolizava a unio da gua (Nilo) e da terra. Osris era o esprito do gro e da gua, sis, grande deusa da fecundidade universal. Em seus amores, fecundam toda a natureza. H, entretanto, um desvio dos poderes femininos.  Osris e no sis quem revela aos homens todas as plantas, alimentcias e txteis, a arte da agricultura e da irrigao.16

A Deusa  destronada
       
     A Deusa passou a ter um parceiro. Inicialmente, ainda era saudada como a mais importante do casal, mas, num processo de transio gradual, o culto da fecundidade da Terra-Me  definitivamente substitudo pelo do heri-guerreiro. O homem recupera seu prestgio perdido desde que deixara de ser caador para se dedicar  agricultura. Agora, ele volta a arriscar a vida na conquista de novos territrios. Aps ter sido venerada por milhares de anos, a grande Deusa, a Me, que j ocupava o papel de esposa subalterna, acaba sendo destronada. No h mais lugar para ela no cenrio divino,17 sendo substituda por divindades masculinas que encarnam o princpio flico.
     As novas lendas mitolgicas acompanham as novas estruturas mentais dessa poca de transio. Entre os celtas, o Sol, antes uma potncia feminina, torna-se Deus-Sol, substituindo a deusa primitiva, relegada  categoria de astro frio e estril, a Lua. Com a Deusa-Porca ou com a Deusa-Javali, lendas celtas, d-se o mesmo. Inicialmente, elas simbolizavam a prosperidade e o amor. Os homens, entretanto, rejeitaro a imagem da boa deusa e s mantero a imagem de uma sexualidade desvalorizada, ligada  idia de sangue e podrido. A Deusa-Porca tornou-se a Porcalhona, com todo o sentido pejorativo dessa palavra. A Deusa-Cora, que simbolizava a fecundidade, d lugar ao Deus-Cervo.
     As grandes deusas tambm so substitudas. Ishtar, deusa babilnica, tornou-se um deus masculino, com o nome de Ashtar.
     Entre os rabes, as trs deusas, Al-Lat, Al-Uzza e Al-Manat, tinham um grande poder. Para que Al e o Isl triunfassem, era necessrio que elas deixassem de existir. Maom no teve outra sada. As deusas foram eliminadas verbalmente e seus santurios destrudos. 18
     Na mitologia grega, as deusas Hera, Atena e Demter dominavam o panteo. Zeus as colocou sob suas ordens e passou a manter todas as divindades sob seu poder.
     De maneira geral, as deusas foram destronadas  fora pela nova ordem instituda. Entretanto, h excees, como o mito kikuyu, em que as mulheres foram destronadas pela astcia masculina. Elas eram cruis guerreiras, poliandras e mais fortes que os homens. Um dia, eles se juntaram e conceberam um plano: no mesmo dia, todos copularam com suas mulheres, que acabaram ficando grvidas e, assim, os homens lhes tomaram o poder, proibiram a poliandria e instituram a poligamia.19
     
     
     
     
A mulher perde a liberdade sexual
      
     A procriao exige a participao dos dois sexos. Surge a noo do casal. O filho no est mais ligado exclusivamente  me. O homem pode agora dizer, orgulhoso: "Meu filho", e deixar sua herana para ele. Mas, para que isso seja realmente possvel, a mulher s pode fazer sexo com ele. Instala-se, ento, o controle da fecundidade da mulher. Estando calcada num fato biolgico, a procriao, esse controle  constitudo como universal e eterno. A liberdade sexual da mulher, caracterstica de pocas anteriores, sofre srias restries. Com o homem  diferente. Da mesma forma que o carneiro emprenha 50 ovelhas, ele tambm pode ter um harm, se desejar.
     Para garantir a fidelidade da mulher e, por conseguinte, a paternidade dos filhos, ela passa a ser propriedade do homem.
     Puni-la severamente, ou mesmo mat-la,  considerado simplesmente o exerccio de um direito.
    
Culto ao falo
      
     A partir da descoberta da paternidade, o sexo tornou-se tema de grande importncia para a religio. A segurana presente e futura estava calcada na fertilidade da lavoura, do rebanho e da mulher, sendo a preocupao principal das comunidades agrcolas e pastoris. Como muitas vezes a lavoura no produzia o que se desejava e o ato sexual nem sempre levava  gravidez, a religio e a magia eram constantemente invocadas. A fertilidade era tudo, e a fertilidade humana e a dos campos estavam estreitamente ligadas. A Deusa-Me do perodo Neoltico era seu smbolo supremo. Seu ventre grvido representava os campos frteis. Vrias imagens expressam sua natureza bissexual, indicando o princpio masculino e o feminino. Em muitas estatuetas  mostrada com o pescoo e a cabea alongados, como um falo, que simboliza regenerao e metamorfose.
     Num determinado momento da histria, os princpios masculino e feminino se separaram. Na arte, na religio e na vida. O princpio flico, ideologia da supremacia do homem, condicionou o modo de viver da humanidade.20
     No auge da expanso agrcola, a contribuio das mulheres ainda era grande, e elas eram reverenciadas pela fertilidade associada  terra. Mas... os homens comearam a abrir a terra a fim de prepar-la para o plantio. A associao simblica do arado com a fora de arar a terra e prepar-la para a semeadura constitui um paralelo com o pnis. O rgo masculino rapidamente assume uma posio preponderante. O homem se v transformado em fertilizador da terra. Afirmando que era seu smen que implantava a vida no tero da mulher, o homem passou a consider-la uma simples caverna protetora. Sua funo era propiciar a germinao e o crescimento da vida at estar pronta para vir ao mundo.21
     O pnis tornou-se o objeto natural de adorao e f religiosa. Na qualidade de phallos, era reverenciado da mesma forma que o rgo feminino o fora durante milnios. O fenmeno do culto flico se espalhou por todo o mundo antigo. No se sabe ao certo onde e quando comeou.  muito provvel que essa idia tenha surgido espontaneamente, em diferentes partes.
     Originalmente, o elemento sexual na religio estava associado aos genitais femininos. No Egito, por exemplo, atribuam poderes mgicos a uma conchinha, que mais tarde passou a ser usada como moeda. Posteriormente, o elemento sexual da religio tomou a forma de culto flico. Apesar de muitas polmicas, sinais de adorao flica sobreviveram at a Idade Mdia.22
     O culto do rgo sexual masculino como reservatrio do poder criador tornou-se universal. A migrao dos povos era uma constante. O culto ao falo atravessa o estreito de Bering com os precursores dos ndios norte-americanos. Antes da chegada dos brancos, os pilares flicos de lucat, no Mxico, j estavam l. Encontramos tambm as cabeas flicas das ilhas orientais. Esse culto pode ser rastreado desde o culto oriental do Lingam-Yoni at o Baal, de Cana; do Japo at feso, e mesmo no smbolo esculpido em forma de pnis ereto numa igreja de Bordeaux.
     Um dos antigos smbolos do pnis  o Ankh. Pode ser encontrado nos altos-relevos dos templos e tmulos egpcios. Geralmente esses objetos aparecem nas mos dos faras ou dos deuses e tocam os lbios das pessoas representadas.
     O culto flico decaiu e desapareceu como fonte religiosa, mas em Londres, ainda hoje, existe uma sociedade que se rene periodicamente para celebrar seus ritos particulares do pnis. Muitos desses ritos so flagrantemente de ordem sexual em sua execuo, e o grupo est em contato com outros, localizados no pas e no exterior.23
     As antigas civilizaes tinham uma atitude bastante diferente da nossa diante da nudez e do sexo. Desconheciam o conceito de obscenidade. Por mais que as imagens dos rgos sexuais masculinos e femininos fossem exageradas e distorcidas, eram encaradas com naturalidade. Muitos santurios espalhados pelo mundo mostram representaes de vulvas e falos, inclusive com deuses possuidores de falos monumentais. Essa valorizao do pnis ereto de grandes propores permanece bastante atual em nossos dias. O comprimento, a grossura e a rigidez do pnis, assim como o desempenho sexual, so causas de constante preocupao e, no raro, sofrimento para o homem atual. O culto ao falo continua presente, embora de forma inconsciente ou disfarada. Algumas mulheres relatam seu constrangimento no incio da relao sexual: ao perceberem o parceiro to atento ao seu pnis ereto, sentiam-se quase excludas dessa relao do homem e seu rgo sexual.
     O mito grego de Prapo, o filho deformado de Afrodite, ilustra o que poderia ser parte do desejo de quase todos os homens na nossa cultura. Possuidor de um pnis enorme, permanentemente ereto, exercia uma atrao magntica sobre as mulheres, que logo se apaixonavam por ele. Prapo estava disposto a corresponder s solicitaes das mulheres. Dizia estar pronto para "engendrar cidados". Um sexo fecundante a servio da ptria. De acordo com o mito, os homens da ilha de Lmpsaco tinham inveja do enorme sucesso do deus com as mulheres e conseguiram expuls-lo da ilha. No esperavam, entretanto, ter de enfrentar a paixo das mulheres por Prapo. Elas rezaram em unssono aos deuses e, como resultado, todos os homens da ilha foram atacados por uma doena nos rgos genitais. Consultando o orculo de Dedona, foram avisados de que o nico meio de conseguirem recuperar a sade e o xtase sexual seria convidar Prapo a voltar para o meio deles. No tendo outra alternativa, os homens cederam. Em memria da doena e para homenagear Prapo, moldaram imagens flicas para si mesmos. Prapo voltou  ilha e ali recebeu as funes de "deus dos jardins". Ficou encarregado de afastar os ladres, o mau-olhado e garantir, dentro do recinto do pomar, a fecundidade prometida  populao.
          O Deus dos hebreus decretara que o homem e a mulher devem crescer e multiplicar-se, demonstrando haver uma indulgncia sexual. Mas as prticas sexuais que no resultassem em fertilidade, como a homossexualidade e o lesbianismo, eram severamente castigadas. A fertilidade era encorajada e sua ausncia, depreciada. No Deuteronmio (23:1), se um homem for ferido nos testculos ou se perder o pnis, na guerra, por exemplo,  condenado ao ostracismo e proibido at mesmo de "entrar na congregao do Senhor". A Bblia apresenta muitos comentrios sobre a importncia do falo e dos objetos flicos. Para os hebreus, no entanto, o smbolo nunca era o prprio Deus.
     Em outros lugares, o prprio Deus era representado com seu pnis sagrado. No Daom, esttuas do deus Legba mostram o pnis ereto e proeminente, enchido com leo de palmeira, que pinga lentamente pela ponta. As mes oram ao deus, num rito de fertilidade. O smen divino  o sagrado leo de palmeira  torna-se tambm significativo na preparao de comidas sagradas, na limpeza do corpo e na feitura de blsamos para friccionar os rgos genitais do homem e da mulher, antes e durante a atividade sexual.24  Em alguns antigos templos dedicados a divindades flicas, o deus esculpido em madeira era visitado com tanta freqncia por mulheres estreis e esperanosas que o pnis se desgastava pelo manuseio, pelos beijos, frices e suces a que era submetido. Para solucionar o problema, os sacerdotes fabricavam um falo muito comprido, que emergia de um orifcio entre as coxas do deus. Quando a ponta se desgastava, eles, por trs da esttua, davam marteladas, empurrando um pouco o pnis.25
     Entre os romanos encontramos variados ritos de fertilidade. Nas festas comemorativas da entrada da primavera, grandes representaes de pnis eram carregadas ao redor dos campos a serem arados. Fertilizar os campos com o smen do homem tambm foi um costume muito difundido. Havia, entre eles, rituais mais explcitos. Mulheres normalmente recatadas e educadas, desesperadas em suas tentativas de engravidar, copulavam sem parar com estranhos nas ruas, sem qualquer restrio por parte dos maridos. Outras entravam em frenesi, enfeitadas de flores, cavalgando esttuas de pnis enormes, esfregando-se neles at suas vulvas ficarem machucadas. Virgens copulavam com deuses a fim de serem frteis e teis para seus maridos.
    
O pai: o nico criador
      
     Participar da procriao junto com a mulher no parece ter sido suficiente para o homem. Agora que seu smen adquire importncia, deseja esse poder exclusivamente para si. Nos mitos da criao do mundo, especficos das sociedades patriarcais, a figura masculina do pai adquire importncia exacerbada. Alm de criar o filho, torna-se tambm o criador da mulher.
     Para a civilizao judaico-crist, Ado  criado por um Deus masculino. Jav tira uma de suas costelas, enquanto Ado dorme profundamente, e fecha cuidadosamente o lugar com carne. Eva, ento,  moldada a partir dessa costela, que simboliza o ventre materno. Ado  pai e me de Eva. Inferior a ele, ela est distante do divino. Ado  muito superior.  filho de Deus. Foi criado  sua semelhana. Desse momento em diante,  muito claro o papel que a mulher dever cumprir na sua relao com o homem: agradecida, por ele ter lhe dado a vida; dependente, por ter nascido dele; submissa, por ser inferior.
     Na mitologia grega, encontramos tambm o pai como nico criador. Zeus travava uma dura batalha contra os gigantes, quando Mtis, sua primeira esposa, ficou grvida.  A conselho de Urano e Gia, o futuro deus do Olimpo engole Mtis junto com a criana em seu ventre. Segundo a predio do casal primordial, se Mtis tivesse uma filha e esta um filho, o neto arrebataria o poder supremo do av. Completada a gestao de Atena, Zeus passou a ter uma dor de cabea insuportvel. Chamou Hefesto, o deus das forjas, e ordenou-lhe que golpeasse seu crnio com o machado. Dali saiu vestida e armada com uma lana, danando a prrica (dana de guerra), a grande deusa Atena.
     Hera, segunda mulher de Zeus, a protetora dos amores legtimos, ao ter conhecimento das relaes amorosas de Smele com seu esposo, resolveu eliminar a rival. Transformando-se na ama da princesa tibetana, aconselhou-a a pedir ao amante que se lhe apresentasse em todo o seu esplendor. Zeus tentou dissuadi-la, pois um mortal no suportaria a epifania de uma divindade imortal. Mas, como havia jurado jamais contrariar seus desejos, Zeus se apresentou a Smele em toda a sua grandeza. Os fogos de seus raios incendiaram o palcio de Cadmo, e a princesa morreu carbonizada. Ao morrer, deixou escapar o fruto inacabado de suas entranhas. Zeus, ento, recolheu o embrio, fechou-o em sua coxa, conservando-o at que completasse a gestao. Desse ventre paterno nasceu Dionsio.

Os homens grvidos26
      
     O poder de procriao parece ter sido uma das causas da guerra entre os sexos. Impossibilitados de excluir totalmente a participao da mulher, os homens tentaram reduzir de forma drstica sua importncia. O ventre materno foi desvalorizado ao mximo. Contudo, mesmo considerado um simples receptculo, uma caverna ou um barco que serviria apenas de passagem para o feto, no foi possvel apaziguar de todo a ansiedade do homem em relao  sua capacidade criadora. A paternidade mobiliza a inveja do homem diante da condio da mulher de gestar, parir e amamentar, do seu poder de criatividade e seu mistrio.
     Na tentativa de compensar a inferioridade paterna, algumas sociedades desenvolveram rituais de nascimento. Esses ritos de couvade podem ser encontrados nos diversos continentes e so praticados pelos homens para reforar o sentimento de poder paterno. Eles funcionam para diminuir a diferena entre pai e me e levar os homens a compartilhar com a mulher o poder de procriao. Em alguns lugares, acredita-se que o vnculo entre pai e filho  mais importante do que entre me e filho, ou, ainda, que, por meio dos ritos, o pai nutre espiritualmente o filho. Entre os corsos, no momento do nascimento dos filhos, ningum se preocupa com a mulher. O homem, no entanto, fica deitado vrios dias, como se sentisse dor pelo corpo todo. No pas basco, logo aps o parto, as mulheres ocupavam-se dos trabalhos domsticos, enquanto os homens deitavam-se com os recm-nascidos e recebiam os cumprimentos dos vizinhos.
     Para os baruya, da Nova Guin, um filho  o produto do esperma do homem. Uma vez dentro da mulher, porm, o esperma encontra-se misturado aos seus prprios lquidos. Se o esperma do homem vencer a gua da mulher, a criana ser um menino, caso contrrio, ser uma menina. Aps a fecundao, o homem alimenta o feto por meio de coitos repetidos e o faz crescer no ventre da me. O esperma  o alimento que d fora  vida, e as mulheres enfraquecidas pela menstruao ou pelo parto bebem esperma. Um segredo dos homens baruya, que nenhuma mulher deve conhecer,  que o esperma d a eles o poder de fazer renascer os jovens fora do ventre de suas mes, fora do mundo feminino, no mundo dos homens e apenas por eles. Assim que os jovens iniciados penetram na casa dos homens, so alimentados com esperma dos mais velhos. Essa ingesto  repetida durante vrios anos, com a finalidade de faz-los crescer mais e mais fortes do que as mulheres, superiores a elas, aptos a domin-las e dirigi-las.
     Essas prticas objetivam limitar os poderes fecundantes das mulheres. Para os baruya, o feto s se desenvolve graas ao esperma masculino. O leite com que mais tarde as crianas so alimentadas  o resultado desse esperma, j que o leite da mulher nasce do esperma do homem.
     Nas ltimas dcadas, estudos revelam perturbaes psicossomticas nos pais durante a gravidez de suas mulheres: insnia, problemas digestivos, aumento de peso etc. Uma pesquisa sobre paternidade feita com 50 homens cujas mulheres tinham acabado de ter filho revelou dados interessantes. Entre eles, 22 acompanharam a preparao e assistiram ao parto, enquanto 28 no participaram. Todos os sintomas somticos (com uma nica exceo) ocorreram no grupo dos que no tinham sido envolvidos nos preparativos do parto. Tudo indica que as angstias surgidas nesse perodo so apaziguadas se o pai participa estreitamente das vrias etapas da maternidade.
    
O patriarcado
       
     O patriarcado  uma organizao social baseada no poder do pai, e a descendncia e o parentesco seguem a linha masculina. As mulheres so consideradas inferiores aos homens e, por conseguinte, subordinadas  sua dominao.
     Superior/inferior, dominador/dominado. A ideologia patriarcal dividiu a humanidade em duas metades, acarretando desastrosas conseqncias.  evidente que a maneira como as relaes entre homens e mulheres se estruturam  dominao ou parceria  tem implicaes decisivas para nossas vidas pessoais, para nossos papis cotidianos e nossas opes de vida. Da mesma forma, influencia todas as nossas instituies, os valores e a direo de nossa evoluo cultural, se ela ser pacfica ou belicosa.27
     Apoiando-se em dois pilares bsicos  controle da fecundidade da mulher e diviso sexual de tarefas , a sujeio fsica e mental da mulher foi o nico meio de restringir sua sexualidade e mant-la limitada a tarefas especficas.
     A fidelidade feminina sempre foi uma obsesso para o homem.  preciso proteger a herana e garantir a legitimidade dos filhos. Isso torna a esposa sempre suspeita, uma adversria que requer vigilncia absoluta. Temendo golpes baixos e traies, os homens lanaram mo de variadas estratgias: manter as mulheres confinadas em casa sem contato com outros homens, cinto de castidade e at a extirpao do clitris para limitar as pulses erticas. As adlteras eram apedrejadas, afogadas, fechadas num saco, trancadas num convento ou, como acontece hoje no Ocidente, espancadas ou mortas por maridos ciumentos, protegidos por leis penais lenientes com os crimes passionais. Ao homem, por no haver prejuzo para sua linhagem, concede-se o direito de infidelidade conjugal.
     Esse antagonismo entre os sexos impede uma amizade e um companheirismo verdadeiros, fazendo com que a relao entre homem e mulher se deteriore. As relaes conjugais tm sido de condescendncia de um lado e obrigao de outro, cheias de desconfianas, ressentimentos e temores. s mulheres so negadas quase todas as experincias do mundo. Como sempre foram consideradas incompetentes e desinteressantes,  possvel encontrar nos dias de hoje mulheres relegadas ao espao privado ou impedidas de crescer profissionalmente. Ainda h empresas, por exemplo, em que a remunerao da mulher, mesmo exercendo as mesmas funes do homem,  inferior.
     Tambm sobre os filhos os pais tm poderes absolutos que, em muitos casos, como na Roma antiga, incluem o de vida e morte. Na Roma antiga, quando a criana acabava de nascer, a parteira a colocava no cho. O pai no tinha um filho. Ele o tomava. Se o pai no o levantasse, era exposto a quem quisesse recolh-lo. Da mesma forma, seria rejeitado se o pai estivesse ausente e ordenasse  mulher grvida que assim o fizesse. Casar, s com o consentimento paterno. Freqentemente, o pai escolhia quem os filhos deveriam desposar. A situao da filha mulher era mais grave. A autoridade do pai sobre ela era maior do que sobre o filho homem. Assim, ela se sujeitava, primeiro, ao pai e, depois, ao marido. Para o Direito Romano, que imperava na Idade Mdia, a mulher era eternamente menor. A herana do pai lhe era recusada, ou ento a mulher era a herana que era submetida  autoridade do marido.
     No passando de simples objeto, ela servia ao homem apenas como instrumento de promoo social pelo casamento, como objeto de cobia e distrao ou como um ventre do qual o marido tomava posse e cuja funo principal era a de fazer filhos legtimos. As mulheres no existiam por si prprias. Eram definidas pelo seu relacionamento com o homem. As designaes tradicionais para uma mulher demonstram claramente essa verdade na cuidadosa descrio que fazem do seu status  senhorita (que no tem homem) ou senhora (que tem um homem ou j teve, mas ele partiu ou morreu)  e no significado da expresso "casar-se bem". 28
     Os filhos se identificam com o sobrenome que expressa unicamente a relao de parentesco com o pai. A maioria das mulheres passa a usar, quando casa, apenas o sobrenome do marido, em detrimento do seu prprio. Tais condicionamentos so to fortes que, mesmo quando a lei no mais obriga, como no Brasil, as mulheres consideram isso natural, sem se dar conta de que esse fato tem como origem deixar claro que a mulher  propriedade do homem.
     Os homens, que aparentemente s tm a lucrar num sistema que os coloca numa posio superior, so seduzidos a lutar pela sua manuteno para continuar usufruindo dessas vantagens. Entretanto, pagam um preo elevado para corresponder  expectativa de ser homem patriarcal. Como resultado da diviso da humanidade, assistimos  diviso dos seres humanos. Para se adequar ao modelo patriarcal de homem e mulher, cada pessoa tem que negar parte do seu eu, na tentativa de ser masculina ou feminina. Homens e mulheres so simultaneamente ativos e passivos, agressivos e submissos, fortes e fracos, viris e femininos, mas perseguir o mito da masculinidade significa sacrificar uma parte de si mesmo, abrir mo de sua autonomia.
     O patriarcado  um sistema autoritrio to bem-sucedido que se sustenta porque as pessoas subordinadas ajudam a estimular a subordinao. Idias novas so geralmente desqualificadas e tentativas de modificao dos costumes so rejeitadas explicitamente, inclusive pelas prprias mulheres, que, mesmo oprimidas, clamam pela manuteno de valores conservadores.
     A abrangncia da ideologia de dominao  ampla. Partindo da opresso do homem sobre a mulher, a mentalidade patriarcal se estende a outras esferas de dominao: homens mais fracos, raas, naes e a prpria natureza.
     O estabelecimento do patriarcado na civilizao ocidental foi um processo gradual que levou quase 2.500 anos, desde cerca de 3100 at 600 a.C. "A lgica patriarcal comea no Ocidente com a democracia ateniense, no sculo V a.C, e o fim dessa lgica se enraza na Revoluo Francesa, quando a democracia pretende aplicar-se a todos." 29
     A evoluo das sociedades de parceria foi mutilada, sofrendo mudana radical. A mente humana foi remodelada em um novo tipo, e a cultura dominada pelo homem, autoritria e violenta, acabou sendo vista como normal e adequada, como se fosse caracterstica de todos os sistemas humanos. A lembrana de que por milhares de anos houve organizaes sociais diferentes foi suprimida. O longo tempo  quase cinco mil anos , auxiliado pelo hbito e pelo desconhecimento de outra alternativa, se encarregou da normalidade. Mas isso s no foi suficiente. Para ser aceito definitivamente como certo e no suscitar dvidas, o patriarcado recebeu dois apoios fundamentais: a religio e a cincia.30 Na Grcia, Aristteles transformou em cincia a viso bblica da mulher como inferior ao homem. Para ele, a semente masculina  o agente ativo que se reproduzir naturalmente em sua prpria imagem: um menino saudvel. A semente feminina s produzir o "desvio do modelo". As mulheres seriam imperfeitas e, por isso, inferiores.31
     Dessa forma, os novos valores penetraram nos mais profundos recnditos da alma humana e durante muito tempo foram tidos como verdades imutveis.
     
O Deus nico: o Pai poderoso
      
     No princpio, Deus criou o Cu e a Terra. A Terra era vaga e vazia, as trevas cobriam o abismo, o esprito de Deus planava sobre as guas.
     "No apenas no h mais vestgio da deusa, como tambm o Deus dos judeus cria a terra vaga e vazia, privada de suas caractersticas fecundantes. O que existe primeiro  o Esprito, que cria pelo poder da palavra. Ele diz: 'Que se faa a luz', e a luz se fez. A sensualidade da Terra-Me tornou-se intil nesse novo processo de criao. Quando muito, serve de barro para modelar Ado." 32
     A religio judaica , por excelncia, a religio dos patriarcas. Caracteriza-se pelo culto ao Deus-Pai. Sua histria comea com Abrao, por volta de 1800 a.C. Mais tarde, em torno de 1300 a.C, quando os judeus eram escravos no Egito, Moiss liberta-os, conduzindo-os para a conquista da Terra Prometida: Cana ou Palestina.
     Deus chamou Moiss para essa misso enquanto este cuidava de seus rebanhos. Como mediador entre Deus e o povo, fundou uma nova religio. Deus tinha um nome, Jav, adotado como divindade nacional. O temvel Deus das montanhas do Sinai era venerado como nico guia e salvador. Legislador supremo e inflexvel, tinha a funo de manter a ordem moral do Universo. Jav, segundo a Bblia, ditou a Moiss os dez mandamentos no cume do Monte Sinai. Da poca de Moiss at trs sculos depois, Jav possua corpo fsico e as qualidades emocionais dos homens. Era caprichoso e irascvel. Os deuses locais da fertilidade poderiam bastar para propiciar a colheita, mas, diante do extermnio, voltavam-se para Jav, o libertador do deserto, patrono de sua fuga, deus da libertao.
     Em 935 a.C, quando as 12 tribos se dividiram, fundando o reino de Israel ao norte e o reino de Jud ao sul, o culto exclusivo a Jav tornou-se impossvel. Dependiam dos vizinhos para sua comunicao. Quando em 722 a.C. o reino de Israel foi conquistado pelos assrios, seus habitantes se espalharam e foram absorvidos pelo imprio dos conquistadores. So as chamadas dez tribos perdidas de Israel. O reino de Jud resistiu  ameaa assria e houve, ento, uma grande reforma religiosa realizada pelos grandes profetas.
     Trs doutrinas eram bsicas:
      
1. 	Monotesmo: Jav  o senhor do Universo, os deuses de outras naes no existem.

2.  Jav  exclusivamente um deus e retido. Ele no  realmente onipotente. O mal deste mundo vem do homem, no de Deus.

3. 	Os fins da religio so, principalmente, ticos. Jav no faz questo de ritos e sacrifcios, mas que os homens aspirem  justia.
      
     Promoveram uma sociedade mais justa, reprimindo a crueldade do homem para com o homem. No acreditavam no cu e no inferno e no cogitavam na salvao individual depois da morte. Diziam que as sombras dos mortos subiam ao sheol, onde demoravam algum tempo no p e depois desapareciam. Seus ideais eram orientados para esta vida e no para a vida do alm.
     Em 586 a.C, os caldeus, sob o comando de Nabucodonosor, tomaram o reino de Jud. Queimaram e pilharam Jerusalm, levando os cidados para a Babilnia. Em contato com outros povos, surgiam novas crenas. Os judeus adotaram as idias de pessimismo e fatalismo e do carter transcendental de Deus.
     Jav se tornou um ser onipotente e inacessvel. Seu pensamento no era mais o dos mortais e o homem tinha como dever submeter-se completamente  sua vontade inescrutvel. Outras profundas transformaes ocorreram nas formas primitivas da religio. Os chefes religiosos adotaram costumes para distinguir os judeus como um povo particular, tentando preservar sua identidade como nao. Muitas dessas prticas tiveram sua importncia negada pelos profetas, que agora retornavam como elementos essenciais do culto. Assim, o judasmo foi se transformando numa religio eclesistica, na medida em que os extensos regulamentos para a conduta do ritual aumentavam o poder dos sacerdotes.
     O imperador persa Ciro libertou os judeus do cativeiro em 539 a.C, mandando de volta a Jerusalm os que estavam exilados na Babilnia. A religio judaica sofre, ento, influncia dos persas.
     As concepes primitivas acerca da sobrevivncia deram lugar  crena de que os corpos dos justos seriam ressuscitados por Deus numa nova criao. A imortalidade era uma recompensa. Havia um mundo assombrado de hierarquias rivais de bons e maus poderes  anjos e demnios. A esperana e o temor de outro mundo aumentavam diante da idia do Juzo Final. O prazer desta vida perdeu sua importncia. A vida passou a ser direcionada para a salvao num mundo extraterreno.
     A imagem de Deus no podia ser reproduzida. Adorava-se um Deus invisvel. Desenvolveu-se assim a idia da superioridade da alma sobre o corpo. Essa elevao de Deus a um nvel mais alto de intelectualidade tornou as pessoas mais orgulhosas, sentindo-se superiores aos que permaneceram sob o domnio do corpo.
     Na medida em que Deus perde a forma humana e se torna invisvel, afasta-se totalmente da sexualidade e  elevado ao ideal de perfeio tica. A restrio  liberdade sexual , ento, instituda.33
     
O que determina nossa forma de viver e pensar
       
     A Bblia  uma coleo de livros escritos por diferentes pessoas ao longo de mais de mil anos, tendo incio em 1450 a.C. Divide-se em duas partes: o Antigo Testamento e o Novo Testamento. Os livros do Antigo Testamento so as Escrituras do povo judeu. O Novo Testamento so os escritos sobre Jesus e seus seguidores. A Bblia crist  composta pelo Antigo e pelo Novo Testamento. So 66 livros que abordam vrios aspectos da vida, escritos como leis, provrbios, poesias, dirios e cartas. Nela encontramos normas de conduta a seguir, determinando o comportamento humano com uma clara definio do que  certo ou errado, bom ou mau. A influncia que exerce sobre ns, no Ocidente, principalmente no que diz respeito ao pecado e  culpa  enorme, embora, na maioria das vezes, inconsciente. Seu poder  to grande que mesmo as pessoas no religiosas ou que nunca viram uma Bblia vivem, pensam e sentem, sem perceber, pelo que ali est determinado.  a cultura da qual somos frutos. A cultura judaico-crist.
     O Antigo Testamento consiste em 39 livros e guia o povo judeu ao longo de sua histria. Jesus, como judeu, lia essas escrituras. A parte mais importante  a Tora  os cinco primeiros livros: Gnese, xodo, Levtico, Nmeros e Deuteronmio. Os cristos o chamam de Pentateuco, uma palavra grega que significa cinco livros.
     O Novo Testamento  composto de 27 livros. Os quatro primeiros, os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e Joo, descrevem a vida, morte e ressurreio de Jesus. Os Atos dos Apstolos falam do crescimento da Igreja Crist e das viagens de So Paulo.
     Os Evangelhos se concentram nos trs anos anteriores  morte de Jesus e em acontecimentos escolhidos dentro desse perodo. Foram escritos por seus seguidores para mostrar aos outros por que acreditavam que Jesus era o Messias, o Filho de Deus. Seu propsito era explicar a mensagem do ensinamento de Jesus s pessoas que viviam naquele tempo e deixar um testemunho escrito para as geraes futuras.

O Jardim do den34
       
     No Oriente, no den, Deus criou um jardim onde crescia toda rvore e planta e no seu centro exato ficavam a rvore da vida e a rvore do conhecimento. Deus ps o homem no jardim, dizendo-lhe que podia comer qualquer fruto que desejasse, menos os frutos da rvore do conhecimento, pois se os comesse morreria.
     Deus trouxe para Ado, o homem, todos os animais para que pudesse pr nome neles. Depois fez Ado dormir profundamente e, enquanto ele dormia, retirou uma de suas costelas e com ela criou a mulher, para que Ado tivesse uma esposa. Ado e Eva, sua mulher, passeavam nus e felizes pelo jardim e no precisavam de nenhuma roupa. Mas a serpente, a mais maliciosa de todas as criaturas vivas, perguntou a Eva se eles podiam comer qualquer fruto que quisessem. "Sim", disse Eva, "qualquer fruto, menos o da rvore do conhecimento. Se comermos, morreremos." "Mas vocs no morrero", disse a serpente. "Ao contrrio, vo descobrir a diferena entre o bem e o mal e assim sero iguais a Deus."
     A mulher espiou a rvore e ficou tentada pelo fruto suculento que poderia torn-la sbia. Colheu um e o mordeu; deu um ao marido e ele o comeu. Quando um olhou para o outro, perceberam sua nudez. Rapidamente, apanharam algumas folhas de figueira que costuraram e usaram para se cobrir.
     Na brisa do entardecer, ouviram a voz de Deus, que andava pelo jardim, e se esconderam para que Ele no os visse. Deus chamou Ado: "Ado, onde ests?" Ado disse: "Ouvi a tua voz, mas estava com medo e por isso me escondi." "Se ests com medo  porque comeste o fruto da rvore que te disse para no comer." "Foi a mulher quem me deu o fruto." E Eva disse: "Foi a serpente que me tentou e me iludiu."
     Deus ento amaldioou a serpente e expulsou-a do jardim. Deu roupas a Ado e Eva, dizendo: "Agora que sabeis do bem e do mal, deveis sair do den. No podeis ficar, pois receio que comais tambm a rvore da vida e vivais para sempre." E Deus os conduziu para longe do jardim, mundo afora e, a leste do den, colocou um querubim com uma espada de fogo para guardar a entrada do jardim e a rvore da vida.

Eva
      
     O Velho Testamento estabeleceu uma nica divindade masculina e determinou com firmeza que as mulheres so inferiores aos homens. Embora a autoria do livro do Gnese tenha sido durante muito tempo atribuda a Moiss, hoje aceita-se que a autoria foi de muitos sacerdotes hebreus que durante 400 anos reinterpretaram os mitos antigos e incorporaram o mito da queda de Ado e Eva do Paraso. Em 400 a.C, na histria da tentao de Eva pela serpente, os sacerdotes hebreus mataram dois coelhos com uma cajadada: livraram-se da Deusa, que era diretamente associada  serpente, representando-a nos mitos antigos, e fizeram de Eva e de todas as mulheres o bode expiatrio dali por diante. No perodo Neoltico, a idia de criao e manuteno da vida estava associada  Deusa. Na Bblia, ela foi suplantada pela idia patriarcal de um Deus como um pai autoritrio e punitivo.35
     Existem diversas interpretaes do mito de Ado e Eva, mas em quase todas Eva  a nica responsvel por todos os males, pois teria sido sua fraqueza que provocou a expulso do Paraso. Alguns acham que comer o fruto proibido se trata do ato sexual, e que, tendo descoberto o orgasmo, Ado e Eva acreditaram ser iguais a Deus. Para outros, seria mesmo uma rvore do conhecimento e que o gesto deles significa um pecado de orgulho (que no incio vinha  frente dos sete pecados capitais).36
     O judasmo jamais considerou o pecado original um erro carnal e, sim, um pecado de conhecimento e competio com Deus. O cristianismo  muito mais severo com a mulher. Eva tenta Ado e, pelo caminho do pecado original, camos na condio humana com todo seu sofrimento. A mulher  condenada duramente como origem do pecado e da degradao. "No permito  mulher ensinar nem dominar o homem; que ela se mantenha, portanto, em silncio. Foi Ado o primeiro a ser modelado. Eva, s depois. E no foi Ado o seduzido e, sim, a mulher, que, seduzida, caiu na transgresso." (Primeira Epstola a Timteo. 2:2-14).37
     Nos sculos seguintes, a condenao da Igreja  prtica carnal continuou intensa. Desenvolveram uma ideologia potente de negao do sexo, tinham obsesso por superar o apetite sexual: "Para eles a sexualidade representava um perigo gravssimo e um defeito fatal; encaravam a virgindade como algo que se opunha e vencia a sexualidade, e, infelizmente, no conseguiram perceber que a renncia no afasta nem anula o desejo." 38
     Eva tornou-se o smbolo da negao do sexo que caracteriza o cristianismo.  No sculo II, o apologista Tertuliano escreveu De virgimbus velandis (Sobre o recato das virgens), no qual observou que as mulheres melhor fariam se usassem roupas de luto, j que eram descendentes de Eva, a causa de toda a misria humana. 39
     Um dos aspectos mais interessantes do mito de Ado e Eva foi o fato de terem percebido que estavam nus, o que faz uma ligao entre "o bem e o mal" e a sexualidade. "A conseqncia de conhecer o sexo  estabelecer uma separao entre sexualidade e procriao. Deus introduziu inimizade entre a serpente e a mulher" (Gn 3:15). Quando o livro do Gnese foi escrito, a serpente estava claramente associada  deusa da fertilidade e a representava simbolicamente. Por isso, Deus ordenou que a sexualidade livre e desimpedida da deusa da fertilidade fosse proibida para as mulheres, restando a elas a maternidade como nica maneira possvel de expressar sua sexualidade. A sexualidade da mulher ficou limitada, ento, por duas condies: a mulher deveria se subordinar ao marido e dar  luz na dor. 40
     Para santo Agostinho, o homem e a mulher feitos por Deus inicialmente tinham absoluto controle de seus corpos, No Jardim do den, se por acaso existiu sexo, certamente foi frio e espaado, sem erotismo e nenhum xtase. Seu objetivo seria apenas o de cumprir as exigncias do processo reprodutivo. Quando Ado e Eva caram em pecado, tomaram conscincia de impulsos novos e egostas, isto , da luxria, sobre os quais no tinham controle. Imediatamente caram em si e ficaram envergonhados de sua nudez. Como Ado e Eva no conseguiram controlar sua excitao, rapidamente fizeram tangas com as folhas de figueira, tentando esconder o que agora passava a ser chamado regio pudenda (do latim pudere, ficar envergonhado). Santo Agostinho acreditava que os descendentes de Ado e Eva herdaram o desejo sexual incontrolvel e a culpa da transgresso original.
     Por ainda persistirem na humanidade, pode-se explicar a perversidade e a independncia dos rgos sexuais, a natureza intratvel do impulso carnal e a vergonha geralmente suscitada pelo ato do coito. Sexo e luxria eram essenciais  doutrina do pecado original, e todo ato sexual praticado pela humanidade, subseqente  queda, era necessariamente mau, assim como toda criana nascia em pecado. Deus tinha iluminado o primeiro homem e a primeira mulher com um inocente instinto fsico, com o propsito de continuar a espcie, mas a luxria o transformou em algo vergonhoso. Ento, a esperana maior de redeno da humanidade consistia em rejeitar o coito, e, assim, a culpa herdada de Ado e Eva. Somente com o celibato  recusa total de sexo  seria possvel alcanar o estado de graa que existiu no Jardim do den. Os fracos que no o conseguissem deveriam lutar para praticar o sexo sem paixo, ao produzirem a gerao seguinte de cristos.41
     Um mito traduz as regras de conduta de um grupo social ou religioso. No tem autor, e seu carter mais profundo  o poder que exerce sobre ns, geralmente  nossa revelia, no nosso inconsciente.42 "O mito de Ado e Eva modelou e aterrorizou a vida sexual e moral das geraes seguintes de homens e mulheres tementes a Deus e ainda hoje controla a vida de milhes de cristos. Essa imagem coletiva poderosa responde pelo sentimento de culpa e pela vergonha que esto profundamente entranhadas nas pessoas e contribuem para o conflito sexual de nossa sociedade ps-cristianismo." 43
     Tertuliano, que costuma ser chamado de "um dos pais da Igreja Crist", novamente acusa as mulheres: "E voc no sabe o que  uma Eva? A sentena de Deus sobre esse seu sexo subsiste at essa era; a culpa tambm deve subsistir. Voc  o caminho de entrada do diabo (...) o primeiro desertor da lei divina; voc foi quem persuadiu aquele a quem o diabo no foi suficientemente valente para atacar. Voc destruiu com tanta facilidade a imagem de Deus, o homem. Por causa de seu demrito, ou seja, a morte, at mesmo o Filho de Deus teve de morrer." 44 E as mulheres tentaram se defender das acusaes sofridas por quase dois mil anos. Em alguns cartazes das manifestaes feministas da dcada de 1960, estava escrito: "Eva foi falsamente incriminada." 45

Lilith: o primeiro conflito sexual da histria
      
     Eva no foi a primeira mulher de Ado. Antes dela, houve Lilith, mas o amor deles foi conturbado. Quando deitavam na cama para fazer sexo, na posio mais natural  a mulher por baixo e o homem por cima , Lilith se impacientava e demonstrava seu desagrado. Perguntava a Ado: "Por que devo deitar-me embaixo de ti? Por que devo abrir-me sob teu corpo?" Ado ficava em silncio, perplexo. Mas Lilith insistia: "Por que ser dominada por voc? Eu tambm fui feita de p e sou tua igual." Ela pedia para inverter as posies sexuais para estabelecer uma harmonia que deve significar a igualdade entre os dois corpos e as duas almas. Ado respondia secamente que Lilith era submetida a ele, devia estar simbolicamente sob ele e suportar seu corpo.
     Existe uma ordem que no  lcito transgredir. A mulher no aceita essa imposio e se rebela contra Ado. Rompe-se o equilbrio.
     Ado recusa-se a conceder a igualdade significativa  companheira. Lilith pronuncia irritada o nome de Deus e, acusando Ado, afasta-se. Esto descendo as primeiras trevas da noite de sbado. Lilith foi embora.
     Ado tem medo, sente que a escurido o oprime. Parece-lhe que todas as coisas boas se estragam. Acorda, olha em torno e no encontra Lilith. Mais uma vez a companheira desobedeceu  sua ordem.
     Dirige-se a Jav: "Procurei em meu leito,  noite, aquela que  o amor de minha alma, procurei e no a encontrei." (Ct 3:1)
     Pede ajuda ao Pai e o Pai quer saber a causa do litgio, e compreende que a mulher desafiou o homem e, portanto, o divino.
     Lilith, afirmou-se,  um demnio. Pelas escrituras, a serpente  um demnio; Lilith , portanto, o veculo do pecado da transgresso.
     A serpente-demnio, ou o prprio demonaco que existe em Lilith, impele a mulher a fazer algo que o homem no permite: Lilith pede a Inverso das posies sexuais equivalentes aos papis, enquanto Eva prova da rvore proibida, em obedincia  serpente. A serpente, no mundo de Lilith, pode ser equivalente  manifestao do instinto codificado pela pergunta: "Por que devo sempre deitar-me embaixo de ti? Tambm eu fui feita de p e por isso sou tua igual." Ado, ao contrrio, afasta de si a ameaa.
     Lilith pede para ser considerada igual, Eva pensa que no h morte ao assumir a sabedoria interdita. Lilith desobedeceu  supremacia de Ado, Eva desobedeceu  proibio. Ambas assumem um risco mediante um ato. 
     Jav deu a ordem:
         O desejo da mulher  para seu marido. Volta para ele.     
     Lilith responde no com a obedincia, mas com a recusa. Jav insiste:
         Volta ao desejo, volta a desejar teu marido.    
     Mas a natureza de Lilith mudou no momento em que blasfemou contra Deus, e no existe mais obedincia.      
     Ento, Jav manda em direo ao mar Vermelho, para onde ela havia ido, uma formao de anjos. Eles a encontram nas charnecas desertas do mar Arbico onde, segundo a tradio hebraica, as guas chamam, atraindo como m, todos os demnios e espritos malvados. Lilith se transformou: no  mais a companheira de Ado.  o demonaco manifesto, est rodeada por todas as criaturas perversas sadas das trevas. Lilith se recusa a voltar para junto de Ado.
         Os anjos voltam ao den. Jav j havia decidido punir Lilith, exterminando seus filhos.
     Lilith, acasalando-se com os diabos, gerava 100 demnios por dia, os Lillin.
     Os pequenos demnios foram mortos pela mo implacvel de Jav. A esse cruento extermnio, verdadeira guerra entre o Criador e suas criaturas, se ope uma vingana de Lilith: ela enfurece seus prprios filhos e, ajudada por outros demnios femininos, segue por todo lugar estrangulando de noite as crianas pequenas nas casas, ou surpreendendo os homens no sono, induzindo-os a mortais abraos.
     No h concluso para a histria: Lilith permanece a prpria liberdade endemoninhada.
     Do momento em que declara guerra ao Pai, e o Pai a sujeita, desencadeia sua fora destrutiva, e desde aquele dia no h mais paz para o homem.46
     Os filhos de Lilith, pequenos diabos, eram reconhecidos na Bblia (Nm 6:26): "O Senhor te abenoe em todo ato teu e te proteja dos Lillin."47
     O mito de Lilith foi encontrado nos escritos sumrios e acadianos e nos testemunhos orais dos rabinos sobre o Gnese. "E o mito de excluso, da primeira mulher de Ado, igual a ele e no pedao de sua costela, que se reivindica igual para exercer seu prazer na relao com o homem, que quer manter a relao de igual para igual com o outro-diferente. Depois de sua demonizao e excluso, segue-se a criao de Eva  garantia maior de submisso ao Pai e ao homem." 48
    
A mulher: um ser maligno
       
     Deus disse  mulher: "Multiplicarei sobremodo o sofrimento da tua gravidez. Em meio a dores dars  luz filhos, o teu desejo ser para o teu marido e ele te governar." (Gn 3:16)
     E, ento, os homens resolveram seguir essa ordem de Deus. As mulheres, afinal, to perigosas, tinham mesmo que ser governadas pelo marido. Mais que isso: dominadas, desvalorizadas, escravizadas.
     A tica crist, por causa do valor atribudo  virtude sexual, contribuiu inevitavelmente para degradar a posio da mulher. Sendo vista como tentadora, todas as oportunidades de levar o homem  tentao tinham que ser reduzidas. As mulheres respeitveis eram cercadas de restries, e as pecadoras eram tratadas com desrespeito e insultos. O sistema patriarcal fez tudo para escravizar as mulheres. As leis da propriedade e herana foram alteradas contra as mulheres. S na Revoluo Francesa as filhas voltaram a ter o direito  herana.49
     Nos ltimos trs mil anos, assistimos, sob diversas formas e em vrios lugares,  hierarquizao entre homem e mulher ser levada ao extremo. A idia da guerra dos sexos e de que homem e mulher so inimigos foi reforada por vrios textos que aconselhavam aos homens a tomarem distncia daquela que, s vezes, ele pode at chamar de companheira.50
     O Mahabharata  epopia que faz um apanhado de crenas e lendas indianas ligadas ao vishnusmo  apia completamente essas idias. "Nunca existiu nada mais culpado do que uma mulher. Na verdade, as mulheres so razes de todos os males." (38:12)
     "O Deus do vento, a morte, as regies infernais (...) o lado cortante da lmina, os venenos terrveis, as serpentes e o fogo. Todos coabitam harmoniosamente entre as mulheres." (38:29)
     A origem da m natureza feminina seria uma sensualidade desenfreada, impossvel de ser satisfeita por um s homem. "As mulheres so ferozes. So dotadas de poderes ferozes (...). Nunca so satisfeitas por somente um ser do sexo oposto (...). Os homens no deveriam absolutamente am-las. Quem se comportar de outra forma estar certamente correndo para sua perdio." 51
     Os padres da Igreja a associam  serpente e sat. Ela aparece, com freqncia, nos sermes da Idade Mdia: "A mulher  m, lbrica, tanto quanto a vbora, escorregadia, tanto quanto a enguia e, alm do mais, curiosa, indiscreta, impertinente." 52
     No sculo XII, o bispo Etienne de Fougre, falando sobre as mulheres, exortava os homens "a mant-las bem trancadas. Entregues a si mesmas, sua perversidade se expande; elas vo procurar satisfazer seu prazer junto dos empregados, ou ento entre si".53
     O porqu de tanto medo e desconfiana das mulheres  explicitado em dois textos escritos por telogos muulmanos nos sculos XII e XV, ainda hoje populares. "Alguns afirmaram que o apetite sexual da mulher  superior ao do homem (...). Parece que, copulando-se noite e dia, durante anos, com a mesma mulher, jamais ela consiga atingir o ponto de saturao. Sua sede de copular nunca  saciada." 54 Ela  associada a uma vagina-ventosa que nunca est satisfeita. A cpula agiria diferente nos dois sexos: desabrocharia a mulher e enfraqueceria o homem. Na anlise que faz desses textos, Fatna Ait Sabbah conclui que os nicos machos equipados para fazer frente a essa "mulher-fenda-ventosa" no seriam humanos, mas animais, o burro ou o urso, cujos pnis correspondem melhor aos desejos femininos.55
     "Inicialmente, os homens apossaram-se de todos os poderes das mulheres, mas com isso perderam a serenidade e sua amizade. A confiana cedeu lugar  desconfiana. Quanto mais os homens tm medo das mulheres, mais tentam submet-las e mais temem que elas se vinguem. Crculo vicioso do qual talvez s se conseguir sair pondo fim ao sistema patriarcal." 56
     O temor que os homens sentem da revanche sorrateira das mulheres oprimidas parece no ser de todo sem fundamento. Na Penitenciria Feminina de Kanater, ao norte do Cairo, cerca de 1.100 mulheres, com mantas na cabea e longas tnicas brancas, cuidam dos filhos pequenos, penduram a roupa lavada para secar e cortam tomates e cebolas para as refeies. As "matadoras de maridos" formam um grupo caracterstico. Evitadas por suas famlias, recebem poucas visitas. So mulheres que cometeram atos terrveis no lar: homicdio com esfaqueamento, escalpelamento, queima ou desmembramento de seus maridos, s vezes deixando partes dos corpos em sacos abandonados em vrios pontos da cidade.
     Ndia, egpcia de 35 anos, na primeira noite do ms sagrado de jejum muulmano, o Ramad, deu um doce a seu marido que o lanou num sono profundo. Logo aps, cortou sua cabaa. Ao detetive encarregado do caso declarou que s matou o marido uma vez, mas que ele a matara muitas vezes: abandonando-a e esquecendo-a. Wahiba Wahba Gomaa, 39 anos, no consegue conter as lgrimas quando recorda como o marido, que adorava, comeou a trazer prostitutas para casa, espancando-a, quando reclamava. No podia voltar para a casa dos pais, pois nunca a perdoaram por ter deixado o primeiro marido. Quando se queixava dos espancamentos  polcia, prendiam o marido durante uma noite, aumentando mais ainda sua fria. Ao dizer que desejava o divrcio, ouviu como resposta: "Se quer o divrcio, concordarei. Mas essa casa no  sua, nem os mveis, e voc no pode levar as crianas. Sair apenas com a roupa do corpo."    
     "Quando ele trouxe uma mulher para casa e comeou a fumar haxixe"  conta Gomaa , "fiquei a ponto de explodir. Levantei-me, agarrei-o pelas roupas e sacudi-o. Mas ele era muito mais forte do que eu. Espancou-me. A mulher saiu e ele foi dormir. Bati na sua cabea com uma enxada. Arrastei-o para banheiro. Ainda estava vivo. Derramei gasolina sobre ele e ateei fogo. Finalmente morreu. A tive a sensao de que minha vida estava voltando."
       Gomaa, que cumpre pena de 25 anos, conta que acordou as crianas e foi para a delegacia: "Dirigi-me ao delegado, dei-lhe as chaves da casa e disse: 'Procurei-o vrias vezes para pedir ajuda. Veja o que aconteceu.'" 57
     Quando trabalhei como psicloga no Sistema Penitencirio, entrevistei uma mulher de 38 anos, condenada a 12 anos por ter assassinado o marido. Chorando muito, contou que morava com ele, a filha adolescente e a me idosa. Era comum ele chegar em casa  noite e, por qualquer motivo, espancar as trs. Sempre que, desesperada, ameaava chamar a polcia, ele ficava ainda mais violento. No suportando mais, decidiu agir. Colocou estricnina na comida dele. Temendo ser castigada por Deus, gritava aos prantos que no pretendia mat-lo. "S queria que ele sentisse muitas dores na barriga."
     

Vagina: o grande perigo
       
     Sendo os rgos sexuais de mulheres e homens to diferentes, tornam-se, de alguma forma, misteriosos para o outro sexo. Embora na mulher possa existir algum temor pelo pnis do homem, nada se compara ao temor que os homens sentem pela vagina.  um perigo ameaador porque no  visvel e porque suas propriedades so estranhas.
     "No inconsciente e nos mitos, a vagina  representada alternadamente como uma fora devoradora, devastadora, insacivel, uma caverna com dentes, que causa pesadelos e, finalmente, a morte. Esse medo quase universal  ligado ao do sangue. Primeiro, o sangue menstrual, assustador e doentio, j que  objeto de uma imensa quantidade de tabus, mas tambm o sangue da deflorao, que se acredita trazer azar." 58 Na ndia, inmeras lendas falam de mulheres cuja vagina est cheia de dentes que cortam o pnis do homem.
     Elisabeth Badinter utiliza a mitologia e as prticas de duas sociedades primitivas para ilustrar o conjunto de angstias que o sexo feminino suscita: os baruya da Nova Guin e os maori da Nova Zelndia.59
     Os homens baruya, quando pensam no sangue menstrual, expressam um misto de nojo, repulsa e, sobretudo, medo. Consideram o sangue menstrual uma substncia suja, como as fezes e a urina. Ele enfraquece as mulheres e destri a fora dos homens ao entrar em contato com seus corpos. Quando uma mulher fica menstruada, ela se refugia numa casa especial do vilarejo e  proibida de preparar com as mos (impuras) o alimento do marido e da famlia.
     Independentemente do sangue menstrual, a mulher representa um perigo permanente para o homem: "A prpria configurao do seu sexo, pelo fato inevitvel de ser uma fenda que nunca pode reter totalmente os lquidos que secreta no interior, ou o esperma que o homem nela coloca, deixa cair no cho gotas que vo alimentar os vermes e as serpentes. Esses animais vo apoderar-se de suas secrees e lev-las para os precipcios abissais, onde vivem as potncias ctnicas malficas (...) que utilizaro essas substncias para enviar doenas ou morte aos humanos, s plantas cultivadas, aos porcos que se criam."
     Pelo seu sexo, a mulher atrai o tempo todo os poderes malficos.
     O escoamento do seu sangue menstrual ameaa a virilidade do homem e, conseqentemente, o domnio dos homens sobre a sociedade. Elas devem evitar passar por cima de qualquer objeto estendido no solo e nunca, sob pena de morte, da lareira da casa, mesmo apagada: seu sexo poderia se abrir e poluir o lugar onde ela cozinha o alimento que vai  boca do homem.
     As relaes sexuais so cercadas de muitas precaues: no se pode fazer amor na poca de desbravar a terra, plantar, cortar a cana para ser fermentada, matar e comer porco, antes que o homem v para a caa, quando se ajuda a construir uma casa, na poca das iniciaes masculinas e femininas etc. E proibido tambm num jardim, nas zonas pantanosas, onde vermes e serpentes so abundantes... Aps o nascimento de um filho s  permitido fazer sexo depois que lhe nasam os primeiros dentes.
     No ato sexual,  proibido a mulher ficar por cima do parceiro, pois os lquidos que enchem sua vagina poderiam espalhar-se sobre o ventre do homem. E, mesmo que a mulher chupe o sexo do homem (para se alimentar do esperma benfico), este jamais deve aproximar sua boca do sexo da mulher, que deixa escorrer lquidos malficos. Os baruya so afetuosos com as mulheres que lhes so proibidas: me, irms, tias, primas e sobrinhas, mas so autoritrios e violentos com suas esposas. Com as filhas so carinhosos at elas se tornarem adolescentes, depois se distanciam.
     Badinter assinala que, entre os baruya, no  tanto a cavidade vaginal que  temida, mas os venenos que ela secreta. Diferentemente de outras sociedades, como os maori, em que  o antro da vagina que provoca mais medo. Seus mitos explicam as razes de tal temor.
     O deus Tan cometera incesto com a filha Hin-Titama, e esta ficou to desgostosa que se retirou do mundo da luz para o reino da noite. Mudou seu nome para tomar o de Hin Nui Te Po (Grande Dama da Noite). Agindo dessa maneira, tornava a morte possvel.
     Foi nesse mundo novo que o semideus Mau nasceu prematuramente, numa famlia de quatro meninos. Como sua me taranga o envolvesse nos cabelos de seu coque (tikitiki), ele foi chamado Mau Tikitiki e Taranga. Tendo supostamente tirado a Nova Zelndia do oceano Pacfico, Mau  conhecido por suas faanhas em toda a Polinsia. Tem fama de ser travesso, curioso e criador. Procurou tornar o homem imortal, tentando assassinar Hin Nui Te Po.
     Partiu, com esse intuito, para o mundo ctoniano, onde morava a deusa dos mortos. Pensava aproveitar o sono desta para entrar em seu corpo pela vagina, seccionar-lhe o corao e sair pela boca. Antes de partir, recomendou que os pssaros que o acompanhavam no fizessem nenhum barulho para no acordar a deusa. Mas, no momento em que passava a cabea pela vagina de Hin Nui Te Po, um desses pssaros achou o espetculo to engraado que foi tomado por um riso incontrolvel. A Grande Dama da Noite acordou sobressaltada, fechou as coxas e Mau, o travesso, morreu estrangulado. Depois desse acidente, a morte passou a existir neste mundo.
     Nessa histria, os rgos genitais femininos aparecem novamente como devastadores. Para os maori, a vagina  um buraco destruidor.
     Badinter relata que, no reino fabuloso do padre Jean, durante toda a Idade Mdia, acreditava-se que serpentes ficavam na vagina e animais selvagens guardavam sua entrada. Seria um equvoco, contudo, imaginar que o medo do sexo feminino seja particular s sociedades primitivas. As nossas no ficam atrs, como mostra esta cano das salas de espera, cantarolada no incio do sculo XX: 60
         
     "Pequeno anel de carne, pequena fenda feia,/ Pequeno esfncter pago,/ Pequeno canto, sempre mido, envenenado com ar clido,/ Pequeno buraco, pequeno nada!// s feia quando ris com teu lbio beiudo;/ s feia quando dormes!/ Feia, tu, que Deus escondeu nesse ngulo que fede./ Perto dos esgotos do corpo!// Ah! tu podes, para lamber teu beio rosado/ Reles monstro de orgulho!/ Podes, abrindo tua goela com grenha encrespada/ Bocejar como um caixo.// Ventosa venenosa, abismo insacivel/ To funesta e to querida;/ Quero desprezar-te, a ti, por quem chora e sofre/ O melhor de minha carne.// Quero detestar-te sempre, coisa infame/ Tu, que devolves o bem com o mal;/ Pequeno nada cavado na parte baixa da mulher/ Pequeno buraco, pequeno nada!"

Maria: a chance que as mulheres perderam
       
     Ressurge com o cristianismo a figura da me, que havia desaparecido, juntamente com a importncia antes dada  terra na procriao, desde o incio do patriarcado.
     A me se torna novamente objeto de culto. Badinter faz uma anlise do culto da Virgem Maria, que  revolucionrio:61 "Se a sociedade patriarcal suprimiu a Deusa-Me, substituindo-a, s vezes  fora, por um Deus-Pai, guerreiro e ciumento de sua superioridade, a mentalidade popular a recriou sob os traos da Me de Deus e dos homens, constantemente invocada, constantemente presente, sempre triunfante."
     Da mesma forma que, antes da descoberta da paternidade, se acreditava que a criana era inserida no ventre da me, Maria  fecundada como uma Deusa-Me por um esprito que nela se insinua.
     "Entretanto, se o culto da Virgem Maria constituiu de incio uma revoluo no meio paternalista, uma tentativa para devolver  me seu papel verdadeiro, a Igreja oficial vai logo esvaziar o contedo de toda sua significao. Ela far da Virgem um ser cuja caracterstica feminina s ser atestada pelo aspecto da me sofredora, sacrificada, passiva e escrava do filho."
     No culto da Virgem Maria, poderia ter sido recuperado o prestgio da mulher em todos os seus aspectos, devolvendo  me sua importncia.
     "A mensagem de Cristo em relao s mulheres foi, na verdade, desviada por seus apstolos, e foram abafados os germes da revoluo. Nesse ponto, vencera a religio do pai, e por muito tempo. A presso do meio patriarcal era exageradamente forte para que fosse introduzida a menor mudana na condio feminina, e apenas admitida uma melhora na imagem da mulher. O Deus dos patriarcas continuava a triunfar frente queles mesmos que tinham seguido Cristo. A lenda de Eva, ainda por muito tempo, ia ocultar a exemplar Maria."
     Os "pais" da Igreja encarregam-se de fazer com que Maria seja completamente distante das outras mulheres e, dessa forma, marcam a semelhana destas com Eva. Santo Agostinho definia a mulher como: "Um animal que no  firme, nem estvel, odivel, nutridor de maldade (...) ela  a fonte de todas as discusses, querelas e injustias." 62 Apesar de Maria passar a ser o maior smbolo de bondade e altrusmo, as mulheres continuaram a ser reprimidas, humilhadas e violentadas.
      
Horror ao sexo
       
     A idia do homem como superior  mulher em todos os sentidos foi absorvida pelas leis e pelos costumes das antigas civilizaes do Oriente Prximo. A mulher se tornou, primeiro, propriedade do pai, depois, do marido, e, em seguida, do filho. Quando a Igreja crist, solidamente baseada em fundaes hebrias, tomou conta do mundo ocidental como sucessora de Roma, os relacionamentos social e sexual ficaram fossilizados no mbar do costume hebreu antigo. Aos preconceitos do Oriente Prximo os pais da Igreja acrescentaram os seus. O sexo foi transformado em pecado e a homossexualidade em um risco para o Estado.63
     Para os padres da Igreja o sexo era abominvel. Argumentavam que a mulher (como um todo) e o homem (da cintura para baixo) eram criaes do demnio. O sexo era "uma experincia da serpente" e o casamento "um sistema de vida repugnante e poludo".64
     Notveis pensadores cristos como Tertuliano, Jernimo, Agostinho, juntamente com So Paulo, deixaram as mais duradouras impresses em todas as idias crists subseqentes sobre o sexo. Eles eram homens que haviam levado ativa vida sexual antes de se converterem ao celibato, e que depois reagiram com total repulsa ao sexo.
     Foi Agostinho quem disseminou o sentimento geral entre os padres da Igreja de que o intercurso sexual era fundamentalmente repulsivo. Arnbio o chamou de sujo e degradante. Metdio, de indecoroso; Jernimo, de imundo; Tertuliano, de vergonhoso. Entre eles havia um consenso no declarado de que Deus devia ter inventado um modo melhor de resolver o problema da procriao. Agostinho, posteriormente, concluiu que a culpa no era de Deus e, sim, de Ado e Eva.65
     A Igreja desenvolveu horror aos prazeres do corpo, e as pessoas que se abstinham e optavam pelo celibato eram consideradas superiores. Mateus disse: "Homens se faro eunucos voluntrios."

Luta contra o sexo at no casamento
      
     A condenao de toda fornicao era uma novidade da religio crist. O Antigo Testamento, como a maioria dos cdigos da civilizao antiga, probe apenas o adultrio, que significa relaes com mulher casada. Para os cristos, toda relao sexual, mesmo dentro do casamento, era lamentvel.
     So Paulo, no sculo I, estabeleceu os fundamentos de que o celibato era superior ao casamento. Dizia que era uma condio mais crist, uma vez que no acarretava obrigaes mundanas passveis de interferir com a devoo ao Senhor. Reconheceu que isso requeria uma dose de controle que nem todos podiam alcanar. Assim, o casamento era um paliativo: " melhor casar do que arder (em desejo)." 
     Paulo afirma que a relao sexual, mesmo no casamento,  um obstculo no caminho da salvao (1 Co 7:32-34). No h a menor sugesto de que no casamento possa haver um bem positivo ou que o afeto entre marido e mulher seja belo e desejvel. Tampouco manifesta o menor interesse pela famlia; a fornicao ocupa o lugar central nos seus pensamentos, e sua tica sexual gira em torno dela. So Paulo insiste na superioridade da virgindade: "Ligando-se ao Senhor para agradar somente a ele, o fiel atesta que o mundo presente, do qual faz parte o casamento, encaminha-se para seu fim." 66 A castidade  glorificada pelo celibato de Cristo e pela virgindade de Maria. A sexualidade aparece sempre ao lado da mcula, antagnica ao sagrado.
     A Igreja assumiu um ponto de vista diferente de So Paulo. Segundo ele, o casamento era uma vlvula para o desejo carnal. Em suas palavras no se percebe qualquer objeo ao controle da natalidade. Na doutrina crist ortodoxa, o matrimnio tem duas finalidades: a reconhecida por So Paulo e a procriao. A conseqncia foi tornar a moralidade sexual ainda mais difcil do que em So Paulo. A relao sexual s  legtima dentro do matrimnio e, alm disso, passa a ser pecado, mesmo dentro dele, se no houver esperana de gerar gravidez. "O fato  que o intuito positivo do matrimnio, a procriao, desempenha papel muito subalterno, continuando seu principal propsito ser, como em So Paulo, a preveno do pecado. A fornicao continua ocupando o centro das atenes, sendo o matrimnio ainda essencialmente uma alternativa um pouco menos lamentvel." 67
     Para a Igreja Catlica, o casamento  indissolvel, trata-se de um sacramento. "No importa o que faam os cnjuges, mesmo que um deles fique louco, ou sifiltico, ou bbado contumaz, ou viva ostensivamente com outrem, a unio dos dois continua sagrada e, mesmo que em certas circunstncias uma separao seja concedida, nunca pode ser dado o direito de tornar a casar.
     Naturalmente, em muitos casos, isso provoca tremendo sofrimento, mas como este sofrimento  a vontade de Deus, tem que ser suportado."68
     Atualmente,  comum se falar da famlia como se fosse uma inveno crist, mas os predecessores da Igreja de hoje tendiam a atribu-la ao demnio. "Case-se se for necessrio", diziam aos leigos os padres da Igreja, acrescentando que os filhos eram um "prazer dos mais amargos", sendo as esposas, por definio, fracas e frgeis, lentas de entendimento, emocionalmente instveis, fteis, hipcritas e totalmente indignas de confiana.69 O sexo conjugal era uma constrangedora aventura, embora Joo Crisstomo e Metdio concedessem que, se o marido e a esposa racionassem seus carinhos, a felicidade matrimonial no seria necessariamente um obstculo insupervel para a salvao. A dificuldade fundamental, ento, era ligar a sexualidade ao casamento. Necessrio  procriao, o ato sexual  um bem; ele est, porm, sempre maculado pela busca do prazer, que  um mal. Em 1444, o franciscano Nicolo de Osino acrescenta que "o ato dos cnjuges s est isento de pecado se entre eles no houver o prazer da volpia". O que, fisiologicamente,  quase irrealizvel, equivalendo a culpabilizar todos os casais.70 E, para So Jernimo, o homem apaixonado em excesso por sua mulher comete um verdadeiro adultrio. A ambivalncia entre casamento e sexualidade observa-se no mais antigo e durvel dos ritos de casamento cristo na Glia. Desde o sculo XI o casal  abenoado na porta ou dentro do quarto nupcial, aps um rito de purificao pela asperso de sal. A sexualidade no casamento  abenoada, mas exige purificao. Da mesma forma, o homem que se relacionasse sexualmente com sua esposa deveria abster-se por algum tempo de entrar na igreja, em respeito pelo lugar santo.71

O corpo: nem beleza nem limpeza
      
     O cristianismo condenar o corpo e tudo o que se tornou matria perecvel em conseqncia do pecado original. O anti-sexualismo se torna um refro obsessivo no decorrer dos tempos. At o Renascimento, no sculo XVI, a condenao da sexualidade s ir crescer.72
     "A mulher, tinha dito So Pedro, deveria ornamentar-se no com os cabelos tranados, braceletes de ouro e roupas finas, mas com a jia imperecvel de um esprito sossegado e gentil, o que  muito precioso diante de Deus." 73
     Os apstolos eram inflexveis no que consideravam ser o dever de toda boa crist. Ela deveria esconder seus encantos, usar vu na igreja e jamais usar cosmticos. So Jernimo os chamou de "cataplasmas da luxria" e acrescentou: "O que pode uma mulher esperar do cu quando, em splica, ergue uma face que seu criador no reconhece?" 74
     A Igreja atacou o hbito do banho, considerando que qualquer coisa que tornasse o corpo mais atraente era incentivo ao pecado. Santa Paula acreditava que a pureza do corpo e das vestes significava a impureza da alma. Os piolhos eram chamados de prolas de Deus, e estar sempre coberto por eles era marca indispensvel de santidade.75
      Os exemplos da falta de higiene como pr-requisito para a Salvao da alma so muitos: o eremita Santo Abrao viveu 50 anos depois de ter se convertido e, durante todo esse tempo, recusou-se terminantemente a lavar o rosto e os ps. Uma virgem muito conhecida, Slvia, ficou doente em conseqncia dos seus hbitos. Estava com 60 anos e, por princpio religioso, recusou-se Mirante grande parte da sua vida a lavar qualquer parte do corpo, com exceo dos dedos. Santa Eufrsia entrou para um convento de 130 freiras que nunca lavavam os ps e que estremeciam  idia de banho.76
     A mulher representava a porta do inferno, a me de todos os males humanos. Devia envergonhar-se da prpria idia de ser mulher. Devia viver em penitncia contnua, por causa das maldies que havia atrado sobre o mundo. Devia envergonhar-se de sua roupa, por ser a recordao de sua queda. Devia envergonhar-se especialmente de sua beleza, porquanto  o instrumento mais potente do demnio. Com efeito, a beleza fsica era o tema perptuo de denncias eclesisticas.

Regras e normas para o sexo
      
     Em geral, a Igreja via o casamento como uma srie de concesses  fraqueza humana  necessidade de companheirismo, sexo e filhos  e fazia o possvel para sabot-lo. Mais especificamente, ela se recusava a considerar o sexo como parte integrante do casamento.77
     As proibies so muitas e detalhadas. Durante o coito, s  permitida uma posio: o homem estendido sobre a mulher, ela deitada de costas, pernas abertas. So editados alguns tabus referentes ao tempo ou local das relaes sexuais: proibido copular na vspera dos dias santos e de festas, nos dias de jejum e abstinncia, antes da comunho, durante os perodos de menstruao, em locais ditos sagrados etc.78
     Certos telogos, mais rgidos, recomendavam a absteno nas quintas-feiras, em memria da priso de Cristo; nas sextas-feiras, em memria de sua morte; aos sbados, em honra  Virgem Maria; aos domingos, em homenagem  Ressurreio; e s segundas-feiras, em comemorao aos mortos. As teras e quartas-feiras eram amplamente abrangidas por uma proibio de relao sexual durante jejuns e festivais  os 40 dias antes da Pscoa, Pentecostes e Natal; os sete, cinco ou trs dias antes da comunho e assim por diante.79

Todos so pecadores.
     
     Em todas as pocas foi dada uma importncia enorme, nos manuais de confisso, aos pecados de luxria e volpia, mesmo cometidos com o cnjuge legtimo. Jacques Ruffi faz uma anlise interessante do que chama de bom uso da culpabilizao: 80
     "A partir de consideraes dogmticas (o pecado original, o corpo se tornou putrescvel e, portanto, perecvel), a Igreja faz uso eficaz da sexualidade, regulamentando-a nos mnimos detalhes. Os guias para uso dos confessores esto repletos de detalhes espantosos.
     "Os penitentes so convidados a se lembrar se acaso no pecaram com toques, beijos e outros gestos desonestos, que podem ser pecados mortais e no convm  santidade do casamento. Ocorre o mesmo com pecados contra a natureza, tais como o onanismo e a masturbao. Num penitencial annimo de 1490, a fornicao  mais detestvel do que o homicdio ou o roubo, que so substancialmente maus. Pois, em caso de necessidade, podemos ser levados a matar ou roubar, mas nada obriga a fornicar. Esse tabu sexual, ou melhor, essa proibio do prazer, impregnar por muito tempo a cultura ocidental. O seu peso  perceptvel ainda hoje. A Igreja se aproveitava da proibio sexual para exercer, por meio da confisso auditiva, um controle rigoroso sobre suas ovelhas, em pases e numa poca em que o simples fato de se confessar descrente podia levar  fogueira.
     "Sem muita dificuldade, podemos nos abster de matar o vizinho ou de roubar-lhe as galinhas.  mais difcil no desejar sua mulher, pelo menos mentalmente, quando ela  desejvel. E  quase impossvel escapar-lhe, se a dita mulher, compreendendo nosso sentimento, dele partilha e vem entregar-se.
     "Na realidade cotidiana, poucos homens ou mulheres, um dia ou outro, tero tido vontade de cometer um homicdio ou roubo, mas todos, ou quase, tero sido solicitados para uma ou vrias aventuras extraconjugais. Encarregando-se do controle da sexualidade e traando-lhe limites estreitos, o cristianismo faz de todo homem um pecador, tendo-o  sua merc, pois somente a Igreja, com o sacramento da penitncia, possui a chave da Redeno. E esse mtodo  to eficaz que o pecador reincidir, quase que inelutavelmente."
     Em 1183, a Igreja cria os tribunais da Inquisio, com o objetivo inicial de combater a luxria, pois temia que a liberdade sexual se generalizasse entre o povo e lhe tirasse toda a autoridade.
     A Inquisio considera o apetite sexual demonaco e o persegue intensamente. Qualquer moa atraente  suspeita de bruxaria e de ter relaes sexuais com sat. Este  representado com pnis longo, duro, guarnecido de ferro e de escamas, de onde escorre um esperma glacial. Apesar de provada a virgindade anatmica, jovens so condenadas  fogueira, acusadas de ter relaes com o diabo e de atrair para suas redes padres e bispos, alm de acasalarem-se com animais, especialmente gatos pretos. As pessoas so facilmente transformadas em cmplices do maligno, bastando uma simples mancha cutnea ou qualquer outro sinal, como uma crise de epilepsia. As condenaes  morte pela fogueira se multiplicam.81
      
      
      
II  AMOR
      
  
Amor corts 
   comeando a falar de amor
       
       
     
     Um jovem solteiro assedia uma dama casada; portanto, impossvel de ser conquistada. O adultrio da esposa  a pior das transgresses, sendo seu cmplice punido rigorosamente. A mulher pertence  nobreza, o marido  um poderoso senhor, mas seu apaixonado nada teme. Seu nico objetivo  tornar-se merecedor do amor dela. A dama recusa seus favores. O jovem insiste. De joelhos, jura eterna fidelidade. Mil vezes repete seu lamento e canta seu amor. A amada o avalia, assegurando-se de que o cavaleiro possui um corao gentil, livre da luxria. Ordena-lhe que se levante e beija-lhe a fronte. Ele  seu servo. Trocam olhares furtivos, comunicam-se com gestos e sinais. Compartilham um segredo. Esto unidos pelas leis da cortesia.
     O amor corts foi a primeira manifestao do amor como hoje o conhecemos, uma relao pessoal. Tendo surgido no sculo XII com os trovadores pertencentes  nobreza da Provena, mais tarde se estendeu a outras regies da Europa. Na Alemanha, esses poetas lricos so conhecidos como minnesingers, os cantores do amor.1 At ento, o que havia era o desejo sexual e a busca de sua satisfao, muito diferente da experincia de apaixonar-se, vivida por esses jovens. O amor os fazia elevar-se espiritualmente, naquela espcie de arrebatamento que deriva do encontro de olhares, como se diz na tradio trovadoresca, uma experincia entre duas pessoas.2
     Do amor fazem parte a aventura e a liberdade, e no as obrigaes e as dvidas, e por ser um dom livremente dado, no cabia no casamento, que era um contrato comercial sem espao para consideraes pessoais. A virtude era o atributo que isentava esse amor de toda carnalidade. Os trovadores nunca cantavam o amor consumado. A maioria rejeitava claramente todo desejo de possuir suas damas. Exaltavam o amor infeliz, eternamente insatisfeito. "Na Alemanha, por exemplo, o cavaleiro considerava a fidelidade como virtude primria  a Deus, a seu suserano e a sua dama, nesta ordem. O que o minnedienst (servio ao amor) requeria dele era ganhar a simpatia de sua dama, lutar por ela e dela no esperar outra recompensa alm de uma palavra de louvor. Se algum malicioso viajante do tempo, no sculo XII, tivesse raptado a dama, substituindo-a pelo regimento ou pela bandeira, o cavaleiro medieval talvez nem se apercebesse do fato." 3
     O amor corts respeitoso pelas mulheres surgiu como tema central na poesia e na vida. Ao contrrio da idia estabelecida da mulher dominada e desprezada e do homem dominador e brutal, a viso trovadoresca reverteu essa imagem, trazendo um enfoque caracterstico do perodo Neoltico: a mulher poderosa  honrada e o homem honrado e gentil. Nessa poca, em que a selvageria e a devassido masculina eram a norma, os conceitos trovadorescos de cavalheirismo, apesar de no serem novos, foram, de fato, revolucionrios.4

A vida conjugal
     
     A Igreja lutava havia vrios sculos para conseguir que a classe sacerdotal se tornasse casta, visto que o celibato era para eles smbolo de autoridade moral. Na ltima parte do sculo XI, com o papado achando-se mais forte, Gregrio VII expediu uma proibio contra o casamento clerical. A abstinncia sexual parecia garantir a superioridade dos padres. Houve violentas reaes em algumas partes do mundo  os alemes anunciaram que preferiam desistir da vida do que das esposas , mas a Igreja terminou vencendo e ficou estabelecido o princpio do celibato, nem sempre cumprido, como ilustra o caso de um bispo de Lige que, na poca de sua deposio, em 1274, era pai de 65 filhos ilegtimos.5 Inversamente, os bispos prescreveram aos leigos o casamento para melhor control-los e represar-lhes a devassido. Por ser uma instituio que assegura a reproduo da sociedade, principalmente em relao  estabilidade dos poderes e das fortunas, no lhes cabe acolher a paixo, a fantasia ou o prazer. O casamento impe o srio, a compostura. Era consenso no sculo XII que no casamento poderia haver estima, mas nunca amor, porque o amor sensual, o desejo, o impulso do corpo  a perturbao, a desordem. Deve ser rejeitado no matrimnio, que exige austeridade; a paixo no deve se misturar aos assuntos conjugais.6
     Vrias regras so impostas para que os cnjuges se enquadrem num modelo aceito pela Igreja: indissolubilidade do vnculo conjugal, procriao como nica justificativa para a cpula e pretenso de eliminar desta ltima todo o prazer. Os nobres e os cavaleiros reagem porque, alm de desejar gozar a vida como chefes de famlia, responsveis pelo destino de uma linhagem, acham legtimo repudiar livremente suas mulheres, se elas no lhes do herdeiros masculinos, e esposar suas primas, se essa unio permitir reagrupar a herana.7
     Nesse meio social, todos os casamentos so arranjados. O homem que toma a mulher, qualquer que seja sua idade, deve comportar-se como snior (mais velho, senhor) e mant-la sob seu estrito controle. O amor do marido por sua mulher se chama estima, o da mulher por seu marido se chama reverncia.8 " obstinadamente proclamado que a mulher  um ser fraco, que deve necessariamente ser subjugada porque  naturalmente perversa, que est destinada a servir ao homem no casamento e que o homem tem o poder legtimo de servir-se dela. Em segundo lugar vem a idia, correlata, de que o casamento forma o embasamento da ordem social, e que essa ordem se funda sobre uma relao de desigualdade e reverncia." 9
     Aos 12 anos, a menina podia ser tirada do universo fechado onde havia sido criada desde o nascimento, conduzida com grande pompa a um leito e colocada nos braos de um homem que jamais vira. Como o casamento no  o lugar do amor, marido e mulher so proibidos de se lanarem um ao outro com ardor. " com certeza o que pretende expressar esse capitel esculpido na nave da igreja de Civaux, no Poitou: vem-se a os dois cnjuges lado a lado, mas de frente, sem se olhar: ela olha para o cu e ele... para quem olha ele? para a meretrix, o amor venal, para a amica, o amor livre, o amor jogo." 10
     As relaes do casal eram pouco afetivas e os padres da Igreja, apesar de todo o medo que tinham da feminilidade, se esforavam para reconfortar as mulheres que tinham sido abandonadas, repudiadas, humilhadas ou surradas.
     O historiador Georges Duby relata que, numa carta, o abade Adam da Abadia de Perseigne tenta consolar e orientar a condessa de Perche.11 Esta, inclinada a se retirar, a se recusar, mas, hesitante, perguntava-se quais os deveres da mulher casada, at onde ela deve dobrar-se s exigncias do esposo, qual  exatamente o montante do debitum, j que era assim que o discurso moralizante definia o fundamento do afeto conjugal. Tentando iluminar essa conscincia inquieta, o abade esclarece que, na pessoa humana, Deus  proprietrio da alma e do corpo. Mas que, segundo a lei do casamento que Ele mesmo instituiu, concede ao esposo o direito sobre o corpo da mulher. O esposo se torna o usufruturio, autorizado a servir-se dele, a explor-lo, a faz-lo dar fruto. Mas Deus guarda para Si a alma: "Deus no permite que a alma passe para a posse de outrem." A condessa de Perche deve sempre lembrar que na realidade tem dois esposos a quem deve servir, um investido do direito de uso sobre seu corpo, e o outro, senhor absoluto de sua alma. Deve dar a cada um o que lhe  devido: "Seria injusto transferir o direito de um ou de outro para uso estranho." A condessa, apesar de incapaz de vencer sua repugnncia, no pode recusar o corpo do marido. Por outro lado, estaria cometendo tambm uma injustia se, ao mesmo tempo que entregasse seu corpo ao marido, entregasse tambm sua alma: "Quando o esposo de carne se une a ti, pe a tua alegria na satisfao em permanecer ligada, espiritualmente, ao teu esposo celeste."
     Essa carta foi escrita para que a mensagem fosse largamente difundida, como um sermo, para que ensinasse aos cristos como amar no casamento.

O poder da nobreza
     
     A partir do ano 800, a Europa Ocidental comea a despertar da ignorncia e do barbarismo. Os sculos XI e XII marcam o progresso da cultura, sendo o regime feudal o que mais caracteriza a estrutura social e poltica dessa poca. O governo se descentraliza e se fragmenta. Os direitos do poder pblico, esfacelados, so distribudos pelos nobres que governam seus feudos. Cada grande casa funciona como um pequeno Estado soberano. A maior parte dos palcios adquire autonomia e um sistema de suserania e vassalagem, em que o direito de propriedade d direito a governar. Os nobres que ocupam os palcios consideram o poder que o rei delegou a seus ancestrais como parte do seu patrimnio. Seu parentesco, da mesma forma que o parentesco real, organiza-se em linhagem. Seu contato com o soberano escasseia porque reivindicam para si prprios os emblemas e as virtudes da realeza.
     Seu afastamento, assim como o dos bispos, diminui muito o que havia de pblico na corte real. "Passando o decnio de 1050 a 60, o rei Capeto no era mais assistido seno por parentes muito prximos, por alguns camaradas de caa e de combate, enfim, pelos chefes de seus servios domsticos, e o poder de paz e de justia via-se, decididamente, exercido de maneira local por prncipes independentes." 12
     Em sua essncia, o feudo era um benefcio que se tornava hereditrio. O homem que doava o feudo era um senhor ou suserano, qualquer que fosse sua categoria, e aquele que o recebia a fim de possu-lo e transmiti-lo a seus descendentes era um vassalo, quer fosse um cavaleiro, um conde ou um duque. Na Frana e em outros pases vigorava a lei da primogenitura, pela qual o feudo era herdado inteiro apenas pelo filho mais velho. Geralmente, o rei era o mais alto suserano, logo abaixo dele vindo os prncipes, que eram os grandes nobres. Por sua vez, esses nobres dividiam os seus feudos e concediam as subdivises a nobres inferiores, que passavam a ser vassalos daqueles e comumente eram chamados viscondes e bares. No grau mais baixo da escala ficavam os cavaleiros, cujos feudos no podiam ser divididos. Desse modo, cada senhor, exceto o rei, era vassalo de algum outro senhor, e todo vassalo, exceto o cavaleiro, era senhor de outros vassalos.
     A relao entre o suserano e seus vassalos  uma relao contratual, envolvendo obrigaes recprocas. Em troca da proteo e da assistncia econmica que recebem, os vassalos devem obedecer a seu senhor, servi-lo lealmente e compens-lo com tributos correspondentes aos servios por ele prestados no interesse dos primeiros.
     Os prncipes abrigam sob suas asas certo nmero de casas subalternas, cada qual dirigida por um grande, que exerce sobre uma parcela da populao um poder anlogo ao seu. Essas casas-satlites so os castelos que gozam de autonomia. H uma hierarquia de quatro graus: a casa real abarcando os prncipes; as casas principescas envolvendo, por sua vez, os castelos; cada torre, enfim, mantendo sob seu jugo a frao do povo estabelecida ao seu redor.13
     No feudalismo, o povo foi dividido em duas partes, com a grande maioria explorada num modelo de servido. O senhor tinha poder absoluto sobre seus servos. Podia apreender o que desejasse em suas casas, at as moas, para cas-las com quem quisesse  se o pai quisesse reservar-se esse direito, precisava compr-lo.
     Os ptios reservados aos servos no eram mais que anexos da casa do senhor, proprietrio do que se encontrasse neles  homens, mulheres, jovens, bens, animais , como o era de seu forno, de seus prprios estbulos e de suas granjas. A outra parte do povo era formada por alguns vares, que assumiam integralmente o ofcio cvico primordial, o servio das armas, munido do melhor equipamento: os cavaleiros.14

Os cavaleiros
       
     Jovens, filhos da nobreza,  maioria dos cavaleiros  vetada a vida conjugal e a herana. Cumprem a funo que lhes  destinada na fortaleza. Reunidos ali, lanam o grito do castelo sempre que a paz pblica se v ameaada. So submetidos ao senhor do castelo da mesma forma que este se submete ao prncipe. O senhor se refere a eles como "seus cavaleiros", numa relao bastante familiar. Chegando  idade adulta, cada um dos guerreiros do castelo confia seu corpo ao chefe da fortaleza por meio de gestos que exprimem a entrega de si e selam a fidelidade recproca. Os cavaleiros aparecem na subscrio dos atos do senhor, fazendo parte do mesmo grupo dos consangneos deste. O suserano se considera no dever de sustentar seus fiis, aliment-los fartamente em sua mesa e, eventualmente, conceder-lhes meios de viver por conta prpria, um feudo. Uma das obrigaes dos cavaleiros  manter o povo sob jugo. Nas cavalgadas de intimidao em torno do castelo, mostram a superioridade do homem a cavalo, agente do poder de coero.15
      necessrio que o senhor mantenha a disciplina e a ordem na sociedade domstica. Tumultos surgem de todos os lados. Esses homens de guerra e torneio, bem armados, tornam-se abertamente violentos. H uma rivalidade permanente entre eles, os mais novos invejando os mais velhos, todos disputando os favores do senhor, cada qual esforando-se em eclipsar os outros, denegrindo-os, desferindo-lhes golpes baixos em cada ocasio. Para conter a turbulncia, algumas medidas so tentadas: a expulso dos mais agitados; viagem financiada pelo pai de famlia, que afasta para longe de casa por um ou dois anos, aps a cerimnia de sagrao como cavaleiro, o filho mais velho e os outros cavaleiros novos. Todos os jovens so assim convidados a extravasar na errncia, provisoriamente, o excesso de seu ardor.16

O jogo do amor
     
     As estratgias matrimoniais e a moral que as sustentava na sociedade aristocrtica preparam o terreno para o jogo da relao amorosa entre o cavaleiro e a dama. O patrimnio da nobreza suporta cada vez menos ser dividido.  Os senhores tentam casar todas as filhas excludas da partilha de sucesso, entregando-lhes dotes. Por temor de fragmentar a herana, mantm solteiros os filhos homens, com exceo do mais velho. Multiplicando-se os homens solteiros, o sculo XII transformou-se no tempo dos jovens, dos cavaleiros celibatrios, sonhando em vo encontrar donzelas para que possam se tornar senhores. Esses rapazes invejam quem tem esposa no leito. No  uma questo sexual, o que desejam intensamente  ter uma companheira legtima, a fim de fundar sua prpria casa, estabelecer-se. Por conta dessa privao, as fantasias de agresso e rapto povoam o imaginrio.
     O amor corts nasceu como uma reao contra a anarquia dos costumes feudais. Cada qual guiando-se por si, eram comuns as violaes de todas as normas. Em meio a essa brutalidade, as mulheres representavam a fora civilizadora, pois elas estabeleciam as regras do jogo. Os homens jogavam de acordo com as exigncias delas. O cdigo criado se aplicava no exterior da rea conjugal, funcionando como um complemento do direito matrimonial, e era necessrio para refrear a violncia, nesse progresso em direo  civilidade: "Esperava-se que esse cdigo ritualizando o desejo orientasse para a regularidade, para uma espcie de legitimidade s insatisfaes dos esposos, de suas damas e, sobretudo, dessa inquietante multido de homens turbulentos que os costumes familiares foravam ao celibato." 17
     Os problemas polticos e com respeito  ordem pblica podiam ser mais facilmente regulados e ordenados com a ajuda desse novo cdigo das relaes entre homens e mulheres. Nas cortes do sculo XII foram elaborados os textos que explicitam suas regras, sob a observao do prncipe e para corresponder  sua expectativa. "Era um meio de reforar o domnio da autoridade soberana sobre essa categoria social, ento a mais til talvez  reconstituio do Estado, mas a menos dcil, a cavalaria." 18
     O cdigo do amor cavaleiresco foi apresentado como um dos privilgios do homem corts. O amor delicado, como era chamado na poca, era um jogo educativo. Contribua para manter a ordem, domesticando a juventude. Incentivava a represso dos impulsos. O homem era testado para assegurar que seria capaz de sofrer por amor, e que este no tinha carter sexual. Arriscava a vida nesse jogo, na inteno de completar-se e aumentar seu valor. Os caulas, que no podiam esperar herana, tentavam distinguir-se do grupo, afirmando sua proeza e valentia. Esforavam-se para sobrepujar os concorrentes e ganhar o prmio: a dama. Esta, por sua vez, tinha a funo de estimular o ardor dos jovens, apreciando as virtudes de cada um e arbitrando as rivalidades sempre presentes. "Para isso, era convidada a enfeitar-se, a disfarar-se e a revelar seus atrativos, a recusar-se por longo tempo, a s se dar parcimoniosamente, por concesses progressivas, a fim de que, nos prolongamentos da tentao e do perigo, o jovem aprendesse a dominar-se, a controlar seu prprio corpo." 19 O vencedor era o que a tinha servido melhor e era por ela, ento, coroado.
     O senhor aceitava colocar a esposa no centro da competio, era um chamariz, uma isca. Ele a oferecia at certo ponto, como a aposta de um concurso em que as regras sofisticadas levavam os participantes a dominarem-se cada vez mais. O dever de um bom vassalo era servir, e isso o amor corts ensinava bem. Assim, praticavam a submisso, a fidelidade, o esquecimento de si e o desejo do bem do outro mais do que o seu prprio. O que mais poderia desejar um senhor dos seus vassalos? "Servindo  sua esposa, era o amor do prncipe que os jovens queriam ganhar, esforando-se, dobrando-se, curvando-se. Assim como sustentavam a moral do casamento, as regras do amor delicado vinham reforar as regras da moral vasslica. Elas sustentaram assim, na Frana, na segunda metade do sculo XII, o renascimento do Estado." 20

A origem do amor corts
     
     O movimento maniquesta, cujo nome se originou do profeta persa Manes, foi uma das mais poderosas entre as primeiras religies. Na Europa, foi chamado de catarismo, pois seus seguidores se autodenominavam ctaros, significando "puros". Na Frana do sculo XII, a maioria das pessoas praticava o catarismo, apesar de aparentemente crists. Foram consideradas hereges e perseguidas, e todos os livros do culto e tratados dessa doutrina foram queimados peia Inquisio.
     Durante muito tempo, o que se soube dos ctaros foi atravs dos interrogatrios dos acusados, sempre deturpados pelos escrives. Somente em 1939 foi descoberto e publicado um tratado teolgico, o Livro dos dois princpios, e desvendados os rituais utilizados, permitindo conhecer os dogmas da Igreja do Amor, nome eventualmente dado  heresia, tambm chamada albigense.21
     Os ctaros acreditavam que o amor verdadeiro era a adorao de uma mulher redentora, uma mediadora entre Deus e o homem, "que recebia com um beijo sagrado todo 'puro' que chegava ao cu e em seguida conduzia ele, ou ela, at o Reino da Luz". Veneravam essa figura feminina que nos aguardava no cu para nos conduzir  presena de Deus.
     O amor humano entre marido e mulher, bem como qualquer sexualidade nele contida, era visto como bestial e no espiritual. O mundo, feito de bem e mal absolutos. O esprito  bom, mas o mundo fsico  mau. A busca do bem implicava a libertao dos prazeres da carne. Na preparao espiritual do homem ctaro, a mulher no era vista como esposa, companheira mortal ou parceira sexual, mas como uma imagem da Redentora  "adorada com paixo, mas sempre um smbolo, sempre um lembrete de um 'outro mundo', cheio de pureza e luz".22 Evitavam, assim, o casamento e o sexo.
     Impedido de ser praticado, condenado  segregao, o catarismo reapareceu sob outra forma. Uma poesia inteiramente nova nasce no sul da Frana, ptria catara: ela celebra a Dama dos pensamentos, a idia platnica do princpio feminino, o culto do amor contra o casamento e, ao mesmo tempo, a castidade.23
     Os ensinamentos e os ideais ctaros se evidenciam no culto do amor corts. Alguns historiadores acreditam que o amor corts foi uma continuao profana deliberada do catarismo, e que os cavaleiros e as damas que primeiro o praticaram eram ctaros, dando prosseguimento s suas prticas religiosas sob o disfarce de um culto leigo do amor. "Para os de fora, parecia ser uma nova e elegante maneira de fazer a corte, de lisonjear e conquistar belas damas, mas para os que conheciam o 'cdigo', era uma prtica alegrica dos ideais ctaros." 24
     De qualquer forma, o ideal do amor corts espalhou-se rapidamente pelas cortes feudais de toda a Europa medieval e transformou o comportamento de homens e mulheres em relao ao amor,  afinidade, aos sentimentos elevados,  experincia espiritual e  nsia de beleza. Essa revoluo amadureceu, dando origem ao que chamamos de romantismo.25
     O romantismo, por sua vez, tambm transformou o comportamento dos homens diante das mulheres, mas deixou uma estranha diviso nos sentimentos. Por um lado, os ocidentais passaram a ver a mulher como a encarnao de tudo o que era puro, sagrado e completo. Mas, por outro, ainda submetidos  mentalidade patriarcal, os homens continuaram vendo a mulher como inferior, veculo do sentimentalismo, da irracionalidade e da apatia.26
     "Ainda no ocorreu ao homem ocidental a possibilidade de deixar de encarar a mulher como smbolo de alguma coisa e comear a v-la simplesmente como uma mulher  como um ser humano. Ele est enredado na ambivalncia que experimenta em relao ao seu prprio interior feminino, s vezes correndo em direo a ele em busca de sua alma perdida, s vezes desdenhando-o como uma desnecessria complicao em sua vida, uma 'pea solta na engrenagem' de seu maquinrio patriarcal. Esta  a fratura no cicatrizada dentro do homem e que ele projeta sobre a mulher,  a guerra que ele trava  custa da mulher." 27
     O amor romntico no era desconhecido na poca pr-medieval; porm, foi apenas na Idade Mdia que se tornou uma forma reconhecida de paixo. A essncia do amor romntico  considerar o objeto amado imensamente precioso e muito difcil de possuir. Grandes e variados esforos so desenvolvidos para conquistar o amor desse objeto amado. "A crena do valor imenso da mulher  efeito psicolgico da dificuldade de conquist-la, e creio que se pode afirmar que quando um homem no tem dificuldade de alcanar uma mulher, seu sentimento por ela no assume a forma de amor romntico." 28
     Um homem que amasse profundamente e respeitasse uma mulher acharia impossvel lig-la  idia de relao sexual. Seu amor, portanto, assumiria formas poticas e imaginativas, enchendo-se naturalmente de simbolismo. Ele sentia que a vibrao transcendental contida na adorao no podia se misturar com um relacionamento pessoal, com o casamento ou o contato fsico.29
     Em poca relativamente recente, aps a Revoluo Francesa e a industrializao, surgiu a idia de que o casamento deve ser o resultado do amor romntico. Hoje, quase todas as pessoas misturam romance com sexo e casamento como se fosse natural, sem ter idia de que  uma inovao revolucionria.
     "O principal conceito que no se modificou no decorrer dos sculos  a crena inconsciente de que o 'amor verdadeiro' deve ser uma adorao religiosa mtua to irresistvel que nos faa sentir que todo o cu e a terra nos so desvelados graas a esse amor. Mas, ao contrrio de nossos antepassados 'corteses', tentamos trazer essa adorao para nossa vida pessoal, misturando-a com o sexo, o casamento, o preparo do caf-da-manh, as contas a pagar e os filhos para criar." 30 O resultado  desastroso e bastante conhecido. Mais adiante vamos examin-lo com detalhes.
    
O mito do amor romntico

Tristo e Isolda
     
     O ideal do amor romntico surgiu na literatura com o mito de Tristo e Isolda. Por ter sido a primeira histria a lidar com o amor romntico e tambm por ser considerada a maior histria de amor do mundo, originou toda a nossa literatura romntica, desde Romeu e Julieta at a histria de amor a que assistimos no cinema e nas novelas de tev.
     "No  preciso ter lido o Tristo de Broul ou o de Bdier nem ter ouvido a pera de Wagner para sentir na vida cotidiana a fora nostlgica de tal mito. Ele se manifesta na maioria de nossos romances e filmes, no xito que obtm junto s massas, na satisfao que desperta no corao dos burgueses, poetas, malcasados e jovens aprendizes que sonham com amores miraculosos. O mito age onde quer que a paixo seja sonhada como um ideal e no temida como uma febre maligna; onde quer que sua fatalidade seja chamada, invocada, imaginada como uma bela e desejada catstrofe, e no como uma catstrofe." 31
     A primeira verso conhecida foi escrita por volta de 1185, quando floresceu o amor corts.
     Tristo, rfo de me  Brancaflor no sobrevive ao seu nascimento , acaba de perder o pai. O irmo de sua me, o rei Marcos da Cornualha, leva-o para viver em seu castelo, em Tintagel, e o educa. Quando chega  idade de se tornar cavaleiro, Tristo combate Morholt, o gigante irlands. Mata-o, mas  ferido por sua espada envenenada. Sem esperana de sobreviver, parte sem destino num barco sem velas nem remos, levando consigo apenas a espada e a harpa. O barco chega  costa irlandesa. A rainha da Irlanda  a nica pessoa que possui o remdio que pode salv-lo, mas o gigante Morholt era irmo da rainha e, por isso, Tristo no revela seu nome nem como foi ferido. Isolda, a filha da rainha, o trata e o cura. Ele retorna a Tintagel.
     Anos depois, Tristo  enviado em uma expedio de busca. O rei Marcos decide casar-se com a mulher de cujos cabelos um pssaro lhe trouxera um fio de ouro, e Tristo dever encontr-la. Uma tempestade carrega o heri para a Irlanda. L, ele combate e mata um drago que ameaava a cidade. Ferido pelo monstro,  novamente tratado por Isolda. Um dia, ela descobre que ele  o assassino de seu tio e ameaa mat-lo, mas, ao revelar sua misso, Tristo  perdoado. O fio de cabelo  de Isolda, e ela deseja tornar-se rainha.
     Tristo e Isolda partem para a Cornualha. O calor  sufocante. Eles tm sede e a aia Briolanja lhes d de beber, por engano, uma poo de amor preparada pela me da jovem e que se destinava aos noivos. Logo, apaixonam-se loucamente e caem nos braos um do outro. Contudo, Tristo, movido pelo dever, conduz Isolda a Marcos e eles se casam. Briolanja, astuciosa, substitui Isolda, ocupando seu lugar no leito nupcial na noite do casamento. Livra, assim, sua senhora da desonra e, ao mesmo tempo, expia o erro fatal que cometera. Os bares traidores denunciam ao rei o amor de Tristo e Isolda. Tristo  banido, mas, graas a um novo ardil, convence Marcos de sua inocncia e retorna  corte.
     O ano Frocino, cmplice dos bares, arma uma cilada para surpreender os amantes. Evidenciado o adultrio, Isolda  entregue a um bando de leprosos, e Tristo, condenado  morte. Ele foge, salvando Isolda. Os amantes se escondem na floresta de Morois. Um dia, por acaso, o rei Marcos os encontra na floresta, dormindo.
     A espada de Tristo repousava entre ele e Isolda, o rei considera isso um sinal de castidade e os poupa. Sem os despertar, retira a espada de Tristo e deixa em seu lugar a espada real.
     Ao final de trs anos, a poo de amor perde seu efeito. Tristo se arrepende, ento, de ter trado o rei, e Isolda comea a sentir saudades de ser rainha. Com a ajuda do eremita Ogrin, Tristo prope ao rei restituir sua mulher. Marcos promete perdo-lo e os amantes retornam a Tintagel, separando-se  chegada do cortejo real. Isolda ainda suplica a Tristo que permanea no reino at ela ter certeza de que Marcos a trata bem. Por fim, a rainha declara que, a um primeiro sinal do cavaleiro, partiria ao seu encontro, sem que nada pudesse det-la, "nem torre, nem muralha, nem fortaleza".
     Tristo e Isolda tm vrios encontros secretos na casa de Orri, o lenhador. Como os bares traidores zelam pela virtude da rainha, ela pede e obtm um "julgamento de Deus" para provar sua inocncia. Antes de segurar o ferro em brasa que deixa intacta a mo de quem no mentiu, ela jura que jamais esteve nos braos de nenhum homem, exceto o rei e o aldeo que ainda h pouco a ajudara a descer de sua barca. O aldeo  Tristo disfarado...
     Tristo parte para bem longe em novas aventuras e acaba acreditando que Isolda deixou de am-lo. Casa-se, ento, por seu nome e por sua beleza, com a "Isolda das mos alvas". Tristo, no entanto, a deixar virgem porque ainda suspira pela outra Isolda. Mortalmente ferido e novamente envenenado por esse ferimento, Tristo manda chamar a rainha da Cornualha. Quando o navio de Isolda se aproxima, ela ia uma vela branca, sinal de esperana. Isolda das mos alvas, atormentada pelo cime, vai at o leito de Tristo e anuncia que a vela  negra. Tristo se desespera e morre. Isolda desembarca nesse instante e sobe ao castelo. Vendo-o morto, deita-se a seu lado e o abraa, morrendo tambm.
     Ao acabar de ler o romance de Tristo e Isolda,  inevitvel que muitas perguntas nos venham  mente. A primeira e principal : como essa histria de amor to tola pode alimentar h tantos sculos as grandes paixes?
     As outras perguntas dizem respeito a aspectos inexplicveis da prpria trama, como, por exemplo: por que Tristo colocou a espada da castidade entre seu corpo e o de Isolda na floresta? J eram amantes, no estavam ainda arrependidos e no poderiam imaginar que o rei iria surpreend-los. Por que Tristo, ao ouvir de Isolda que, a um primeiro sinal seu, nada a deteria, no faz nenhum sinal?
     A trama  cheia de obstculos a uma vida a dois. Obstculos gratuitos, mas que levam Tristo a ter de super-los para chegar  sua amada. E, quando nada externo os separa, surgem novos impedimentos. "Pode-se dizer que no perdem uma nica oportunidade de se separar. Na falta de um obstculo, eles o inventam, como foi o caso da espada desembainhada e do casamento de Tristo. Eles se comprazem em invent-lo  embora sofram.,. O demnio do amor corts, que inspira no corao dos amantes as artimanhas de onde nasce seu sofrimento,  o prprio demnio do Romance, tal como os ocidentais o amam." 32
     Mas, afinal, Tristo ama Isolda?  amado por ela? No. Tristo e Isolda no se amam. Eles amam o amor, o prprio fato de amar. Tristo gosta de sentir amor, muito mais do que ama Isolda. Ele deseja lutar por ela, sofrer por ela, morrer por ela, mas no quer Isolda, quer amar. Ela, por sua vez, no tenta mant-lo perto de si: satisfaz-se com um sonho apaixonado. Precisam um do outro para arder em paixo, mas no um do outro como cada um .
     Encontramos no nosso mundo muitos que desejam a paixo tanto quanto os amantes desse mito, embora a forma de persegui-la seja diferente. O comportamento de Tristo e Isolda  parecido com o que observamos nos amantes modernos, a diferena est na intensidade.33

 procura do amor romntico
     
     Lgia tem 38 anos e vive com os dois filhos. Desde a separao do marido, h quatro anos, procurava um namorado. Desejava viver um grande amor, sem o qual julgava que nada tinha sentido. Os eventuais casos amorosos e mesmo os amigos com quem costumava se encontrar no a satisfaziam. Gostava do seu trabalho como gerente de uma agncia de viagens. Era divertido e sempre conhecia gente interessante. O salrio, somado  penso do ex-marido, permitia-lhe uma vida confortvel, mas isso no era suficiente. A falta de um homem na sua vida a atormentava. A cada encontro ou paquera, fantasiava um romance, e a frustrao vinha na mesma medida da sua expectativa.
     Nas ltimas frias, foi visitar uma grande amiga de infncia numa cidade do interior de So Paulo. L conheceu Roberto e sentiu ter encontrado, enfim, o amor h tanto tempo procurado. Voltou muito feliz e durante as trs semanas seguintes no conseguia pensar ou falar em outra coisa. Conversavam todos os dias pelo telefone. Faziam planos de se encontrarem em breve. Tinha certeza de que no poderia mais viver sem ele e contava os minutos que faltavam para sua chegada. Trocou as cortinas do apartamento, comprou novas plantas para a varanda e objetos para a sala.
     Alguns dias antes da chegada de Roberto, Lgia foi ao aniversrio de uma amiga. Nessa festa foi apresentada a Srgio. Danaram juntos a noite toda. Ele, recm-separado, mostrou-se disponvel para um relacionamento amoroso. Beijaram-se com ardor e, aps a festa, dormiram juntos na casa de Lgia. Ela estava "loucamente apaixonada". Srgio, que provisoriamente morava na casa de um amigo, mudou-se para sua casa.
     Quando Roberto telefonou, tratou-o com frieza. Disse-lhe que no viesse mais ao Rio, pois teria que viajar. Srgio, afinal, era o grande amor de sua vida. Sem perceber, falava dele do mesmo modo que de Roberto at a vspera, com a mesma paixo e a mesma intensidade.
     Passados seis meses, Lgia estava entediada. Havia se afastado dos amigos e quase no saa mais de casa.
     
     "Acho que ainda o amo. Mas ele tem umas coisas to estranhas..."
     
     O que aconteceu? Afinal, Lgia ama Srgio? Ento, no amava Roberto? Nada disso. Assim como Tristo e Isolda, Lgia ama o fato de amar, ama estar amando. Apaixona-se pela paixo. E no  um caso raro. Quase todas as pessoas na nossa cultura esto aprisionadas pelo mito do amor romntico e pela idia de que s  possvel haver felicidade se existir um grande amor. Principalmente as mulheres. Mesmo tendo vrios interesses na vida e parecendo feliz, a mulher, quando est sozinha, sempre se pergunta se essa felicidade  real.
     No importa muito se a relao amorosa  limitadora ou tediosa. Qualquer coisa  melhor do que ficar sozinha. Fundamental  ter um homem ao lado, o resto se constri  ou se inventa. Busca-se, portanto, desesperadamente, o amor. Acredita-se tanto nisso que sua ausncia abala profundamente a auto-estima de uma pessoa e faz com que se sinta desvalorizada. Os trs exemplos a seguir ilustram bem como, ainda hoje, muitas mulheres se sentem quando no tm um parceiro amoroso.
     Slvia reencontrou uma grande amiga da poca de faculdade. Psiclogas, eram ambas bastante ocupadas. Combinaram, ento, encontrarem-se ao menos uma vez por ms para jantar. Os primeiros encontros foram timos. Falaram de seus projetos profissionais e de suas vidas pessoais, Mas Slvia comeou a ficar constrangida e, ansiosa, tentava sempre convidar algum conhecido do sexo masculino para compartilhar a mesa com elas. Nem sempre achava interessante o amigo escalado e reconhecia que esses encontros estavam perdendo a graa. Perguntada sobre o que estava acontecendo, declarou envergonhada o que tanto a preocupava:
     
"Tenho medo de que as pessoas, ao me verem jantando sozinha com uma amiga, pensem que estou jogada fora."
     
     Sandra, mulher lindssima, de 35 anos, chegou  sesso de anlise muito triste. Comunicou-me, solene:
     
"Estou a p."
     
     No compreendi, a princpio, a grande importncia de estar sem carro, mas, na verdade, "estar a p" significava estar sozinha, sem um homem. O namoro que mal havia comeado j terminara e, assim, tudo na sua vida perdia a cor.
     
     Suzana estava completando 20 anos de casada quando seu marido quis a separao. Apaixonado por outra mulher, arrumou as malas e foi embora. Atnita, chorava muito, sendo consolada pelos trs filhos adolescentes. Com grande esforo, tentava reagir e recomear a viver. Cuidar sozinha da casa e dos filhos, procurar um trabalho, descobrir com quem podia contar e, o mais difcil de tudo, responder a uma pergunta que a atormentava agora, aps tanto tempo  sombra do marido: quem sou eu?
     Pouco depois da separao, foi passar um fim de semana no stio de uma amiga. Voltou mais infeliz ainda. Na despedida, a amiga abraou-a e, num tom de cobrana carinhosa, disse-lhe:
     
"Da prxima vez quero te ver com um namorado!"
     
     Os dias foram passando e nada de o namorado aparecer. Suzana comeou a ficar aflita. Passou a se sentir desinteressante. As tentativas para viver um romance se intensificavam. Saa com freqncia com trs amigas, tambm separadas.
     
"Sempre samos juntas, Vamos a algum lugar no meu carro. Procuramos uma vaga, estacionamos, sentamos num bar ou restaurante, onde todas sondam o ambiente. At que uma diz: "No tem homem." Levantamos, tiramos o carro da vaga e procuramos outro lugar para ir. s vezes, mudamos de bar quatro ou cinco vezes numa mesma noite."
     
     Nessa busca incessante do amor romntico, a mulher, na nossa cultura, quando encontra um par, torna-se a Bela Adormecida ao avesso. "Quando  beijada pelo homem (prncipe), no  despertada, ao contrrio, adormece para quem , para quem ele , para a realidade. Adormece e se esfora para ficar adormecida." 34

Inventando o amor
     
     Lcia estava apaixonada. Psicloga, 29 anos, recm-separada, parecia quase impossvel acontecer isso devido  sua exigncia intelectual em relao s pessoas. Mas conheceu Artur, jovem de 20 anos, e s pensava nele. Na primeira noite que se viram, conversaram at s seis horas da manh. Estava exultante:
     
" inacreditvel como ele pode ter urna cabea to interessante, tendo s 20 anos. No paramos de conversar um minuto. Tem tudo a ver comigo. Nossa viso de mundo e nossas idias so as mesmas. H muito tempo no encontro algum to estimulante."
     
     Passadas algumas semanas, quando j havia se desencantado e no pensava mais em Artur, percebeu com clareza o que se passara no primeiro encontro.
     
"No sei como no enxerguei. Eu falava sozinha o tempo todo. Ele s me olhava e dizia: 'Podes crer'. Acho que nunca ouvi dele qualquer idia sobre qualquer coisa. Alis, acho que nem uma frase inteira.  um completo idiota."
       
     Muitas vezes, at em relaes duradouras, ouvimos algum descrever seu parceiro amoroso como a pessoa mais maravilhosa, bonita, inteligente e carinhosa, e nos sentimos constrangidos quando somos apresentados a ela.  comum no apresentar absolutamente nenhuma das caractersticas atribudas pelo outro.
     O amor romntico  construdo em torno da projeo e da idealizao sobre a imagem, em vez de sobre a realidade. A pessoa amada no  percebida com clareza, mas atravs de uma nvoa que distorce o real. Uma histria popular relata o caso de uma jovem que desejava muito viver uma relao de amor e, ento, deixou um bilhete num local onde seria fcil de ser encontrado. A mensagem era a seguinte: "A qualquer pessoa que encontre este bilhete: Eu te amo." 35
     John Money, em Love and Love Sickness (Amor e a doena do amor), coloca um enigma a ser resolvido, baseado no teste de Rorschach (a pessoa testada olha para uma srie de borres de tinta de vrios formatos e diz o que eles sugerem): O que seu amado e um borro de tinta de Rorschach tm em comum? 36
     Resposta: Voc projeta uma imagem sua sobre o borro de tinta e sobre seu amado. Voc se apaixona no por seu amado em si, mas por ele como um borro do amor de Rorschach.
     Os amigos dizem: "O que ela viu nele?" ou "O que ele viu nela?". Porque eles vem a pessoa, enquanto voc v seu borro do amor, sua imagem idealizada do outro.
     Para se manter envolto na nvoa que cobre o amor romntico depois de algum tempo de relao,  necessrio que o outro corresponda, evitando qualquer intimidade real, calando-se sobre os pensamentos e sentimentos mais ntimos, bem como mantendo certo afastamento fsico.
     As pessoas sempre souberam disso. At bem pouco tempo, o argumento que as mes usavam para controlar o namoro de suas filhas era o de que qualquer intimidade fsica antes do casamento faria o rapaz perder o interesse pela moa. Parece que no havia preocupao quanto ao depois. A j estariam casados e tudo tinha de ser suportado. Ainda hoje encontramos defensores da falta de intimidade fsica para adiar o desencanto.
     Uma atriz de televiso, de 18 anos, em entrevista concedida a um jornal do Rio, em 1993, declarou: "Sou uma amante  moda antiga e acho que sem virgindade o casamento perde o impacto.  por isso que muitos homens preferem morar junto a casar. Para que casar, ter aquela trabalheira toda, se o encanto j foi embora?" 37
     Num tempo mais antigo, alm da falta de intimidade fsica, aos casais de namorados no era permitida nem mesmo uma troca de pensamentos ou sentimentos. Os namoros eram sempre na presena de um adulto da famlia. Para garantir o casamento, no poderia haver nenhum tipo de conhecimento mais profundo do outro.
     Robert Johnson faz em seu livro We  A chave da psicologia do amor romntico uma anlise de como esse sentimento to valorizado entre os ocidentais afeta a vida das pessoas. O amor romntico no resiste  intimidade porque a relao no  com a pessoa real, do jeito que ela . O "apaixonado" centraliza seu ser na iluso do romance, acreditando que vai encontrar a si mesmo e a vida em toda sua plenitude. Mas, como a magia nunca dura e a idealizao do outro acaba, surge o desencanto. Nessa quebra de encanto, comeamos a perceber que a pessoa amada e as projees lanadas sobre ela so realidades distintas.
     A convivncia torna evidentes as diversas caractersticas de personalidade da outra pessoa. Seu jeito de ser e de pensar, como tambm sua generosidade ou seu egosmo, sua coragem ou suas inseguranas, por exemplo. Alguns aspectos nos causam admirao, outros, repdio, mas, de qualquer forma, no conseguimos mais perceber o outro to maravilhoso e idealizado como no incio da relao. As nossas projees sofrem a interferncia da realidade. O que uma pessoa projeta na outra so partes de si mesma, desconhecidas potencialidades que nunca tocou nem conheceu porque sempre tentou viv-las atravs do outro.
     Quantas vezes j ouvimos algum dizer: "Estou precisando me apaixonar"? A partir do sculo XII, o amor passou a ser considerado nobre do ponto de vista moral e social. A aristocracia tratava os trovadores como seus iguais.  provvel que tenha surgido da a idia romntica atual de que a paixo constitui uma nobreza moral, pondo a pessoa acima da lei e dos costumes. O ser apaixonado est numa escala superior de humanidade, sem barreiras sociais: o plebeu pode raptar a princesa, o operrio casar com a milionria e a jovem ganhadora de um concurso de miss tem possibilidade de se tornar rica ou nobre.
     Qualquer transgresso  ordem social estabelecida  imediatamente perdoada se for em nome do amor. Todos torcem para que o amor supere tudo e sempre vena. Ao mesmo tempo, esto todos dispostos a reconhecer que a paixo  uma forma de intoxicao, uma doena da alma, como pensavam os antigos. Mas ningum quer acreditar nisso. Estamos todos mais ou menos envenenados.
     Inegavelmente, o amor romntico tem seu prprio tipo de excitao, temporria por natureza. Enquanto estamos apaixonados por algum, o mundo se reveste de tamanho significado que a cada encontro somos transportados para fora da realidade e cria-se um estado de exaltao.  como se uma parte que nos faltasse nos tivesse sido devolvida, sentimo-nos enaltecidos, como se de repente tivssemos nos elevado acima do mundo comum.
     Existe uma expectativa no homem e na mulher de que o amor revele algo sobre eles mesmos ou sobre a vida em geral. A paixo  sempre uma aventura. Transforma a vida de cada pessoa, enriquecendo-a de novidades, riscos e prazeres.  o acesso ao possvel, a submisso ao desejo e s vrias formas de iluso.
     As caractersticas do amor romntico so inconfundveis. O xtase e a agonia que nos causam tornam a vida emocionante, nos dando essa sensao de transcendncia. Para se manter nesse estado de plenitude, homens e mulheres exigem coisas impossveis de seus relacionamentos: ns realmente acreditamos inconscientemente que o outro tem a obrigao de nos manter sempre felizes, de tornar nossa vida significativa, vibrante, plena de encanto. Mas, quando nos desapaixonamos, o mundo instantaneamente parece desolado e vazio, apesar de, em alguns casos, continuarmos ao lado da mesma pessoa que antes nos propiciava tanta felicidade.
     Em nossa cultura, o romance est em toda parte. A literatura, os filmes e as msicas o expressam em abundncia. Ficamos dramaticamente encantados quando o romance est aceso e desesperados quando ele acaba. A pessoa apaixonada no  uma pessoa livre. Ao contrrio, procura ser possuda, enlevada, ficar fora de si, enlouquecida pela nostalgia, que  ignorada pela prpria iluso de liberdade.
     Todo um conjunto de verdades sobre o romance nos  oferecido. Inconsciente e automaticamente, ns o aceitamos sem discutir e ficamos profundamente irritados quando algum o faz. Afinal, por que questionar algo to maravilhoso de se viver?

A mentira
     
     Estamos presos  crena de que o amor romntico  o amor verdadeiro. Isso gera muita infelicidade e frustrao na vida das pessoas, impedindo-as de experimentar uma relao amorosa autntica. Quando ocorre o desencanto, isto , quando percebemos que o outro  um ser humano e no a personificao de nossas fantasias, nos ressentimos e reagimos como se tivesse ocorrido uma desgraa. Geralmente culpamos o outro. O que ningum pensa  que somos ns que precisamos modificar nossas prprias atitudes inconscientes  as expectativas que alimentamos e as exigncias que impomos aos nossos relacionamentos.38
     Isso parece impossvel porque o mito do amor romntico lana um encanto sobre ns no que diz respeito ao amor, o que explica o fato de, aps cada decepo, juntarmos nossas energias e partirmos em busca de outra parceria que nos permita viver novamente essa exaltao. Todos os escritores de romance e de contos de fadas sempre souberam desse encanto, e tambm que esse tipo de amor no dura.
     "Como na histria de Tristo e Isolda (...). O amor morre ou, mais comumente, os dois amantes morrem (nos braos um do outro, de preferncia) e so cristalizados para sempre naquele estado apaixonado. Por qu? Porque  a nica maneira de garantir que ele continue para sempre. Por que voc acha que os contos de fadas sempre terminam com 'E viveram felizes para sempre'? Eles terminam desse modo porque precisam. E precisam porque a histria do amor verdadeiro e a do amor romntico so diferentes." 39
     O mito do amor romntico no passa de uma mentira porque mente sobre as mulheres e os homens e mente sobre o amor. "A base sobre a qual se constri o mito  a estereotipagem sexual das pessoas em homens 'verdadeiros' e mulheres 'verdadeiras', o que divide a humanidade ocidental contra si mesma e envenena nossa vida amorosa."40
     Alm de mentir que o verdadeiro amor dura para sempre, o mito tambm exclui o conflito e a discrdia. "J que isso no  verdade em nenhum relacionamento humano, a prpria base sobre a qual somos exortados a construir o amor romntico  fraudulenta. A promessa fraudulenta de ausncia de dificuldade gera no o amor, mas a deteriorao da sade mental." 41 Pode-se acrescentar que o mito exclui tambm o tdio causado pela convivncia contnua, afetiva e sexual com uma nica pessoa.
     
     Patrcia, arquiteta de 29 anos, estava muito deprimida. Namorou, noivou e casou numa bela histria de amor com todos os ingredientes da receita para uma vida feliz. Afirmava:
     
"No consigo entender. Tenho um marido que me adora, dois filhos maravilhosos e um trabalho interessante. Acabamos de construir uma casa com piscina e sauna, num lugar lindo. No ltimo Natal ganhei o carro que sempre desejei. Mas nada me faz feliz, no agento o tdio. S tenho vontade de dormir, dormir e dormir."
     
     Num estudo sobre a relao entre a depresso e o amor romntico, encontramos interessantes concluses.42 As mulheres sofrem mais de depresso que os homens, na proporo de dois para um. Essa proporo  encontrada nas mulheres casadas. Nas outras categorias  solteiras, divorciadas e vivas , as mulheres tm taxas mais baixas que os homens. Os principais padres psicodinmicos conhecidos por levar  depresso incluem:

1)	Submisso a outra pessoa que seja dominadora.
2)	Viver pelo bem da outra pessoa dominadora ou para obter aprovao e gratificao dessa pessoa.
3)	Dependncia.
4)	Viver tendo o amor romntico como objetivo dominante.
     
     Vistos em conjunto, esses padres so, virtualmente, sinnimos de uma mulher "verdadeira" em nossa cultura, de modo que no  de surpreender que a depresso ocorra predominantemente entre as mulheres. Em especial as que se sentem exortadas pelo mito do amor romntico a encontrar o verdadeiro amor da maneira descrita pela autora do best-seller The total woman (A mulher total): "S quando uma mulher entrega sua vida ao marido, o reverencia, o adora e est disposta a servi-lo  que ela se torna realmente linda para ele. Ela se torna uma jia sem preo, a glria da feminilidade, sua rainha!"43
     Pode nos parecer estranho que hoje, com todo o movimento de emancipao feminina, afirmaes como essa encontrem eco. Surpreendentemente, encontram, e vo formando as condies para a depresso futura.
     Uma pesquisa da Organizao Mundial de Sade concluiu que os sintomas de depresso, mudanas de humor e ansiedade so mais freqentes nas mulheres do que nos homens, principalmente se esto casadas. "O casamento tem um efeito protetor entre os homens, mas no entre as mulheres", afirma a OMS.
     Helosa, professora universitria, de 38 anos, separada, mora sozinha com os dois filhos. No recebe nenhum tipo de auxlio do ex-marido, arcando com toda a despesa familiar.  jovial, moderna, cuida muito da aparncia e no demonstra a idade que tem. Desde a separao, no teve nenhum namorado, mas sempre acalentou em segredo o desejo de reconstruir sua vida nos moldes tradicionais. Na verdade, nunca quis namorados. Quer mesmo um novo marido para proteg-la. Do qu, no sabe explicar.
     Recentemente, envolveu-se numa tumultuada relao amorosa. O esteretipo do macho por quem se apaixonou determinou que s se disporia a ficar com ela se Helosa modificasse sua forma de viver. Entre as exigncias, estavam: afastar-se dos amigos, sair de casa o mnimo possvel, dedicando-se em tempo integral ao lar, e usar roupas bem mais "condizentes" com sua idade. Helosa no titubeou. Num tom resignado, ouvi-a comentar:
     
"Sabe, pensei bem e acho que o papel da mulher  mesmo o de agradar ao homem. Fiz a melhor opo."
     
     O psiquiatra Silvano Arieti afirma, em sua anlise sobre a depresso feminina e os fatores socioculturais condicionantes, que o principal objetivo para muitas mulheres no  a busca de um "eu" autntico, mas a busca do amor romntico. E que, quando este se torna a nica preocupao, a vida fica excessivamente restrita a padres rgidos. Assim, ser difcil encontrar alternativas mais tarde. Inclusive para a procura de outros tipos de amor.44
     Outros autores so mais incisivos: "Quando se pensa em 'estar loucamente apaixonado', podemos ver sob dois aspectos; como um privilgio (o que a maioria faz), ou como o empobrecimento de uma mente obcecada por uma nica imagem. Como uma beatitude, ou como uma voluptuosa destruio do self pelo self." 45
     O amor retratado como um esmagamento do eu, e, portanto, semelhante a uma espcie de doena, j  encontrado nas poesias de amor que sobrevivem entre as relquias do Antigo Egito, algumas remontando ao ano 1000 a.C.
     Algumas pessoas, desejosas de viver o xtase que o amor romntico proporciona, mas j prevenidas das surpresas desagradveis do desencanto, lanam mo de estratgias.
     
     Marcos, publicitrio, de 42 anos, apaixona-se com muita freqncia.  apaixonado pela paixo, o que declara abertamente. Numa festa conheceu Suzy e em meia hora j estava loucamente apaixonado. Ela, pedagoga, sria e desconfiada, no sabia o que pensar, mas deixava-se levar pelo ardor contagiante de Marcos. "Ser que existe mesmo amor  primeira vista?", pensava, enquanto se decidia a viver aquela experincia to nova.
     
     No final da festa, Marcos insistia para que ela aceitasse seu convite inesperado: viajar com ele, dois dias depois, para Nova York, onde, segundo afirmava, passariam uma semana inesquecvel. Incrdula, Suzy tentou argumentar:

"Mas ns nem nos conhecemos! Voc no sabe como eu sou, nem eu sei como voc !

     Mais incrdula ainda, ouviu a resposta persuasiva de uma pessoa experiente em paixo:

"Por isso mesmo, temos que ir logo. Vamos aproveitar enquanto a gente no se conhece."
     
     Deixar o hbito de "apaixonar-se loucamente" para a novidade de entrar num tipo de amor sem projees e idealizaes tambm tem sua prpria excitao. "A sensao geral  a de comear a utilizar novos msculos, que sempre tivemos, mas nunca usamos por causa de nosso modo de vida; e, ao comear a utiliz-los, podemos fazer com nosso corpo coisas que nunca conseguimos. Os msculos psicolgicos tambm existem, e devemos olhar atravs da camuflagem do mito do amor romntico a fim de encontr-los  e, ento, ver com que se parecer o amor quando mais pessoas comearem a flexion-los." 46

O mapa amoroso
     
     Por que Roberto se interessou por Beth em vez de por Ana? E Marta por Ricardo e no por Jlio?
     Helen Fisher, em seu livro Anatomia do amor, relata o que o sexlogo John Money denomina mapa amoroso como sendo um dos mecanismos pelo qual os seres humanos so atrados por uma pessoa em particular:
     "Antes de qualquer escolha amorosa, j havamos desenvolvido um mapa mental, um modelo cheio de circuitos cerebrais que determinam o que desperta nossa sexualidade, o que nos leva a nos apaixonarmos por uma pessoa e no por outra.
     "Money acha que as crianas desenvolvem esses mapas amorosos entre os cinco e oito anos de idade (s vezes, at mais cedo) e so determinados pelos relacionamentos com a famlia, os amigos, assim como por suas prprias experincias e oportunidades. Por exemplo, quando crianas, nos acostumamos  baguna ou  tranqilidade da casa, ao jeito como nossa me nos escuta, ralha conosco ou nos estimula, e como nosso pai brinca ou caminha. Algumas caractersticas de temperamento de nossos amigos e parentes nos atraem e outras associamos a incidentes perturbadores. Assim, pouco a pouco, essas memrias comeam a formar um padro mental em nossa mente, um modelo subliminar do que nos agrada e do que nos desagrada.
     " medida que crescemos, esse mapa inconsciente toma forma e a proto-imagem do parceiro ideal comea a emergir. Depois, na adolescncia, quando as sensaes sexuais inundam o crebro, esses mapas amorosos vo se solidificando, tornando-se bem especficos com relao aos detalhes da fisionomia, da constituio fsica, da raa e da cor do parceiro ideal, sem mencionar o carter, a educao etc. Temos um quadro mental do parceiro idealizado, dos cenrios que nos atraem e dos tipos de conversas e de atividades erticas que nos excitam.
     "Desse modo, bem antes de conhecermos nosso verdadeiro amor em uma sala de aula, em um shopping ou no escritrio, j temos prontos alguns elementos bsicos de nosso parceiro ideal. Depois, quando realmente encontramos quem se enquadre dentro desses parmetros, nos apaixonamos por ele e nele projetamos nosso mapa amoroso. O objeto da paixo , em geral, bem diferente de nosso ideal, mas deixamos de lado essas inconsistncias para faz-lo se encaixar em nosso modelo. Da a famosa frase de Chaucer: 'O amor  cego'.
     "Esses mapas amorosos variam muito de pessoa a pessoa. Algumas sentem-se atradas por trajes profissionais ou uniformes de mdicos, por seios grandes, ps pequenos ou por um riso contagiante. A voz da pessoa, seu jeito de sorrir, suas amizades, sua pacincia, seu senso de humor, seus interesses, suas aspiraes, sua organizao, seu carisma  milhares de coisas bvias, e tambm minsculos elementos subliminares que atuam em conjunto para tornar essa pessoa mais atraente que outra. Todos ns poderamos relacionar algumas coisas especficas que consideramos atraentes; e h muitas mais escondidas em nosso inconsciente." 47
     O fato de uma pessoa apaixonar-se loucamente pode ser entendido como um pedido de ajuda, um amparo que ser dado por outrem. Essa paixo louca dirige-se a um tipo de pessoa que, naquele momento particular, tudo indica poder proporcionar essa experincia.
     O borro do amor mostra que, em geral, a paixo no  por uma pessoa. "Ns nos apaixonamos por uma imagem que construmos com base naquela pessoa; de maneira mais especfica, penso eu, por uma imagem construda sobre aquele determinado aspecto da pessoa do qual temos forte necessidade." 48 Talvez isso responda s perguntas to comuns: "O que ela tem que eu no tenho?" ou "O que ela viu nele?".
     Quando algum  trocado por outro numa relao amorosa, o sofrimento  intenso e  difcil elaborar essa perda. Por um lado, a falta e o vazio que sente; por outro, o que  mais doloroso ainda, a convico de que falhou e que sua falta de atrativos foi a grande responsvel. Se foi preterido, acredita que a pessoa escolhida  mais bonita, mais inteligente, mais sensual. Em muitos casos, a troca ocorre porque a pessoa objeto da nova paixo possui algum aspecto que satisfaz inconscientemente uma exigncia momentnea do outro, sem haver uma vinculao necessria com o parceiro rejeitado.

Romances gua-com-acar e contos de fadas 
     
     Inmeras novelas e histrias romnticas fazem sucesso desde o incio do sculo XIX. O romance ideal  a perfeita expresso da fantasia romntica   encontrado nos romances do tipo gua-com-acar e nos contos de fadas, que descrevem de forma banal a promessa do mito do amor romntico.
     Bonnie Kreps relata em seu livro como essas tramas se desenvolvem. Em todas as suas copiosas verses, o romance ideal tem uma trama fixa, e o heri e a herona ideais, invariavelmente, possuem algumas caractersticas bsicas, essenciais ao desenrolar dessa trama.49
     "O heri  o esteretipo masculino padro: duro, impetuoso, dominador, inexpressivo, com desprezo pelas mulheres. (...) 'romanticamente sombrio'. A ao gira em torno da personalidade da herona, e com isso ela apresenta uma provocante mistura de caractersticas  das quais uma ou duas deve repudiar para que acontea o final feliz. Ela  atraente aos homens, especialmente por ser fascinante, sem ter conscincia disso.  inocente e inexperiente e tem uma extraordinria capacidade de cuidar dos outros. E (essa  a parte da qual ela se livra no momento decisivo) tem uma inteligncia incomum ou uma disposio feroz, ou ambas.
     "Na trama fixa, a herona passa por uma srie de dificuldades, das quais se desembaraa com desenvoltura, at encontrar o heri. Ele desempenha seu importante trabalho entre os homens e, ao mesmo tempo, flerta com as mulheres, at encontrar a herona. Ao se encontrar, eles sentem, de incio, uma averso ou um interesse mtuo, at que o heri, de maneira sbita e inexplicada, declara seu eterno amor. Ela reage negando a animosidade que havia, e imediatamente o transforma no homem certo, e ele passa a ser a nica pessoa que de fato importa na vida da herona. Conforme vai diminuindo seu interesse pelo que antes era importante (trabalho, aventura, aprendizado etc.), ela se torna cada vez mais passiva e dependente dele. A ao desaparece nesse ponto. Isso  o que os escritores de romances em geral querem dizer com 'E eles viveram felizes para sempre'.
     "O principal aspecto da literatura convencionalizada, assim como a fonte de sua atrao,  que o leitor sabe o que esperar.
     "(...) Nos contos de fadas, as idias organizadoras so a castidade e a magia: a castidade ser atormentada pela maldade, salva pela bondade e recompensada, e a magia ser usada nos pontos-chave.
     "A castidade est incorporada ao carter da herona. Ela  a pessoa que compe o centro inativo da ao que gira em torno dela. Embora todos os outros personagens dos contos de fadas clssicos possam ser homens ou mulheres, a pessoa que compe o centro da ao  sempre a mulher. Os viles costumam ser do sexo feminino e at mesmo os heris muitas vezes so mulheres. Ao estudar os contos de fadas como mito, trs histrias so bsicas  tradio desses contos: A bela adormecida, Branca de Neve e Cinderela.
     "(...) Temos aqui uma viso muito clara do comportamento arquetpico masculino e feminino, que, segundo o mito do amor romntico, vai culminar magicamente no romance arquetpico. A observao de Rougemont  muito apropriada aos contos de fadas: 'Um mito faz com que seja possvel vermos ao primeiro olhar certos tipos de relaes constantes e separarmos estas da confuso das aparncias rotineiras'.
     "E essas so as relaes constantes: num verdadeiro romance,  a mulher que  desejada, a recebedora do desejo do homem. Ele  o agente, aquele que age; ela espera e recebe. Ele a tira do srio; ela  tirada do srio. A paixo dele baseia-se numa imagem, em vez de basear-se no conhecimento da herona, e  a que reside a magia, e esse  o 'verdadeiro amor'. A vida 'real' para uma mulher comea com a chegada do homem que vai am-la dessa maneira especial. A recompensa por ser uma mulher 'real' no  uma vida real, mas o 'verdadeiro amor', ou seja, a proteo contra a vida real. (Nenhuma herona romntica arquetpica leva uma vida normal e interage ativamente no mundo; ela sempre vai para o castelo, e nunca mais se sabe dela.)"
     Em nossos dias, as mulheres patriarcais que pleiteiam uma "renovao romntica" falam com a linguagem dos contos de fadas. Como a autora de Fascinating Womanhood (Feminilidade fascinante):
     
"Quando um homem ama de todo o corao, existe uma agitao em sua alma. s vezes,  um sentimento 'que se aproxima da adorao pela mulher'. Outras, ele est fascinado, encantado e divertido, isso pode ser descrito por alguns homens como uma sensao quase de dor. Pode fazer um homem sentir como se estivesse trincando os dentes. Junto com todas essas sensaes excitantes e devoradoras, existe uma ternura, um dominador desejo de proteger sua mulher de todo o mal, o perigo e as dificuldades da vida. Esses sentimentos o fazem transformar seu amor romntico em palavras para ela ou para algum em quem ele confia."50
     
     O mito do amor romntico determina com tanta clareza o papel que homens e mulheres devem desempenhar no romance que, quando em Ela foi injusta com ele, considerado o filme do ano de 1933, Mae West diz ao jovem Cary Grant: "Qualquer hora em que voc no tiver nada para fazer  e bastante tempo , venha", alm de sofrer presses exercidas pela Liga da Decncia, que tentava proteger o pblico da corrupo moral do cinema, alguns crticos sugeriram que ela era um homem disfarado.
     Mais de 60 anos depois, Vivien, fotgrafa, de 35 anos, conta que desde a adolescncia era censurada por sua irm mais velha, que a acusava de ter "alma masculina". Ainda jovem, no entendia o que isso significava e sofria sentindo-se inadequada:
     
"Agora entendo. Minha irm sempre sonhou com o prncipe encantado. A cada namorado que arranjava, transformava-se numa gueixa. Mostrava-se frgil, dependente e submissa, s pensando em agrad-lo. At hoje  assim, com o marido. Eu nunca desejei isso para minha vida. Sempre quis ser eu mesma e por isso sempre fui atacada."51
     
     Algumas mulheres, vidas leitoras de romances gua-com-acar, falam da decepo e do contraste entre o que sonharam e o cotidiano da vida real.
     Priscila est casada h 24 anos. Sente-se profundamente sozinha apesar de viver com o marido e um casal de filhos de 20 e 22 anos. Entre o marido e ela no existe dilogo algum. Sexo? Nem se lembra de quando foi a ltima vez. Os motivos que o levam a dirigir-lhe a palavra so poucos: reclamar da despesa da casa ou criticar a comida do jantar. Quanto aos filhos, quase nunca os v. Tm sua prpria vida e mltiplas atividades. Num choro contido, Priscila desabafa:
     
"Nunca imaginei que minha vida fosse ser to infeliz. Na Juventude, antes mesmo de conhecer meu marido, sempre vinha  minha cabea uma cena em que eu acreditava representar meu futuro junto com minha famlia: num sbado ou domingo, estaramos todos na sala. Meu marido lendo o jornal, fumando um cachimbo; minha filha tocando piano; meu filho pedindo (dinheiro para sair e eu, muito feliz, assistindo a tudo isso."                        
       
     Embora alguns tenham dito que o amor romntico foi um enredo engendrado pelos homens contra as mulheres, para encher suas cabeas de sonhos fteis e impossveis, isso no explica o apelo da literatura romntica, ou o fato de as mulheres terem desempenhado um papel importante na sua difuso.52
     O surgimento da idia do amor romntico, fazendo parte de uma relao estvel e duradoura, tem de ser compreendido em relao a vrios conjuntos de influncia que afetaram as pessoas a partir do final do sculo XVIII.

A inveno da maternidade

Influncias histricas
     
     A Idade Mdia ocidental inicia-se com o fim do Imprio Romano do Ocidente (com capital em Roma), em 476, e termina com a queda do Imprio Romano do Oriente ou Imprio Bizantino (com capital em Constantinopla), em 1453. Esse perodo divide-se em duas fases: a alta Idade Mdia (sculo V a X), que se caracteriza pela invaso da Europa por diversos povos que contriburam para a formao do feudalismo, e a baixa Idade Mdia (sculo XI a XV), poca em que se iniciou o processo de desintegrao do sistema feudal a partir das modificaes econmicas, polticas, sociais e culturais por que passou a Europa. O capitalismo comercial e a centralizao poltica se desenvolveram, caracterizando a Idade Moderna.  nesse perodo que nascem as naes como hoje so conhecidas.
     Estende-se pelos sculos XV e XVI o processo de renovao cultural iniciado com o Renascimento e que atingiu os diversos campos da atividade humana  literatura, filosofia, artes plsticas, poltica, cincia. Os intelectuais ligados a esse movimento tomaram como ideal cultural o homem da Antigidade Clssica (greco-romana), Isso representou um renascer de formas, estilos e valores culturais adormecidos ou silenciados durante a Idade Mdia, dando incio a um novo impulso criativo, determinado por novos contedos e estmulos sociais e polticos, sobretudo da burguesia, classe social emergente composta pelos habitantes das cidades (burgos).
     No campo artstico, surgem brilhantes criadores que inauguram uma nova fase da histria da arte ocidental. Nesse momento, se afirmam, por exemplo, Michelangelo, Rafael, El Greco, Brunelleschi e Leonardo da Vinci, personagem-sntese do Renascimento, com seus incrveis dotes de pintor, escultor, filsofo, engenheiro e inventor.
     Na literatura, surgem Shakespeare, Cames, Rabelais e Cervantes, que faz do cavaleiro andante o tema da stira expressa em Dom Quixote, encerrando definitivamente a poca medieval.
     A inveno da imprensa por Gutenberg facilitou a reproduo das obras em maior quantidade e com maior rapidez; o movimento da expanso martima contribuiu para o alargamento dos horizontes geogrficos e culturais; a inveno do telescpio e a comprovao, por Galileu, da teoria de que o Sol  e no a Terra  era o centro do universo levaram ao conhecimento mais objetivo do homem e de seu meio.
     A segunda metade do sculo XVIII inaugura profundas transformaes tecnolgicas e sociais na Europa.
     Iniciada na Inglaterra, a Revoluo Industrial caracteriza-se pela passagem de um sistema de produo agrrio e artesanal para outro, de produo industrial, dominado pelas fbricas. A utilizao do vapor como fonte de energia para acionar a mquina substitui a energia muscular humana, transformando radicalmente as relaes do ser humano com seu trabalho, consigo prprio e com o mundo a seu redor. A mquina a vapor supera o trabalhador, intensificando o processo de produo. O produtor, que antes possua o domnio do tempo e era independente, no artesanato ou na manufatura, agora se torna operrio.  possvel, ento, a fabricao em srie de bens de consumo (roupas, calados etc). Com a industrializao nasce o capitalismo, e junto s fbricas formam-se aglomerados urbanos.
     Com a Revoluo Industrial, os burgueses (comerciantes, profissionais liberais etc.) consolidavam cada vez mais seu poder econmico. Insatisfeitos com a incapacidade da monarquia absolutista para realizar as reformas que exigiam, comearam a se voltar contra a estrutura vigente. S o domnio poltico poderia garantir-lhes o poder e, dirigindo o Estado, atenderiam a seus interesses.
     As revolues burguesas repercutiram em todo o Ocidente, completando o processo de transio do feudalismo para o capitalismo. Com elas, inaugurou-se a poca Contempornea, aps a Revoluo Francesa ter promovido, a partir de 1789, a queda do modelo clssico do absolutismo europeu e imposto a todo o mundo ocidental o novo ideal de liberdade, igualdade e fraternidade.
     A partir de ento, a rea domstica comea a se opor  rea pblica. A produo econmica  transferida para as fbricas, distantes de casa. Como o novo mercado de trabalho mal absorvia os homens, as mulheres so incentivadas a permanecer em casa, dedicando-se exclusivamente ao marido e aos filhos. Passa-se a cultivar a casa como lar e necessria privacidade. Acentua-se o afastamento do grupo familiar da sociedade. Surge, ento, um tipo social de famlia que se denomina burguesa, trazendo nova ideologia; o amor materno e o amor romntico.

O poder do pai
     
     Em 1980, Elisabeth Badinter lanou na Frana Um amor conquistado  O mito do amor materno, provocando grande polmica por discordar de que o amor materno  inerente s mulheres. Ela afirma que  um sentimento que pode ou no se desenvolver, dependendo dos interesses socioeconmicos de um grupo. A seguir exponho alguns dados que Badinter oferece para ilustrar como os valores de uma sociedade podem ter um peso decisivo sobre os nossos desejos.
     Na histria da famlia ocidental, o poder paterno sempre acompanhou a autoridade absoluta e desptica do homem sobre filhos e esposa.  A esta era recomendado observar um comportamento adequado  sua inferioridade, isto , de modstia e silncio. Para justificar toda essa autoridade paterna, afirmava-se que o pai era responsvel perante Deus pelos filhos, sendo, ento, necessrio dar-lhe os meios de assumir tal responsabilidade.
     O Estado monrquico garantiu o direito paterno de correo. As prises pblicas acolhiam com facilidade os filhos de famlia, de qualquer idade e sob os pretextos mais fteis. Ficavam encarcerados, muitas vezes misturados com prisioneiros condenados por outros crimes.
     Desde que, no sculo XII, o casamento foi considerado um sacramento, o decreto cannico reconhecia vlido um matrimnio, mesmo sem haver consentimento dos pais. A condio nica era de que o rapaz tivesse pelo menos 13 anos e meio, e a moa, 11 e meio. No sculo XVI, o Concilio de Trento proclamou que casar sem consentimento dos pais era pecado, embora o casamento continuasse a ser considerado vlido.
     O Estado no pretendia diminuir a autoridade paterna. Fortaleceu os direitos do chefe de famlia para evitar que se instalasse a desordem na menor clula social. Em 1579, Henrique III equiparou o casamento de um menor sem consentimento dos pais a um rapto, e o raptor  condenado  morte. No sculo seguinte, a punio se agrava. A pena de morte ser aplicada sem perdo, mesmo que os pais dem posteriormente seu consentimento, e isso at os 30 anos para o rapaz e 25 para a moa.
     Ainda no sculo XVII, as ordens de priso emitidas pelo rei abriram novas possibilidades de correo. Poderiam ser presos os filhos de menos de 25 anos e as filhas de qualquer idade de artesos e trabalhadores que maltratassem os pais ou que fossem preguiosos, libertinos ou corressem o risco de vir a s-lo. Isso levava a inmeras arbitrariedades. A priso era definitiva e os pais no tinham o poder de sust-la.
     Num decreto de 1763, os pais eram autorizados a pedir ao Departamento de Guerra e Marinha a deportao dos filhos "que tivessem exibido condutas capazes de ameaar a honra e a tranqilidade de sua famlia" para a ilha de Dsirade. Nessa ilha, os jovens eram mal-alimentados e trabalhavam arduamente.
     Antes do sculo XVIII, o amor no era um valor familiar ou social. No tinha a importncia que hoje lhe atribumos. As relaes familiares eram dominadas pelo medo. Em caso de insubordinao, o pai recorria ao aoite, tanto para o filho como para a esposa, tanto entre aristocratas quanto entre camponeses. O poder paterno devia ser mantido a qualquer preo, pois numa sociedade hierarquizada a obedincia  a primeira virtude.
     No final do sculo XVII e incio do XVIII, os tericos da monarquia absoluta procuraram justificar pelo direito a autoridade do rei, ligando-a  de Deus e  do pai. Comparando o soberano ao pai de famlia, faziam da monarquia um direito natural. Afirmavam ser Deus o modelo perfeito da paternidade. Se o rei  o pai dos seus sditos, ento,  a imagem de Deus sobre a Terra. O simples pai de famlia , portanto, o sucedneo da imagem divina e real junto a seus filhos.53

A imperfeio da infncia
     
     Para Santo Agostinho, e durante longos sculos para a teologia crist, foi dramtica a imagem da infncia. Logo que nasce, a criana  vista como o smbolo da fora do mal, um ser imperfeito esmagado pelo peso do pecado original. A infncia seria o mais forte testemunho de uma condenao lanada contra a totalidade dos homens, pois ela evidencia como a natureza corrompida se precipita para o mal. Santo Agostinho descreve o filho do homem como um ser ignorante, apaixonado e caprichoso:
     "Se o deixssemos fazer o que lhe agrada, no h crime em que no se precipitaria", e ainda: "No  um pecado desejar o seio chorando? Pois se eu desejasse agora, com o mesmo ardor, um alimento conveniente  minha idade, seria alvo de zombaria (...) trata-se, portanto, de uma avidez m, visto que, ao crescer, ns a debelamos e rejeitamos." 54
     A natureza  to corrompida na criana que o trabalho de recuperao ser penoso. Justificam-se de antemo as ameaas, varas e palmatrias. A correo e a bondade humana so apenas o resultado de uma oposio de foras, isto , de uma violncia.
     Certas pessoas consideravam insuportvel a ateno que alguns dispensavam s crianas. Essas reaes crticas so mais bem percebidas no fim do sculo XVI e, principalmente, no sculo XVII. A irritao  a base da hostilidade de Montaigne, por exemplo: "No posso conceber essa paixo que faz com que as pessoas beijem as crianas recm-nascidas, que no tm ainda nem movimento na alma, nem fome reconhecvel no corpo pela qual se possam tornar amveis, e nunca permiti de boa vontade que elas fossem alimentadas na minha frente."55
     O pensamento de Santo Agostinho predominou durante muito tempo na histria da pedagogia, mantendo uma atmosfera de dureza na famlia e nas escolas. Os pedagogos recomendavam aos pais frieza em relao aos filhos, lembrando-lhes incessantemente sua malignidade natural, que seria pecado alimentar. At as mes eram criticadas duramente caso demonstrassem ternura: "As mes perdem os filhos quando os amamentam voluptuosamente." 56
     A finalidade da educao  salvar a alma do pecado, para isso no se poupavam argumentos para convencer as mes de que as crianas deveriam ser severamente castigadas: " notria a fbula do adolescente que ia ser enforcado, que implorou a presena da me e lhe arrancou a orelha, por no o ter castigado bem na infncia." 57
     Um tratado sobre a educao, de 1646, traduzido para o francs por um padre jesuta, afirmava: "S o tempo pode curar o homem da infncia e da adolescncia, idades da imperfeio sob todos os aspectos." 58

O sofrimento da criana
     
     O hbito de contratar amas-de-leite para os filhos generalizou-se no sculo XVIII, quando chegou a ocorrer escassez de amas. A aristocracia j h muito usava esses servios, tanto que a primeira agncia de amas em Paris data do sculo XIII.  importante lembrar que, nessa poca, no havia alternativa. Se a criana no fosse amamentada no seio, morreria.
     Em 1780, das 21 mil crianas que nasciam anualmente em Paris, menos de mil eram amamentadas pelas mes. Todas as outras eram levadas para as casas das amas. Dessas, 17 mil menos afortunadas iam para muito longe. Nas cidades pequenas, acontecia o mesmo. Os filhos iam viver no campo com as amas.
     Vrios argumentos eram usados pelas mulheres dos sculos XVII e XVIII para no amamentar seus filhos. Algumas alegavam a fraqueza de sua constituio, outras apelavam para a esttica, acreditando que perderiam a beleza. Se isso no fosse suficiente, tinham a ordem moral e social da poca para as apoiar.
     As famlias que se acreditavam superiores ao povo no consideravam digno amamentar elas mesmas seus filhos. Se assim o fizessem, estariam confessando no pertencer  melhor sociedade. A amamentao foi considerada ridcula e repugnante. Mes, sogras e parteiras desaconselhavam a jovem me a amamentar, j que a tarefa no era nobre bastante para uma dama superior.
     Tirar o seio para alimentar o beb a todo momento daria uma imagem animalizada da mulher e seria um gesto despudorado. Os maridos, por sua vez, consideravam que o aleitamento restringia seu prazer; era sinnimo de sujeira, e demonstravam averso pelo cheiro de leite.
     Os mdicos da poca contribuam para essa situao, proibindo as relaes sexuais durante a gravidez e o aleitamento. Acreditavam que o esperma estragava o leite e o fazia azedar, pondo a vida da criana em perigo.
     A criana era um empecilho para a me na vida conjugal e tambm nos prazeres da vida mundana, j que era muito deselegante cuidar de uma criana. Muitas vezes, os pais a entregavam imediatamente  ama, sendo comum organizarem uma festa para comemorar o nascimento, mesmo sem a criana estar na casa.
     As famlias aristocrticas e ricas escolhiam a ama com a ajuda do mdico. Selecionavam a que parecia "mais sadia e de bom temperamento, de boa cor e carne branca. No deve ser gorda nem magra.  preciso que seja alegre, bem disposta, viva, bonita, sbria, mansa e sem nenhuma paixo". 59
     Nas famlias menos ricas e importantes, na maioria das vezes "recorre-se aos servios de um intermedirio qualquer, que desaparece ou se engana. Chegado o dia, a ama no existe, nunca foi me, nada prometeu. A que chega  uma mulher asquerosa e doente, que a me no v e com quem o pai pouco se preocupa". 60
     Nas classes populares, procura-se a ama depois que ocorre o nascimento. Percorrem-se os mercados e as ruas e contrata-se a primeira camponesa que aparece. Sem examinar-lhe a sade, ou o leite, sem sequer verificar se realmente o tem.
     A viagem para a casa da ama, no campo,  extremamente sofrida. Segundo o mdico Buchan, as crianas amontoam-se em carroas mal cobertas e so to numerosas que as pobres amas se vem obrigadas a segui-las a p. As crianas mais frgeis no resistiam a esse tratamento e com freqncia as amas as devolviam aos pais, mortas, poucos dias aps a partida.
     Isto  apenas uma amostra do sofrimento reservado aos bebs que sobreviviam.  Em 1770, o mdico Gilbert reconheceria que a razo de tantos erros, freqentemente mortais, era a pobreza indescritvel dessas amas. Ele mostra que elas eram obrigadas a trabalhar na lavoura, passando a maior parte do dia longe de casa. "Durante esse tempo, a criana fica totalmente abandonada a si mesma, afogada em seus excrementos, estrangulada como um criminoso, devorada pelos mosquitos. (...) O leite que mama  um leite aquecido por um exerccio violento, um leite cido, seroso, amarelado. Assim, os acidentes mais terrveis as pem a um passo do tmulo."61 Alm disso, as amas eram mal nutridas, sofriam de sfilis e, por vezes, eram sarnentas ou portadoras de escorbuto. Suas doenas alteravam o leite e contaminavam o beb.
     Somente no sculo XVIII as amas passaram a dar leite de vaca aos bebs em pequenos chifres furados (precursores da mamadeira). Nesse caso, as crianas tambm no estavam a salvo, j que as amas desconheciam a quantidade de gua que deveria ser misturada ao leite.
     Acrescente-se a isso o uso de narcticos e aguardentes para fazer a criana dormir e ficar tranqila. Muitas morreram por dose excessiva. Mas, se suportasse tudo isso, a criana ainda teria que passar por outra prova terrvel: a sujeira e a falta de higiene. s vezes, passavam-se semanas sem que suas roupas ou a palha sobre a qual se deitava fossem trocadas.
     Novamente o mdico Gilbert testemunha, pessoalmente: "Quantas vezes, ao despirmos as crianas, no as vimos cobertas de excrementos que denunciam sua prolongada permanncia junto s exalaes empesteadas; a pele dessas infelizes estava toda inflamada, coberta de lceras srdidas.  nossa chegada, elas teriam trespassado o corao mais feroz com os seus gemidos; seu tormento pode ser avaliado pelo alvio imediato que sentiam quando eram libertadas e desamarradas. (...) Estavam inteiramente esfoladas e, se tocadas com um pouco menos de delicadeza, lanavam gritos pungentes. Nem todas as amas levam a negligncia a esse extremo revoltante. Mas podemos afianar que h muito poucas suficientemente vigilantes para conservar as crianas num estado satisfatrio de limpeza." 62
     Os bebs viviam imobilizados por faixas que causavam mal-estar e doenas. Eles eram vestidos, primeiro, com uma camisa que fazia vrias dobras e pregas, e sobre ela um cueiro. Em seguida, os braos eram colocados contra o peito e as crianas envolvidas com uma faixa larga, que lhes imobilizava braos e pernas. Dobravam-se fraldas e faixas entre as coxas e completava-se com uma faixa circular apertada ao mximo, dos ps ao pescoo. Acontecia tambm de o beb ser pendurado num prego durante horas, pela roupa, com a boa inteno de evitar que fosse comido ou ferido pelos animais da fazenda.
     As crianas permaneciam na casa da ama at os 4 ou 5 anos, s vezes at mais. Durante todo esse tempo, os pais parecem no se preocupar com o que acontece com o filho distante. Raramente o visitam. "O caso de Madame de Talleyrand, que em quatro anos no pede sequer uma vez notcias de seu filho, no  excepcional. E, no entanto, ao contrrio de tantas outras, Talleyrand tinha todas as facilidades para faz-lo. Sabia escrever, e o filho vivia com uma ama parisiense." 63 Quando uma criana volta ao lar paterno, geralmente est raqutica, com algum defeito fsico ou gravemente doente.
     No  de surpreender que a mortalidade infantil nos sculos XVII e XVIII seja considerada to banal.

A morte dos filhos
     
     No temos nenhuma dvida, hoje, de que a morte de um filho  uma dor irreparvel para a me. Mas no foi sempre assim. O que predominou at o final do sculo XVIII foi um sentimento de indiferena pela morte dos filhos, vista como um acidente corriqueiro que um nascimento posterior iria reparar.
     Um advogado casa-se em 1759. Tendo um filho por ano, perde sucessivamente seis deles, com idades que variam de alguns meses a seis anos. Ele anota a perda dos cinco primeiros sem nada acrescentar aos seus nomes. No sexto, faz um balano; "Assim, encontro-me sem filhos depois de ter tido seis rapazes. Bendita seja a vontade de Deus." 64
     H mes que, ao saber da morte de um filho em casa de uma ama, consolam-se sem buscar a causa disso, dizendo: "Mais um anjo no paraso."
     Ningum pensava em conservar a foto de uma criana que tivesse sobrevivido e se tornado adulta ou que tivesse morrido pequena. No primeiro caso, a infncia era apenas uma fase sem importncia, que no fazia sentido fixar na memria; no segundo, no se considerava que essa coisinha desaparecida to cedo fosse digna de lembrana.
     O sentimento de que se faziam vrias crianas para conservar apenas algumas era muito forte e assim permaneceu durante muito tempo. Ainda no sculo XVII, em Le caquet de l'accouche (O cacarejo da parturiente), vemos uma vizinha tranqilizar assim uma mulher inquieta, me de cinco pestes, e que acabara de dar  luz: "Antes que eles te possam causar muitos problemas, tu ters perdido a metade, e, quem sabe, todos." 65
     A indiferena pela morte dos filhos era tanta que em certas parquias, como em Anjou, nenhum dos pais se dava ao trabalho de comparecer ao enterro de um filho de menos de 5 anos.

O primeiro movimento feminista
     
     Antes do sculo XVII no havia ainda o sentimento de infncia, mas a maioria das mes amamentava e ficava junto com seus filhos at 8 ou 10 anos. O que aconteceu, ento, nos sculos XVII e XVIII?
     Enquanto os telogos do sculo XVI censuravam as mes por sua ternura pelos filhos, no final do sculo XVIII os intelectuais faro a censura inversa e criticaro a frieza e a indiferena.
     Badinter, em Sobre a identidade masculina, nos esclarece o que ocorreu com as mentalidades desse perodo e por que o sculo XVIII marca uma transformao que afeta e condiciona nossos valores at os dias de hoje.
     As mulheres comearam a experimentar uma vontade de emancipao e poder. As tarefas maternas no eram valorizadas pela sociedade, podendo ser consideradas vulgares ou, na melhor das hipteses, normais. Desejando ser consideradas, as mulheres precisavam buscar outro caminho diferente do da maternidade. As mais ricas, nobres ou burguesas, buscaram, para afirmar sua independncia, uma vida social refinada e uma vida cultural sem precedentes. O saber tradicional era exclusivamente reservado aos homens. Diz a autora: " fcil imaginar que as mulheres mais privilegiadas quiseram brilhar fora do lar, em lugar de permanecer confinadas em casa, entre os deveres de dona-de-casa e de me, que no lhes valia nenhum reconhecimento especfico. Dentro em pouco, j no pensavam seno em seu salo, no tinham mais tempo para se ocupar da famlia e da casa. Exclusivamente dedicadas a si mesmas, no tinham mais um segundo a consagrar a outrem." 66
     No incio do sculo XVII e aps 30 anos de guerras civis, os costumes franceses estavam impregnados de grosseria e brutalidade. Sua renovao partiu dos sales parisienses mantidos por mulheres com novas ambies.
     Nesse movimento de emancipao feminina surgem na Frana as preciosas, que estiveram na origem do questionamento do papel do homem e da mulher. O preciosismo francs nasceu como reao  grosseria dos homens da corte de Henrique IV e teve seu apogeu entre 1650 e 1660.  a primeira expresso do feminismo na Frana e na Inglaterra, os dois pases mais liberais da Europa em relao s mulheres. A francesa e a inglesa tinham toda a liberdade de ir e vir e se relacionar com o mundo. Se pertencessem s classes dominantes, beneficiavam-se de uma vantagem excepcional: a de no ter de suportar as tarefas maternas.
     A preciosa  uma mulher independente, que prope solues feministas ao seu desejo de emancipao e inverte totalmente os valores sociais tradicionais. Milita por um novo ideal de mulher, que leve em conta a possibilidade de ascenso social e o direito  dignidade. Reclama o direito ao conhecimento e ataca a pedra angular da sociedade falocrtica: o casamento. Contra a autoridade do pai e do marido, as preciosas mostram-se decididamente hostis ao casamento de convenincia e  maternidade. Maridos, filhos, famlias dos maridos so impiedosamente relegados  lista das desgraas da mulher. Preconizam o casamento de experincia e sua ruptura aps o nascimento do herdeiro, que seria colocado sob a guarda do pai.
     No querendo renunciar a nenhuma liberdade, nem ao amor, elas exaltaram os sentimentos ternos e platnicos. "Quero", declarava Mademoiselie de Scudry, "ter um amante sem ter um marido, e quero um amante que, contentando-se com a posse do meu corao, me ame at a morte."67 Essa  a situao oposta aos laos habituais entre homem e mulher, que se casavam sem amor. "Aos olhos das preciosas, o amor , acima de tudo, o sentimento do homem pela mulher, no o contrrio. Ao exigir do homem apaixonado uma submisso sem limites, prxima do masoquismo, elas invertem o modelo masculino dominante, o modelo do homem bruto e exigente, ou do marido grosseiro, que se Julga com direito a tudo." 68 Alguns homens  os preciosos  aceitaram as novas regras. Seu nmero era mnimo, mas sua influncia era grande.
     Invertendo totalmente os valores sociais de sua poca, as preciosas parisienses no foram, apesar do que se disse, um microcosmo ridculo. A resistncia to grande e as zombarias que a elas se opuseram so indcios de um prestgio no desprezvel.
     Molire as ironiza porque suas idias adquiriam alguma importncia no s na capital, mas tambm nas provncias. Com elas, so cruelmente ridicularizadas todas as pretensiosas de provncia, que querem escapar  sua condio social e feminina. Elas afirmam inabilmente suas aspiraes mundanas, no s para sair de sua classe pequeno-burguesa, mas tambm para melhor se opor  sua vida futura de me de famlia.
     Ridculas, talvez, para todos os que no toleram que se deseje deixar a condio original, sua inabilidade no impediu a propagao de algumas de suas idias. Nos meios que se pretendiam refinados, os homens mudaram sensivelmente de atitude para com suas esposas ou amantes. Os valores familiares perderam seu peso, embora essas preciosas tenham tido inimigas entre as que pensavam que a integridade moral prescrevia a uma dama que se restringisse a ser mulher de seu marido, me de seus filhos e senhora de seus escravos.
     Outros adversrios renitentes foram os burgueses apegados aos valores tradicionais que consideravam as mulheres apenas como as primeiras escravas de suas casas, e proibiam s suas filhas ler outros livros afora os que lhes serviam para orar.
     O contedo do ensino das meninas foi de uma mediocridade espantosa at a primeira metade do sculo XIX, pois s havia uma finalidade: torn-las esposas dedicadas e donas de casa eficientes.
     A despeito de toda educao intelectual lhes ter sido proibida, as preciosas tinham grande ambio intelectual, Pais e maridos, porm, no viam com bons olhos essa avidez de cultura. No podendo eliminar a causa, tudo fizeram para minorar os efeitos. Do fim do sculo XVI a meados do sculo XVIII, a maior parte dos homens, e os mais eminentes, uniu-se para tentar, com um mesmo discurso, dissuadi-las de seguir esse caminho. De Montaigne a Rousseau, passando por Molire e Fnelon, exortam-nas a voltar s suas funes naturais de dona-de-casa e me. O saber, dizem eles, estraga a mulher, distraindo-a de seus deveres mais sagrados.
     Fnelon, no incio do sculo XVIII,  bastante severo ao declarar que uma moa s deve falar quando necessrio e, mesmo assim, manifestando dvida, respeito e recato, at em relao  cincia. No deve tratar de assuntos colocados fora do alcance comum das moas, mesmo as mais instrudas. A curiosidade cientfica  comparada a um impudor prximo do delito sexual.
     A Revoluo Francesa, em 1789, interrompeu esse processo de emancipao das mulheres. Quando publicamente elas reivindicaram seus direitos de cidads, a Conveno, por unanimidade, recusou. Foi reafirmada a separao e a diferena radical dos sexos. Fora do lar, foram consideradas perigosas  ordem pblica. Exortadas a no se misturar com os homens, lhes foi proibida a mais insignificante funo que no fosse domstica e maternal.

A construo do amor materno
     
     A me que hoje conhecemos, amorosa, dedicada e culpada, comeou a ser moldada no final do sculo XVIII. Houve uma revoluo das mentalidades, em que a imagem da me, seu papel e sua importncia modificaram-se radicalmente. Passados 200 anos, ningum questiona o amor materno. Acredita-se que  um instinto, um amor espontneo da me pelo filho. No se fala, porm, da rdua luta de mais de 100 anos para que todos absorvessem essa nova ideologia.
      evidente que o sentimento de amor materno sempre existiu, no em todas as mulheres, mas em todas as pocas e lugares. A exaltao desse amor como valor natural e favorvel  espcie e  sociedade  que constitui novidade. Sem dvida, as crianas lucraram muito, mas  importante assinalar que a construo do amor materno no foi motivada por uma questo humanitria, para minorar o sofrimento a que eram submetidas. A principal razo foi a necessidade de fazer frente  nova ordem econmica que surgia nas sociedades industrializadas.
     Desponta, nessa poca, uma nova cincia: a demografia. Passa-se a tomar conscincia da importncia da populao de um pas e a temer o despovoamento. A criana adquire um novo valor por representar, potencialmente, uma riqueza econmica e garantir o poderio militar. As perdas humanas so vistas ento como um prejuzo para o Estado. Em 1770, Diderot resume a nova ideologia nos seguintes termos: "Um Estado s  poderoso na medida em que  povoado (...) em que os braos que manufaturam e os que defendem so mais numerosos." 69
     A mulher  promovida como me, na mesma medida em que declina o poder do pai. Anteriormente, se insistia na autoridade do pai, pois o que mais importava era formar sditos dceis para Sua Majestade. Nesse final do sculo XVIII, quando o rei j tinha sido executado e as fbricas proliferavam, era necessrio produzir seres humanos para trabalhar e enriquecer o Estado.
     A mortalidade infantil deve ser impedida a qualquer preo. A providncia imediata  salvar as crianas, futura mo-de-obra. A primeira etapa da vida que, como vimos, os pais negligenciavam, torna-se para a classe dirigente uma prioridade.
     Como reverter esse quadro? De que forma conseguir que as mes se interessem pelos filhos, cuidando pessoalmente deles e os amamentando?
     Inmeras publicaes incutem nas mulheres a importncia da maternidade. Rousseau foi um dos mais influentes com a publicao de mile, em 1762: "Do cuidado das mulheres depende a primeira educao dos homens; das mulheres dependem ainda os seus costumes. (...) Assim, educar os homens quando so jovens, cuidar deles quando grandes, aconselh-los, consol-los (...) eis os deveres das mulheres em todos os tempos." 70
     Mdicos, pensadores, administradores, pedagogos e at mesmo os chefes de polcia de Lyon e de Paris repetem incansvelmente os mesmos argumentos para convencer as mulheres a cuidarem de seus filhos. Algumas, pouco numerosas, so receptivas a essas idias, mas no as pem em prtica. So necessrias vrias dcadas e muita argumentao e sermes para que as mulheres se resolvam, por fim, "a cumprir seus deveres de me".
     A resistncia das mulheres  to grande, que se apela para promessas e ameaas. Elogia-se a beleza das lactantes, a frescura de sua pele, as propores do peito e a aparncia saudvel que tm. Prometem s mes que amamentam mltiplas vantagens: no s o carinho dos filhos, mas tambm um apego slido e constante de seu marido, que lhe ser mais fiel, e juntos vivero uma unio mais doce.
     Caso as mulheres no se sensibilizassem com os argumentos da sade, da beleza ou da felicidade, acrescentava-se o da glria. Rousseau no teme lisonjear a vaidade feminina ao ousar prometer  me que amamentasse "a estima e o respeito pblico (...) o prazer de se ver imitada um dia pela filha, e citada como exemplo  filha de um outro".71
     s mes que se negam a amamentar no faltam ameaas. Prometem toda espcie de enfermidade, Desde o perigo de o leite vazar para qualquer rgo estranho e provocar doenas fatais ou, at mesmo, a morte sbita. Garantem que a natureza sabe se vingar cruelmente das mulheres que lhe desobedecem e, o que  mais grave ainda, as acusam de estar cometendo um pecado contra Deus.

A nova me
       
     Aps essa luta incessante, as mentalidades comeam a mudar. A me passa a amamentar ela prpria seu filho e abandona a moda tradicional da faixa que aprisiona o beb, que agora pode toc-la e conhec-la, enquanto ela o abraa e acaricia. Hbitos de higiene corporal so adotados, o banho torna-se dirio.
     O exerccio fsico tambm  incentivado. Rousseau recomenda que se vista a criana com roupas soltas e largas que deixem seus membros em liberdade e no lhe dificultem os movimentos: "Quando a criana comea a se fortalecer, deixai-a engatinhar pelo aposento; deixai-a desenvolver-se, estender os pequenos membros, e vereis como se fortalece a cada dia. Comparai-a com uma criana bem enfaixada, da mesma idade, e ficareis espantada com a diferena em seus progressos."72
     A mulher se apaga, agora, em favor da boa me. Suas responsabilidades aumentam, no tem mais tempo livre, mas aceita sacrificar-se para que seu filho viva bem e junto a ela.
     A morte da criana  vivida como um drama que atinge toda a famlia. A vigilncia materna se torna ilimitada. Incansvel, a me cuida do filho dia e noite. Qualquer coisa que acontea  um tombo, um corte, ou mesmo uma gripe  a enche de culpa pelo pior crime materno: a negligncia. No amar os filhos tornou-se um crime sem perdo. A boa me  carinhosa, ou no  uma boa me. Ela no suporta mais o rigor e a inflexibilidade demonstrados antes para com a criana. Elisabeth Badinter assim define a nova mulher: "Esse trabalho de tempo integral a monopoliza totalmente. Cuidar dos filhos, vigi-los e educ-los exige sua presena efetiva no lar. Totalmente entregue s suas novas obrigaes, no tem mais tempo nem desejo de freqentar os sales e fazer vida mundana. Seus filhos so suas nicas ambies e ela sonha para eles um futuro mais brilhante e mais seguro ainda do que o seu. A nova me  essa mulher que conhecemos bem, que investe todos os seus desejos de poder na pessoa de seus filhos. (...) D a eles o melhor de si mesma. As longas separaes de outrora parecem-lhe insuportveis. Tem necessidade de sua presena  sua volta, ao mesmo tempo porque os ama mais e porque eles so sua principal razo de mulher,  'a sua casa', fechada s influncias externas." 73
     Com a nova mulher surge a nova famlia. O pai tambm se adapta ao lar entre sua mulher e seus filhos. Um prefeito constata isso na dcada de 1820, em Marselha: "Antes da revoluo vivia-se mais fora do que dentro, e os homens passavam grande parte do tempo no caf, no crculo de amigos, no teatro. Hoje, os locais de reunio so ainda freqentados, mas em geral os pais de famlia raramente ali vo." 74
     Essa  a famlia que conhecemos. A me  o seu eixo e a criana o centro das atenes. O cultivo da me como um ser especial faz dela, ao mesmo tempo, a dona-de-casa dedicada e sofredora e a rainha do lar, a patroa. O pai  o nico responsvel pelo bem-estar material da famlia, porque, nessa poca,  mais uma vez vetada s mulheres qualquer possibilidade de atividade fora do lar.
     A modificao desses costumes foi bastante lenta. Muitas mulheres recusaram-se a se conformar ao novo modelo. As primeiras a se adaptar foram as da burguesia (classe mdia), que no tinham ambies mundanas, nem pretenses intelectuais, nem necessidade de trabalhar ao lado do marido. Aquelas que, um sculo antes, tinham abandonado os filhos por conformismo, preguia ou falta de motivao, mais do que por necessidade. A mulher da classe mdia viu nessa nova funo a oportunidade de ascender e de ser mais livre, o que no era o objetivo da aristocracia. Ela deixa de ser para o marido, como outrora, uma criana entre as crianas que  preciso proteger e governar. A me burguesa mantm a casa com autoridade e orgulho.
     As mulheres das classes dominantes foram as primeiras a se separar dos filhos e as ltimas a modificar seus hbitos. Procuravam demonstrar, assim, a distncia que as separava das atitudes da mdia burguesia. Recusavam claramente o papel de boa me de famlia.
     A maternidade, contudo, foi se tornando cada vez mais um papel gratificante, por estar impregnado de ideal. "O modo como se fala dessa 'nobre funo', com um vocabulrio tomado  religio (evoca-se freqentemente a 'vocao' ou o 'sacrifcio' materno), indica que um novo aspecto mstico  associado ao papel materno. A me  agora usualmente comparada a uma santa, e se criar o hbito de pensar que toda me  uma 'santa mulher'. A padroeira natural dessa nova me  a Virgem Maria, cuja vida inteira testemunha seu devotamento ao filho. Ter sido por acaso que o sculo XIX a glorificou, criando a festa da Assuno?" 75
     Mesmo que toda essa propaganda intensiva, desencadeada h 200 anos e alimentada at hoje, no tenha conseguido transformar todas as mulheres em mes extremadas, sem dvida alguma produziu nelas um grande efeito.  inegvel a profunda mudana havida: as mulheres se sentiam cada vez mais responsveis pelos filhos. Caso no pudessem assumir sua obrigao, consideravam-se culpadas. "Nesse sentido, Rousseau obteve um sucesso muito significativo. A culpa dominou o corao das mulheres." 76

A me contempornea
     
     No cenrio atual, o homem comea, aos poucos, a participar mais da educao dos filhos, mas s mes ainda cabe uma parcela maior de responsabilidade  e de cobranas  pelo que acontece com o filho. Sua educao, seu lazer, seus estudos, sua sexualidade. Enfim, sua felicidade ou sua desgraa.
     No sculo XX e ainda hoje as mes ouvem incansavelmente as mesmas advertncias de seus maridos e ex-maridos, pais de seus filhos:
"Voc no toma conta da sua filha, ela chega muito tarde em casa. Se acontecer alguma coisa, a culpada  voc."

"Ele v televiso o dia todo. Voc nem presta ateno nele. Se repetir o ano, a culpa  sua."

"Seu filho no pra em casa. Voc no sabe nem com quem ele anda. De repente vira um drogado e a responsabilidade  sua."

"Voc est Saindo muito. Est abandonando as crianas. V l o que pode acontecer!"

"Voc mima muito esse menino. Desse jeito vai virar veado."
     
     E da responsabilidade  culpa foi muito rpido.
     Algumas mulheres se adaptam e, orgulhosas, correspondem ao que delas se espera. Outras, talvez a maioria, que no conseguem, apesar do esforo, desempenhar to bem esse papel imposto, angustiam-se e so atormentadas pela culpa. "A razo  simples: tomava-se o cuidado de definir a 'natureza feminina' de tal modo que ela implicasse todas as caractersticas da boa me." 77 E a boa me, a normal,  dedicada e se sacrifica pelo filho sem reclamar. Sabe sempre o que  melhor para ele. Na realidade, somente isso lhe d o verdadeiro prazer na vida. "Fechadas nesse esquema por vozes to autorizadas, como podiam as mulheres escapar ao que se convencionara chamar de sua 'natureza'? Ou tentavam imitar o melhor possvel o modelo imposto, reforando com isso sua autoridade, ou tentavam distanciar-se dele e tinham de pagar caro por isso. Acusada de egosmo, de maldade, e at de desequilbrio, quela que desafiava a ideologia dominante s restava assumir, mais ou menos bem, sua 'anormalidade'. Ora, a anormalidade, como toda diferena,  difcil de se viver. As mulheres submeteram-se, portanto, silenciosamente, algumas tranqilas, outras frustradas e infelizes." 78
     A maior expectativa que ainda hoje se tem em relao  mulher  que seja me. Por ser capaz de ter filhos, supe-se que, naturalmente, deseje t-los. Olha-se com piedade para as mulheres que no os tm e com desprezo e crtica para as que no querem t-los, considerando-as at portadoras de um grave problema mental.
     A presso ideolgica  tanta que muitas mulheres se convencem que desejam ter filhos sem que esse desejo realmente exista. Nesse caso, a maternidade  vivida com muita frustrao e culpa.
     "Talvez tenham feito o mximo esforo para imitar a boa me, mas, no encontrando nisso a prpria satisfao, estragam sua vida e a de seus filhos. A est, provavelmente, a origem comum da infelicidade e, mais tarde, da neurose de muitas crianas e de suas mes." 79 Em todos os aspectos, a culpa materna nunca foi to grande como no sculo XX e at hoje.
     As mulheres sofrem constante patrulhamento, velado ou explcito, da sua conduta como mes. Diferentemente de dcadas atrs, hoje existem muitas possibilidades de lazer, de desenvolver interesses variados e de fazer novos amigos.  cada vez mais difcil resistir a esses apelos e continuar desempenhando o papel de me abnegada que vive s para os filhos.
     A sensao de estar transgredindo o modelo de boa me determinado como natural torna a mulher vulnervel a crticas. Disso se aproveitam no s as pessoas que a cercam, como tambm as instituies empenhadas em mant-las sob controle. Cada uma delas, acenando com o crime de abandono dos filhos, tenta imobilizar a mulher na funo de me. Quase sempre, os motivos dos ataques so pessoais e inconscientes, mas, amparados pelos dogmas da maternidade, adquirem aparncia de verdade indiscutvel.
     Dessa forma, os filhos so usados como pretexto para que maridos ciumentos, ex-maridos rejeitados, mes e amigas invejosas projetem suas impossibilidades na mulher que ousa desafiar a moral vigente.
     
     Mara, professora, de 28 anos, est separada h um ano. Vive com a filha de 2 anos, e para ela a separao foi um grande alvio. No suportava mais a infelicidade em que vivia nos ltimos tempos de casada, nem a exausto que lhe causou a batalha para conseguir que o marido sasse de casa. Reencontrou antigos amigos e logo comeou a renascer.
     Sua me, viva dedicada  famlia, estava sempre presente. Apoiava a separao, desde que pudesse ter a filha e a neta  sua volta. Havia perdido o marido aos 35 anos e, submetida aos preconceitos da sua gerao, nunca tivera liberdade de namorar e muito menos de ter vida sexual. Indignava-se cada vez que Mara saa e chegava tarde em casa. Embora a percebesse alegre e muito mais disposta para as funes maternas, conseguiu transformar a vida de Mara num inferno.

     "Ela me ataca o tempo todo. Diz que sou pssima me, que abandono minha filha. Cada vez que saio para me divertir  um problema. Ela grita, fica transtornada. Chegou a dizer que se meu ex-marido pedisse a posse e guarda de Lusa, ela iria depor no tribunal contra mim. O curioso  que se eu passar dia e noite fora, mas trabalhando ou estudando, ela acha timo. Atualmente, s tenho paz quando fico doente ou triste. A, ela  carinhosa, at solcita. No tenho mais dvidas. Para viver bem com a minha me, s se eu aceitar ser infeliz."
     
     Enquanto isso, o prestgio do pai aumenta,  medida que se torna melhor provedor. O bom pai  aquele que sustenta sua famlia, no permitindo que nada material lhe falte.
     Os argumentos comuns para justificar a no participao do pai na educao dos filhos variam desde sua incapacidade para esse trabalho at os negcios e as preocupaes que absorvem os chefes de famlia. No teriam mais tempo nem a disponibilidade emocional para assumir uma funo educativa. Houve quem alegasse tambm que "nada na natureza do homem predispe a relaes afetivas com o filho. Este  um estranho para ele, que vive num universo em que a infncia e as regras da afeio que a governam esto excludas. Da sua incompreenso, sua severidade e sua impacincia. Habituado a lutar com a dura necessidade exterior, no pode aceitar os caprichos, os sonhos e a fraqueza infantil que so, em contrapartida, familiares  me".80
     Um dentista de 40 anos comenta a estranheza que sente quando presencia a relao de intimidade de algum com o pai:
     
"Desde que me entendo por gente, nunca vi meu pai dirigir a palavra a mim ou a qualquer um dos meus irmos. No me lembro de ele ter me posto no colo ou feito algum carinho. Era um homem muito ocupado. Quando ele chegava  noite em casa, minha me rapidamente nos punha para brincar no quarto para no perturb-lo. Ele se trancava no escritrio e s me lembro que no podamos fazer nenhum barulho. Cresci acreditando que fosse assim com todo mundo."
     
     O estabelecimento do amor materno foi alcanado com amplo sucesso. Toda me se sacrifica com prazer pelos filhos, e as excees so consideradas desvios patolgicos.
     Na histria, no  novidade que o ser humano se torna passivo e frgil diante de um sistema social com o poder de submet-lo a ideologias fabricadas de acordo com seus interesses. Dessa forma, crenas to arraigadas, vividas como verdades indiscutveis, vo sendo incutidas nas pessoas que as defendem como se fossem suas.
     Os valores de uma sociedade so, na maioria das vezes, to imperiosos que determinam at os desejos. No question-los  permitir sua influncia autoritria, E abrir mo da autonomia e, impotentes, se deixar manipular como marionetes.

A famlia
     
     Antes das transformaes do final do sculo XVIII, as famlias eram bem grandes  pai, me, tios, sobrinhos, avs , permaneciam prximas ou, como no campo, viviam juntas no mesmo lugar. Esse tipo de famlia, pela fora de sua unio, d segurana e proteo s pessoas. O trabalho industrial foi trazendo os indivduos para a cidade, cortando os laos familiares.
     A famlia nuclear (pai, me e um a trs filhos)  isolada e pequena demais  o que acarreta uma sobrecarga de preocupaes aos participantes. "Cada um por si e Deus por todos",  o lema. Esse medo faz as pessoas se manterem trabalhando, e a ambio  subir na vida.81 Assim, a famlia nuclear se atrela ao processo econmico, dando-lhe grande impulso. A economia gira em torno do lar. No havendo mais ajuda recproca entre os membros, as rivalidades e invejas familiares entram no cenrio. Quando as pessoas comeam a trabalhar, criam-se distncias entre os membros da mesma famlia, em funo da renda e do status que cada um vai adquirindo.82
     A famlia grande no interessa a uma sociedade industrial.  mais vantajoso para o consumo que existam vrias famlias pequenas comprando os produtos fabricados. O nmero de famlias determina o nmero de casas, geladeiras, tevs, carros, aparelhos de som etc. que so vendidos.
     Nessa nova famlia, como vimos anteriormente, o homem se afasta de casa para trabalhar nas fbricas e nos escritrios e a mulher se fecha no espao privado do lar, cuidando dos filhos. Para que esse sistema funcione bem,  inaugurado o amor romntico. "Podemos afirmar mesmo que, grosso modo, o amor aparece como instituio ao mesmo tempo que a industrializao. O amor entre homens e mulheres  filho das grandes cidades. (...) A mulher seria a salvadora do homem das tentaes do poder, com seus valores de dedicao e auto-sacrifcio, completamente opostos ao egosmo e ao desejo de poder dos homens."83

Inaugura-se o amor romntico
       
     A necessidade de sobrevivncia foi o que sustentou durante milnios o casamento e a famlia. Os casamentos eram contrados por questes econmicas, no sendo o amor uma condio.
     Ao contrrio, era at evitado. "A maior parte das civilizaes parece ter criado histrias e mitos que carregam a mensagem de que aqueles que buscam criar ligaes permanentes devido a um amor apaixonado so condenados." 84
     O amor apaixonado  um fenmeno encontrado em todas as pocas e lugares, mas se diferencia do amor romntico, que  culturalmente especfico do Ocidente. A sociedade ocidental moderna  a nica cultura da histria que tem a experincia do amor romntico como um fenmeno de massa. Somos os nicos a cultivar o ideal do amor romntico e a fazer do romance a base de casamentos e relacionamentos amorosos. Os orientais no vivem o amor dessa forma. Eles no impem aos seus relacionamentos os mesmos ideais. Suas exigncias e expectativas tambm so diferentes.85
     O amor romntico no  apenas uma forma de amor, mas todo um conjunto psicolgico  uma combinao de ideais, crenas, atitudes e expectativas. Essas idias coexistem no inconsciente das pessoas e dominam seus comportamentos e reaes. Inconscientemente, predetermina-se como deve ser o relacionamento com outra pessoa, o que se deve sentir e como reagir.86
     Nas ligaes do amor romntico, o elemento do amor sublime tende a predominar sobre o ardor sexual. A virtude passa a significar qualidades de carter que distinguem a outra pessoa como especial.
      comum considerar que o amor romntico implica atrao instantnea  amor  primeira vista. Entretanto, como a atrao imediata faz parte do amor romntico, ela tem de ser completamente separada das compulses sexuais/erticas da paixo sexual. "O primeiro olhar  uma atitude comunicativa, uma apreenso intuitiva das qualidades do outro.  um processo de atrao por algum que pode tornar a vida de outro algum, digamos assim, 'completa'." 87
     Presume algum grau de questionamento. "O que eu sinto em relao ao outro? Como o outro se sente a meu respeito? Ser que os nossos sentimentos so 'profundos' o bastante para suportar um envolvimento prolongado?" "Proporciona uma trajetria de vida prolongada, orientada para um futuro previsto, mas malevel; e cria uma 'histria compartilhada' que ajuda a separar o relacionamento conjugal de outros aspectos da organizao familiar, conferindo-lhe uma prioridade especial." 88  associado claramente ao casamento e  maternidade e  idia de que o verdadeiro amor  para sempre. Torna-se incompatvel com o ardor sexual, j que se idealiza o ser amado como parceiro de um encontro de almas que tem um carter reparador. "O outro, seja quem for, preenche um vazio que o indivduo sequer necessariamente reconhece  at que a relao de amor seja iniciada. E esse vazio tem diretamente a ver com a auto-identidade: em certo sentido, o indivduo fragmentado torna-se inteiro." 89
     At muito pouco tempo, a todos os ideais do amor romntico acrescentava-se a idia de que o casamento  para sempre. Um casamento eficaz, embora gerando muita infelicidade, era sustentado por uma diviso de trabalho entre os sexos. O marido dominando o trabalho remunerado e a mulher, o trabalho domstico. O confinamento da sexualidade feminina ao casamento era importante como smbolo da mulher respeitvel.
     Os homens resolviam as tenses entre o amor romntico e o prazer sexual separando o conforto do ambiente domstico da sexualidade da amante ou da prostituta.
     
     Judith, de 74 anos, cuida h seis meses do marido enfermo. Orgulhosa, fala dos filhos, dos netos e das bodas de ouro que comemorou no ano passado. Sempre se sentiu considerada e respeitada pela famlia, a rainha do lar. Em todos os problemas domsticos dava a ltima palavra. Suas convices so inabalveis em relao  vida ntima nesses anos todos com o marido:
     
"Sempre fiz questo de ser uma mulher respeitvel. Deixei muito claro, desde o incio, que sou a esposa, a me. As porcarias, ele que procurasse fora de casa."
    
A mulher feminina
      
     O novo papel da mulher, a me idealizada, originou uma nova concepo de feminilidade. A imagem da esposa e me reforou um modelo de dois sexos das atividades e dos sentimentos. Associou-se maternidade  feminilidade, como sendo atributos da personalidade  atributos impregnados de concepes bastante firmes a respeito do sexo feminino.90
     Um artigo sobre casamento, publicado em 1839, observa que "o homem exerce domnio sobre a pessoa e a conduta de sua esposa. Ela exerce o domnio sobre as inclinaes do marido; ele governa pela lei; ela governa pela persuaso. (...) O imprio da mulher  o imprio da suavidade (...) suas ordens so as carcias, as ameaas, as lgrimas".91
     As idias sobre a maternidade e o amor romntico estavam associadas  subordinao da mulher ao lar e ao seu relativo isolamento do mundo exterior. "Como agora a mulher fica reduzida a seu papel de procriadora, o lar passa a ser considerado uma ilha de amor dentro de um mundo destruidor e brutal. A mulher virtuosa passa a ser sua rainha. E os pilares da sua nova feminilidade so: a pureza, a piedade religiosa e a submisso."92

A construo da mulher feminina
     
     A primeira coisa que se quer saber quando nasce um beb  se  menina ou menino. O papel social que ele dever desempenhar est claramente definido: feminino ou masculino. Os padres de comportamento so distintos e determinados para cada um dos sexos. A expectativa da sociedade  de que as pessoas cumpram seu papel sexual, que sofre variaes de acordo com a poca e o lugar. At algumas dcadas, no se admitia que um homem usasse cabelo comprido e muito menos brinco. Eram coisas femininas. As mulheres no sonhavam usar calas, nem dirigir automveis. Era masculino.
     "Em geral, a cultura do Ocidente no tolera muito bem a ambigidade, a falta de definio clara. Costumamos nos irritar diante de nuanas e exigimos, muitas vezes de forma peremptria, a distino exata entre o que convencionalmente chamamos homem e o que tambm convencionalmente chamamos mulher." 93
     Atitudes e comportamentos femininos e masculinos so ensinados s crianas desde muito cedo e, dessa forma, vo sendo assimilados a ponto de serem confundidos, mais tarde, como fazendo parte de suas naturezas. Sem dvida, existe uma diferena ntida nas atitudes sociais dos homens e das mulheres e  fcil, ento, concluir que so realmente diferentes. "Na realidade, a natureza s traz a anatomia e a fisiologia. Tudo mais  produto de cada cultura e de cada grupo social." 94
     Logo que um beb nasce, os pais e as pessoas que o cercam comeam a ensinar-lhe atravs de gestos, do jeito de falar, da escolha de brinquedos e roupas, a que sexo pertence. A maneira como a criana  percebida  determinante para a sua identidade sexual.
     Uma pesquisa feita com pais e mes 24 horas aps o nascimento de seus filhos trouxe dados bastante significativos. Perguntados sobre a impresso que tinham dos bebs  todos normais, mesmo peso e altura, s vistos atravs do vidro do berrio e aps um nico contato com as mes , eles usavam muito mais a palavra grande para os filhos do que para as filhas, e bonita, engraadinha e tranqila para as filhas. As meninas tinham traos finos e os meninos, feies marcantes. "Ambos os genitores tendem a estereotipar seu beb, mas os questionrios mostram que essa tendncia  mais acentuada no pai." 95
     Outra experincia batizada de "baby X" chegou s mesmas concluses. Vestiram um beb de amarelo. Dividiram 42 adultos em trs grupos. Ao primeiro disseram que era uma menina, ao segundo, que era um menino, e ao terceiro, que era um beb de trs meses, sem informar o sexo. Os adultos, ento, brincaram com o beb. O relacionamento deles foi diferente de acordo com a informao recebida. No terceiro grupo, os homens ficaram mais ansiosos que as mulheres e a maioria atribua um sexo  criana, "justificando sua escolha por indcios condizentes com os esteretipos".96
     A roupinha azul para o menino e a rosa para a menina inauguram as diferenas marcantes que a partir de ento a sociedade vai delinear.
     Os bebs meninas so mais carregados no colo que os bebs meninos. Os pais so mais vigorosos e violentos ao brincar com os meninos. Isso tem um resultado imediato: as meninas so menos agressivas que os meninos. Espera-se que seja assim.
     As meninas ganham bonecas, panelinhas e casinhas, enquanto os meninos recebem presentes como carrinhos, armas, bolas de futebol. Se um menino gosta de brincar com as meninas de casinha, fazendo comida para as bonecas, raros so os pais que no se afligem. Imediatamente, sugerem que ele v brincar com coisas de menino (depois ningum entende por que os homens no ajudam no trabalho domstico).
     Espera-se que as meninas sejam gentis, meigas, delicadas, fechem as pernas ao sentar e no falem palavro. Caso contrrio, so logo repreendidas com severidade: "Isso no so modos de uma menina." Juan Carlos Kusnetzoff, no livro A mulher sexualmente feliz, relata uma pesquisa realizada em Montevidu, demonstrando que a mulher, desde a idade escolar, no pode dispor do mesmo espao fsico que o homem. H uma limitao de seus movimentos e, alm disso, ela no tem o poder de dispor sobre o seu tempo livre.
     O comportamento de meninas e meninos do ensino bsico foi observado no prprio ambiente de estudo e recreao. Os meninos acusavam as meninas de egostas, de no emprestar seu material escolar. As meninas concordavam com isso, alegando que os meninos so grosseiros, agressivos, e que se apropriam do material delas. Isso ocorre desde os primeiros dias de aula do primeiro ano, o que deixa claro os valores e as expectativas que as meninas trazem de casa.
     "O material  extenso do corpo da menina e mesmo nessa tenra idade ela sabe que no deve emprestar (o material e o corpo) aos colegas do sexo oposto. 'Eles querem apenas isso.' 'Querem s us-las.'" 97 As meninas perdem o material escolar com muito menos freqncia que os meninos e, para eles, os pais o repem com mais rapidez.
     "Como se pode ver, numerosos e significativos padres j esto sendo assimilados e fixados nessa idade: o sentido de posse e de cuidado; a responsabilidade pela perda; a diferenciao no que se refere aos mesmos valores em relao ao sexo oposto; a possibilidade de movimento e conquista de espao." 98
     As professoras costumam sentar os meninos junto das meninas, alegando que a menina, mais atenta, mais disciplinada e boazinha, acalma o menino, sempre inquieto e impulsivo. "Ou seja, desde pequena, a mulher cuida do homem, limitando os movimentos dele e limitando-se." 99
     Em alguns pases,  no uso do uniforme tipo avental que essa ideologia se evidencia mais dramaticamente. Os meninos usam uniforme abotoado na frente, enquanto o das meninas  pregueado, com um lao e botes atrs. Isso faz com que as meninas precisem de ajuda para vestir, abotoar, desabotoar e despir o avental. "Pode ser que esse costume no vigore em muitas regies ou grupos sociais, hoje em dia, mas serve para exemplificar como se transmite a ideologia. (...) O avental das meninas  o princpio em que se acertam e se aperfeioam a opresso e dependncia." 100
     As meninas devem sempre recorrer a algum que as ajude. Mas a situao se torna realmente trgica e ridcula na hora do recreio, quando costumam ir ao banheiro. As meninas invejam a rapidez e comodidade dos meninos, que dispem de mais tempo de recreio e diverso, esperando at o ltimo momento para ir ao banheiro, enquanto elas se vem atrapalhadas e freadas por aquela roupa. "Esses conceitos de tempo e espao, assimilados em criana, vo evoluir no psiquismo com conseqncias na sexualidade adulta." 101

A menina torna-se mulher feminina
     
     Ao contrrio do homem, que  estimulado a ser independente desde que nasce, a mulher no  criada para defender-se e cuidar de si prpria. Quando adolescente, continua sendo treinada para a dependncia. No deve sair sozinha (um irmo  solicitado a acompanh-la), seus horrios so mais controlados,  cobrada a permanecer mais tempo em casa. Por mais que estude e faa planos profissionais para o futuro, alimenta o sonho de um dia encontrar algum que ir proteg-la e dar significado  sua vida, no dando nfase a uma profisso que a torne de fato independente.
     O principal objetivo para a maioria continua sendo o casamento, visto como insubstituvel fonte de segurana e usado como arma ideolgica contra a mulher: "Uma pessoa s se realiza no casamento"; "Como voc vai se manter se no casar?"; "Uma mulher no pode viver sozinha"; "A verdadeira felicidade da mulher  ter filhos." Esses slogans so repetidos incansavelmente, mesmo que de forma subliminar.
     Em muitos casos, o movimento de emancipao e as exigncias prticas da vida no permitem que a mulher se esconda sob a proteo do pai ou marido. Mas a liberdade a assusta. Foi ensinada a acreditar que, por ser mulher, no  capaz de viver por conta prpria, que  frgil, com absoluta necessidade de proteo. Muitas acreditam at que serem sustentadas  um direito pelo fato de serem mulheres.
     Desde a infncia, a mulher desenvolve uma grande dvida interna quanto a sua competncia e, quando porventura surge uma chance de conseguir independncia, se assusta e volta atrs.
     Carmem casou pouco depois de terminar a faculdade, sem que comeasse a trabalhar. Hoje, com 43 anos e trs filhos, tenta descobrir um meio de ganhar dinheiro. Depende totalmente do marido. As brigas so freqentes em casa, algumas to srias que ela tem de passar alguns dias na casa de algum. Nessas ocasies, ele retira o talo de cheques da conta conjunta, a chave do carro, e no lhe deixa dinheiro nem para o nibus.
     Sua ltima tentativa rumo  independncia econmica parecia promissora. Comeou a confeccionar camisetas de malha com estampas feitas a mo por ela mesma. As amigas adoraram e as vendas se intensificaram. Mas, de repente...
     
"No sei o que aconteceu comigo. Uma loja encomendou um nmero grande de camisetas. S que eu no consigo ter nimo nem para comprar a malha. Acho que agora no d mais, j passou do dia combinado para a entrega."
     
     No caso de Carmem, outro fator pesa na sua imobilidade, Sempre que se empolga com um trabalho, o marido fica emburrado, afirmando que ela est dando pouca ateno aos filhos.
     Outras mulheres que acreditam na sua competncia muitas vezes temem desapontar as expectativas do homem e representam o papel feminino.
     Um estudo sobre a masculinidade e a feminilidade a partir de uma perspectiva da infncia descreve os estgios da aprendizagem do respeito ao sexo masculino. So eles: afirmao (dos 6 aos 10 anos), no qual as garotas tm rancor dos meninos; ambivalncia (dos 10 aos 14 anos), quando as garotas comeam a se desviar para o lado dos meninos; e acomodao (dos 14 em diante), no qual as garotas aceitam a "necessidade do apoio masculino".102
     Tanto a mulher que se sente insegura e frgil quanto a que se sabe competente, mas representa o papel feminino para agradar ao homem, so mulheres dependentes. Ambas acreditam necessitar de um homem ao seu lado, sem o qual no imaginam poder viver.
     O movimento feminista da dcada de 1960 fez com que muitas mulheres se rebelassem contra o eterno papel de donas de casa e mes. Muitas, contudo, aceitam ainda servir de tela para os homens projetarem seus desejos. Acabaram convencidas de que seu papel no  o de um ser humano, mas o espelho que reflete o ideal e a fantasia do homem.103
     Para a maioria das mulheres, ser mulher significa ajustar sua imagem de acordo com as necessidades e exigncias dos homens. "A multido de atributos expostos nesse papel  maneiras respeitosas, olhar recatado, sorriso constante, a risada que confirma, entonao crescente, gestos fsicos cautelosos e assim por diante  foi adequadamente chamada de atitudes de acomodao." 104
     
     Ana tem 45 anos, duas filhas casadas e est separada h muito tempo. No v o marido desde a separao, e sustentou e criou sozinha as meninas. Muito ativa e esforada, consegue viver em relativo conforto vendendo artigos que pega em consignao.
     Durante trs anos, teve um namorado fixo, mas depois que terminaram, h cinco anos, s mantm casos espordicos. Alimenta, entretanto, grande esperana de encontrar o homem da sua vida. Para isso, freqenta com algumas amigas restaurantes caros.
     Suas concepes a respeito da mulher, do homem e do amor a consagram como representante mxima do esteretipo da mulher feminina na nossa cultura. Estabelece vrias regras que acredita torn-la mais atraente para os homens. Recentemente, conheceu algum que se encaixava perfeitamente no seu ideal. Separado, rico, gentil, dono de uma empresa. No segundo encontro foram ouvir msica num bar elegante. Abraaram-se e beijaram-se. Ao ser convidada para um champanhe no apartamento dele, reagiu como uma virgem ofendida. Ela explica:
     
"Os homens no valorizam as mulheres que vo para a cama com eles no incio."
     
     Aps cada encontro, aguardava o prximo telefonema dele. Ansiosa, quando tardava, dizia que uma mulher no pode nunca ligar para o homem com quem est se relacionando, num prazo inferior a cinco dias de espera.
     Seguindo  risca sua cartilha, descreve alguns aspectos da sua viso de mulher feminina.
     
"Quando estou com um homem em um restaurante, jamais abro a bolsa. Seria muito deselegante tentar dividir a conta. Os homens no gostam de mulheres que tomam essas iniciativas. Sou muito feminina, romntica mesmo, por isso deixo que eles paguem tudo sempre. E tenho certeza de que um homem s valoriza a mulher que s aceita sair com homem de posio."
    
A mulher autnoma

Uma mulher pode ser autnoma e tambm feminina?
     
     Essa pergunta foi feita por mim a 80 pessoas, homens e mulheres, com idades variando entre 20 e 55 anos. As respostas foram instantneas e veementes: claro, bvio, lgico. Em seguida, coloquei a segunda questo: o que  uma mulher feminina? O comportamento de todos foi semelhante. Silncio por algum tempo, como se tivessem sido pegas de surpresa. Hesitantes e confusas, as pessoas tentavam explicar. Somente duas, quando iam comear a falar, sorriram e admitiram no saber realmente, apesar de terem respondido com um sonoro "lgico"  primeira pergunta.
     Reunindo todas as respostas, chegamos ao seguinte perfil da mulher feminina: elegante, delicada, frgil, sensvel, cheirosa, dependente, pouco competitiva, desinteressada de poltica, pouco ousada, chora com facilidade, se emociona facilmente, me carinhosa, recatada, indecisa.
     Vincius de Moraes, considerado o poeta que amava as mulheres, em Samba da bno refora esta mesma expectativa: "Uma mulher tem que ter qualquer coisa alm da beleza, qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade; um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor e ser s perdo."
     Nos sonhos de alguns jovens, aparece a mulher desempenhando esse mesmo papel feminino.
     Trs rapazes, com pouco mais de 20 anos, conversavam na praia de Ipanema sobre a mulher ideal de cada um. Um deles definiu com clareza o que buscava na amada:
     
"Eu me apaixonaria por uma garota que, depois de fazermos sexo pela primeira vez, tivesse nos olhos uma expresso de felicidade e, ao mesmo tempo, duas lgrimas rolassem pelo seu rosto."
     
     As lagrimas, provavelmente, dariam o toque da feminilidade, isto , do recato, da culpa, do pedido de perdo.
     A mulher considerada feminina  uma mulher estereotipada. Ento, uma mulher no pode ser autnoma e feminina ao mesmo tempo. Autonomia implica ser voc mesma, em sua totalidade, sem negar ou repudiar aspectos de sua personalidade para se submeter s exigncias sociais.
     Na nossa cultura patriarcal, a mulher feminina renuncia a partes do seu eu, na tentativa de corresponder ao que dela se espera. O mesmo ocorre com o homem masculino. Suas caractersticas so, sem dvida, a fora, a coragem, a ousadia, o desafio e tantas outras do gnero. Tanto o homem como a mulher podem ser fortes e fracos, corajosos e medrosos, agressivos e dceis, dependendo do momento e das caractersticas que predominam em cada um, independentemente do sexo. Os conceitos de feminino e masculino so prejudiciais a ambos os sexos por despotencializar as pessoas, aprisionando-as a esteretipos.
     Numa pesquisa, descobriram-se trs principais grupos de adjetivos ligados  idia que as pessoas fazem da mulher.105 Nos dois primeiros grupos, as mulheres apareciam como muito dependentes dos homens. Seja como uma expresso sexualmente pura e maternal (dona-de-casa) ou como um tentador objeto sexual. O terceiro grupo combinava todos os papis que implicavam uma independncia dos homens. A mulher aparece dividida entre as que mostram uma forte dependncia em relao aos homens e as que no a mostram. A forte dependncia em termos de mulheres servindo aos homens apresenta dois tipos opostos: no sexual (a dona-de-casa) e sexual (mulheres tentadoras). Esses dois papis foram vistos como incompatveis por homens e mulheres. Entretanto, a maior diviso foi entre as mulheres que servem aos homens e as que no o fazem.
     Os homens encararam as mulheres desse terceiro grupo, as que no dependem deles, como no-femininas. As que tm sucesso em sua carreira foram vistas como uma raa  parte, como mulheres que renunciaram  sua feminilidade, escolhendo atividades que "as levam alm dos tradicionais papis que servem aos homens".
     No me parece que hoje o sucesso profissional de uma mulher ameace muito o homem. O que o assusta no  a mulher independente economicamente, e, sim, a mulher autnoma. A diferena entre as duas  profunda. Existem mulheres com grande xito em suas profisses, que sustentam toda a famlia, muito respeitadas em cargos de comando, mas que no so mulheres autnomas.
     Uma mulher autnoma olha com novos olhos o mundo, o amor, o homem. Busca sua identidade definida por si mesma e no como adjunto do seu homem. "Ela pode at terminar com Fulano de Tal, mas, se o fizer, no ser como a sra. Fulano de Tal", e, por isso, tem dificuldade em se relacionar com homens que no sejam autnomos, homens presos ao mito da masculinidade.
     Um estudo feito por trs psiclogos coloca a seguinte pergunta: "Ser que a experincia do amor depende da orientao que a pessoa tem quanto ao papel sexual?" 106 A resposta deles  sim. Quando voc aprova os papis tradicionais de masculinidade e feminilidade, sua experincia de amor tender a ser  maneira romntica. Quando no aprova, est livre para viver um amor baseado na intimidade autntica, em vez de na pseudo-intimidade da atrao dos opostos.107
     "O mito do amor romntico faz uma oposio fundamental  autonomia pessoal. Se a masculinidade tranca os homens dentro desse mito e lhes rouba a oportunidade de um amor verdadeiro, o mesmo  verdade em relao  feminilidade e aos seus resultados para a mulher e o amor." 108
     Bonnie Kreps descreve como at no dia-a-dia a mesma mensagem  passada a respeito do que faz uma mulher ser romntica. Observa que em todos os catlogos de roupas femininas postas  venda pelo correio, quando uma seo  encabeada pela palavra "romntico", os modelos so, em sua maioria, muito jovens e louras, suas roupas so em tons pastel e, em geral, cor-de-rosa, decoradas com rendas, e o catlogo est cheio de palavras como suave, delicado, feminino, e acrescenta: "Vamos encarar a verdade: uma mulher romntica bem-sucedida no  competente nem sexual. Sua competncia deve ser falha e sua sexualidade deve ser apenas do tipo passivo." 109
     No sculo XX, cada vez mais mulheres questionam a suposio de nossa cultura de que a verdadeira felicidade se equipara a estar envolvida com um homem. Ter ou no um homem ao lado est aos poucos deixando de ser a questo bsica da vida. Mas ainda so poucas as mulheres e os homens que buscam autonomia. A grande maioria ainda mantm no amor os padres de comportamento tradicionais, variando apenas o grau.
     Em uma de minhas palestras sobre "Amor, casamento e separao" ocorreu um fato bastante inusitado. Uma mulher bonita e elegante de aproximadamente 35 anos pediu a palavra e, indignada, discordou das minhas idias. Em voz alta, num tom de quem tem certeza absoluta do que fala, causou um frisson na platia:
     
"O homem tem que ser controlado, sim! Temos que ficar em cima. Se voc bobear, ele apronta. Outro dia, desconfiei que meu namorado estava com uma mulher na casa dele. No tive dvida. Fui l e quase arrombei a porta. Entrei derrubando tudo o que via na minha frente. Ele ainda tentou esconder a mulher, mas no adiantou. Botei ela para fora aos tapas."
     
     Logo depois, uma mulher de uns 60 anos pediu para falar:
     
"Fui casada durante 30 anos. Sempre fui controlada, tendo que viver em funo do meu marido. Era insuportvel. Esperei meus filhos casarem e pedi a separao. Atualmente, tenho um namorado h dez anos. A cabea est acima do corao no   toa.  para a gente pensar. E eu no sou burra. Cada um mora na sua casa e a gente s se encontra quando os dois tm vontade. O sexo tambm. S fazemos quando os dois desejam. Quando ele no est comigo, no quero nem saber onde est ou o que est fazendo. Que Deus o proteja!"
     
     Foi aplaudida de p.
     
     A autonomia no  fcil de ser alcanada. So anos e anos de condicionamento em que vamos assimilando os valores da cultura em que vivemos, como se fossem nosso idioma natal.
     Ocorre algumas vezes de uma mulher autnoma deslizar sem perceber para o terreno do amor romntico e, ao abrir os olhos, compreender que viveu um romance ideal com todos os ingredientes necessrios.
     Foi o que aconteceu com a aqui j citada Bonnie Kreps, cineasta canadense premiada, produtora de documentrios para cinema e tev, jornalista e uma das mais destacadas pensadoras feministas. A experincia amorosa que viveu foi muito significativa, motivando-a a escrever um livro sobre o mito do amor romntico. Transcrevo a seguir seu relato por consider-lo rico e esclarecedor.110
     
     "Conheci meu Homem Certo ao entrevist-lo para um artigo que eu estava escrevendo. Lembro-me bem de ter pensado trs coisas sobre aquele primeiro encontro: primeira, ele me parecia bastante atraente sexualmente; segunda, ele tambm parecia um 'moderninho duvidoso' (expresso que uso quando no confio na aparente abertura e falta de masculinidade exagerada do 'novo macho'); terceira, como ele me via como uma conhecida feminista e eu respondi a suas perguntas sobre isso com franqueza, ele talvez me considerasse rigorosa demais para um envolvimento posterior. Todavia, ele me surpreendeu: convidou-me para jantar, quis um envolvimento sexual e em nenhum momento declarou-se daquela maneira estridente e importuna usada pelo heri do romance ideal. Agora sei o significado de 'ele me deixou sem flego': perda do controle enquanto se pensa 'Isso deve ser amor!'. Antes que eu pudesse dizer 'Que romntico!', j havia me mudado para o apartamento dele.
"Os termos que usamos para o romance so muito adequados. Eu, com certeza, estava com a cabea nas nuvens. Principalmente porque estava convencida de que, depois de vrios erros  que incluam um casamento , por fim eu estava acertando.
     "'Acertar' significa ter uma relao amorosa verdadeira com um homem. O relacionamento estava certo, ele era o Homem Certo; portanto, tudo o que ele fizesse tambm era, de algum modo, certo. Na pior das hipteses, aquilo era fascinante por ser diferente do que eu, por via de regra, teria gostado. (...) Eu tive uma ampla oportunidade de praticar minha capacidade de rei interpretao romntica. Consegui, ento, restringir uma srie de pensamentos, mas, nos cinco anos seguintes, tornei-me cada vez menos capaz de traar esse tipo de limite e vivi mais e mais de um modo de que nunca havia gostado e de que no gosto at hoje. No entanto, durante todo esse tempo, sentia que havia tirado a sorte grande.
     "Meu corpo foi mais esperto do que eu. Engordei 11 quilos e comecei a desenvolver uma tendncia para o glaucoma. (...) Continuei a trabalhar, porm estava cada vez mais difcil me concentrar. (...) Lembro-me de um constante desejo de mudar a fundo algo que no conseguia determinar com preciso, mas mesmo assim sentia que deveria ser mais serena. Com o tempo isso se tornou uma exigncia mental constante: seja 'serena'. Agora, considero isso uma interessante declarao inconsciente em vista de um significado da palavra 'serena': liberta de qualquer coisa que perturbe.
     "Eu ainda estava tentando, a duras penas, ser serena, quando o final de meu romance ideal veio com a sbita declarao dele: 'A centelha se apagou.' Sem aviso, nenhuma explicao na hora ou depois, eu apenas estava fora.
     "Em estado de choque, fugi. No  nada agradvel quando todas as fantasias que temos vm de uma s vez se alojar em ns. A dor foi terrvel. Durante a primeira semana de meu retiro, eu tinha pesadelos todas as noites (...). Cada sonho se revelava uma variao do mesmo tema: meu antigo Homem Certo estava no centro das atividades que simbolizavam nosso universo particular. Ele estava sempre com outras pessoas e sempre me ignorava completamente, eu permanecia atormentada e quase invisvel nas proximidades. Eu estava exilada da humanidade como s se pode estar em sonhos.
     "Todos os dias eu esquiava e tentava encarar os entulhos das minhas fantasias. E, todos os dias, uma frase de Woody Allen pairava na minha cabea. Era um daqueles seus comentrios sobre sexo: uma boa coisa sobre a masturbao  que, pelo menos, voc sabe que est na cama com um amigo. Por que  eu me perguntava sorrindo, toda vez que me recordava  penso sempre nessa frase? Quando descobri a resposta, fiquei imvel sobre os esquis, enquanto o mundo implodia com a forada minha sagacidade. De repente, meus sonhos fizeram sentido. Eles estavam tentando me contar verdade da minha situao. Acorde, eles me alertavam, voc no est na cama com um amigo e nunca esteve. Eu soube, ento, que era verdade; sei disso agora.                                                                                 
     "Meu sofrimento logo foi substitudo pela curiosidade. Essa mudana se deu devido ao comentrio de uma amiga. Quando soube de minha sbita expulso do verdadeiro amor, ela disse: ' claro que me solidarizo com sua dor, mas o que quero dizer, acima de tudo, : seja bem-vinda.' Isso me impressionou profundamente. O que foi que ela viu durante anos e no conseguiu me dizer? Onde eu estivera?"
     
     Muitas mulheres autnomas, que aps algum tempo tambm se perguntaram onde estiveram, abandonaram os amigos e muitas atividades que lhes eram extremamente prazerosas, convencidas de que nada mais, alm do amado, tinha importncia.
     Para que esse ilusionismo mental funcione  necessrio no enxergar o que desagrada e transformar aquilo que no pode ignorar em algo com que possa conviver. Voc tambm precisa ignorar o fato de que o est empregando. Muitas mulheres me contaram a mesma histria. Eis aqui:
     
"Se eu tivesse dito para mim: Esse homem  autoritrio, eu teria ido embora. No vou viver com uma pessoa autoritria, essa  a nica coisa que no quero (se eu reconhecer o autoritarismo). Assim, o truque : no reconhea o que no quer."
     
     Como o amor romntico no dura em mdia mais do que dois ou trs anos, geralmente a mulher autnoma  salva. Ou ela acorda e percebe o outro como um estranho e, sem entender o que a fez ficar ali tanto tempo, vai embora ou, caso se torne incapaz de sair desse mundo ilusrio, normalmente  expulsa para que o outro parta em busca de uma nova emoo.111
     Embora o amor romntico tenha sido considerado sempre um tema feminino, os homens tambm sofreram sua influncia. Como o homem masculino e o homem autnomo percebem o mundo, a mulher e o amor, examinaremos a seguir.

O homem masculino
       
     "Seja homem!", "Prove que voc  homem!", "Vem c se voc  homem!". Desde pequenos os homens so desafiados a provar sua masculinidade.
     O homem, a vida inteira, deve estar atento e mostrar que  homem, deve ter atitudes, comportamentos e desejos masculinos. Qualquer variao no jeito de falar, andar e mesmo sentir, e sua virilidade  posta em dvida. Assim como a feminilidade, a masculinidade foi construda a partir do surgimento do patriarcado. O homem, ento, definiu-se como um ser privilegiado, superior, possuindo alguma coisa a mais, que as mulheres ignoram. Ele acredita ser mais forte, mais inteligente, mais corajoso, mais decidido, mais responsvel, mais criativo ou mais racional.112
     "A virilidade no  dada de sada. Deve ser construda, digamos fabricada. O homem , portanto, uma espcie de artefato e, como tal, corre risco de apresentar defeito. Defeito de fabricao, falha na maquinaria viril, enfim, um homem frustrado. A garantia do empreendimento  to baixa, que o sucesso merece ser exaltado." 113
     Toda a superioridade atribuda ao homem serviu para justificar durante milnios a dominao da mulher. H 40 anos as mulheres passaram a questionar e exigir o fim da distino dos papis masculinos e femininos, ocupando os espaos sempre reservados aos homens.
     A certeza do homem superior  mulher foi abalada. Diante dessa nova mulher desconhecida, muitos homens passaram a questionar a identidade masculina, desejosos de se libertarem dos papis tradicionais que a eles sempre foram atribudos. Nos Estados Unidos existem mais de 200 grupos que se renem para discutir o masculino e sua desconstruo.
     Vivemos, sem dvida, um momento de intensa crise da masculinidade. Uma crise muito mais ampla que as anteriores, mais limitadas socialmente, atingindo apenas a aristocracia e a burguesia urbana. Nessa poca, 80% da populao europia vivia no campo.

Primeira crise  sculos XVII e XVIII
      
     J vimos que as preciosas francesas foram a origem do primeiro questionamento da identidade masculina. Alguns homens, os preciosos, aceitaram esse questionamento e adotaram uma moda feminina e refinada  perucas longas, plumas extravagantes, roupas com abas, pintas no rosto, perfumes, ruge. Recusavam-se a manifestar cime e a se comportar como tiranos domsticos. Sorrateiramente, os valores femininos progrediam na sociedade e, no sculo seguinte, eram dominantes.114
     A Inglaterra foi mais explcita do que a Frana no debate sobre a identidade masculina e conheceu a verdadeira crise da masculinidade entre 1688 e 1714. Alm da igualdade de direitos, as mulheres querem homens mais suaves. Esforam-se para que homens e mulheres reformulem seus papis no casamento, na famlia e na sexualidade.
     Na Frana, o Sculo das Luzes representa um corte na histria da virilidade, quando os valores varonis enfraquecem. "A guerra no tem mais a importncia e o status de outrora. A caa torna-se uma distrao. Os jovens fidalgos passam mais tempo no salo ou na alcova das mulheres do que se exercitando nos quartis. Por outro lado, os valores femininos se impem no mundo da aristocracia e da alta burguesia. A delicadeza das palavras e das atitudes suplanta as marcas tradicionais da virilidade. Pode-se dizer que, nas classes dominantes, o unissexismo derrota o dualismo oposicional que habitualmente caracteriza o patriarcado," 115
     Com a Revoluo Francesa de 1789 novamente se instala uma relao de oposio entre homens e mulheres, at que nova crise da masculinidade ocorre, 100 anos depois.

A crise da virada do sculo XIX
     
     Outra crise da masculinidade surge na Europa e nos Estados Unidos, trazendo novas reivindicaes femininas e nova ansiedade masculina. As mulheres comeam a ter direito  educao e assumem profisses antes vetadas. Entram nas universidades e se tornam mdicas, advogadas e jornalistas. Reivindicam seu direito ao mesmo salrio que o homem e tentam de todas as formas pr fim s fronteiras sexuais existentes.
      no perodo de 1871 a 1914 que surge essa nova mulher provocando a reao social por ameaar os homens na sua identidade. Eles temem perder o poder e os privilgios cotidianos, Entretanto, as feministas dessa poca eram diferentes das preciosas. No rejeitavam a famlia nem a maternidade.
     A crise da masculinidade nos Estados Unidos atinge seu ponto mximo devido ao trabalho nas fbricas. As tarefas mecnicas, rotineiras e fragmentadas no davam ao homem o controle dos resultados do trabalho. Tambm na administrao de rotinas montonas no podiam mais realar suas qualidades tradicionais. Nem fora, nem iniciativa, nem imaginao so mais necessrias para se ganhar a vida.116
     A industrializao fez com que o homem se afastasse do lar e delegasse a educao dos filhos  esposa. Assim, aliando-se a situao do trabalho com a de casa, a nova virilidade passou a ser identificada com o sucesso simbolizado pelo dinheiro. Quando as mulheres pretenderam outros papis alm da funo de me e dona-de-casa, eclodiu a crise.
     As mulheres declararam-se cansadas das tarefas que desempenhavam e se rebelaram contra as convenes. Partiram para a luta, criando clubes femininos, enviando as filhas para a faculdade e trabalhando fora de casa. Na sua proposta de independncia, a mulher americana exige o direito de permanecer solteira ou de casar de acordo com sua vontade. Quando casa, tem menos filhos e no aceita se submeter ao marido. Reclama o direito ao divrcio, maior participao na vida pblica e,  claro, o direito de voto.
     
     "Como na Europa, os homens manifestaram hostilidade a esse ideal feminino. Repudiam a nova Eva que degrada seu sexo, abandona o lar e pe em perigo a famlia. Essas mulheres so chamadas de terceiro sexo ou de homaas lsbicas. O aumento do nmero de divrcios  7 mil em 1860, 56 mil em 1900 e 100 mil em 1914  e o declnio da natalidade suscitam milhares de artigos sobre a dissoluo da famlia. Em 1903, Theodore Roosevelt anuncia que a raa americana est a caminho do suicdio. Mesmo os democratas adeptos do voto feminino achavam que as mulheres estavam indo longe demais. De fato, quanto mais as mulheres exprimiam em alto e bom som suas reivindicaes, mais exposta ficava a vulnerabilidade dos homens: papel masculino indefinido, medo pnico da feminizao, o americano mdio da dcada de 1900 no sabia mais como ser um homem digno desse nome.
     "(...) Alertam-se os pais para o perigo de criar os meninos com mimos excessivos, admoestam-se as mes que sabotam a virilidade dos filhos, quer dizer, sua vitalidade. Exalta-se a separao dos sexos e das ocupaes. Futebol e beisebol tornam-se muito populares, provavelmente porque, como observava um jornalista em 1909, 'o campo de futebol (esporte particularmente violento)  o nico lugar onde a supremacia masculina  incontestvel'. Com o mesmo objetivo, adota-se a instituio do escotismo, que tem como objetivos 'salvar os meninos da podrido da civilizao urbana' e formar crianas msculas, homens viris. (...) Na vspera da Primeira Guerra Mundial, eles ainda no tm resposta para os dilemas da virilidade moderna. Como sublimaes fantasmticas surgem novos heris na literatura. Faz-se reviver o Oeste selvagem e inventa-se a figura emblemtica do caubi, homem viril por excelncia: violento, mas honrado, combatente infatigvel munido do seu revlver flico, defendendo as mulheres sem jamais ser dominado por elas. As classes mdias lanam-se, literalmente, sobre esses novos livros, assim como sobre a srie Tarzan, publicada a partir de 1912 por Edgard Rice Burroughs, que vende mais de 36 milhes de exemplares. A despeito de tudo isso, muitos homens no conseguem serenar sua angstia. Foi a entrada dos Estados Unidos na guerra em 1917 que serviu de exutrio e de teste de virilidade para muitos deles. Convencidos de que se batiam por uma boa causa, os homens podiam, ao mesmo tempo, dar vazo  sua violncia represada e provar a si prprios, finalmente, que eram verdadeiros machos." 117
     
     Ento, a crise da masculinidade do inicio do sculo foi momentaneamente resolvida. Durante todo o sculo XX a guerra foi sempre retomada em todos os cantos do mundo, mas nada se compara ao ocorrido na Segunda Guerra Mundial, que anunciou a morte dos valores viris no Ocidente, a partir do questionamento dos nossos valores tradicionais. "A virilidade mostrou a imagem mais caricata de si mesma, isto , a mais assassina. Contrariamente s guerras precedentes, a morte no se deu somente nos campos de batalha. Ela foi organizada sistemtica e racionalmente para ser usada contra os civis (...). Durante esse perodo de loucura, nenhum dos aspectos positivos da virilidade pde exprimir-se." 118 A mudana das mentalidades demora algumas vezes mais de 100 anos para se concretizar. Provavelmente estamos em pleno processo de transformao no que diz respeito  valorizao da virilidade. J  possvel sentir em alguns grupos o desprestgio do macho. O homem que fica triste e chora j adquiriu um novo valor: o do homem sensvel. Entretanto, isso no significa que a maioria dos pais no se esforce para criar homens masculinos. E, na nossa cultura, ser homem  no ser feminino, no ser homossexual, no ser dcil, no ser dependente, no ser submisso, no ter aparncia ou gestos efeminados, no ter relaes ntimas com outros homens, no ser impotente com as mulheres.

A construo do homem masculino
     
     A masculinidade  uma ideologia que justifica a dominao exercida pelo homem. Ela  ensinada e construda, portanto, pode ser diferente em cada poca e lugar. Os modelos masculinos so muito variados.
     O menino nasce de uma mulher. A me o amamenta, cuida dele, d-lhe carinho. Ele, por isso, sente-se gratificado na condio de beb, totalmente dependente dela. Essa relao com a me vai deixar uma marca profunda em seu psiquismo. No incio da vida conhece o prazer dessa dependncia passiva, mas durante toda a sua existncia ter de lutar contra o desejo de retornar a essa condio.
     Para tornar-se homem  preciso se diferenciar da me, reprimindo profundamente o forte vnculo com ela, junto com o prazer da passividade.  uma luta contnua;  preciso estar sempre alerta. Isso no acontece com a menina, Para ela  mais fcil, j que a relao inicial com a me  a base da identificao com seu prprio sexo.
     Para ser considerado masculino, o menino deve rejeitar e se opor a tudo o que  feminino. "Para serem masculinos, os machos aprendem, em geral, o que no devem ser, antes de aprenderem o que podem ser... Muitos meninos definem a masculinidade simplesmente dizendo: 'o que no  feminino.'"119
     Numa sociedade patriarcal, para ter um comportamento considerado masculino, o homem utiliza muitas manobras defensivas. Geralmente, o menino se defende temendo as mulheres e tambm repudiando em si prprio qualquer aspecto considerado feminino como ternura, passividade, preocupao com os outros. Desenvolve o pavor de ser desejado por um homem. Por conta de todos os seus temores, encontramos um comportamento padro nos meninos que se transformam em homens: so brutos, barulhentos, briges, depreciam as mulheres, ridicularizando suas atividades, privilegiam amizades com outros homens, mas odeiam homossexuais.
     Alguns autores consideram que nossa sociedade exige muito cedo que o menino se desligue da me e adote um comportamento masculino.  Entretanto, a boa relao inicial com ela  que permite a superao das angstias bsicas, criando a condio da identidade humana do homem.
     O processo de construo da masculinidade implica fazer com que o menino transforme sua primitiva identidade feminina em uma identidade masculina secundria. O sistema patriarcal utiliza mtodos variados para transformar um menino em "homem de verdade", mas essa identidade masculina  adquirida com grande esforo. Para a menina  mais simples porque a menstruao, que surge no incio da adolescncia, no deixa dvidas de que pode ter filhos, fundamentando naturalmente sua identidade feminina. Nesse momento ela passa de menina a mulher. No homem, ao contrrio, um processo educativo, muitas vezes traumtico, deve substituir a natureza.120
     Pela atividade sexual que desempenha, o homem toma conscincia de sua identidade e virilidade.  considerado homem quando seu pnis fica ereto e come uma mulher. E isso deve acontecer o mais cedo possvel. De maneira explcita ou no,  pressionado pelos amigos ou pelo prprio pai, s vezes de forma pattica.
     
     Rodrigo, ator de 24 anos, relata o sofrimento de sua primeira experincia sexual. O pai, macho tpico, estava separado de sua me desde que ele tinha 2 anos. Bomio, cercado de prostitutas, ansiava por ver o filho tornar-se homem. Quando Rodrigo fez 12 anos, levou-o  sua casa para fazerem um bom programa juntos. L, dois amigos do pai e cinco prostitutas os aguardavam. O clima era de festa: msica, comida e muita cerveja. Logo que chegaram, uma das mulheres comeou a acariciar o menino, tirando-lhe a roupa. Levou-o para a cama e todos se acomodaram para assistir. Seu pai, orgulhoso, passou a filmar a cena com uma super-8. Queria registrar a prova da virilidade do filho. Rodrigo diz no se lembrar dos detalhes, somente de um desejo desesperado de fugir dali.
     
"S me lembro de flashes. A prostituta chupando meu pau e meu pai gritando: 'Mete!, Mete!'"
     
     O homem aprende a considerar seu pnis uma ferramenta que ignora a angstia, o medo, o cansao ou qualquer outro sentimento. Sobre a mulher passiva ele realiza o ato de empurrar a ferramenta: mete, enfia, trepa. A conseqncia  uma obsesso pela virilidade que faz com que seu pnis deixe de ser um rgo de prazer e se transforme em algo separado dele.
     Muitos homens conversam com seu pnis, imploram-lhe que fique ereto, que no o decepcionem. Recentemente, uma propaganda de preveno da Aids, veiculada em todos os canais de tev, ilustrou bem essa situao. Um homem discutia com seu pnis, tentando convenc-lo a usar camisinha.
     Vrias sociedades utilizam ritos de iniciao para que o menino se afaste do mundo das mulheres e renasa homem. Esses rituais comportam trs etapas bastante dolorosas: a separao da me e do mundo feminino; a transferncia para um mundo desconhecido; a passagem por provas dramticas e pblicas. Quando tudo  concludo, o menino  considerado um homem. Em diferentes culturas e pocas, observa-se a preocupao com a idia de que os filhos sejam contaminados pelas mes. Acreditam que, se no forem afastados delas, no  possvel tornarem-se homens adultos. Geralmente, o primeiro ato de iniciao masculina  separar da me o filho, entre os 7 e os 10 anos.
     Os sambia da Nova Guin anunciam o comeo da iniciao dos meninos pelo som das flautas. Eles so arrancados de suas mes e levados para a floresta, onde durante trs dias so chicoteados at sangrar e a pele se abrir, estimulando o crescimento. As surras so dadas com folha de urtiga e eles devem sangrar pelo nariz. S assim acreditam poder-se livrar dos lquidos femininos que os impedem de se desenvolver. No terceiro dia, revelam-lhes o segredo das flautas. Podem ser condenados  morte se deixarem as mulheres saber esse segredo. Os jovens iniciados que foram entrevistados falam do trauma sofrido ao separar-se da me e do sentimento de abandono e desespero. O objetivo da iniciao masculina  cortar radicalmente a relao profunda com a me.
     Depois de separados, os meninos no podem mais falar, tocar ou mesmo olhar para suas mes at atingir plenamente o estado de homem, isto , quando se tornarem pais.121
     Os rituais de iniciao variam apenas no grau de dramaticidade e crueldade. Nas tribos guerreiras da Nova Guin so ainda mais longos e mais traumatizantes, como entre os bimi-kuskusmin,122 que dedicam de 10 a 15 anos s atividades rituais masculinas. Uma nova solidariedade masculina emerge a partir do corte do cordo umbilical, constituda por um poder sem contestao e pelo afastamento do perigo feminino.
     No Ocidente, onde os rituais de iniciao no so claramente definidos, a masculinidade necessita ser provada durante toda a vida de um homem, sempre havendo o risco de se ver diminudo ao nvel da condio feminina. Para corresponder ao ideal masculino da nossa cultura, o homem tem de rejeitar uma parte de si mesmo, lutando para no se entregar  passividade e  fraqueza.
     O modelo do homem masculino ideal manteve-se imutvel durante um longo perodo da histria. Dois americanos tornaram-se famosos ao enunciar quatro imperativos da masculinidade sob a forma de slogans:123
      
1o 	No sissy stuff (Nada de fricotes)  Mesmo sabendo que homens e mulheres tm as mesmas necessidades afetivas, o esteretipo masculino impe ao homem a mutilao parcial do seu lado humano. Um homem de verdade  isento de toda feminilidade, portanto, ele deve abandonar uma parte de si mesmo.
     
2o 	The big wheel (Uma pessoa importante)  Seria o verdadeiro macho. H uma exigncia de superioridade em relao aos outros. A masculinidade  medida pelo sucesso, pelo poder e pela admirao que provoca.

3o 	The study oak (O carvalho slido)  O macho deve ser independente e s contar consigo mesmo. Jamais manifestar emoo ou dependncia, sinais femininos de fraqueza.

4o 	Give'em hell (Mande todos para o inferno)  Obrigao de ser mais forte que os outros, nem que seja pela violncia.
       
     Sua aparncia deve ser de audcia e agressividade, estando sempre pronto a correr todos os riscos, mesmo que a razo ou o medo lhe aconselhem o contrrio.
     O verdadeiro supermacho, h tanto tempo prestigiado, obedece com seriedade a esses quatro imperativos. A propaganda dos cigarros Marlboro ilustrou de forma perfeita o que povoava a imaginao das massas: "O homem duro, solitrio porque no precisa de ningum, impassvel, viril a toda prova. Todos os homens, em determinada poca, sonharam ser assim: uma besta sexual com as mulheres, mas que no se liga a nenhuma delas; um ser que s encontra seus congneres masculinos na competio, na guerra ou no esporte. Em suma, o mais duro dos duros, um mutilado de afeto." 124
     Badinter faz uma anlise precisa dos heris que representam e influenciam os ideais masculinos da nossa cultura no sculo XX:
     
     "A maioria das culturas aderiu a esse ideal masculino e criou seus prprios modelos, mas foi a Amrica, sem rival cultural, que imps a todo o universo suas imagens de virilidade: do caubi ao Exterminador, passando por Rambo, encarnados por atores cult (John Wayne, Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger), esses heris do cinema serviram de exutrio e ainda povoam as fantasias de milhes de homens. Embora essas trs representaes da hipervirilidade obedeam aos quatro imperativos mencionados, ningum pode deixar de notar que do caubi ao Exterminador passou-se de um homem em carne e osso para uma mquina...
     "O personagem mtico do caubi, muito mais antigo que seus dois sucessores, suscitou inmeras anlises. Lydia Fiem, psicanalista, destrinchou diferentes aspectos da masculinidade do cavaleiro solitrio, que vem no se sabe de onde, o justiceiro acima da lei, 'este ser puro que no conhece nem as transformaes nem as misturas (...) e que no atingiu o estgio das nuanas'. O caubi encarna todos os esteretipos masculinos e o western conta sempre a mesma histria, de uma perseguio incessante dos homens, em busca da sua virilidade. O Colt, o lcool e o cavalo so os acessrios inevitveis, e as mulheres s desempenham papis secundrios.
     "A relao do caubi com as mulheres  silenciosa. Para uns, isso no significa ausncia de sentimentos, mas dificuldade de exprimi-los diretamente, sob pena de, com isso, perder a virilidade. Outros vem a a prova da impotncia afetiva. Imobilizado na ao, o heri viril no pra de enfrentar os outros homens. L. Fiem fala do prazer dos homens em se encontrar num terreno comum e propriamente masculino, o terreno dos combates. O enfrentamento no impede os sentimentos viris. Alis, a amizade entre homens  de colorao homossexual latente  refora a masculinidade ameaada pelo amor a uma mulher. Em caso de conflito entre os dois sentimentos, quase sempre  o dever de solidariedade masculina que vence: o caubi parte para novas aventuras. (...) Embora impassvel e silencioso, o heri do western deixa o espectador adivinhar o seu lado humano: seus conflitos, seus sentimentos, portanto, sua fraqueza. No espao de um olhar, ele mostra uma tentao, um arrependimento, mostra, em suma, que tem corao. Suspeita-se de que ele ame seu cavalo, um amigo ou uma mulher. Nisso est sua grande diferena em relao ao Rambo ou ao Exterminador, que no tm sequer essas fraquezas. Dotados de uma fora sobre-humana, eles se esvaziaram de todo sentimento. Rambo, em sua armadura de msculos, no  incomodado nem por um cavalo, um amigo ou uma mulher. Seu nico companheiro  um imenso punhal afiado que lhe serve de amuleto, reforo flico de uma virilidade ainda humana e, portanto, fraquejante. Nada disso ameaa o Exterminador, mquina onipotente. O macho em estado puro no tem mais nada de humano, nem mesmo o sexo, que  a parte mais frgil e incontrolvel do homem. Os espectadores do sexo masculino podem se deleitar, durante um filme, com a identificao  potncia total. O Exterminador est livre das injunes da moral, do medo, da dor e da morte, assim como de toda ligao sentimental. A mquina viril  incomparavelmente menos vulnervel que o mais forte dos machos. Fazer exatamente o que se deseja quando se deseja: eis o sonho oculto de todos os meninos adormecidos em muitos homens. S isso explica o sucesso mundial de um filme cujas proezas tcnicas so incontestveis, mas cujo roteiro  inconsistente e cujo maior mrito  oferecer durante duas horas uma hipervirilidade que no existe na vida real." 125
       
     Na vida real, homens e mulheres tm as mesmas necessidades psicolgicas  amar e ser amado, expressar emoes, ser ativo ou passivo , mas o ideal do homem impede-lhe a satisfao dessas necessidades, abrindo espao para a violncia masculina no dia-a-dia. Essa violncia no  a mesma em todos os lugares.  muito maior onde se cultua o mito da masculinidade, como nos Estados Unidos.
     Na dcada de 1970, a Comisso Norte-americana para as Causas e Preveno da Violncia observou que a taxa de homicdios, estupros e assaltos era maior do que em todas as outras naes modernas, estveis e democrticas. A maioria dos crimes era cometida por homens entre 15 e 24 anos, com a seguinte explicao: "Provar sua virilidade exige que o homem, com freqncia, manifeste brutalidade, explore as mulheres e tenha reaes rpidas e agressivas." 126
     O crime que mais aumenta nos Estados Unidos  o estupro. Segundo estimativa do FBI, uma em cada quatro mulheres ser estuprada uma vez na vida. Qual a causa de tanta agressividade contra as mulheres?
     
O homem dependente
       
     O territrio original da menina e do menino  o feminino materno. A ruptura precoce do menino com a me na tentativa de se adequar ao modelo imposto  frustrante para a maioria dos homens. Perseguir o ideal masculino gera conflitos e tenses, tornando imprescindvel usar uma mscara, de onipotncia e independncia absoluta, "Quando cai a mscara descobre-se um beb que treme." 127
     O vnculo do menino com a me  intenso, mas deve ser rompido para que ele se desenvolva como homem. Permanecer muito perto da me s  permitido s meninas. Para os meninos, isso significa ser marics ou filhinho da mame. Os amigos e os prprios pais no perdem uma oportunidade de debochar ou fazer uma piada a qualquer manifestao de necessidade da me.
     Desde cedo, ento, o menino aprende que deve rejeitar uma parte de si. O desejo de ser cuidado, acalentado, dependente  recalcado. Sentimentos de ternura, generosidade, preocupao com os outros so reprimidos para melhor diferenci-lo da me.
     Na vida adulta, os homens escondem a necessidade que tm das mulheres mostrando-se auto-suficientes e desprezando-as. Convencem-se de que elas  que precisam deles, da sua proteo. Negando suas prprias necessidades de dependncia, sentem-se mais fortes e poderosos.
     A ansiedade do homem em relao  figura feminina  tanta que, como vimos nos primeiros captulos, muitos mitos sobre a mulher foram criados. Desde a deusa associada  Terra-Me at a prostituta insacivel, que s se satisfaz com o pnis de um burro ou urso.
     Poucas vezes o homem tem oportunidade de relaxar, de baixar a guarda. Ficar doente, mesmo sem gravidade,  um timo pretexto. Entregam-se despreocupados ao saudoso cuidado materno, agora exercido geralmente pela namorada ou pela esposa. Solicitam ateno integral, sem se importar em ser tratados como bebs.
     
     Sofia, mulher bonita, de 39 anos, contava numa roda de amigas o que tem passado com o marido acamado em casa, com uma virose que lhe impede de ir ao trabalho. Segundo recomendao mdica, Alfredo passa o dia em repouso e solicita sem trgua os cuidados da mulher.
     
" inacreditvel. Ele exige que eu lhe d comida na boca. Mas isso no  o pior. Quando est satisfeito, no me avisa. Faz 'Bruuu', soprando a comida para todos os lados. Parece que regrediu para uma fase anterior  fala."
     
     De qualquer forma, ainda persiste a idia de que o homem evita relacionamentos ntimos, foge de compromissos, principalmente do casamento. Mas, na verdade, quando se sente atrado por uma mulher, dois sentimentos contraditrios o assaltam. Por um lado, o desejo de intimidade, de aprofundar a relao. Por outro, o temor de se ver diante do seu prprio desamparo e do desejo de ser cuidado por uma mulher.
     Talvez isso explique por que tantos homens que resistem ao casamento, optando por uma vida livre, em um determinado momento casam-se e tornam-se submissos, dependentes e dominados pela mulher.
     Dcio, arquiteto, de 40 anos, casado, com duas filhas, viveu at os 25 anos sob a proteo da me, mulher extremamente autoritria.  Dcio tinha perfeita conscincia da sua condio, mas assim mesmo a aceitava e ia conduzindo a vida em direo a uma sonhada libertao: o casamento.
     Era um rapaz muito bonito, alegre e estudioso. Casou-se assim que concluiu o curso, no com uma das vrias garotas que o assediavam na faculdade, mas com uma moa pouco mais velha que ele e de poucos atributos fsicos. Cinira era escrituraria de um banco, sem muitas perspectivas profissionais. "O que ele viu nela?", era o que todos perguntavam.
     Quando se tornou me, Cinira se revelou por inteiro. Deixou o trabalho e dedicou-se  febril atividade de no fazer nada. Era preciso muito tempo livre para dirigir a vida do marido, e o fazia com mo de ferro. Dcio encaixou-se perfeitamente  nova forma de tirania imposta pela mulher. Esse era o verdadeiro e insidioso talento de Cinira, oculto por tanto tempo aos olhos de todos, mas no ao inconsciente de Dcio, que logo vislumbrou uma substituta para a me, com a vantagem de acumular tambm a condio de sua mulher. Assim, pde desempenhar o papel social que lhe cabia como marido, sem desfazer a relao de domnio  qual estava ligado desde os tempos da me. A situao cristalizou-se a ponto de Dcio no ter mais controle sobre seus gostos e vontades. Quando amigos convidaram o casal para uma festa, Dcio, que ficara animado, fez suas as palavras de Cinira:
      
"No vai dar, estamos muito cansados."
      
     O homem masculino e o homem dependente no so autnomos. Autonomia implica no se submeter s exigncias sociais, de modo a rejeitar caractersticas da prpria personalidade consideradas femininas pela nossa cultura. O homem pode ser forte, decidido e corajoso, mas tambm frgil, indeciso e, muitas vezes, sentir medo, dependendo do momento e das circunstncias. Pode falar dos seus sentimentos, ficar triste e at chorar. O homem autnomo s comea a ter possibilidade de surgir nesse momento, em que o patriarcado decai.
     

III  CASAMENTO



  O casamento 
  como soluo
     
     
     "Nenhum sistema de associao elaboradamente hostil  felicidade humana sobrepujar o casamento."
     PERCY SHELLEY
     
     
     Todos no prdio j se acostumaram. A gritaria comea sempre por volta das oito da noite, quando Antnio volta do trabalho. "Sua merda! O feijo est sem tempero!" ou "Voc no serve para nada! Imbecil!".
     Clara e Antnio moram num apartamento alugado de dois quartos na Zona Sul do Rio. Ela, pedagoga, trabalhava numa escola quando o conheceu, h 12 anos. Por exigncia dele, abandonou o emprego para cuidar da casa. Logo tiveram um casal de filhos, e a situao econmica foi ficando cada vez mais difcil, mas Antnio nem admitia ouvir falar na volta da mulher  antiga atividade. Hoje, a vida de Clara  cozinhar, lavar, passar, arrumar, ir ao supermercado, levar os filhos ao colgio e busc-los e, para completar sua jornada diria, ser humilhada pelo marido. No sente desejo algum, mas deve estar sempre disposta quando ele solicita.
     Vizinhos e porteiros se perguntam, penalizados, ao v-la passar, olhar baixo, meio triste, meio envergonhada: "Por que ela agenta tudo isso?", "Por que no se separa?".
     Separar como? J est com 40 anos. A chance de um trabalho que lhe permita se sustentar  nfima. Alm disso, ele no a deixaria levar as crianas. Como ir embora e deix-las com um pai to agressivo e temperamental? Clara vai agentando, conformando-se com a vida, tentando acreditar que casamento  assim mesmo. O consolo ela encontra em duas frases que ouviu quando criana e nunca esqueceu: "Ruim com ele, pior sem ele" e "Trocar de marido  trocar de defeito".
     
     A infelicidade conjugal no  nenhuma novidade. J em 1922, nos Estados Unidos, o juiz Lindsay fez o seguinte comentrio: "O casamento tal como existe  um verdadeiro inferno para a maioria das pessoas que o contraem. Esse  um fato indiscutvel. Desafio a quem quer que seja a chegar a uma concluso contrria, depois de observar a procisso de vidas arruinadas, de homens e mulheres infelizes e miserveis, de crianas abandonadas que passam pelo meu tribunal." 1
      provvel que o casamento de Clara e Antnio se situe no extremo desse inferno que se denomina infelicidade conjugal. Nem todos os casamentos so assim. O grau de insatisfao e infelicidade  muito variado. E, na maior parte dos casos, nem to evidente. Existem at casais que se sentem felizes com seu relacionamento, embora tudo indique que "a maior parte dos casamentos, durante a maior parte do tempo,  de precrios a pssimos".2
     Numa pesquisa feita pelo IBGE com pessoas casadas, cerca de 80% dos entrevistados se declararam decepcionados com o casamento.3 Da podermos estimar um percentual ainda maior se considerarmos a dificuldade de se aceitar e declarar a falncia de algo em que tantas expectativas foram depositadas.
     Por que, ento, as pessoas continuam querendo casar?
     
     Dentro do tero da me o indivduo obtm a satisfao imediata de todas as suas necessidades. Desconhece a fome, o frio, a sede e a falta de aconchego. Mas nasce. Precisa respirar com os prprios pulmes, reclamar da fralda molhada, desesperar-se com a elica.  tomado por um profundo sentimento de falta. Uma angustiante sensao de desamparo o invade. Sem retorno ao estgio anterior, isso o acompanhar por toda a vida.
     Ao nascer, ele  introduzido num mundo com padres de comportamento claramente estabelecidos. Inicia-se, assim, o processo de socializao. Os desejos espontneos so gradualmente substitudos pelos que se aprende a desejar, e o indivduo passa a se comportar e agir de acordo com a expectativa social. As singularidades no mais existem. O condicionamento cultural impe como nica forma de atenuar o desamparo uma relao amorosa fixa e estvel: o casamento. Tenta-se reaver o paraso simbitico que se tinha no tero da me. Iluso que dura pouco, que no se sustenta na realidade de uma vida a dois, cotidiana.
     Aprisionadas pela tirania de uma moral que determina o certo e o errado, o bom e o mau, pessoas solteiras, separadas ou vivas buscam no casamento sua parcela de felicidade. A mudana na forma de pensar e de viver gera medo e ansiedade, sendo mais fcil optar pelo j conhecido, apesar das frustraes. Contribuem para isso a famlia, os amigos, a escola e os meios de comunicao. No existe novela sem casamento feliz no final.
     Sistematicamente, surgem figuras de destaque, desempenhando importante papel na manuteno dos valores tradicionais. Uma conhecida atriz de tev, cinema e teatro declara  imprensa, em tom de desabafo: "Quero ser a mulherzinha. Eu estou em um ponto que largo tudo por um grande amor. Quero ser a doninha de casa, aquela que cuida, que sabe cozinhar. Tenho direito a isso."
     Uma jovem e bonita mdica de So Paulo, em uma entrevista, afirmou: "Quero um companheiro como presente de Natal, algum que me d filhos e me ajude a enfeitar minha rvore." Inscreveu-se h vrios meses numa agncia de casamento e, nas ltimas semanas, vem telefonando com insistncia, cobrando resultados.4
     Quase todos, homens e mulheres, desejam no s casar, como se submeter com resignao a muitas outras normas sociais de conduta, a maioria incompatvel com suas aspiraes mais legtimas. Fazer escolhas realmente livres no  simples. Seu preo  fixado no alto pela sociedade, que mantm unidos os fiis,  custa do sacrifcio individual.

O amor conjugal
     
      Na Idade Mdia o casamento era considerado algo muito srio para que dele fizesse parte o amor. No sculo XII, havia se tornado para os senhores feudais um simples meio de enriquecimento e anexao de terras, que eram oferecidas em dote ou prometidas em herana.
     Fora do mundo ocidental, o amor continua sendo considerado um sentimento aleatrio demais para nele se apoiar uma unio conjugal. No Rajast, ndia, por exemplo, foram celebrados, num s dia de maio de 1985, 40 mil casamentos infantis que, sem serem questionados, duraro a vida toda.5
     Da mesma forma que o amor romntico  culturalmente especfico do Ocidente, a sociedade ocidental  a nica que assume o risco de ver o casamento ser estabelecido sobre o amor de um casal. Em todas as pocas e lugares, era comum o homem repudiar sua mulher e casar novamente. Para isso no faltavam pretextos. Um dos mais explorados era o do incesto, que no sofria objeo da Igreja: a simples alegao, sem necessidade de muitas provas, de um parentesco at o quarto grau era suficiente para obter a anulao.6
     A Igreja no intervinha na unio conjugal entre os nobres. Era um contrato entre duas famlias. Caso a mulher no procriasse, era devolvida  famlia ou ia para um convento. A indissolubilidade foi imposta a partir do sculo XIII, quando a Igreja passou a controlar o casamento, transformando-o em sacramento, sendo celebrado na porta da igreja e, a partir do sculo XVII, ao p do altar. Quando o Estado substituiu a Igreja, manteve o princpio da indissolubilidade. O casamento monogmico e indissolvel  "o grande fato da histria da sexualidade ocidental".7
     O amor no era cogitado. Se por acaso existisse, deveria ser mantido em segredo e nunca estimular arrebatamentos erticos, que eram condenados. A tica religiosa era to rgida que identificava o coitus interruptus com o infanticdio.
     A partir do final do sculo XVIII, o amor no casamento passou a ser uma possibilidade e, no sculo XX, tornou-se to valorizado que  difcil imagin-lo como inovao revolucionria recente.
     A famlia foi perdendo aos poucos as funes que a caracterizavam como uma microssociedade. A Revoluo Industrial afetou a mora! do casamento da mesma forma que as monarquias. A indstria trouxe consigo cidades, fbricas, multides, variedade, complexidade, luxo, individualismo. A socializao dos filhos deixou de ser circunscrita  esfera domstica.
     Nas cidades, a adolescncia se prolonga, a educao consome mais anos, a maioridade econmica vem tarde, e tambm se retarda o casamento. Os solteiros invejam menos os que procriam, e o velho negcio da reproduo da espcie modera a marcha.
     A mulher emancipou-se, mas enquanto no se casa continua to sujeita como antes. Se at os 25 anos permanecesse solteira, ficaria para titia, a menos que optasse por uma vida tida como promscua. "A famlia, portanto, deixa de ser uma instituio para se tornar um simples ponto de encontro de vidas privadas."8 A realidade familiar transformada to profundamente conduz  inevitvel evoluo do casamento.
     Na primeira metade do sculo XX, casar significava formar um lar e se situar socialmente dentro da coletividade. "Ainda em 1930, a profisso e a fortuna, bem como as qualidades morais, pareciam mais importantes do que as inclinaes estticas ou psicolgicas para decidir sobre uma unio. As pessoas se casavam para dar sustento e auxlio mtuo ao longo de uma vida que se anunciava penosa, e ainda mais dura para os solitrios; casavam-se para ter filhos, aumentar um patrimnio e deixar de herana para que os filhos se realizassem e, com isso, os prprios pais se realizassem. Como os valores familiares eram centrais nessa sociedade, os indivduos eram de fato julgados em funo do xito de sua famlia e do papel que desempenhavam nesse xito".9
     As pessoas dessa poca aceitavam a misria conjugal como algo da natureza ou como algo estabelecido pela vontade de Deus. Consolavam-se acreditando que o mesmo Deus que inventara a instituio compensaria suas vtimas com um chuveiro de felicidade no paraso. Se os casados pudessem suportar-se por algumas dezenas de anos, teriam direito  eterna liberdade no Cu. 10
     Num casamento a que assisti, alguns anos atrs, o dilogo entre duas senhoras idosas na fila dos cumprimentos ilustra a expectativa em relao  vida conjugal. Observando os noivos serem festejados pelos convidados, com ar resignado, uma cochichou no ouvido da outra: "Coitada, hoje comea a cruz dela." Embora o amor j fosse uma possibilidade no casamento, no era uma condio nem se vinculava ao seu sucesso. Para se casar, um homem e uma mulher deveriam intuir que poderiam se entender e se estimar. Era possvel at que j estivessem se amando, mas "a valorizao dos aspectos institucionais do casamento mascarava as realidades afetivas".11
     Num levantamento de 1938, na Frana, sobre as condies da felicidade conjugal, a atrao sexual se colocava depois da fidelidade, das qualidades espirituais, da diviso de autoridade e, principalmente, da diviso das tarefas e preocupaes.
     As mudanas comearam a ocorrer mais claramente na dcada de 1940. A valorizao do amor conjugal sob todos os seus aspectos, principalmente o sexual, e uma novidade. Os meios de comunicao acompanham a mudana das normas sociais. "As revistas femininas do a palavra a mdicos e psiclogos, que legitimam e vulgarizam os principais conceitos freudianos, (...) Palestras de preparao pr-nupcial mostram o casamento como uma etapa de um processo de amadurecimento afetivo que se consuma com a realizao do desejo de ter filhos. Considera-se que os filhos, para serem bem criados, precisam no s do amor dos pais, mas tambm do amor entre os pais. O termo casal passa a ser utilizado em expresses como 'vida de casal', 'problemas de casal'. Em suma, agora o amor ocupa um lugar central no casamento:  seu prprio fundamento." 12
     A sexualidade legitima-se e transforma-se na linguagem do amor por excelncia. A partir de agora, j no basta a instituio matrimonial para legitimar a sexualidade:  preciso amor.13 Da mesma forma que antes era inadmissvel casar por amor, hoje h uma crtica severa a quem se casa sem amor. Suspeita-se logo de interesses escusos e oportunismo. E, assim como antes deveria ficar em segredo o ardor entre o casal, agora se tenta ocultar a diminuio ou o fim do desejo sexual entre marido e mulher, para no frustrar as expectativas colocadas no amor dentro do casamento.


As expectativas do amor no casamento
       
     Assim como na nossa cultura acredita-se que s  possvel estar bem vivendo uma relao amorosa, o casamento por amor passou a ser sinnimo de felicidade e, por conseguinte, uma meta a ser alcanada por todos.
     A idia de felicidade conjugal depende da expectativa que se tem do casamento. Algumas dcadas atrs, uma mulher se considerava feliz no casamento se seu marido fosse bom chefe de famlia, no deixasse faltar nada em casa e fizesse todos se sentirem protegidos. Para o homem, a boa esposa seria aquela que cuidasse bem da casa e dos filhos, no deixasse nunca faltar a camisa bem lavada e passada e, mais que tudo, mantivesse sua sexualidade contida. Um casal perfeito: a mulher respeitvel e o homem provedor.
     Hoje, os anseios so bem diferentes e as expectativas em relao ao casamento tornaram-se muito mais difceis, at mesmo impossveis de ser satisfeitas. As pessoas escolhem seus parceiros por amor e esperam que esse amor e o desejo sexual que o acompanha sejam recprocos e para a vida toda. A, deparamo-nos com uma questo crucial. O amor at que a morte nos separe se torna cada vez mais invivel. Quando a mdia de vida era menor, o casamento durava apenas alguns anos, Com o crescente aumento da longevidade, at que a morte nos separe, embora ainda idealizado pela maioria, passou a significar longos anos de convivncia, difceis de suportar.
     Numa palestra que dei a mulheres de terceira idade, quando uma das participantes declarou estar casada h 54 anos, foi ovacionada com entusiasmo pela platia. Mas ningum se interessou em saber como era o seu dia-a-dia conjugal, ou ento estavam aplaudindo a rdua proeza conseguida.
     Um testemunho esclarecedor foi dado por uma moa de 32 anos, numa outra palestra sobre amor e casamento. A discusso girava em torno da possibilidade ou no de um casamento durar a vida inteira, havendo amor, carinho e prazer na companhia do outro. Alguns participantes defendiam a existncia de timos casamentos duradouros. Priscila, ento, pediu para dar seu depoimento:
     
"Eu nunca consegui que um relacionamento meu durasse mais de um ano e meio. Sempre me senti uma incompetente por isso, principalmente depois que conheci meus vizinhos: dona Margarida e seu Raimundo. Eles eram umas gracinhas. To unidos e se amando tanto! E j estavam casados h mais de 50 anos! Cada vez que subia com eles no elevador, eu ficava arrasada. Imaginava ter algum problema grave porque aquele casal era o testemunho da minha incompetncia. Um dia meu telefone ficou mudo e precisei ir  casa deles para telefonar. Quando a empregada abriu a porta, parei perplexa. Eles estavam no sof assistindo  televiso, de mos dadas. Essa noite tive de tomar um Lexotan para dormir. Eu estava me relacionando com um homem h 11 meses e j vinha questionando o termino dessa relao. Uns trs meses depois, o porteiro me avisou da morte do seu Raimundo. Fiquei sem saber o que fazer. Precisava fazer uma visita de psames a dona Margarida, mas imaginava sua dor, seu desespero. Como ia conseguir viver sem seu grande amor? Tomei coragem e fui. Cheguei dizendo logo que imaginava como sua dor era indescritvel e tentei algumas frases de consolo. Mas a reao dela me deixou atnita. Com tranqilidade, virou-se para mim e disse: 'Que nada, minha filha, na verdade foi um grande alvio. Eu j no agentava mais. Ele era um chato. Nada estava bom. J tive dia de fazer o arroz trs vezes! Alm disso, no fazia nada sozinho. Me acordava a noite toda sem necessidade. Era incapaz de buscar um copo d'gua'. Perplexa, ainda tentei argumentar: 'Mas, dona Margarida, estive aqui outro dia e encontrei vocs no sof de mos dadas!' E, ento, ouvi sua resposta, que encerrava definitivamente o assunto: 'Isso era s um cacoete.'"
     
     A entrada do amor romntico fez do casamento o meio para as pessoas realizarem suas necessidades afetivas. Idealiza-se o par amoroso e, para manter essa idealizao, no se medem esforos, o que acaba sobrecarregando a relao entre os cnjuges. Imagina-se que no casamento se alcanar uma complementao total, que as duas pessoas se transformaro numa s, que nada mais ir lhes faltar e, para isso, fica implcito que cada um espera ter todas as suas necessidades pessoais satisfeitas pelo outro.
     Numa relao estvel,  comum as pessoas se afastarem dos amigos e abrirem mo de atividades que anteriormente proporcionavam grande prazer. Um deve ser a nica fonte de interesse do outro e, portanto, tudo o mais  dispensvel. Esse comportamento  aceito socialmente como natural, tanto que, num grupo de amigos, quando a ausncia de um membro  sentida, ouvimos explicaes do tipo: ", ele sumiu. Depois que casou nunca mais deu notcias."
     Esse treinamento para se acreditar na complementao total com o outro geralmente se inicia antes do casamento.
     Rosa, mulher autnoma, de 45 anos, estava muito preocupada com o futuro da filha, que iria se casar dentro de um ano:
     
"Ela se formou na faculdade e logo ficou noiva, mas o que no entendo  que sempre foi uma moa que tinha muitos amigos e parecia gostar muito deles. Nossa casa estava sempre cheia de gente. De repente, se afastou de todos, s enxerga o noivo. No conversam com mais ningum. Ele  um grande velejador. J venceu vrias regatas; velejava com sol ou com chuva. Voc acredita que colocou seu barco  venda?"
     
     O exagero de participao na vida do outro tambm faz parte do que se espera do casamento. Considerando-se natural que se dem opinies e at que se faam exigncias em assuntos absolutamente pessoais como trabalho, relaes familiares e de amizade. O que o outro deve dizer para o chefe, como gastar a herana do pai, como resolver um problema com um amigo de infncia etc.
     O ideal do par amoroso que est sempre junto, que se completa em tudo, em que um  a nica fonte de gratificao do outro, atenua por um tempo o temor do desamparo. Mas, para manter essa situao, so feitas muitas concesses, e a conseqncia inevitvel  um acmulo de frustraes que torna a relao no casamento sufocante.
     E. Le Garrec sublinha que o casal aniquila a pessoa humana, numa confuso alienante: "O 'eu' desaparece, absorvido, afogado no 'ns'. Porque o casal no permite essa parte de solido indispensvel  existncia do indivduo. Mesmo ausente, o outro est a, ponto de referncia, trao incmodo na casa, pesado pela espera que suscita." 14
     Fabiana est casada h quatro anos. Ela e o marido estabeleceram um tipo de relao em que s saem juntos. Ou vo os dois, ou no vai ningum. Sempre acreditou que num casamento  importante fazer concesses em nome do amor. No se importou muito em abrir mo de assistir a shows e peas de teatro, pois seu marido detesta. Pelo menos ele gosta de praia, coisa que tambm lhe d muito prazer. De seis meses para c, entretanto, parece que algo mudou. Sente-se insatisfeita e recrimina-se por isso.
     Uma tia-av de seu marido, muito idosa e que ela mal conhece porque morava em outra cidade, ficou doente e foi trazida para viver aqui com uma sobrinha. Desde ento, todos os domingos vo visitar a tia Loi num subrbio do Rio, a mais de uma hora de distncia de sua casa.
     
"No d mais para agentar. No vero, 40 graus, no posso ir  praia. No fui criada pela tia Loi, no tenho nenhuma relao com ela, alis, nem a conheo, mas tenho que passar o dia inteiro l, sem fazer nada. Quando perguntei a ele, depois de ter ido vrias semanas seguidas, se era importante eu ir, ficou magoado e achou que isso  um sinal de que estou deixando de am-lo."
     
     Na busca de estabilidade e segurana afetiva qualquer preo  pago para evitar tenses que decorrem de uma vida autnoma. Assim, o desejo de conviver com intimidade se confunde com a nsia de manter a estabilidade, levando as pessoas a suportar o insuportvel. Tentando justificar sacrifcios ou frustraes pessoais, cria-se um mundo fantstico em que defesas como a negao e a racionalizao so acionadas para que se continue a viver uma relao idealizada, distante do que ocorre na vida real.15
     Cristina casou-se aos 18 anos com um homem dez anos mais velho. Seus sonhos romnticos se realizaram numa linda festa de casamento e na lua-de-mel passada na Europa. Nos primeiros meses de vida conjugal, ainda era tratada pelo marido com muitas atenes e cuidados, mas logo o encanto comeou a se desfazer. Frederico no conseguia mais esconder seu egosmo e o pouco caso que fazia dos sentimentos de Cristina. Tiveram dois filhos, que ele praticamente ignorava. S pensava em seu trabalho e nas atividades de lazer que lhe interessavam. Ela fez tudo para acompanh-lo, mas nada conseguia faz-lo perceber a mulher e os filhos.
     Quando completou 25 anos, Cristina combinou com o marido comemorarem sozinhos, num restaurante romntico escolhido por ela. Comprou roupa nova, foi ao cabeleireiro, fez sauna. Ansiosa, esperava pela volta de Frederico do trabalho. Ele chegou cabisbaixo e recolheu-se, alegando uma forte dor de cabea. No lhe deu nenhum presente nem lembrou do jantar combinado. As frustraes se acumulavam, mas a dificuldade em aceitar o fracasso era maior. Seu discurso defensivo se tornou repetitivo e cansativo:
     
"Eu e Fred vivemos muito bem. Acho que ganhei na loteria. Ele  tudo o que desejei. Est sempre preocupado comigo e com as Crianas.  um pai fantstico e um marido supercarinhoso."
     
     Quanto mais concesses so feitas para se manter o casamento, mais hostilidade vai surgindo em relao ao outro. Hostilidade, na maioria das vezes, inconsciente, que vai minando gradativamente a relao, at torn-la insustentvel. "Assim,  justamente das pessoas mais tolerantes e dceis que podemos esperar as 'viradas de mesa' mais intempestivas e radicais." 16
     O esforo para corresponder s expectativas depositadas no casamento pode superar o limite da capacidade de conceder e fazer a pessoa optar pelo fim da relao. Em outros casos, o tdio e a monotonia da vida a dois, em funo da dependncia emocional que se tem do outro, podem levar a uma atitude de resignao e acomodao.
     H algum tempo, atendi durante seis meses um grupo de dez mulheres que se reuniam por uma questo especfica: a solido. As idades variavam de 35 a 55 anos. Oito eram casadas, uma separada e uma viva. Apesar de expressarem o desejo de um companheiro estvel, ficou evidente como as vidas das que viviam sozinhas eram mais interessantes e cheias de possibilidades em comparao com as das mulheres casadas. Estas se mostravam desesperanadas, sentiam-se impotentes para tentar qualquer transformao que pudesse lhes proporcionar algum prazer no plano afetivo e sexual. A monotonia do dia-a-dia, a falta de dilogo com o marido e a ausncia de uma vida sexual satisfatria eram a tnica de suas queixas. Relato aqui a histria de uma delas por ser, nos aspectos principais, semelhante  de todas as outras mulheres do grupo:
     Joyce estava casada havia 27 anos. Aps o casamento das duas filhas, passou a morar sozinha com o marido. Foi nessa poca que um sentimento profundo de solido se apoderou dela. Gostava de sair, ir ao teatro, conhecer pessoas, mas seu marido recusava qualquer sugesto sua. No conversavam nunca. Ele chegava cedo do trabalho e trancava-se no escritrio. Dirigia-se a ela exclusivamente para saber se precisava de dinheiro para o supermercado ou qualquer outro pagamento domstico. Faziam sexo muito raramente, e de forma mecnica, sem nenhum carinho. Ele no a tratava mal nem bem. Era indiferente. Quando casou com ele, aos 18 anos, no imaginava que sua vida seria assim. Sempre ouviu seus pais dizerem que se no se casasse teria uma vida de solido.
  
  
O sexo no 
  casamento
       
       
"O casamento  para as mulheres a forma mais comum de se manterem, e a quantidade de relaes sexuais indesejadas que as mulheres tm de suportar , provavelmente, maior no casamento do que na prostituio."
     BERTRAND RUSSELL17
     
     
     A maioria das mulheres, depois de algum tempo de casamento, faz sexo sem nenhuma vontade. Esse sexo indesejado, por obrigao,  vivido tambm por mulheres economicamente independentes, que no necessitam do marido para mant-las. A dependncia emocional acaba sendo to limitadora quanto a financeira. Ambas podem conduzir a uma vida sexual pobre e medocre. Imaginar-se sozinha, desprotegida, sem um homem ao lado,  percebido como insuportvel.
     A atrao sexual acaba por vrios motivos: rotina, falta de mistrio, brigas e, inclusive, pela obrigao de fidelidade. H outra razo bem mais simples, entretanto, e que raramente  abordada: no convvio amoroso, s existe teso mesmo no incio e por algum tempo. Nas relaes estveis no h emoo. O sexo se torna to tedioso quanto qualquer outro aspecto da relao. Dor de cabea, cansao, preocupao com trabalho ou famlia so as desculpas mais usadas. As mulheres tentam tudo para postergar a obrigao a que se impem para manter o casamento. Quando o marido se mostra impaciente, no tem jeito, a mulher se submete ao sacrifcio. Ningum fica sabendo. Comentar o assunto significa admitir o que se tenta negar. Socialmente,  difcil acreditar que aquele casal jovem, com tanta energia e manifestaes de carinho entre si, no vive uma sexualidade plena. Em muitos casos, a escassez de sexo progride at a ausncia total.
     Mriam, 29 anos, diretora de uma grande empresa, marcou uma entrevista. Casada havia trs anos, amava muito o marido; no conseguia imaginar a vida sem ele. Era seu melhor amigo, o companheiro com quem partilhava muitos interesses: teatros, shows e viagens nos fins de semana. Tinham muitos amigos. Ela gostava quando ficavam juntos, abraados ternamente, ele fazendo cafun na sua cabea. Mas, ao primeiro sinal de um carinho mais sexual, usava algum pretexto para se afastar. No desejava fazer sexo com ele de jeito nenhum. S a idia j lhe desagradava. No falava com ningum sobre isso. A famlia e os amigos os viam como exemplo de um casamento perfeito.
     Vencido o constrangimento inicial, Mriam falou sem parar durante toda a sesso. Ouvi seu relato sem interromp-la. Combinamos uma segunda entrevista para a semana seguinte. Horas depois, telefonou desmarcando. Suponho ter se assustado com o que escutou de si mesma.
     Snia, 36 anos, casada h 12, dois filhos, de 10 e 8 anos. Desde o nascimento do mais velho j no sentia desejo sexual pelo marido. Durante o namoro e at o incio do casamento, foi diferente. Iam a motis e transavam vrias vezes numa noite. Com o tempo, o teso foi acabando, mas nunca lhe ocorreu a idia de separao. Tentava controlar a ansiedade. No podia deixar que ele percebesse, pois sabia que jamais aceitaria manter um casamento sem sexo. Nos ltimos dez anos, especializou-se em fingir. Considerava-se uma expert e inventou um mtodo infalvel: quando suas recusas j no eram mais aceitas, alugava um filme pornogrfico e o assistia sozinha antes de o marido voltar do trabalho. Logo que ele chegava, j bastante excitada, levava-o para o quarto. Fechava os olhos e se imaginava na cama com o personagem do dia, O orgasmo fingido surgia em pouco tempo. A misso estava cumprida.
     No casamento ou em qualquer relao estvel, observa-se o conflito entre a diminuio do desejo sexual e o aumento da ternura e do companheirismo entre os parceiros.
     No  raro encontrarmos casais que, apesar de viverem juntos, tm na ausncia total do desejo sexual a tnica da relao. E, por mais que se esforcem, no adianta: a atrao sexual no pode ser imposta. Assim, numa relao estvel, o sexo acaba se tornando um hbito ou um dever. Embora menos freqente, a ausncia do desejo sexual tambm ocorre no marido em relao  mulher.
     Maria Lcia estava casada havia 14 anos. Ela e o marido tinham trs filhos e uma vida social intensa. Eram grandes companheiros e dificilmente brigavam. Todos acreditavam tratar-se de um casamento muito bem-sucedido. Mas alguma coisa a incomodava. Apesar de no ter feito sexo com nenhum outro homem, ela sentia que era muito diferente da poca de namoro, ou mesmo dos primeiros tempos de casados. A relao sexual era rpida, sempre igual, sem nenhuma emoo. Tomou coragem e um dia, quando iam fazer sexo, sugeriu tentarem algo diferente, que desse mais teso e quebrasse a mesmice. A reao do marido foi uma ducha fria:
     
"Fiquei arrasada. Estvamos nus na cama e quando tentei mudar alguma coisa ele me deu dois tapinhas na bunda e disse com ar de tdio: 'Deixa como t, deixa como t."'
     
     A relao amorosa e sexual com a mesma pessoa por um tempo prolongado leva  falta de estmulo e interesse. Tudo fica repetitivo e sem graa. O desejo sexual est ligado  magia, ao encantamento,  descoberta nossa e do outro. Numa relao estvel, isso no ocorre. Busca-se muito mais segurana que prazer. As pessoas se conformam com a falta de emoo e tentam nem pensar no assunto. Convencem-se de que no  to importante assim. Reich apresenta vrias pesquisas feitas na primeira metade do sculo XX e afirma que a durao mdia de uma ligao de base sexual  de quatro anos, levando-o a perguntar: "Como  que a reforma sexual dos conservadores pretende pr trmino a esse estado de coisas?" 18
     A conjugalidade  regida por leis e regras que limitam no s o sexo, mas a prpria vida. H inmeras cobranas, como tarefas, comportamentos e horrios. Um se mete nas questes do outro com palpites, exigncias e crticas. O sexo  o que temos de biolgico mais ligado ao emocional e, com certeza,  afetado. Na rotina, o teso sai de cena. Mesmo assim, a maioria opta por manter a relao: " isso mesmo, teso de verdade a gente s tem no comeo", dizem, num tom conformista.
     As formas utilizadas para manter um casamento sem sexo so variadas.  raro encontrar alguma relao estvel em que haja grande interesse e prazer sexual. As relaes extraconjugais muitas vezes contribuem para a manuteno do casamento. Com o(a) amante  possvel viverem-se emoes intensas h muito adormecidas. O prazer desfrutado nesses encontros torna mais suportvel a vida a dois.
     A Organizao Mundial de Sade recomenda exerccios moderados e saudvel atividade sexual a doentes do corao. O mdico Ivan Gyarfas, diretor da unidade de doenas cardiovasculares da organizao, afirma que sexo  bom, mas praticado em casa  melhor que na rua. "Tende a ser menos excitante." Explicao desnecessria. Todos sabem, embora ningum fale, que sexo no casamento  pouco ou nada excitante.19
     H algum tempo, atendi uma moa de 20 anos, estudante de psicologia. Tinha um namorado h trs anos e pretendiam se casar. Quando falava sobre seu relacionamento sexual, admitia uma frustrao por no ter mais vontade de transar com ele e tambm por nunca ter sentido orgasmo. Um dia, chegou  sesso bastante aliviada. Decidiu no se preocupar mais com isso. Convenceu-se de que, afinal de contas, sexo no era fundamental. O namorado, segundo ela, era maravilhoso e a amava muito. Era o que importava. Alguns meses mais tarde, conheceu uma pessoa por quem sentiu grande atrao e com quem passou a sair com freqncia. Trocou o namoro antigo e estvel por uma relao sem compromisso, na qual o sexo adquiriu nova importncia.
     Numa de minhas palestras sobre amor, casamento e separao, sempre que se falava em teso no casamento, uma mulher de aproximadamente 38 anos levantava a mo para um aparte. Declarava com bastante segurana: "O teso no dura mais de um ano." Todos na platia a olhavam. Alguns surpresos, outros concordando com a cabea.
     Na verdade, todas as pessoas so afetadas por estmulos sexuais novos vindos de outras pessoas que no so os parceiros fixos. Esses estmulos existem e no podem ser eliminados.
     A ideologia monogmica induz ao recalque desses desejos, levando muitas pessoas a afirmarem conceitos estereotipados, expressos em frases como: "Quando se ama s se sente desejo pela pessoa amada." Ou: "Se surgir teso por outra pessoa  porque a relao no vai bem." Isso est muito longe da realidade. Todos sabem que  natural sentir desejo por outros. A prova  que todos os casais se controlam, mesmo quando amam e se sentem correspondidos. Se a monogamia fosse espontnea, no haveria necessidade de tanto controle.
     O desejo e o prazer sexual obtido no casamento diminuem na razo direta do aumento do desejo por outras pessoas. As boas intenes no conseguem evitar essa situao. Muitos evitam buscar a realizao dos seus desejos pelo temor de perder a estabilidade na relao ou para evitar que o parceiro faa o mesmo. Nesse caso, pode surgir uma irritao e at se desenvolver dio contra o outro.  comum responsabiliz-lo pela frustrao, como se ele fosse a causa do impedimento. Surge, ento, o conflito, pela inexistncia de razo pessoal ou consciente para odiar.
     Gustavo e Mariana estavam juntos havia quatro anos. Evitavam que seu casamento casse no modelo tradicional e, para isso, procuravam sempre respeitar os espaos de cada um. No se impunham a obrigao de fazer tudo juntos. Tinham vrias atividades e muitas vezes saam em companhia de amigos, em separado. Sentiam-se orgulhosos de continuar com o mesmo desejo sexual de quando se conheceram. Atribuam isso  ausncia de controles e cobrana na relao, embora a fidelidade estivesse subentendida.
     Numa ocasio, Gustavo conheceu uma mulher por quem logo se sentiu atrado. Passou a encontr-la com freqncia, j que estavam fazendo um trabalho juntos. Percebeu que era correspondido e,  medida que os dias passavam, seu desejo aumentava, assim como suas fantasias. O problema  que no tinha coragem de ser infiel a Mariana. Tornou-se impaciente e agressivo. A crise eclodiu quando foi organizada uma festa para comemorar o aniversrio de um amigo, e Mariana tambm foi convidada. Gustavo desesperou-se. Afinal, era a oportunidade que tanto aguardava.
     
"Quero ir sozinho. Estou me sentindo acorrentado. Por que Mariana tem que ir? Por que ela tem que ficar no meu p?"
     
     S que sua mulher nunca ficou no seu p. Seu dio surgiu quando percebeu o conflito entre seu desejo e sua adeso  ideologia da monogamia no casamento.
     O enfraquecimento do desejo sexual pode no ser definitivo. Ele deixa de ser passageiro e se torna permanente se os parceiros no perceberem a tenso ou o dio recproco, e tambm se rejeitarem como absurdos os desejos sexuais sentidos por outras pessoas. A represso desses impulsos traz conseqncias desastrosas para a relao entre duas pessoas.20
     S  possvel encontrar uma sada encarando-se esses fatos com franqueza e sem preconceitos.  condio essencial reconhecer como natural o interesse sexual por outras pessoas: "Ningum pensaria em condenar algum por no querer usar a mesma roupa durante anos, ou por no querer comer todos os dias o mesmo prato."21
     Wilhelm Reich, no seu livro Casamento indissolvel ou relao sexual duradoura?, faz uma crtica contundente  ideologia da monogamia no casamento:
     
"Os diversos autores chegam a buscar os argumentos mais estranhos e absurdos para justificar a manuteno do casamento indissolvel. Esforam-se, por exemplo, por demonstrar que o casamento e a monogamia. so fenmenos naturais, isto , biolgicos. Procedem a rduas pesquisas entre as espcies animais que, incontestavelmente, vivem sem leis sexuais, para da isolar as cegonhas e os pombos que  temporariamente  vivem em monogamia, donde logo concluem que a monogamia  'natural'. Paradoxalmente, o homem deixa de ser um ente superior, incomparvel aos animais, quando se pretende defender a ideologia do sistema de casamento monogmico. Em contrapartida, quando se discute o casamento do ponto de vista biolgico, esquece-se que a promiscuidade  a regra entre os animais; agora, subitamente, o homem volta a ser diferente dos animais e deve elevar-se a 'um nvel superior' de atividade sexual, ou seja, o casamento monogmico. O homem, proclama-se,  um 'ser superior', com uma 'moralidade inata', e a economia sexual  combatida, porque demonstra, efetivamente, que essa 'moralidade inata'  uma fico. Ora, se a moralidade no  inata, s pela educao pode ser incutida. Quem realiza essa educao? A sociedade e sua fbrica de ideologia, a famlia autoritria fundada na monogamia compulsiva. Isso basta para demonstrar que a famlia no  um fenmeno natural, mas uma instituio social. Quando se tende a admitir que o casamento no  uma instituio natural nem sobrenatural, mas, sim, uma simples instituio social, tenta-se de imediato provar que a humanidade viveu Sempre na monogamia, negando-se quaisquer evolues e mudanas das formas sexuais. Chega-se ao ponto de falsificar a etnologia, para estabelecer a seguinte concluso: se os homens sempre viveram na monogamia, da se pode concluir que esta instituio  indispensvel  existncia da sociedade humana, do Estado, da cultura e da civilizao. omitem-se todos os ensinamentos da histria que demonstram terem tambm existido a poligamia e a promiscuidade sexual, as quais desempenharam papel de grande importncia. Mas, para contornar essa objeo, a ideologia monogmica substitui ento O ponto de vista da moralidade inata pelo da evoluo."22
     
     
  
A crise do
   casamento
       
       
     
     Por volta da dcada de 1950 o amor e o casamento caminham juntos, j que a sexualidade continua vinculada  procriao. As mes solteiras so repudiadas, embora j se notem sinais de maior tolerncia s relaes sexuais antes do casamento, desde que os noivos se amem e pretendam se casar. Mesmo assim, a maioria das moas ainda recusa maior intimidade. A reputao delas se apia em sua capacidade de resistir aos avanos sexuais dos rapazes.
     Uma radical modificao dos costumes inicia-se na dcada de 1960, com o advento da plula anticoncepcional, A mulher reivindica o direito de fazer do seu corpo o que bem quiser, e, assim, a sexualidade se dissocia pela primeira vez da procriao. J no  mais necessrio casar para manter relaes sexuais regulares. Multiplicam-se os casais que moram juntos sem assinar contrato.
     Na Frana, em 1968-69, entre os casais que contraam matrimnio, 17 j viviam juntos; em 1977 esse nmero triplicou. Na maior parte dos casos, essa coabitao juvenil ainda resultava em casamento, mas, de qualquer forma, traduzia um profundo abalo no casamento como instituio.23
     As vantagens do casamento institucional passam a ser questionadas. Em termos de aceitao social, nada acrescenta, pois parentes e amigos j haviam se acostumado  idia. No plano jurdico, cada vez mais as leis consideram uma coabitao comprovada como tendo os mesmos direitos do casamento.
     As perdas parecem ser maiores que os ganhos. Casar soa como abrir mo da liberdade, sacrificar possibilidades pessoais e, em ltima instncia, limitar a pessoa. Acentua-se o temor de que o casamento estrague a relao, que o compromisso transforme o sentimento em hbito e rotina. "Parece-lhes impossvel amar por contrato: prometer afeto no ser transform-lo num dever? Eles querem ser amados pelo que so e no por obrigao. Insistem em preservar a espontaneidade, o frescor, a intensidade da unio, e alguns crem que a falta de compromisso, a precariedade institucional de sua relao a dois,  a garantia mesma de sua qualidade." 24
     A relao a dois  um assunto estritamente privado, sendo difcil admitir que uma terceira pessoa estranha, um representante da lei, administre o que h de mais ntimo entre duas pessoas: o afeto e a sexualidade.
     Nos anos que se seguem, menos casamentos so celebrados. No Brasil, de 1980 a 1994, o nmero de casamentos oficiais diminuiu 38%.25 Em todo o mundo ocidental, aumenta o nmero de solteiros, ao mesmo tempo em que a coabitao resulta cada vez menos em casamento. Estar casado deixa de significar a assinatura de algum documento. So consideradas casadas as pessoas que mantm uma relao fixa e estvel, algumas vezes at morando em casas separadas.
     Com todas essas transformaes, a famlia  abalada. Ningum se lembra mais da poca em que muitos colgios recusavam filhos de pais separados. E isso acontecia at algumas dcadas atrs.
     Aquele lar formado por um casal e filhos no  mais a norma. H um nmero crescente de famlias com apenas um genitor. Muitas vezes, so mes solteiras que decidiram ter e criar seus filhos sozinhas. A diferena bsica  que, anteriormente, o indivduo era incorporado  famlia; sua vida pessoal confundia-se com sua vida familiar ou, ento, subordinava-se a ela: "A relao do indivduo com a famlia se inverteu. Hoje, exceto na maternidade, a famlia no  seno a reunio dos indivduos que a compem nesse momento; cada indivduo tem sua prpria vida privada e espera que esta seja favorecida por uma famlia do tipo informal. E se, pelo contrrio, ele se sentir asfixiado por ela? Nesse caso, vira-lhe as costas e vai procurar contatos mais 'enriquecedores'. A vida privada se confundia com a vida familiar; agora  a famlia que  julgada em face da contribuio que oferece  realizao das vidas privadas individuais." 26
     So vrias as causas da crise do casamento. Rougemont afirma que todos os adolescentes no Ocidente so educados para o casamento, mas ao mesmo tempo vivem imersos numa atmosfera romntica proporcionada por suas leituras, pelos espetculos e pelos mil referenciais cotidianos, cujo sentido subliminar  mais ou menos o seguinte: a paixo  a experincia suprema que todo homem deve um dia conhecer, e somente aqueles que passarem por ela podero viver a vida em sua plenitude. "Ora", diz ele, "a paixo e o casamento so, por essncia, incompatveis. Sua origem e seus objetivos so excludentes. Sua coexistncia faz surgir incessantemente em nossas vidas problemas insolveis, e esse conflito ameaa constantemente nossa 'segurana social'." 27
     Outras causas so: a crena equivocada de que o amor  a soluo para todos os problemas: a relao ntima do amor com o casamento; o aumento da longevidade; a diminuio da religiosidade; os contraceptivos que permitiram a emancipao feminina; a liberao sexual; a aspirao ao individualismo, que caracteriza a modernidade, levando  valorizao do eu sobre o ns conjugal.
     A auto-realizao das potencialidades individuais passa a ter outra importncia, pondo a vida conjugal em novos termos. Acredita-se, cada vez menos, que a unio de duas pessoas deva exigir sacrifcios. Observa-se uma tendncia a no se desejar mais pagar qualquer preo apenas para ter algum ao lado.  necessrio que o outro enriquea a relao, acrescente algo novo, possibilite o crescimento individual. "O homem atual passa por uma nova Renascena  todas as aventuras so desejveis, continentes novos devem ser descobertos e explorados, navegaes por mares estranhos so encorajadas, limites devem ser transpostos... desde que para dentro de si mesmo. O novo mundo a ser descoberto  o prprio homem." 28
     O casamento torna-se, ento, um pesado fardo, pois dificulta a realizao do projeto existencial com suas metas individuais e independentes at das relaes pessoais mais ntimas.29 Surgem conflitos na tentativa de harmonizar a aspirao de individuao com uma vida a dois, mas homens e mulheres esto cada vez menos dispostos a sacrificar seus projetos pessoais.
     Cibele tem 32 anos e casou-se h um ano e meio. Sempre foi independente, morando sozinha desde os 19 anos. Durante algum tempo, guardou parte do seu salrio como designer para, logo que possvel, realizar um antigo projeto: viajar um ano pela ndia. Agora, que vive uma relao amorosa estvel, precisava esclarecer as coisas com o marido. Chamou-o para uma conversa, em que foi bastante objetiva:
     
"Est chegando o dia em que vou dar um tempo no trabalho e colocar meus planos em prtica. Quero ficar viajando por um ano. Se quiser ir, vai ser timo, vou ficar muito feliz. Mas, por favor, no se sinta obrigado a nada. Se voc no quiser viajar comigo, no tem problema. Nos encontramos quando eu voltar."
     
Cime 
     
     A relao amorosa entre homens e mulheres sempre foi prejudicada peio cime. Inicialmente, o cime do homem estava ligado ao medo de falsificao da descendncia  dar seu nome e criar um filho que no fosse seu. Esse temor serviu como justificativa para a violncia extrema que as mulheres sofreram nas sociedades patriarcais. Para elas, entretanto, esse sentimento, caso existisse, era proibido de se manifestar. Cabia-lhes exclusivamente ser virtuosas e obedientes.
     A revoluo sexual dos anos 60 irrompeu no mundo ocidental, trazendo a separao definitiva entre sexo e reproduo e, conseqentemente, a igualdade de condies entre homens e mulheres nessa rea, alm do fim do tabu da virgindade. No entanto, com toda essa liberao, ao contrrio do que se poderia supor, o homem ficou mais ciumento e a mulher passou a expressar essa emoo na mesma intensidade que ele.
     Mas por que o cime  aceito como parte do amor? Por que se defende sua presena numa relao amorosa, mesmo sabendo que o preo pago  to alto? Encontramos ao menos parte da resposta na forma como o adulto vive o amor, que  em quase todos os aspectos semelhante  forma da relao amorosa vivida com a me pela criana pequena.
     O beb quando nasce busca paz, aconchego e proteo no contato fsico com outra pessoa, visando atenuar seu desamparo. Sentindo-se sozinho, entra em pnico e chora at que algum o pegue no colo e o acalente.  a primeira manifestao de amor do beb. Ele ama a me (ou equivalente) porque ela atenua a sensao de abandono. Busca estar sempre prximo a ela.  medida que vai crescendo e ampliando seu universo, a necessidade constante da me vai diminuindo. Mesmo assim, a criana se v freqentemente ameaada de perder esse amor, sem o qual perde o referencial na vida e tambm fica vulnervel  morte fsica. Mostra-se controladora, possessiva e ciumenta, desejando a me s para si.
     Mesmo depois de adultos, quase todos associam para sempre o temor de no ser amados  perda de tudo,  morte. Esse risco, que  verdadeiro na infncia, continua sendo alimentado por uma educao que no permite ao jovem se desligar da dependncia emocional dos pais. Quando surge uma relao amorosa, ele passa de uma dependncia para outra. Agora  por intermdio da pessoa amada que tenta satisfazer todas as necessidades infantis.
     A maioria das pessoas resolve bem as questes prticas da vida. Consegue trabalho, aluga apartamento, briga com o sndico, compra carro, cria filhos, mas no consegue ficar sozinha. S est bem ao lado da pessoa amada. Reeditando a mesma forma primria de vnculo com a me, o antigo medo infantil de ser abandonado reaparece. Se o amor  a soluo de todos os problemas e se o convvio amoroso  a nica forma de atenuar o desamparo, a pessoa amada se torna imprescindvel. No se pode correr o risco de perd-la. O controle, a possessividade e o cime passam, ento, a fazer parte do amor.
     A dependncia entre um casal  encarada por todos com naturalidade porque se confunde com o amor. As pessoas se relacionam muito mais por necessidade do que pelo prazer da companhia um do outro. Espera-se que o parceiro adivinhe o que o outro sente ou deseja, que perceba quando e por que est aborrecido, enfim, que esteja sempre pronto a fazer tudo que torne a outra pessoa feliz. No  assim com o beb? A me deve estar sempre voltada exclusivamente para ele. Deve perceber de imediato se seu choro  por fome, sede ou frio.
     O receio de ser abandonado ou trocado por outra pessoa leva a se exigir do parceiro que no tenha interesse nem ache graa em nada fora da vida a dois, longe da pessoa amada.
     Mrcia recebeu o telefonema de uma colega de faculdade. Estava sendo organizado um almoo para comemorar dez anos de formatura. Indignou-se ao ser comunicada de que todas as colegas deveriam ir sozinhas. No via sentido algum em ir sem Carlos, seu marido h cinco anos:                                    
     
"No vou, de jeito nenhum. Acho um absurdo o Carlos no poder ir. S teria graa se eu pudesse depois comentar com ele sobre cada uma das minhas colegas. Ele faria o mesmo. J me disse que se o encontro fosse da turma dele, no mximo daria uma passada cedo para dar um abrao nos amigos, mas no ficaria para o almoo."
     
     Tenta-se controlar o outro da mesma forma que a criana faz com a me, imaginando diminuir assim as chances de abandono.  considerado natural que o parceiro d satisfaes de todos os seus passos, at fazendo relatrios minuciosos de suas atividades cotidianas para que esse cdigo se mantenha. No  raro encontrarmos pessoas que at se sentem lisonjeadas com qualquer manifestao de cime do outro e alimentam essa atitude por confundi-la com prova de amor. Nesses casos, o desejo de uma vida livre fica em segundo plano, sufocado pelas inseguranas pessoais que privilegiam esse mecanismo de controle.
     Por conta da crena de que, quando as pessoas se amam, devem estar juntas o tempo todo, ocorrem muitas frustraes que se tentam negar. Se o marido ou a mulher, por exemplo, for tomar um chope com os colegas ao sair do trabalho, pode causar uma grande dor no outro, que entende essa atitude como desinteresse e uma ameaa  estabilidade da relao. Nenhum tipo de prazer individual  admitido quando se espera ser a nica fonte de interesse do outro.
     Alexandre, mdico, de 35 anos, trabalhava em vrios hospitais, chegando sempre cansado em casa. Mesmo assim era muito dedicado aos trs filhos e  mulher. Concordava com tudo, no recusando nada que pedissem ou sugerissem. Nos fins de semana, ento, no tinha sossego. Era folga da bab e, desde que acordava, ocupava-se das crianas. Levava-as  praia, ao cinema, ao parque. Sua mulher no participava; aproveitava para descansar dos filhos. Alexandre no reclamava, mas o que desejava mesmo fazer era voltar s aulas de violo. Procurou o antigo professor e passou a ter uma aula por semana, mas sua alegria durou pouco. Sua mulher implicou com as aulas. Tanto reclamou, que Alexandre no viu outro jeito seno desistir.
     Se a dependncia infantil que tinha da me tiver sido bem elaborada, o indivduo, provavelmente, ser menos ciumento. Caso contrrio, ser difcil conseguir autonomia suficiente e poder estar vulnervel ao reaparecimento da insegurana infantil, exigindo exclusividade no amor.
     Como so poucos os que se sentem autnomos, observa-se uma busca generalizada de vnculos amorosos que permitam aprisionar o parceiro, mesmo que seja  custa da prpria limitao. A questo do cime est ligada  imagem que se faz de si prprio. No sendo boa a impresso, h sempre o temor de ser abandonado pela pessoa amada ou trocado por outro.
     Quem  amado sente-se valorizado, com mais qualidades, e menos desamparado. Portanto, quanto mais intenso o sentimento de inferioridade, maior ser a insegurana e mais forte o cime. O caminho mais fcil  tentar restringir ao mximo a liberdade do outro. H casos de uma pessoa aparentar ser auto-suficiente e segura mas, ao iniciar uma relao amorosa, fica evidente sua baixa auto-estima.
     Ftima tem 33 anos,  separada e tem dois filhos. Gosta muito do seu trabalho como fonoaudiloga,  bastante socivel e tem vrios amigos. A todos d a impresso de estar sempre de bem com a vida. Suas caractersticas aparentes mais marcantes so o bom humor, a vivacidade e a segurana.  isso que a torna atraente aos homens. Sempre teve namorados, s que existe um problema. Aps mais ou menos um ms de relacionamento, eles comeam a se desencantar e se afastam.
     
"Parece mentira. Tive trs namorados seguidos nos ltimos quatro meses e com todos aconteceu a mesma coisa. No incio, eles querem me ver todos os dias, todas as horas. Mas aos poucos vo ficando distantes e frios. Com Roberto, o ltimo dos trs, insisti numa explicao, e o que ele disse me deixou pssima. Alegou que se apaixonou por uma mulher independente, forte, mas logo nas primeiras semanas se viu namorando uma pessoa insegura, dependente e ciumenta."
     
     Quem tem a auto-estima elevada e se considera interessante e com muitos atrativos no supe que ser trocado com facilidade, e, se a relao terminar, sabe que vai sentir saudade, vai ficar triste, mas tambm sabe que vai continuar vivendo sem desmoronar.
     Quando um convvio cai na rotina e perde a intensidade, tambm o cime se manifesta. A rotina num casamento  quase inevitvel e, como tudo o que se faz de forma habitual e automtica, traz a perda da sensao e da conscincia do prazer. Os dilogos se tornam escassos e repetitivos. Quando se conversa,  sobre as mesmas banalidades do dia-a-dia. Quem nunca reparou no silncio de um casal num restaurante? Se h companhia de outro casal, geralmente os homens conversam entre si e as mulheres tambm. "O cime vem a calhar quando as pessoas j no tm muito a trocar, mas tm que ficar e no conseguem sair. Nada mais vivo na sepultura do amor do que a desconfiana, o desprezo, o policiamento recproco  o jogo de Tom e Jerry." 30
     O cime pode ser construdo para aumentar o desejo sexual quando ele j est em declnio. A competio com um rival real ou imaginrio  estimulante e serve para aliviar o tdio que domina a relao.
     Lia e Fbio, casados h 18 anos, moram com os dois filhos adolescentes numa bela casa. So companheiros em tudo, inclusive na profisso: ambos so mdicos. Com freqncia, organizam almoos e festas, em que, alm dos prprios convidados, recebem os amigos dos amigos. So tidos como modelo de casamento e at invejados por muita gente. H, entretanto, uma singularidade nessa relao: em cada encontro social, Lia procura seduzir algum homem. Se est sozinho ou acompanhado, no faz diferena. Invariavelmente, aps algumas doses de usque, ela se insinua e, dependendo do seu teor alcolico, pode tornar-se mais ousada. Fbio, para espanto geral, assiste a tudo passivamente at o momento em que se retira para seu quarto com uma expresso indefinvel no rosto. No dia seguinte, Lia comenta com as amigas a noite de sexo ardente que viveu com o marido depois que todos foram embora.
     "O xito do romance e o do cinema aparecem como sinais incontestveis de uma decadncia do homem moderno e de uma espcie de doena do ser. Quase todas as tramas que servem de enredo aos nossos autores reduzem-se ao esquema montono dos ardis que a paixo utiliza para se manter viva  ardis de uma paixo incapaz de inventar obstculos mais secretos. Penso na psicologia do cime que perpassa nossas anlises: cime desejado, provocado, insidiosamente favorecido e no apenas no outro, porque se acaba por desejar que o ser amado seja infiel para que possamos novamente persegui-lo e sentir o amor outra vez." 31

Fidelidade
     
     Esther, professora de ingls, de 35 anos, parou de trabalhar quando se casou com Rui. Logo tiveram dois filhos e, a partir da, seu dia divide-se entre a administrao da casa, aulas de ginstica, encontros com as amigas e compras no shopping. Aps oito anos de casamento, no sente mais desejo sexual algum por Rui e fica bastante irritada com sua presena nos fins de semana, quando vo todos juntos  praia encontrar os amigos. Tem o hbito de critic-lo e contar aspectos ntimos de sua relao com ele para as pessoas que a cercam, sempre denegrindo sua imagem e ridicularizando-o. s vezes, numa roda de conversa, se Rui est de costas para ela, faz gestos que demonstram sua exasperao quase incontrolvel. Impotente por no poder se separar  Rui sustenta sozinho a casa e lhe d todas as mordomias , seu dio cresce a cada dia. Entretanto, nunca teve sequer uma aventura extraconjugal. Esther  uma mulher fiel ao marido.
     
     ngela, jornalista, de 34 anos, est casada com Mauro h sete. Alm do trabalho numa revista, participa de outras atividades culturais de que gosta muito. Considera sua relao com o marido bastante satisfatria. So grandes amigos e tm uma vida sexual intensa. Viajam nos fins de semana, vo ao cinema e ao teatro com freqncia. Cada um convive com amigos em separado, havendo alguns em comum. Respeitam-se sem que um tente controlar a vida do outro. A obrigao de fidelidade nunca foi discutida entre eles. ngela considera essa uma questo menor e define assim a viso que tem do seu casamento:
     
"Amo muito meu marido e sinto muito teso por ele. Acho que foi a pessoa que mais me satisfez no sexo at hoje. Eventualmente, sinto desejo por outro homem e, quando isso acontece, no vejo por que me reprimir. Desde que casamos, tive quatro relaes extraconjugais que no abalaram em nada o que vivo com o Mauro. Suponho que ele tambm deva ter tido alguns romances. Ano passado, acho at que andou meio apaixonado. Chegava em casa calado e ficava pensativo. Parecia estar noutro mundo, mas no perguntei nada. Aps algumas semanas, ele voltou ao normal, foi um alvio. Mauro  a pessoa que mais amo no mundo, admiro e respeito.  com ele que prefiro conviver, fazer sexo, viajar, passar o rveillon. Quando fico doente quero ser cuidada por ele e tambm cuidar dele. Mas no vejo por que no deva transar com outro homem por causa disso."
     
     ngela  o que se considera uma mulher infiel ao marido.
     Nesses exemplos fica claro o equvoco generalizado de se identificar fidelidade com sexualidade. Ao contrrio do senso comum, ngela  que  uma mulher fiel ao marido. A fidelidade est no sentimento que nutre por ele e nas razes que sustentam seu casamento. No  o caso de Esther, que continua vivendo com o marido por causa de suas necessidades financeiras, apesar de odi-lo.
     Embora eu recuse os termos fiel/infiel e, mais ainda, a palavra traio para caracterizar relaes extraconjugais, vou us-los aqui com o objetivo de facilitar a compreenso. De maneira geral, quando duas pessoas estabelecem uma relao estvel  namoro ou casamento , defendem a idia de que quem ama deve contar tudo para o outro, que no pode haver nenhum segredo entre eles. Agora, se tudo  conhecido, se no existe nada no parceiro que no se saiba, no h surpresa, no h nenhuma novidade, no h descoberta, e a conseqncia natural  no haver tambm nenhum interesse pelo outro. E  isso que acontece na maioria dos casamentos.
     Desde a infncia, foi ensinado  mulher que ela deveria ter relaes sexuais apenas com um homem. Isso fez com que se sentisse culpada ao perceber seu desejo sexual por algum que no fosse o marido. Encontramos essa culpa levada ao extremo no relato de algumas mulheres de mais de 60 anos que, mesmo depois de ficarem vivas, no conseguem admitir ter relaes sexuais com outro homem. A mesma dificuldade ocorre tambm em mulheres mais jovens.
     Cleide tem 49 anos e nunca trabalhou. Casou virgem, aos 18 anos e, vinda de uma famlia religiosa e conservadora, acreditou que ficaria casada at que a morte os separasse. Seu marido, um homem dedicado  famlia, sempre manteve com ela uma vida sexual conservadora. Entretanto, aps 19 anos de vida conjugal exemplar, apaixonou-se pela secretria e saiu de casa. Passou a manter contato somente com as trs filhas, evitando qualquer encontro com Cleide, possivelmente porque lhe constrangia o sofrimento da ex-mulher. O pagamento da penso nunca falhava. Durante dois anos Cleide se trancou em casa chorando sua desgraa, at que conheceu Jorge, um vizinho vivo e gentil, que gostava dela. Passaram a sair com freqncia: passeios, jantares, cinema. Quando ele a convidava para conhecer sua casa, ela se apavorava e dava uma desculpa. A situao j estava se tornando difcil e ela no sabia o que fazer:
     
"Gosto muito do Jorge. Sinto-me bem a seu lado. Devo a ele ter recuperado um pouco da alegria de viver, mas fico gelada quando comea a se criar algum clima de sexo. Sei que  loucura minha, mas, se for para cama com ele, sinto estar sendo infiel a meu marido."
     
     A dependncia econmica da mulher foi uma motivao importante da tendncia monogmica presente em nossa cultura. O marido jamais admitiria uma infidelidade e, dessa forma, ela no teria como sobreviver. Um flagrante de adultrio, por exemplo, faz com que a mulher perca todos os seus direitos.
     O homem teme um rival mais competente no sexo e tem pavor de ser estigmatizado como corno. Isso demonstraria a todos que ele no soube se fazer respeitar e que no foi suficientemente homem para segurar a mulher. O fracasso em corresponder ao ideal masculino o exporia ao ridculo e ao desprezo.
     O mesmo no acontece se o marido  infiel. "Uma mulher enganada no  desprezada, mas lamentada, pois a infidelidade do marido constitui um perigo real para a mulher economicamente dependente."32 Por isso, sempre houve mais condescendncia para com a infidelidade do marido.
     Com a emancipao feminina as coisas comearam a mudar. A proporo de mulheres casadas h mais de cinco anos que tm encontros sexuais extraconjugais , hoje em dia, virtualmente a mesma que a dos homens.33
     Quando num casamento no h dependncia econmica ou emocional, quando as duas pessoas se sentem livres e tm conscincia de que a relao s vai existir enquanto for satisfatria do ponto de vista sexual e afetivo, um episdio extraconjugal pode ocasionar dois resultados:  apenas passageiro e no rivaliza com a relao estvel, que sai at reforada  a pessoa no se sente coagida  obrigatoriedade de ter um nico parceiro  ou a nova relao se torna mais intensa e mais prazerosa que a anterior e rompe-se, ento, com a antiga.34
     O parceiro que  excludo, que no deseja a separao por continuar amando, vai passar por momentos difceis. Por mais que compreenda racionalmente as razes do outro e concorde que no h alternativa  afinal, isso faz parte da vida , o sentimento de inferioridade sexual  inevitvel. Alguns tentam a reconquista. Nesse processo, desaparece o automatismo que havia na relao prolongada e tambm a certeza de posse. Outros, mesmo sofrendo, preferem manter-se na expectativa do que vai acontecer. "Seja qual for a evoluo, ela ser sempre melhor do que o martrio de duas pessoas acorrentadas uma  outra por motivos morais ou racionais." 35
     Numa relao amorosa estvel, as cobranas de fidelidade so constantes e sua aceitao  natural. Com toda a vigilncia que os casais se impem, ficam impedidos de vivenciar experincias ricas e reveladoras que outros parceiros podem proporcionar. O conflito entre o desejo e o medo de transgredir  doloroso. Quando surge uma possibilidade, se esquivam com racionalizaes do tipo: "No fui porque no era a hora", "No era a pessoa", "No tenho estrutura", "Eu no estava preparado" e, se no der para negar que apareceu algum despertando muita atrao, muito desejo, desvia-se o olhar, o pensamento e a emoo para evitar complicaes. "Somos por tradio sagrada to miserveis de sentimentos amorosos que, em havendo um, j nos sentimos mais do que milionrios, e renunciamos com demasiada facilidade a qualquer outro prmio lotrico (de amor)." 36
     As restries s quais muitas pessoas tm o hbito de se impor por causa dos outros ameaam bem mais uma relao do que uma "infidelidade".37 Reprimir os verdadeiros desejos no significa elimin-los. O parceiro que teve excessiva considerao tende a se sentir credor de uma gratido especial, a considerar-se vtima, a tornar-se intolerante.
     Quando a fidelidade no  natural nem a renncia gratuita, o preo se torna muito alto e pode inviabilizar a prpria relao. Algumas pessoas j esto se dando conta disso e, talvez por lidar melhor com o desamparo e no se submeter cegamente s normas sociais, buscam solues pouco convencionais:
     Jane morava com Sidney h trs anos. Os dois, msicos, tm uma vida bastante atribulada entre aulas e ensaios. H um ano, Sidney recebeu o convite para fazer um curso importante de um ms em outra cidade. Combinaram, ento, que Jane viajaria para encontr-lo na ltima semana. Quando chegou l, Jane encontrou Sidney diferente, meio distante. Sentiu logo que havia algo no ar e no foi difcil perceber que Sidney estava tendo um envolvimento amoroso. Esperou que ele falasse alguma coisa para juntos resolverem o que fazer, mas, como isso no aconteceu, chamou-o para uma conversa. Num primeiro momento, ele tentou negar, alegando que ela estava vendo coisas e props que voltassem ao Rio no dia seguinte. Jane, ento, foi objetiva:
     
"No, eu volto e voc fica at o fim do curso.  fundamental para nossa relao que voc viva esse romance, veja como . Claro que eu morro de medo de voc se apaixonar, mas no tem outra sada. Se voc renunciar por minha causa, vou me sentir sempre como a responsvel pelas suas frustraes. No,quero ser responsabilizada por algo que no me diz respeito. Esse problema  s seu e, dessa vez, no posso lhe ajudar a resolv-lo."
     
     O exemplo dado, na verdade, ilustra a atitude de uma minoria. A fidelidade conjugal, geralmente, exige grande esforo quando a pessoa se sente viva sexualmente e no abdicou dessa forma de prazer.
     As pessoas sem preconceitos e tabus sexuais sabem que a fidelidade no  natural e, sim, uma exigncia externa. No incio de uma relao, duas pessoas podem estar apaixonadas e, durante um perodo, no desejar mais ningum. Mas com o tempo a familiaridade sexual embota a paixo e comea-se a buscar em outra parte o ressurgimento das antigas emoes. Por questes morais, pode-se controlar esse impulso, mas  impossvel impedi-lo de existir.38
     Reich afirma que nunca se denunciar bastante a influncia perniciosa dos preconceitos morais nessa rea. E que todos deveriam saber que o desejo sexual por outras pessoas constitui parte natural da pulso sexual, que  normal e nada tem a ver com a moral. Se todos soubessem, as torturas psicolgicas e os crimes passionais com certeza diminuiriam, e desapareceriam tambm inmeros fatores e causas das perturbaes psquicas que so apenas uma soluo inadequada desses problemas.
     
     
  
Separao
       
       
       
       
     "Meu mundo caiu e me fez ficar assim."
     "Voc est vendo s do jeito que eu fiquei e que tudo ficou."
     "Risque meu nome do seu caderno, pois no suporto o inferno do nosso amor fracassado."
     "Triste  viver na solido, na dor cruel de uma paixo."
     "Me agarrei nos teus cabelos, nos teus plos, teu pijama, nos teus ps, aos ps da cama (...) reclamei baixinho."
     "Tire seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor."
     "Evitar a dor  impossvel, evitar esse amor  muito mais. Voc arruinou a minha vida, me deixe em paz."
     "Volta, vem viver outra vez ao meu lado, no consigo dormir sem teu brao, pois meu corpo est acostumado."
     "Nosso amor que eu no esqueo e que teve o seu comeo numa festa de So Joo. Morre hoje sem foguete, sem retrato, sem bilhete, sem luar e sem violo."
     A dor da separao sempre foi dramaticamente cantada. Prestando ateno s letras, no  difcil concluir que a separao fere e que o amor romntico, ainda to valorizado, traz mais sofrimento que alegria.
     Quando algum deixa de ser amado,  tomado por profunda angstia e tristeza. Desde criana todos aprendem que o casamento  o lugar em que uma pessoa pode realizar-se afetivamente.
     Ao longo dos tempos, fomos condicionados a desejar o amor, e nossas vivncias mais profundas foram sendo articuladas, vinculadas s concepes de amor conjugal do tipo romntico e ertico.39 "Em outras palavras, o casamento, tal como o conhecemos hoje, tornou-se indispensvel para satisfazer essa necessidade amorosa, ela prpria instituda pelo social. Portanto, no devemos pensar em amor conjugal como fenmeno da natureza." 40
     S no Ocidente se deseja e se sofre pelo amor romntico. Os orientais desconhecem esse tipo de sentimento relacionado ao casamento. Os bedunos do deserto ocidental do Egito, por exemplo, esperam que os jovens se casem pela escolha da famlia. O amor  reservado aos pais, irmos e filhos  nunca ao cnjuge. Assim,  inadmissvel para eles qualquer manifestao pblica de afeto entre marido e mulher.41
     Aqui  muito diferente. Da mesma forma que a criana pequena se desespera com a ausncia da me, o adulto, quando perde o objeto do amor  seja porque foi abandonado ou porque o abandonou ,  invadido por uma sensao de falta e de solido. Surgem medos variados, como o de decepcionar os parentes e os amigos, fazer os filhos sofrerem, ficar sozinho, ter problemas financeiros e, o mais ameaador: o de nunca mais ser amado. Embora o casamento no seja o nico meio de atenuar o desamparo humano  outras relaes cumprem essa funo: amizades profundas, participao em grupos que tm ideais em comum, relaes com amantes etc. ,  a que a sociedade mais privilegia. Quando um projeto amoroso fracassa, a pessoa perde seu referencial na vida e a pergunta que se faz sem conseguir uma resposta : quem sou eu?
     Jacques Ruffi afirma no haver dvidas de que a monogamia praticada, pelo menos de modo formal, nas sociedades patriarcais, causa muitos problemas. O hbito, acarretando ao mesmo tempo exigncia e tdio, gera uma tendncia  separao.
     O autor enuncia as diversas fases por que passa a vida da maioria dos casais (com um nmero de variaes individuais): 42
     
1. 	Uma fase de incio, durante a qual tudo  maravilhoso, cada um idealizando o outro e se esforando para satisfaz-lo. Ao mesmo tempo, o casal se afasta do resto do mundo: enfim, ss!
2. Uma fase de primeira crise com o contato do real;  preciso garantir o fim do ms. Os defeitos mais gritantes comeam a ser percebidos. Essa fase  geralmente superada graas  atrao recproca, ainda viva, que um parceiro sente pelo outro.  o momento mais favorvel para instaurar um verdadeiro dilogo em p de igualdade, a fim de se chegar a um equilbrio. Seno:
3. Uma srie de crises vo se suceder, agravando-se e podendo acarretar duas situaes:
	a) A ruptura: a vida em comum torna-se insuportvel. O casamento explode sob o efeito conjugado das foras centrfugas, nascidas do permanente estado de conflito e das ofertas aceitveis para cada um dos parceiros, que continuam a vir do mundo externo;
	b)	 Em alguns casos, sentindo esse perigo de exploso, o casal se retrai por uma espcie de reflexo de autodefesa. Ele tenta anular os poderes centrfugos, reprime sua agressividade.
4. Mas o equilbrio obtido pode ser apenas provisrio. Uma calmaria aparente muitas vezes disfara um aumento de rancor e de incompreenso. , ento, que uma crise, mais violenta porque adiada, explode no momento em que menos se espera. Ela se reveste da aparncia de um cataclismo, deixando os dois protagonistas boquiabertos.
5. 	O casal pode persistir, ao preo de muitas renncias. Cada um se despersonaliza, procurando assemelhar-se ao outro. Rompe-se com os amigos pessoais (somente os amigos do casal so ainda aceitos, e bastante mal). Os filhos tentam fugir desse meio familiar rido e pouco hospitaleiro.
6. 	Existem, enfim, crises fecundas, em que os dois protagonistas tomam conscincia dos seus limites, de suas prprias foras e da realidade de um fracasso parcial. A fantasia ideal do incio d lugar a uma verso mais realista. Cada um se torna mais autnomo. Se as desavenas so abordadas de frente, em vez de serem ocultadas, e essa crise aparecer bem cedo na vida, numa poca em que a atrao entre os dois parceiros ainda  grande, ela pode ter um efeito construtivo  fazendo nascer um dilogo real, revelando novas diferenas e novas afinidades. Mas  preciso saber que o equilbrio jamais  definitivo, pois o casal  formado por dois seres vivos, inteligentes, que evoluem.
     
     Para Ruffi, o lao conjugal, juridicamente fixo e inaltervel, no plano biolgico  uma fico que nossa fraqueza amorosa e nossa instabilidade afetiva assinam. Se os casais deixassem de associar a fidelidade  sexualidade, seria positivo para o casamento, na medida em que a mudana peridica de parceiros provoca, a cada vez, um aumento do desejo sexual.

Formas de separao
     
     O divrcio como instituio tem sido permitido em quase todas as pocas e pases, dependendo das causas. As diferenas, entretanto, variam desde o extremo catlico que o probe, at a lei da velha China, que permitia ao homem divorciar-se da esposa tagarela.43
     Em algumas sociedades, tribunais especiais tratam do divrcio, ou mesmo o chefe da aldeia decide o que deve ser feito nesses casos. H lugares em que o divrcio  simples e tranqilo, em outros, pode perturbar toda a comunidade. Foi o que aconteceu no caso de Ganga, jovem hindu, casada havia cinco anos, que abandonou o marido em 1988 por ter sido espancada por ele.
     No dia seguinte, mais de 500 pessoas se reuniram em um campo perto da aldeia para ouvir o casal e suas famlias responderem s perguntas feitas pelos ancios de sua casta. Ganga acusou o pai e o tio de seu marido de terem tentado atac-la sexualmente e iniciou-se uma violenta discusso. Os insultos logo se transformaram em luta. Pouco depois, diversos homens ficaram estendidos no cho, mortos a pauladas ou sangrando. Mas os trmites do divrcio continuaram de forma agressiva dentro de casa. 44
     Os motivos apresentados pelos casais para se separar so mltiplos e variados. Um estudo realizado pela antroploga Laura Betzig em 160 sociedades concluiu que a infidelidade da mulher  a razo mais alegada para a solicitao de divrcio. A esterilidade vem em segundo lugar, seguida da crueldade por parte do marido. H ainda uma variedade de acusaes contra a personalidade ou a conduta do cnjuge: mau carter, cimes, rabugice, falta de respeito, preguia da esposa, o marido que no prove a casa, negligncia sexual, propenso para brigas, ausncia ou fuga com um amante.45
     No incio do sculo XX, na maioria dos pases ocidentais, o casamento constitua um contrato duradouro e no era permitido que fosse rompido, a no ser em casos de faltas graves cometidas por um dos cnjuges. Entre elas estavam o abandono do lar, adultrio, alcoolismo e violncia fsica. Tentava-se tudo para conter o crescente aumento do nmero de divrcios, que em Viena, entre 1915 e 1925, passou de 617 para 3.241. Reich ilustra as solues tragicmicas adotadas, ento, para conter essa tendncia que assusta os moralistas, numa notcia do jornal Pester Lloyd, de 25 de janeiro de 1929:
     
"O bridge como matria escolar obrigatria"
   "De Cleveland, nos Estados Unidos, chega-nos uma surpreendente notcia. As escolas municipais decidiram fazer do bridge uma matria obrigatria. A razo apresentada para essa estranha inovao  a de que o lar americano se encontrai em decadncia, por nele j quase no se jogar o bridge. Muitos casamentos se desfizeram porque os esposos, em vez de jogar o bridge entre si, Ou em boa companhia, passaram a sair cada um para o seu lado. As escolas municipais contrataram 12 professores da referida matria. Ao ensinar o bridge s crianas, espera-se no s que fiquem preparadas para uma vida conjugal slida, mas tambm que possam exercer uma benfica influncia sobre os seus pais, cuja maioria se encontra desunida." 46
       
     Nessa poca, quase no havia separaes amigveis. Embora a maioria dos pedidos de divrcio tenha sido solicitada pelas mulheres, a situao delas era bastante difcil. Esperava-se que suportassem tudo, em nome da famlia. A separao ocorria quando no havia outra alternativa, sendo o sofrimento insuportvel. Mesmo assim, a mulher era discriminada como pouco confivel e era uma vergonha para a famlia.
     O movimento de emancipao feminina e a liberao sexual trouxeram mudanas profundas na expectativa de permanncia de uma relao conjugal. Entretanto, num processo de transformao das mentalidades, os novos comportamentos no atingem de maneira uniforme toda a populao. Concordo com Bernardo Jablonski quando avalia como vive a mulher que busca maior igualdade sexual com os homens e quanto  diminuio da dupla moral para os sexos: "E aqui a mulher se encontra em um momento particularmente difcil: no quer mais ser a subserviente passiva e assexuada, mas tambm no  ainda a mulher livre cantada em verso e prosa nos filmes, letras de msica ou, de novo, na imagem popularizada que grandes jornais fazem de tais pequenos segmentos da Zona Sul do Rio de Janeiro." 47
     Jablonski, apoiado nos trabalhos de pesquisa da psicologia social que apontam as diferenas entre frustrao e privao, traa um paralelo da satisfao obtida pela mulher no casamento antes e depois da dcada de 1960.
     
"Na privao, o sujeito no possui algo (um objeto, emprego, situao), mas tambm tem poucas ou nenhuma expectativa de vir a t-lo. (...) A felicidade depender dos objetivos propostos. Mas, alm disso, os estudos sobre frustrao tm demonstrado  e isso nos interessa de perto  que, quanto mais nos acercamos de um alvo aparentemente atingvel e que por uma razo no o alcanamos, os sentimentos de perda, insatisfao, dor ou raiva sero significativamente maiores. (...) Quando as mulheres estavam sem esperanas e quase apticas com relao aos seus direitos ou possibilidades no casamento, seu grau de insatisfao era cronicamente menor."48
     
     Pude comprovar esse fato quando, aps ter dado varias palestras para um pblico com idade entre 30 e 50 anos, entre o qual as insatisfaes no casamento eram evidentes e discutidas, entrei em contato com mulheres de mais de 60 anos. Para minha surpresa, a maioria, inclusive muitas vivas e quase nenhuma separada, ao falar do seu casamento, declarou ter sido bastante satisfatrio. Aps as explicaes dadas, ficou mais fcil entender. Para essas mulheres um bom casamento consiste em ter um marido respeitador e cumpridor de suas obrigaes familiares. E  por isso tambm que idias como liberdade sexual, separao por falta de desejo sexual, questionamentos sobre a importncia ou no da fidelidade conjugal provocam reaes de indignao.  perturbador perceber que existem outras formas de viver mais prazerosas, mas fora de alcance.
     Antigamente, a vida no tinha mesmo muitos atrativos. As opes de atividades fora do convvio familiar eram bastante limitadas no s para as mulheres que cuidavam da casa e dos filhos, como para os homens que do trabalho iam direto para o aconchego do lar. Agora existem muitas possibilidades de lazer, de desenvolver interesses vrios, de conhecer outras pessoas e outros lugares. Sem falar numa maior permissibilidade social para transgresses antes nem ousadas.  Portanto, quando uma pessoa se v privada das perspectivas que so, de alguma forma, possveis, a frustrao  inegvel.
     Nas pesquisas feitas atualmente sobre divrcio, embora por motivos diferentes de outras pocas, a mulher continua sendo a que prope a separao. Calcula-se que pelo menos dois teros dos pedidos de divrcio so feitos por elas. E,  seguinte pergunta feita numa pesquisa: "Se pudesse fazer tudo de novo, voc se casaria com seu/sua marido/esposa?", 81% dos entrevistados que responderam "no", eram mulheres.49
     Dilma tem 47 anos e mora com um casal de filhos adolescentes num prdio de classe mdia da Zona Norte. Antes da separao, ela e o marido freqentavam a piscina e a sauna do edifcio, onde conheceram vrios casais. Juntos organizavam festas no playground, churrascos e bingo; toda sua vida social era ali mesmo. Fernando, o marido de Dilma, de uma hora para outra comunicou-lhe que queria se separar e saiu de casa sem maiores explicaes. Ela no tem muitas notcias dele, fora alguns indcios de que est morando com outra mulher. Passados os primeiros momentos de perplexidade, Dilma tenta reagir. Com o aperto das finanas, entregou-se  atividade frentica de fazer comida congelada para fora. Alm de lhe dar algum dinheiro, permite que ela se distraia um pouco e no pense tanto na dor que sente. S que a rejeio do marido no  a nica que tem de suportar.
     Os casais, amigos do prdio, organizaram uma grande festa junina. O convite chegou ao seu apartamento, mas s para seus dois filhos. Ela logo entendeu: agora  uma mulher separada: os maridos temem a influncia negativa sobre as esposas e as mulheres temem que seduza os maridos.
     Geralmente, quando uma mulher quer romper um casamento, tenta conversar com o marido para juntos buscarem uma soluo amigvel. E  comum isso acontecer sem que ela esteja necessariamente envolvida em outra relao amorosa. Talvez contribua o fato de a mulher ter prioridade na guarda dos filhos e de continuar morando na mesma casa, com os mesmos mveis e o mesmo telefone, evitando, assim, que os aspectos externos da sua vida mudem to bruscamente.
     Nem sempre os homens conseguem comunicar sua deciso de se separar de uma forma tranqila e amistosa.  possvel que a culpa por estar se afastando dos filhos e mesmo da mulher  que h alguns anos se comprometeram a proteger  os leve a fugir de enfrentar uma situao to delicada. O resultado pode ser rompimentos radicais e muito sofrimento desnecessrio.
     Cntia e Chico tinham trs filhos, sendo que o mais novo no havia completado um ano. H alguns meses estavam felizes morando numa casa muito boa, construda, com algum esforo, durante o casamento. Num sbado, Cntia acabava de convidar um casal de primos para o almoo, quando soube que Chico no poderia participar porque tinha um encontro de trabalho no restaurante que freqentava sempre. Combinaram, ento, que no final da tarde ela o pegaria de carro e iriam ao aniversrio de um amigo. Antes da hora marcada, Cntia recebe um telefonema do marido, j com a voz um pouco alterada pela bebida, pedindo que ela fosse logo ao seu encontro. Chegando l, foi saudada por Chico, que gritou: "Que bom, Cntia, que voc chegou! Vai poder conhecer a mulher que eu amo." Acreditando tratar-se de uma brincadeira de mau gosto, Cntia apressou o marido para ir embora. Chico no respondia aos seus apelos e, animado, continuava enchendo o copo de usque. Foi quando, ento, Cntia, aturdida, assistiu  entrada triunfal de uma loura exuberante que foi direto  mesa de seu marido, abraando-o e beijando-o. Enquanto isso, ouvia dele, em voz alta e ntida, a frase que jamais conseguiu esquecer: "Cntia, esta  Rose, a mulher que eu amo." E abraado a Rose, se retirou do restaurante, deixando Cntia sem ao, tendo que ser amparada por dois garons. Desse dia em diante, Chico se encontra quinzenalmente com os filhos, mas nunca mais voltou para casa nem explicou nada a Cntia.

A dependncia econmica e a separao
       
     Os defensores do casamento insistem na sua importncia social e na necessidade desse vnculo para a felicidade humana. Os mais liberais alegam que, se no der certo, as pessoas podem se separar. No entanto, alm de todas as questes emocionais que envolvem a separao, a interferncia de vnculos econmicos contribui para dificult-la.
     Sem dvida,  grande o nmero de mulheres que se vem foradas a permanecer casadas e com esforo cumprir suas obrigaes sexuais com o marido em troca de casa, comida e algum conforto. Fato bastante comum que s refora as evidncias do prejuzo causado pelos ideais de amor romntico ligados ao casamento. Em outros casos, apesar de a mulher no conseguir se separar por ser dependente, consegue, de algum modo, driblar o desprazer de fazer sexo sem vontade com o marido.
     Gisela, fonoaudiloga exuberante, de 34 anos, vive uma situao complicada sem encontrar soluo. Casada h nove anos com Rubens, profissional liberal bem-sucedido, tem com ele uma filha de 7 anos. Sente amizade e carinho pelo marido, mas nenhum desejo. J se esforou para mudar esse quadro, sem nada conseguir. Desde a ltima vez que aceitou fazerem sexo, sentiu estar se violentando demais. Decidiu, ento, que a separao era irremedivel. Ao conversar com Rubens sobre o assunto, constatou desanimada que no havia sada para ela.
     
"Eu queria ficar morando com nossa filha e ele nos daria uma penso. Ele no aceita. Disse que se eu quiser separar, posso ir embora. Ele fica no apartamento com a menina e no d penso nenhuma. Fiz faculdade, curso de especializao e o meu salrio no d nem para alugar um quarto-e-sala, sem contar as outras despesas. O jeito foi continuar casada. Dormimos na mesma cama, mas ele me respeita, no encosta. Isso j dura dois anos.
H seis meses namoro um homem separado. Adoro estar com ele e o sexo  maravilhoso. Mas s posso encontr-lo de dia e nunca nos fins de semana.  claro que acaba comprometendo nossa relao. Meu marido no me pergunta nada, mas sei que certas regras esto implcitas. O pior de tudo  que no vejo como mudar essa situao."
     
     Em diversas culturas, a independncia econmica est diretamente ligada ao divrcio. Na tribo yoruba, da frica Ocidental, as mulheres sempre controlaram o comrcio. Elas cultivavam a terra e depois levavam a produo para um mercado totalmente dirigido por mulheres. Alm de comida, levavam para casa dinheiro e artigos suprfluos. Essa riqueza tornava-as independentes, resultando que mais de 46% dos casamentos entre os yoruba terminavam em divrcio.50
     Na tribo nadza, da Tanznia, durante a poca de chuvas, os cnjuges se afastam da aldeia  cada um para um lado , em busca de comida. L existem muitas razes, frutos silvestres e pequenos animais. Quando chega a estao seca, todos se renem perto dos poos de gua e os homens saem para caar animais maiores. A conversam, danam e dividem a carne. Mas, homens e mulheres nadza so independentes uns dos outros para a sobrevivncia diria. Na dcada de 1960, o ndice de divrcio entre eles foi quase cinco vezes maior que o dos Estados Unidos.51
     A autonomia econmica pessoal permite a qualquer um dos cnjuges se separar a hora que quiser, portanto, h muito menos divrcios em lugares onde existe dependncia econmica entre os cnjuges. Na Europa pr-industrial os ndices de separao eram baixssimos. "Os casais de agricultores precisavam um do outro para sobreviver. Uma mulher que vivesse em uma fazenda precisava do marido para deslocar as pedras, derrubar as rvores e arar a terra. O marido precisava dela para colher, limpar, escolher, preparar e armazenar vegetais. Juntos trabalhavam a terra. E, mais importante ainda, qualquer um dos dois que decidisse pr fim ao casamento, iria embora de mos vazias. Nenhum dos cnjuges podia retirar a metade dos gros e plant-los em outro lugar. Os homens e as mulheres agricultores estavam ligados ao solo, um ao outro e a uma complicada rede de propriedades familiares. Nessas circunstncias, o divrcio no era uma alternativa adequada.52
     Com a Revoluo Industrial, houve uma mudana radical no relacionamento econmico entre homens e mulheres, trazendo os novos padres do divrcio. As pessoas saram do campo e foram para as cidades procurar trabalho nas fbricas. "E o que traziam de volta para casa era dinheiro  que  uma propriedade mvel e divisvel."53 As mulheres foram adquirindo mais autonomia econmica a partir de sua entrada no mercado de trabalho nas primeiras dcadas do sculo XX. A conseqncia foi o aumento contnuo do nmero de divrcios.
     Os anurios demogrficos das Naes Unidas, com dados compilados desde 1947, indicam que o divrcio ocorre por volta do quarto ano de casamento, seguido por um declnio gradativo nos anos seguintes. Os pases pesquisados so culturalmente to diferentes como a Finlndia, a Rssia, o Egito, a frica do Sul, a Venezuela e os Estados Unidos. Nas 24 sociedades cujos dados constam desse anurio, o risco de divrcio  maior na faixa etria de 25 a 29 anos para os homens, para as mulheres a incidncia  a mesma em duas faixas etrias: 20 a 24 anos e 25 a 29 anos.54
     O mito romntico de Tristo e Isolda j demonstra a durao de um amor apaixonado. Quando eles tm sede e bebem por engano a poo do amor, apaixonam-se loucamente e caem nos braos um do outro. Mas, ao cabo de trs anos, a poo perde seu efeito.

A dor da separao
       
     Quando algum  amado, sente-se valorizado, algum especial, e certifica-se de possuir qualidades. "Quando algum deixa de nos amar, mesmo que seja por um breve momento, sentimo-nos como se tivssemos perdido essa coisa essencial de dentro de ns, que s podemos resgatar quando algum volta a afirmar que nos ama. Essa condio essencial pode at estar l o tempo todo, mas a gente no sabe disso porque ela s se revela quando algum nos declara seu amor."55
     Muitas vezes, o parceiro no satisfaz nem preenche as necessidades afetivas e sexuais do outro, mas a separao  dolorosa porque impe o rompimento com a fantasia idealizada do par amoroso. Acrescente-se a isso a baixa da auto-estima que ocorre nessas situaes e as inseguranas pessoais que reaparecem.
     Diva, secretria, de 43 anos, chorava sem parar havia dois meses, desde que o marido saiu de casa para viver com outra mulher. Indagada a respeito do seu relacionamento afetivo e sexual no casamento, explicou:
     
"A gente no conversava nunca. Eu no sabia o que ele estava pensando. Ele  muito fechado. Sexualmente, j estava ruim h mais de cinco anos. Raramente fazamos sexo e quando acontecia era rpido e em silncio. Ele gozava, virava para o lado e dormia. Nem me dava boa-noite."
     
     Ha separaes em que a hostilidade e o dio pelo outro chegam a nveis extremos.  um sentimento de ter sido trado na crena de que graas quela relao amorosa estaria a salvo do desamparo, encontrando a mesma satisfao que tinha no tero da me, quando dois eram um s. A separao surge como testemunho da impossibilidade desse retorno ao estado de fuso, a essa identidade que se busca no outro. Ao se afastar, o parceiro estaria traindo as expectativas de complementao, desde sempre alimentadas.
     Adriana, dentista, 28 anos, estava casada havia cinco quando tomou coragem  aps vrios meses de depresso  e comunicou ao marido que queria se separar. H mais de dois anos recusava-se a qualquer contato sexual com ele e no suportava mais viver a seu lado. Tinha muito afeto por Dirceu, mas do tipo que se tem por um irmo. O marido, num primeiro momento, pareceu aceitar bem o fim do casamento. Chegou at a agradec-la por ela ter tomado a iniciativa, j que concordava que a vida em comum no tinha mais sentido.
     Os primeiros sinais de que as coisas no se encaminhariam de forma amena comearam a surgir j na primeira semana aps a deciso tomada. Alegando no estar encontrando apartamento, Dirceu continuava em casa. Adriana tentava ser paciente, esforando-se para que a separao fosse amigvel. Afinal, tinham uma filha que ainda no completara dois anos.
     Certa noite, Adriana foi acordada por Dirceu, que a sacudia num pranto desesperado e pedia que ela o ajudasse a decidir se se matava sozinho, atirando-se pela janela ou se matava ele e Adriana. Da em diante, as agresses se sucederam sem trgua, at culminar com a entrada em cena da polcia. Foi quando, j com a separao homologada em juzo, Dirceu descobriu que a ex-mulher estava namorando. Esperou-a sair cedo com a filha para passear e a atacou na portaria do prdio. Alertado pelo delegado encarregado do caso de que no poderia mais chegar perto dela, sob pena de priso, Dirceu no hesitou: perdeu tudo o que tinha  era um comerciante com vrias lojas  para no dar penso  filha e, assim, atingir a ex-mulher, que no teria como assumir sozinha toda a despesa.
     
     A idia de felicidade atravs do amor no casamento influi na intensidade da dor na separao. Antes da Revoluo Industrial as famlias eram extensas  pai, me, filhos, primos, tios, avs  e as exigncias emocionais eram divididas por todos os membros, que viviam juntos. A famlia nuclear (pai, me e filhos), que caracteriza a poca contempornea, reduz a troca afetiva a um nmero pequeno de pessoas, favorecendo a simbiose e sobrecarregando marido e mulher como depositrios das projees e exigncias afetivas do outro.
     Como o amor romntico  construdo em cima de projees, o parceiro, imagina-se, preenchia uma falta, e na separao ele deixa um espao vazio, leva com ele o que fazia parte tambm do outro. O ressentimento, a raiva e o dio so causados pela constatao de que, ao ir embora, o parceiro deixou uma lacuna, frustrando a expectativa de complementao. Na maioria dos casamentos, as pessoas abrem mo da liberdade e da independncia e, por isso, se tornam mais frgeis em caso de ruptura. "Aquela ou aquele que fica  ento devolvido  solido total, ao isolamento e  rejeio, complemento sem objeto direto, resduo inutilizvel de um par. Solido total, a partir do momento em que o indivduo no existe em si mesmo e que tambm no existe a coletividade na qual ele continuaria a ter seu lugar. 'Ns' desaparecido, resta uma metade de alguma coisa, enferma, dbil, no vivel, como um recm-nascido que no tivesse ningum para aliment-lo e vesti-lo, entregue s garras do medo." 56
     O cnjuge rejeitado no  o nico a sofrer. Em muitos casos, o parceiro que no deseja mais permanecer junto se v ressentido e magoado, responsabilizando o outro pela diminuio do seu prprio desejo sexual e pelo fato de a convivncia cotidiana no lhe proporcionar mais prazer. A dor de desfazer a fantasia do par amoroso leva  mesmo sabendo-se que no existe chance nenhuma   constante tentao de restabelecer o antigo vnculo. A reconstituio do casamento, nesses casos, dura pouco tempo e, quando ocorre a segunda separao, o outro volta a sofrer tudo novamente.
     Luciana tinha 36 anos e estava casada havia 16. Com dois filhos adolescentes, sempre alimentara sonhos romnticos de envelhecer junto a Cristvo. Por isso, negou durante o tempo que pde as frustraes que se acumulavam na sua vida. O mau humor do marido era uma constante, assim como seu excessivo egosmo. Alm disso, se recusava a qualquer tipo de dilogo e a constrangia com freqncia na frente dos amigos, com observaes machistas. No permitia que a mulher trabalhasse, mas controlava de forma obsessiva o dinheiro que trazia para casa. Ao mesmo tempo, era frgil emocionalmente e dependia dela at para comprar roupa ou ir ao dentista.
     Luciana no queria mais continuar casada com ele. Aps um longo processo de questionamento e dvidas, conseguiu concretizar a separao, apesar das splicas do marido. Foram ao juiz, assinaram toda a papelada e, enfim, Luciana se sentiu uma mulher livre, animada com todos os projetos que pretendia realizar. Ao cabo de trs semanas, contudo, concluiu que no podia viver sem Cristvo. Voltaram a morar juntos  para decepo dos filhos. Luciana estava irreconhecvel. Parecia uma adolescente romntica vivendo o primeiro amor. Sua postura e jeito de falar se transformavam ao lado do marido. At dentro de casa fazia questo de andar de mos dadas com ele, sem contar os olhares apaixonados que lhe lanava. Mas, um ms aps essa recada, Luciana voltou  realidade e props novamente a separao. Dessa vez definitiva. Nunca mais viu Cristvo, nem teve interesse em saber o que ele fazia da vida.
     
     Embora a separao seja uma experincia difcil para a maioria dos casais, algumas pessoas sofrem muito, outras menos, e h at quem sinta um certo alvio. Se existir a crena de que o casamento  uma unio para a vida toda e de que s  possvel ser feliz formando um par amoroso, o fim do casamento pode ser vivido como uma tragdia. Se, ao contrrio, o vnculo conjugal for considerado temporrio  enquanto for satisfatrio para ambos , e no se buscar atravs dele a satisfao das necessidades infantis, a separao pode no ser simples, mas  sentida como natural e, portanto, as dificuldades devem ser superadas o mais rpido possvel,
     O desespero que se observa em algumas pessoas durante e aps a separao se deve tambm ao fato de cada experincia de perda reeditar vivncias de perdas anteriores. Assim, no se chora somente a separao daquele momento, mas tambm todas as situaes de desamparo vividas algum dia e que ficaram inconscientes. Em alguns casos, o objeto do amor na verdade nada significa, mas sua falta pode ser sentida de forma dramtica.
     Beatriz, mulher lindssima, de 36 anos, estava separada do terceiro marido havia algum tempo. Sempre assediada pelos homens, mesmo assim no alcanava seu nico objetivo: uma relao estvel duradoura. Ela era frgil emocionalmente e tinha grande necessidade de ser amada e protegida. Isso assustava os possveis pretendentes. Desde pequena sofreu diversas perdas dolorosas, como a morte sbita de pessoas muito prximas. Aos 20 anos, comeou a beber sempre que se sentia deprimida. Agora, o alcoolismo era um problema grave que ela se esforava para resolver. Naquele momento, atravessava uma boa fase. Tinha um trabalho interessante, muitos amigos e estava conseguindo, com certa dificuldade, evitar a bebida. Foi quando procurou ajuda teraputica.
     Numa sexta-feira, Beatriz chegou radiante  sesso de anlise. Tinha ido a um coquetel na vspera, onde conheceu Vtor, o homem da sua vida, segundo afirmava. Jantaram num restaurante, conversaram muito e bem tarde ele a deixou em casa prometendo procur-la no dia seguinte. Ela j fazia planos para aquela noite, para o prximo fim de semana e para os seguintes. Falava dele como se o conhecesse bem. Ao final da sesso, despediu-se apressada porque tinha hora no cabeleireiro.
     s trs da manh fui acordada pelo telefonema de Beatriz. Chorando muito, com a voz pastosa por causa do lcool, me comunicava a falta de desejo de viver. No suportava tanto sofrimento e pedia minha ajuda. Perguntada sobre o motivo do desespero, respondeu: "O Vtor no telefonou."
     Nem todos desejam morrer quando o vnculo conjugal se rompe. Quando um dos parceiros comunica ao outro que quer se separar, aquele que de alguma forma no deseja isso pode sofrer num primeiro momento e, pouco depois, sentir que lucrou bastante com o fim do casamento. A aquisio de uma nova identidade  agora no mais vinculada ao ex-marido  pode proporcionar uma sensao de renascimento.
     Lara, atriz, de 30 anos, estava casada havia cinco com Afonso. Desde que o primeiro filho nasceu, parou de trabalhar para se dedicar a ele e ao outro, que veio logo depois. Engordou 15 quilos e passou a encontrar as suas prprias realizaes nas do marido, conhecido cantor e compositor. Uma noite, quando preparava os enfeites para a festa do primeiro aniversrio do filho mais novo, Afonso a convidou para jantar num restaurante. Com muita franqueza colocou-a a par do que estava acontecendo. Apaixonou-se por uma moa que conhecera num dos shows fora do Rio e a partir daquele momento iria morar com ela. Reafirmou seu carinho e amizade, mas a deciso era irreversvel.
     Passados seis meses, Lara resume assim sua experincia:
     
"Foi terrvel. Quando ele me convidou para jantar, fiquei feliz. No fazamos isso havia muito tempo e achei que talvez estivssemos voltando aos bons tempos do incio. Quando ele comeou a falar, eu tinha acabado de colocar um pedao peixe na boca e no conseguia engolir. Acho que fiquei trs dias com a espinha entalada na garganta. Nas primeiras semanas, sofri muito. Me senti a ltima das mulheres: gorda e abandonada. A, resolvi reagir. A primeira providncia foi fazer um regime. Perdi quase 20 quilos e fiquei linda. Procurei ento, todos os amigos e conhecidos do teatro e fiz novas amizades tambm. Consegui um papel numa pea que estria ms que vem. Minha vida mudou. Nunca fui to paquerada e nunca tive tantos namorados. At orgasmos mltiplos experimentei pela primeira vez. O sexo com Afonso estava morno, a gente quase nunca transava. Olha, no d nem para comparar minha vida hoje com o que era quando eu estava casada. Se o Afonso soubesse o quanto lhe agradeo a proposta de separao! Acho que nunca partiria de mim, e eu ainda estaria naquela pasmaceira toda."
     
     O psiclogo italiano Edoardo Giusti, aps quatro anos de pesquisas e estudos acerca da separao de casais, afirma que  certamente uma novidade para nossa cultura, centrada no sacrifcio e na abnegao, poder evidenciar o alvio muitas vezes sentido ao trmino de uma unio. E at se identifica um certo entusiasmo quando uma separao  vivida como nova oportunidade de crescimento e de desenvolvimento pessoal.
     Pesquisando as causas ou as circunstncias principais que determinaram, em algumas pessoas, uma vivncia mais feliz durante a separao e, em outras, uma vivncia menos feliz, Giusti resume os numerosos dados levantados:57
     
     
     
     

O PERODO PS-SEPARAO  VIVIDO
De maneira penosa (com mais sofrimento)
Quando
De maneira vantajosa (com mais alvio)
harmoniosa/domstica
unio
conflitante/ com desacordos
agradvel/envolvente
vida familiar
escassa/ insatisfatria
proximidade/ dependncia
parentes
afastamento/ independncia
desaprovam
pais
ajudam
criticam
amigos
apiam
preocupao com seu futuro
filhos
no existem ou no so levados muito em conta
apego forte e exclusivo
companheiro
apego limitado
comuns
atividades e interesses
diferentes
conservadora
educao
progressista
prega a indissolubilidade
religio
seu papel no  predominante
espordica
vida social
intensa
poucas
amizades
muitas
no
existncia de outro companheiro
sim
avanada
idade
jovem
muitos
anos de convivncia
poucos
de tolerncia/ resignao
perodo final da unio
de forte impacincia
sofrida (o cnjuge  deixado)
deciso
tomada (o cnjuge deixa)
inconsciente evitao/fuga
controle global do
processo da
separao
com conscincia do fim de uma unio
grande
perda-saudade da unio
relativa
pouca
auto-estima
boa
passivo/rgido/ introvertido
carter com relao ao companheiro
ativo/mvel/ extrovertido
apertada
situao econmica
boa     
     Como vivemos numa poca em que cada um busca desenvolver ao mximo suas possibilidades pessoais e sua individualidade, a dor da separao , portanto, bem menor do que h 40 anos. "Nesse sentido, v-se nas pessoas que se separam (...) a conscincia da necessidade de reconstruir sua identidade, de restabelecer novos propsitos de vida. No cabe mais chorar tanto um casamento perdido porque ainda se tem a si mesmo como objeto a ser realizado e vivido." 58
     Aps uma separao, o alvio  maior do que o sofrimento e pode haver uma forte sensao de estar renascendo se havia qualquer tipo de opresso no casamento, se na relao que acabou j no havia mais desejo, se h a perspectiva de uma vida social interessante, pelo crculo de amizades, se existe liberdade sexual para novas experincias e se estar s no  sinnimo de se sentir desamparado.
  
  
O casamento  necessrio?
       
       
       
       
     A vida a dois numa relao estvel torna-se cada vez mais difcil de suportar diante das transformaes e dos apelos da sociedade atual. A famlia no  mais necessria para a sobrevivncia da espcie nem o casamento  um vnculo divino, uma aliana entre duas famlias ou uma unio econmica, que durante tanto tempo justificaram sua existncia. O que ele proporciona hoje  um modo de vida repressivo e insatisfatrio. Muitos discordam dessa idia alegando que o casamento deve ser conservado por causa da felicidade que pode proporcionar. "Mas o problema no consiste em saber se o casamento encerra uma potencialidade de felicidade, mas, sim, se a realiza." 59 No, no realiza, e todos sabem disso. Na televiso, por exemplo, os programas de humor, a publicidade, as novelas no se cansam de mostrar o pesado fardo que  manter uma unio conjugal. Entretanto, o desamparo em que o ser humano vive desde o nascimento, aliado  nica possibilidade que lhe  oferecida socialmente  o casamento , faz com que a maioria dos indivduos continue desejando uma relao amorosa estvel com uma nica pessoa. Nesse sentido, a propaganda  macia e costuma opor o amor, a solidariedade e o apoio que se supe encontrar numa relao de casal  frieza da solido.
     Na segunda metade do sculo XIX, os estatsticos perseguiam o solteiro nos registros de presos, hospitais, asilos, necrotrios, para demonstrar sua nocividade e seu infortnio. Alegavam que eles morriam mais do que os homens casados, mais bem cuidados por suas mulheres, e afirmavam que eram os melhores candidatos ao suicdio e ao crime.60 Michelle Perrot resume a maneira como eram vistas as solteironas: "Solteira, a mulher, ao mesmo tempo est em perigo e  um perigo. Em perigo de morrer de fome e de perder sua honra. Ameaa para a famlia e para a sociedade. Ociosa, se as instituies de caridade no a monopolizam, ela passa seu tempo fazendo intrigas e mexericos. (...) Sem famlia onde exercer seu poder, ela vive como parasita na famlia dos outros. (...) No consignadas como residentes em seus lares, as mulheres sozinhas circulam. Elas so vendedoras nos toaletes, alcoviteiras, abortadeiras, um pouco bruxas." 61
     Ainda at algumas dcadas atrs, quem no casasse tinha uma vida infeliz. A discriminao atingia homens e mulheres. O homem s podia ter sexo com prostitutas e, depois que passava dos 30 anos, suspeitava-se de sua virilidade. As mulheres solteironas viviam reclusas ou eram mal faladas. Ficavam, ento, ansiosas com o passar do tempo, j que no caso delas a situao era mais difcil. Havia a incapacidade de se sustentarem sozinhas, alm do peso de transgredir a "lei da natureza": a realizao na maternidade.
     Ambos tinham dificuldade de convvio social, visto que a maioria das pessoas ficava casada a vida toda e esses desgarrados representavam uma ameaa constante aos casais. Poderiam interessar a um dos cnjuges ou servir como um perigoso exemplo. No formar um par era associado a no ter uma famlia, at ento nico meio de no se viver na mais profunda solido. Tudo isso causava tanto medo  e para muita gente ainda causa  que era prefervel contentar-se com uma relao morna, frustrante e mesmo difcil de suportar dentro do casamento do que se arriscar a viver sozinho.
     Freud afirma existir duas formas de o ser humano buscar a felicidade: visando evitar a dor e o desprazer ou experimentar fortes sensaes de prazer.62 Numa cultura judaico-crist, em que o sofrimento  visto como virtude, no  de estranhar que a grande maioria das pessoas no ouse tentar viver de forma realmente prazerosa. A submisso aos padres sociais estabelecidos  aceita, para evitar o desprazer da tenso empregada na construo de uma existncia autnoma. Num processo de crescimento emocional,  necessrio se aprender a lidar com a falta, o desamparo inevitvel da condio humana e, percebendo as prprias singularidades, buscar uma convivncia harmnica consigo mesmo. Para muitos, parece uma meta impossvel. Estimulados pelas promessas equivocadas do amor romntico, depositam na relao com o outro todas as expectativas de proteo e segurana afetiva.
     Entretanto, de algumas dcadas para c, vem diminuindo muito a disposio para sacrifcios. Muita gente continua ainda presa  idia de que viver s  algo triste, mas diminui progressivamente o esforo para salvar uma unio vacilante. Na mesma medida, aumenta o nmero dos que aceitam o risco de viver sem parceiro fixo, recusando-se a uma vida a dois. De 1962 a 1983, na Frana, o nmero de pessoas sozinhas aumentou 70%. Nos grandes centros como Paris e Nova York, para cada dois casais havia uma pessoa sozinha. Antes, atingia principalmente as mulheres idosas, mas estatsticas desse perodo mostraram um aumento no grupo dos que tm menos de 30 anos e dos divorciados.63 Essa propenso a viver sozinho pode ter entre suas causas a precocidade dos divrcios e a diminuio dos novos casamentos rpidos, alm dos anseios de individualidade. Em 1986, na Frana, estimava-se que mais de 36% das pessoas no iriam mais se casar.64
     Hoje, os que vivem s tm respeito social e so at objeto de inveja da maioria dos casados que, por temerem novas formas de viver, suportam casamentos que lhes restringem a liberdade e lhes impem sacrifcios.
     Nesse momento em que o sistema patriarcal comea a ser seriamente questionado, tanto pelas mulheres quanto pelos homens, as formas de relacionamento afetivo-sexual tradicionais abrem-se para infinitas possibilidades. Jablonski levanta a hiptese de uma mudana que, segundo afirma, talvez j esteja sendo germinada no mago de nossas almas: "Vamos supor, por exemplo, que as atuais criancinhas de colo, ao chegar  idade de namoro, possam ter  socialmente legitimados  dois ou trs namorados, simultaneamente. E que os filhos dessa gerao possam ter mais de um cnjuge, igualmente legtimos. Como eles nos vero do alto (e ao lado) dos seus diversos pares (um para romances, um para sexo, um para filosofar, um para lazer etc.)? No nos avaliariam, esses neopoligamos, com os olhos marejados de piedade e compaixo?"65
     Torna-se quase impossvel encontrar algum que acredite hoje em amor e casamento eterno. Alguns autores observam a tendncia ao casamento monogmico seqencial, em que, em tese, o casal viveria junto enquanto a relao fosse satisfatria para ambos. Findo esse perodo, cada um partiria em busca de outro parceiro. Mas a surge um novo problema: como concretizar uma separao no  nada fcil  j que a prpria vida a dois induz a uma relao simbitica , a negao dos aspectos insatisfatrios pode levar a uma permanncia muito maior do que a desejada.
     Uma fbula quase cientfica conta que, se um sapo estiver em uma panela de gua fria e a temperatura da gua elevar-se lenta e suavemente, ele nunca saltar. Ser cozido. Algumas pessoas conseguem saltar, ainda que um pouco tarde.
     ngela, publicitria, de 43 anos, teve trs casamentos. Agora est decidida a nunca mais casar nem ter qualquer tipo de relao fixa e estvel.
     
"Com todos os meus casamentos aconteceu a mesma coisa: uma terrvel sensao de jogar a vida fora sem necessidade. Sempre fiquei casada muito mais tempo do que devia. O primeiro casamento durou seis anos, mas no era nem para ter comeado. Aps um namoro de quatro anos, quando casamos j ramos meio irmos, superligados um no outro, mas teso quase no havia. No segundo, fiquei casada cinco anos, mas pensando bem, s foi bom mesmo nos dois primeiros anos. E, agora, nesse ltimo, ficamos juntos quase quatro anos, e acho que bastava apenas um. A gente se acomoda, vai levando, tenta no pensar que a vida sexual est fraca e que deixa de fazer muitas coisas que deseja. Se eu fizer as contas, somando o tempo que fiquei a mais, joguei fora pela janela 12 preciosos anos da minha vida, em que eu era bem mais moa e bonita."
     
     Assim como ngela, existem homens e mulheres solteiros ou separados que optam por no estabelecer relaes amorosas estveis com uma nica pessoa. Consideram a vida a dois um obstculo  liberdade. Apreciam a descoberta, a aventura, a falta de rotina, o convvio com pessoas diferentes e, principalmente, no se sentem obrigados a fazer alguma coisa s para agradar o outro. Geralmente, levam uma vida mais interessante e mais rica na interao com o mundo, por estarem livres das limitaes impostas numa relao a dois. "Na verdade, o casal, longe de ser um remdio contra a solido, freqentemente suscita os seus aspectos mais detestveis. Ele estabelece uma tela entre si e os outros, enfraquece os laos com a coletividade."66
     Na Frana, uma pesquisa comparativa indica que os solteiros compram trs vezes mais livros do que os casados, vo duas vezes mais ao restaurante, nove vezes mais ao cinema. Suas despesas de fim de semana e de frias so dez vezes superiores s de um casal.67 No h dvida de que a qualidade de vida das pessoas solteiras atualmente  bem melhor do que a que observamos na maioria dos casais. Flvio Gikovate sintetiza de forma clara como vivem os solteiros da classe mdia:
     
     "Pessoas sozinhas vivem, em geral, em apartamentos pequenos  ao menos os que no tm filhos ou no vivem com eles  cuja manuteno  fcil e pouco dispendiosa. Tm todo o tipo de conforto moderno para seu entretenimento: aparelho de som, de DVD, livros etc;  bom percebermos que as pessoas casadas tambm passam a maior parte do tempo em que esto em casa em atividades desse tipo e no conversando ou namorando. Experimentam a agradvel sensao de poderem se deitar  hora que quiserem, ler na cama ou assistir  televiso sem que ningum os atormente, ligar o ar-condicionado se estiverem com calor ou se cobrirem com mantas grossas se estiverem com frio. Ao acordarem, no tero que andar p ante p para evitarem barulhos  e os gritos correspondentes. Se tm fome podem comer em casa ou ir a um dos milhares de restaurantes disponveis; mas podem decidir no comer, no tm hora marcada em carter permanente com ningum para jantar. Em geral, tm um carro  sua disposio e podem visitar pessoas, freqentar bares, paquerar, encontrar algum que esteja no momento lhes interessando, podem viajar nos fins de semana e decidir isso de uma hora para outra, sem ter de dar satisfaes ou pedir permisso para ningum.
     "Pessoas solteiras podem ter amigos e amigas sem estar sujeitas s represses ciumentas e inseguras do cnjuge. Alis, cultivam esse tipo de relacionamento afetivo de modo sistemtico e se amparam muito nesses vnculos mltiplos e agradveis. Saem juntos com os amigos, vo a cinemas, discutem suas experincias pessoais, falam das pessoas conhecidas em comum, jogam cartas, tudo de modo muito agradvel e respeitoso, pois nessas formas de ligao as cobranas no so aceitveis. Quando de sexos opostos, podem muitas vezes ter intimidades fsicas espordicas que no implicam alteraes das regras de convvio.
     "Homens e mulheres solteiros no tm as dificuldades de antigamente para o exerccio de suas vontades sexuais (...) viajam juntos, conhecem-se em todos os sentidos, passam um tempo juntos e, para aqueles que esto convictos de que o viver s  bom (o que, em nvel inconsciente,  bastante comum), as coisas ficam assim mesmo; ou seja, vive-se o prazer da agradvel companhia sem que haja a tendncia para a diviso do cotidiano, dos problemas, da vida financeira etc." 68
     
     Livres das regras e das obrigaes de um casamento, as pessoas que optam por relaes sexuais mltiplas percebem que se pode amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo.
     Llia tem 36 anos e j foi casada duas vezes. H sete anos optou por viver sozinha com o filho de 12 anos e no ter mais relaes fixas:
     
"Na verdade, nunca acreditei que uma relao exclusiva com algum pudesse me completar. Mas a presso da famlia  to grande que a gente acaba ficando em dvida e faz como todo mundo: casa. Agora que vivo s com meu filho, tenho certeza que prefiro assim. Tenho amigos que participam da minha vida e eu da deles. Minhas dificuldades e alegrias divido com eles, e nunca senti solido. Existe uma relao de amor verdadeiro entre ns. Quanto ao sexo, tambm no quero um parceiro fixo. J tenho experincia disso e sei que em pouco tempo vai perdendo a emoo. Atualmente relaciono-me com trs homens alternadamente, mas tem poca que no tenho ningum. Com esses namorados, a transa afetiva e sexual  bastante forte. No h compromisso nenhum entre ns e isso  justamente o que torna esses encontros to interessantes. Cada pessoa  um universo a ser descoberto, e no havendo a rotina do cotidiano, sempre h novidades. Sexualmente acontece o mesmo. Cada um deles tem um jeito diferente de me tocar e de fazer amor. Sinto que os amo e eles a mim. A maior dificuldade  algum entender que voc pode amar uma pessoa e no querer namor-la da forma tradicional, que o amor no se encaixa em modelos. As pessoas so to viciadas numa nica forma de relacionamento que s vezes fica difcil."
     
     Rafael, pequeno empresrio, de 46 anos, nunca se casou. Jovial, curte bastante a vida. Mora sozinho com uma antiga empregada da famlia que cuida de tudo na sua casa e faz todas as comidas de que ele gosta. Eventualmente, comea um namoro que no dura mais do que poucos meses.

"Quando eu tinha vinte e poucos anos acreditava que um dia ia casar, como todo mundo, mas ia adiando, Ainda bem que no casei. Hoje, quando vejo a vida que os amigos daquele tempo levam, fico arrepiado s de pensar. Alguns se separaram e casaram novamente rapidinho, mas vivem to aprisionados quanto da primeira vez. No me sinto sozinho. Tenho um grupo grande de amigos (homens e mulheres) e estamos sempre juntos. Uma vez por semana organizamos um jantar na casa de algum do grupo, onde sempre conheo gente nova. Aluguei uma casa em Bzios, aonde tenho ido todos os fins de semana. L tambm fiz amigos interessantes. s vezes me proponho a namorar uma mulher, mas no tenho muita pacincia. A maioria delas  possessiva e cobra uma relao de exclusividade. Gosto muito da minha vida, mas houve um momento em que fiquei preocupado. Uma amiga de infncia da minha irm, que  psicanalista, tentou me convencer a fazer anlise porque achava que eu tinha algum problema afetivo srio por no querer casar. Ela afirmava que eu tinha medo de me ligar a algum. Hoje, no tenho dvida de que quem tem problema srio  ela, por acreditar que todo mundo tem de desejar as mesmas coisas na vida."
     
     Nos vrios relatos feitos a mim por pessoas que no desejam uma relao fixa com um nico parceiro, dois fatores so comuns a todas: a importncia que do s relaes de amizade  consideram-nas as verdadeiras relaes de amor  e a liberdade sexual.
     J foi dito que o anseio amoroso de todo ser humano  o desejo de recuperar a sensao de harmonia perdida no nascimento, o que na criana  intensamente dirigido para a me. As relaes amorosas do adulto funcionam mal porque a maioria tende a reeditar inconscientemente com o parceiro a relao com a me, tpica da infncia. E isso fica claro na forma como se vive o amor, s se aceitando como natural se for um convvio amoroso possessivo e exclusivo com uma nica pessoa. Buscar atenuar o desamparo  fundamental, mas essa busca pode se manifestar de vrias formas e no apenas numa relao entre um homem e uma mulher. "A tendncia gregria existe, mas a forma como ela vai se manifestar no homem adulto est em aberto e depender de solues a serem encontradas pelos prprios homens; e mais, no existiria apenas uma nica soluo, nem mesmo  impossvel que algumas pessoas, suportando melhor o desamparo e o ser s, tenham essas expectativas amorosas altamente diminudas ou mesmo quase inexistentes."69
     Existe uma resistncia geral em admitir que o amor pode ser vivido de forma intensa e profunda fora de uma relao entre duas pessoas. As reaes a essa idia tendem a desqualific-lo, classificando-o como algo menor. E isso  o que freqentemente se faz com a amizade.  comum ouvirmos artistas, por exemplo, quando so indagados sobre o romance com algum, responderem: "Somos apenas amigos", e isso significa: "Sem muita importncia." Acreditam que ser amigo  algo menor do que ser amante, ser namorado ou ser casado. "Os amigos fornecem no apenas diverso e variedade; em suas multifacetadas entradas e sadas de nossas vidas, so o campo no qual podemos dar maior expresso quilo que somos como indivduos. E os velhos amigos fornecem o espao emocional no qual podemos errar com a certeza de que ainda estaro l para ns, tal como estaremos para eles."70
     Alguns escritores lamentam e denunciam a pouca importncia socialmente dada  amizade, denominando-a "o relacionamento negligenciado", e sugerem formas de codificaes e rituais para traz-la ao foco e inseri-la no mapa.71 Usa-se a palavra amigo para definir vrios tipos de relaes distintas. Ento, existem amigos e amigos. Com alguns temos contato durante um perodo da nossa vida, dependendo dos interesses do momento. Se perdemos o contato, acaba a amizade. Com outros, a amizade no precisa ser alimentada incessantemente para que exista. So amizades longas e contnuas, em que existe uma grande confiana, mesmo sem haver encontros constantes.
     H ainda os amigos que, independentemente de serem antigos ou recentes, participam do nosso dia-a-dia. Conversam sobre nossas questes existenciais, nos ajudam nas decises difceis e esto sempre prontos a nos acolher em caso de necessidade, sendo tudo isso recproco. Como as pessoas so diferentes, as trocas so sempre mais ricas do que as feitas com uma nica pessoa. Quando conhecemos algum com quem simpatizamos, se o potencial para a profunda amizade estiver l, o processo se torna apenas o de crescente intimidade; se o potencial no estiver l, a pessoa  deixada de lado ou includa no grupo dos amigos circunstanciais.72
     Acontece, s vezes, de conhecermos algum que julgamos possuir todos os elementos para uma amizade profunda. Admiramos seu jeito de ser, suas idias, sua forma de viver, mas, inexplicavelmente, nada acontece. Em pouco tempo esquecemos sua existncia.  uma questo de qumica, similar ao processo que ocorre quando nos apaixonamos ou no por algum. Existe, porm, uma diferena. O socilogo Francesco Alberoni reproduz a distino entre amor (romntico) e amizade: "O amor  uma paixo (...) O amor  xtase, mas tambm tormento. Em compensao, a amizade tem horror ao sofrimento (...) Amigos querem estar juntos para serem felizes. Se no conseguem, vo embora (...) O amor no  forosamente um sentimento recproco, e uma de suas caractersticas  a busca da reciprocidade, A amizade, pelo contrrio, sempre requer reciprocidade (...) Em amor, podemos odiar a pessoa que amamos (...) Em amizade, no h lugar para o dio."73
     Na nossa sociedade,  difundida a idia de que no se pode misturar amizade e sexo. Muitos acreditam que dessa forma se perde o amante e o amigo. A responsvel por isso  a corrente vinculao falsa entre amor romntico e sexo. Amor e sexo so impulsos totalmente independentes e pode haver prazer sexual pleno totalmente desvinculado das aspiraes romnticas.
     Francis, universitria casada, de 26 anos, relata a experincia inusitada que viveu no ltimo rveillon:
     
"Eu estava numa mesa grande no clube, com meu marido, meus irmos, minhas cunhadas e alguns amigos. J tinha passado da meia-noite, a festa estava animadssima. Numa outra mesa prxima, havia um cara muito atraente acompanhado da mulher, Ele me olhava desde o incio, mas era superdiscreto. No sei o que me deu, pode ter sido o champanhe, mas quando o vi ir ao banheiro, fui atrs. Nos esbarramos no meio do caminho e, quando dei por mim, estava fazendo amor com ele embaixo da orquestra, num vo entre o tablado e a piscina. Sempre achei o sexo com meu marido timo, mas nessa noite foi uma loucura. Me soltei de um jeito e vivi coisas que no sabia ser capaz. Nunca senti tanto teso. Foi rpido, mas maravilhoso. No trocamos nenhuma palavra, nem sei seu "nome. Logo depois estvamos novamente cada um na sua mesa, como se nada tivesse acontecido. Vou guardar isso sempre como uma tima lembrana."
     
     O sexo com amigos s vai ser frustrante e prejudicar a amizade se uma das partes tiver alguma expectativa romntica que a outra no corresponda. "Creio que, quando a sexualidade  removida de seu contexto convencional, existe uma associao perfeitamente natural entre amor, afeio, sensualidade e sexualidade. O ertico est presente para ser utilizado, ou no, com qualquer pessoa com quem sintamos uma verdadeira conexo. (...) As novas idias sobre amor sugerem que podemos misturar amizade, companheirismo e sexo." 74
     A mesma coisa acontece com pessoas que tm relaes sexuais episdicas com parceiros fortuitos e, num determinado momento, buscam uma relao estvel.  comum alegarem que cansaram de sexo sem amor, que se viram tomadas por uma sensao de vazio etc. "De uma noitada sexual com algum que mal conhecemos e com quem no pretendemos nada mais do que a troca de carcias no podemos esperar nada mais do que o fato de aquelas horas serem agradveis e as carcias prazerosas."75 A sensao de vazio deriva do fato de se ter esperado algo alm do sexo, e no dos encontros serem desagradveis em si.
     O que vem acontecendo com muitas pessoas  que na verdade tentam ser livres, mas se sentem inseguras numa relao que no seja tradicional, isto , "na medida em que se frustram em suas pretenses modernas, buscam, por falta de imaginao, voltar aos padres arcaicos".76
     So muitas as maneiras possveis de se viver o amor. Por ser ainda a mais tradicional e aceita, a maioria prefere uma ligao estvel com outra pessoa, Nesse caso, para que no se torne apenas mais uma repetio do fracasso a que assistimos hoje,  fundamental que as pessoas tenham prazer na convivncia, sem que dependam uma da outra. " uma ligao entre criaturas adultas que optaram por uma vida em comum por prazer e no por necessidade. Para que ela seja prazerosa, ter de garantir os direitos de cada pessoa: direito de locomoo, direito de opinio, de querer ficar s, de ter outros anseios sexuais (...), de cultivar amigos em separado, direito de falar de si e tambm direito de se calar."77
     A possessividade e o cime no entram nesse tipo de vnculo, j que os dois tm conscincia de que o nico motivo de a relao existir  o prazer de estar juntos.
     A multiplicidade de opes da vida amorosa pode levar a escolhas difceis de harmonizar com o social, mas nem por isso menos enriquecedoras. Foi o que aconteceu com Malu, artista plstica, que me relatou sua histria:
     
"Com 18 anos conheci Jorge e tivemos um namoro intenso. Sexualmente, era maravilhoso, havia uma magia entre ns. Fazamos faculdade juntos quando casei, aos 22 anos. Depois de quatro anos, a relao estava desgastada. Me sentia sufocada por ele, eu precisava dos amigos e ele s se expandia na intimidade. A relao ficou por um fio. Da em diante, tivemos uma vida separada, ficvamos pouco tempo juntos. Eu o amava, mas ele no era o meu dono. Nessa poca, conhecemos uma turma hippie. Voltei a trabalhar, agora em parceria com Mrcia. Foi, ento, que Jorge se apaixonou por ela e me tornei confidente dele. Todos na poca queriam viver novas experincias. Eu me sentia erotizada pelo teso deles. Houve uma reviravolta na minha relao com Jorge. Ns nos redescobrimos. Ficamos muito mais prximos e o desejo tambm voltou. A entrada de Mrcia foi o que salvou. Fiquei grvida de nossa primeira filha e Mrcia foi morar conosco para me ajudar. Comeamos, ento, a viver nossa histria sexual. Assumimos nossa relao triangular quando minha segunda filha estava com cinco meses. Fomos viver fora da cidade, num stio em frente  praia. O tempo todo os amigos souberam, mas quando fomos morar os trs juntos, nos abandonaram. Acho que ficaram ameaados, principalmente os casais.
"Nossa vida foi maravilhosa. Plantvamos, pescvamos e trabalhvamos juntos. Nas casas prximas foram morar outros hippies; fizemos um novo crculo de amigos. Mrcia teve, ento, dois filhos gmeos com Jorge. A gente era muito feliz, apesar de termos ficado malditos, isolados. As brigas eram por desgosto pela reao dos amigos e da famlia. Vivamos uma paixo louca 24 horas por dia. Um pai-de-santo casou ns trs. Ele dizia que ramos o arauto de uma nova raa. Todos os guias abenoaram nosso amor, dignificaram nossa famlia. Tivemos alguns momentos difceis, mas quando um tringulo se equilibra  maravilhoso, porque a dinmica  intensa. Em muitas ocasies, pnhamos as crianas para dormir e nos arrumvamos lindamente. Preparvamos uns drinques e fazamos um sexo fantstico, os trs. Ele conseguia fazer com que ns duas gozssemos ao mesmo tempo, como quem rege uma orquestra. Era amor de verdade, era lindo. O nvel de soltura, de entrega, era absoluto. Essa relao no teria se sustentado se fosse s sexo, mas tinha muita nudez, muito carinho, muito banho de mar noturno. Descobri a natureza, perdi o medo do escuro. Foi uma grande libertao da moral, uma descoberta de vida. Vivamos integrados com a natureza, no meio de filhos, fraldas e arte. A criatividade estava presente o tempo todo. A Mrcia foi uma me maravilhosa para as minhas filhas, assim como eu fui para os filhos dela. Vivemos juntos durante 15 anos, at Jorge ter um cncer e morrer. As crianas, que hoje j so adultas, sentem muita saudade da tribo. Eu e Mrcia continuamos parceiras, mas cada uma tem sua prpria vida. O desafio para mim hoje  conseguir que tudo o que eu vivo no seja menor."
     
     O condicionamento cultural a que estamos submetidos impede a autonomia e a liberdade de escolha quando indica apenas um caminho para o amor. A crena de que uma relao amorosa estvel e duradoura com uma s pessoa seja a nica sada para o desamparo humano  limitadora e gera muita infelicidade.
       
      
      
IV - SEXO

  
  A represso sexual
       
       
       
       
     O sexo sempre teve destaque na histria da humanidade. Dependendo da poca e do lugar, foi glorificado como smbolo de fertilidade e riqueza, ou condenado como pecado. A condenao do sexo surgiu com o patriarcado, como j vimos. No incio se restringia  mulheres, para dar ao homem a certeza da paternidade. No cristianismo, a represso sexual generalizou-se. O padro moral tornou-se, em tese, o mesmo para homens e mulheres, embora na prtica houvesse maior condescendncia para com o homem.
     A represso sexual  um fenmeno curioso, na medida em que algo meramente biolgico e natural sofre modificaes quanto ao seu sentido,  sua funo e  sua regulao quando  deslocado do plano da Natureza para o da Sociedade, da Cultura e da Histria.1 Entretanto, a represso no  apenas algo que vem de fora, submetendo as pessoas. As proibies e interdies externas so interiorizadas, convertendo-se em proibies e interdies internas, vividas sob a forma de vergonha e culpa.
     "Com efeito, a represso sexual ser tanto mais eficaz quanto mais conseguir ocultar, dissimular e disfarar o carter sexual daquilo que est sendo reprimido (...) Nossos sentimentos podero ser disfarados, ocultados ou dissimulados, desde que percebidos ou sentidos como incompatveis com as normas, os valores e as regras da nossa sociedade."2 Quando a represso  bem-sucedida, j no  sentida como tal e a aceitao ou recusa por determinado tipo de comportamento  vivido como se fosse uma livre escolha da prpria pessoa.
     Para Freud, o sofrimento humano tem trs origens: a fora superior da natureza, a fragilidade dos nossos corpos e a inadequao das normas que regulam as relaes mtuas dos indivduos na famlia, no Estado e na sociedade.3 A doutrina de que h no sexo algo pecaminoso  totalmente inadequada, causando sofrimentos que se iniciam na infncia e continuam pela vida afora. "Mantendo numa priso o amor sexual, a moral convencional concorreu para aprisionar todas as outras formas de sentimento amistoso, e para tornar os homens menos generosos, menos bondosos, mais arrogantes e mais cruis." 4
     Reich considera que as enfermidades psquicas so a conseqncia do caos sexual da sociedade, j que a sade mental depende da potncia orgstica, isto , do ponto at o qual o indivduo pode se entregar e experimentar o clmax de excitao no ato sexual. Para ele, o homem alienou a si mesmo da vida e cresceu hostil a ela. Sua estrutura de carter  refletindo uma cultura patriarcal milenar   encouraada, contrariando sua prpria natureza interior e contra a misria social que o rodeia. Essa couraa de carter seria a base do isolamento, do desejo de autoridade, do medo  responsabilidade, do anseio mstico e da misria sexual. A unidade entre natureza e cultura continuar a ser um sonho, enquanto o homem continuar a condenar a exigncia biolgica de satisfao sexual natural (orgstica). Numa existncia humana ainda sujeita a condies sociais caticas, prevalecer a destruio da vida pela educao coerciva e pela guerra. O homem  a nica espcie que no satisfaz  lei natural da sexualidade. A morte de milhes de pessoas na guerra seria o resultado da negao social da vida, que por sua vez seria expresso e conseqncia de perturbaes psquicas e somticas da atividade vital. "O processo sexual, isto , o processo expansivo do prazer biolgico  o prazer vital produtivo per se." 5
     O neuropsiclogo James W. Prescott, do Instituto Nacional de Sade Infantil e Desenvolvimento Humano, de Maryland, EUA, publicou em 1975 o resultado estatstico da anlise de 400 sociedades pr-industriais e comprovou algumas teses de Reich sobre o desenvolvimento humano e social. Ele concluiu que aquelas culturas que do muito afeto fsico a seus filhos e que no reprimem a atividade sexual de seus adolescentes so culturas pouco inclinadas  violncia,  escravido,  religio organizada  e vice-versa.6
     Prescott afirma que uma personalidade orientada para o prazer raramente exibe condutas violentas ou agressivas e que uma personalidade violenta tem pouca capacidade para tolerar, experimentar ou gozar atividades sensualmente prazerosas.7
     Lionel Tiger, autor de A busca do prazer, considera a represso sexual um enigma muito estranho. Todos sentimos prazer com estmulos sexuais e com a prpria sexualidade. "Por que ser ento que, por toda parte, e praticamente o tempo todo, h sempre algum preocupado em restringir essa sexualidade?" 8 Ele argumenta que os polticos, por exemplo, prosperam quando investem contra a sexualidade libertina, real ou imaginria, de seus concidados. Progridem na carreira e conseguem votos quando se oferecem para restringir essa pretensa licenciosidade em nome da moral. Ao mesmo tempo, so censurados e correm o risco de ter sua carreira poltica interrompida se so flagrados entregues aos prazeres do sexo. Edward Kennedy, Gary Hart, John Towers, Earl Long, John Profumo, Andreas Papandreou e muitos outros foram vtimas da indignao popular. "Mas por que haver a ral de se ressentir das atividades sexuais de seus lderes? Por que se preocupar? Ser que todo mundo  um censor em potencial? E, inversamente, na medida em que o sexo d prazer, por que desejariam os detentores de poder restringir esse prazer entre seus subordinados, tanto na vida privada quanto em expresses abstratas como filmes, quadros e livros?" 9 Ao contrrio dos artistas gregos e romanos, que consideravam o nu masculino como exemplo da perfeio humana, aps o cristianismo o nu das obras de arte passou a causar constrangimentos. Antes de ser exibidas para o pblico, as esttuas tinham seus rgos genitais tapados, ou o pnis quebrado com um martelinho especial. O Davi, de Michelangelo, antes de ser exibido em Florena, em 1504, recebeu uma folha de figueira, s retirada em 1912.
     Tiger se pergunta, ainda, o que haver de errado no prazer sexual, se as pessoas chegarem ao trabalho na hora, obedecerem aos sinais de trnsito e no abusarem do bem-estar e da dignidade alheia.
     Uma explicao possvel reside no fato de que, quanto mais o indivduo vai ampliando, aprofundando e diversificando sua vida sexual  e isso significa transgredir , mais coragem ganha para fazer outras coisas, questionar outros valores. Comea a viver com maior vontade e deciso. Pode comear a se tornar perigoso.10 "No deve ser  toa nem por acaso que as foras repressoras de todas as pocas se voltaram to sistemtica e precisamente contra a sexualidade humana." 11
     A represso sexual  um conjunto de interdies, permisses, valores, regras estabelecidas pelo social para controlar o exerccio da sexualidade. No Ocidente, sobretudo, o sexo  visto como algo muito perigoso. As expresses utilizadas para se referir ao impacto que causa nas pessoas ilustra bem os riscos que encerra: estar perdido de amor, cair de amores, ser fulminado pela paixo, morrer de amor, ser atingido pelas flechas do amor.12
     Embora hoje a moral sexual tenha sofrido grandes transformaes e homens e mulheres no acreditem conscientemente que o ato sexual seja tamanho pecado, no inconsciente os antigos tabus ainda persistem. O sexo continua sendo um problema complicado e difcil, gerando muitas dvidas. A maioria das pessoas dedica um tempo enorme de suas vidas s suas fantasias, aos desejos, aos temores,  vergonha e  culpa sexuais. Muitos acreditam ser o sexo uma coisa impura e nada humana. A vergonha e a culpa sexuais podem se manifestar diante de um pensamento, de um desejo ou da simples inteno de agir de determinada maneira. So muitos sculos de represso imposta pela Igreja crist, que exerceu uma influncia menos saudvel do que a exercida por outras religies mundiais.13
     Em muitas culturas o prazer sexual  valorizado e existem formas de iniciao para que se alcance o mximo de satisfao. No Oriente, o tantrismo, o kama sutra e o taosmo so correntes ideolgicas que incentivam a prtica sexual, acreditando que quanto mais e melhor  vivenciado o prazer mais o ser humano tornar feliz sua existncia. No h conotao de pecado no sexo. Ao contrrio, graas ao desenvolvimento do prazer sexual alcana-se maior integrao com a natureza universal.
     No cristianismo, o corpo  visto como inimigo do esprito. H uma expectativa de que todos se sintam culpados e envergonhados por causa dos seus rgos sexuais e de suas funes. Morris Berman afirma que os ocidentais perderam o prprio corpo. Estando fora de contato com a verdadeira realidade somtica, h uma tentativa de afirmao em satisfaes como sucesso, fama, auto-imagem, dinheiro etc. E mesmo fora do corpo observa-se uma preocupao paradoxal com o corpo e sua aparncia. Tenta-se melhor-lo com maquiagem, roupas, cirurgia plstica, alimentos naturais, vitaminas e exerccios.14 "Podemos entender nossa obsesso por sexo como proveniente da ausncia da verdadeira sexualidade: o ritmo autntico do desejo sexual e sua expresso espontnea como parte do todo da nossa condio corporificada. No confiamos no corpo, por isso, o vigiamos constantemente como se fosse uma coisa separada de ns. Da o fato de conseguirmos executar o ato sexual sem estarmos presentes de fato." 15
     A baixa qualidade do sexo praticado na nossa cultura deriva-se tambm da moral sexual instituda peto patriarcado. A mulher sempre foi vista como propriedade do homem, por isso, considera-se que o homem possui a mulher e que esta se entrega. Como possuir constitui uma honra e entregar-se uma humilhao, a mulher desenvolveu uma atitude negativa em relao ao ato sexual, o que  reforado pela educao autoritria.16 Para a maior parte dos homens, possuir uma mulher constitui muito mais uma prova de virilidade do que uma experincia amorosa; a conquista, tornando-se mais importante que o amor, justifica a atitude da mulher.17
     Na sociedade ocidental, o sexo , na maioria das vezes, praticado como uma ao mecnica, rotineira, desprovida de emoo, com o nico objetivo de atingir o orgasmo o mais rapidamente possvel. Setenta e cinco por cento dos homens ejaculam menos de dois minutos depois de introduzir o pnis na vagina18 e muitos, depois disso, viram para o lado e dormem. Enquanto isso, a maioria das mulheres no tem orgasmo e se desilude com a objetividade sexual do homem. Resulta da ser o desempenho sexual bastante ansioso, podendo levar a um bloqueio emocional e a vrios tipos de disfuno como a impotncia, a ejaculao precoce, as disfunes do desejo e a ausncia de orgasmo. Entretanto, "quase todos os homens e mulheres sabem que so capazes de conseguir muito mais da prpria vida sexual do que se permitem sentir; sabem tambm que no prazer sexual e nos jogos de amor existe um espao imenso onde podem crescer e se desenvolver, desde que encontrem tempo, energia, coragem e honestidade para partir em busca desse desenvolvimento". 19
     Hoje, no incio do sculo XXI, com o questionamento do sistema patriarcal por homens e mulheres, comeam a despontar novas formas de viver a sexualidade. Cada vez um nmero maior de pessoas busca o prazer atravs de relaes sexuais mais livres, respeitando o prprio desejo e o modo mais satisfatrio para os envolvidos.
     Gaiarsa resume a perspectiva do real prazer sexual quando afirma que "S seremos sexualmente satisfeitos no dia em que pudermos ter relaes sexuais
     QUANDO tivermos vontade,
     COM QUEM tivermos vontade,
     DO MODO que for melhor
      para MIM e para ELA  aqui e agora."20
  
  
Prostituio
       
       
       
       
     A prostituio no foi sempre a coisa desprezada e oculta em que se tornou modernamente. Na Antigidade, foi uma instituio sagrada muito comum, chegando a ser exercida nos templos. Mulheres respeitveis faziam sexo com o sacerdote ou com um passante desconhecido, realizando assim um ato de adorao a um deus ou deusa. As prostitutas eram tratadas com respeito, e os homens que usavam seus servios lhes rendiam homenagens. Acontecia tambm de as prprias sacerdotisas serem as prostitutas.
     A origem desses costumes foi uma tentativa de garantir a fertilidade da terra e das mulheres como um favor dos deuses.
     Com o surgimento do cristianismo, os templos foram fechados e o meretrcio passou a ser comercializado com fins lucrativos para aqueles que faziam das mulheres suas escravas. A prostituio individual, hoje to comum, era exceo. A maioria das mulheres vivia em bordis e casas de banho.
     Na Idade Mdia, essa prtica era vista como necessria  sociedade; uma atividade repulsiva, mas tolerada para evitar algo pior. Num estudo sobre as minorias nesse perodo da histria, Jeffrey Richards nos conta como era o vnculo entre a prostituio e a sociedade medieval.21
     As prostitutas estavam em toda parte. Era raro uma cidade que no tivesse sua boa casa, como s vezes se referiam ao bordel. No sculo XV, havia de cinco a seis mil prostitutas em Paris para uma populao de 200 mil pessoas; em Dijon, em uma populao de 10 mil, foram identificadas 100 prostitutas.
     Os fregueses eram encontrados nas tavernas, praas, casas de banho e at mesmo nas igrejas. Na Idade Mdia, as mulheres entravam para a prostituio por motivos semelhantes aos de outras pocas: pobreza, inclinao natural, perda de status e um passado familiar perturbado ou violento.
     Apesar do rigor da Igreja contra o sexo, a atividade sexual masculina pr-marital e extraconjugal era socialmente tolerada. Dessa forma, a prostituio era um meio prtico de permitir que os jovens afirmassem sua masculinidade e aliviassem suas necessidades sexuais, enquanto evitava que se aproximassem de esposas e filhas respeitveis. Tambm era til para desestimul-los da prtica do estupro e afast-los da homossexualidade.
     Como os homens geralmente se casavam por volta dos 30 anos, o rei Carlos VII da Frana reconheceu a necessidade dos servios oferecidos pelos bordis para os jovens solteiros e autorizou a presena de uma casa de tolerncia em Castelnaudary em 1445. Os jovens, a partir dos 16 anos, podiam freqent-la, sendo sacerdotes, homens casados, judeus e leprosos excludos pelos regulamentos. Calcula-se, entretanto, que 20% da clientela era constituda de clrigos.
     Denunciada por alguns membros da Igreja, a prostituio era vista por outros, como Santo Agostinho, como um mal necessrio, algo cuja existncia tornava possvel manter padres sexuais e sociais estveis para o resto da sociedade. Agostinho escreveu: "Se as prostitutas forem expulsas da sociedade, tudo estar desorganizado em funo dos desejos", ao que mais tarde teve a seguinte observao, acrescentada por outro: "A prostituta na sociedade  como o esgoto no palcio. Se se retirar o esgoto, o palcio inteiro ser contaminado." 22 Outros telogos afirmavam que a prostituio evitava males maiores, tais como a sodomia e o assassinato. Um deles chegou a ponto de argumentar que as prostitutas deveriam ser includas entre os assalariados. "Com efeito, elas alugam seus corpos e fornecem mo-de-obra. Se se arrependerem, podem guardar os lucros da prostituio para propsitos caridosos. Mas, se elas se prostituem por prazer e alugam seus corpos de modo a obter deleite, isso, ento, no  trabalho, e o salrio  to vergonhoso quanto o ato." 23
     De qualquer forma, a Igreja procurava lidar com muita cautela com o problema da prostituio. Alguns dos meios usados para os leprosos eram adotados nesse caso. Deveriam ser segregados e tinham que ser diferenciados da populao decente pela prescrio de uma marca de infmia  em muitos lugares, a aiguilleie, uma corda com ns pendentes do ombro e cor diferente da do vestido.
     Por outro lado, a Igreja tentava convencer as prostitutas a casar e abandonar a profisso. Os verdadeiros cristos eram incentivados a ajudar na recuperao das prostitutas e os que se casassem com elas tinham seus pecados remidos pelo papa Inocncio III.
     Antes de as monarquias se interessarem por regulamentar a prostituio, em 1161 o rei Henrique II da Inglaterra estabeleceu normas para os bordis:
     
	No poderia haver bordis abertos em dias santos ou de festas religiosas, nos dias em que o Parlamento estivesse reunido ou em que o rei estivesse realizando reunies de conselho.
	Mulheres grvidas, casadas ou freiras no poderiam ser aceitas como prostitutas.
	Nenhuma mulher poderia aceitar dinheiro de um homem se no tivesse deitado com ele por toda a noite.
	Nenhuma mulher poderia ser impedida de desistir da profisso, se desejasse.
	No poderia haver aliciamento aberto de fregueses.
	No poderia ser servida comida ou bebida alcolica aos fregueses.
	As mulheres no poderiam residir no local, mas apenas trabalhar l
	No poderiam ser cobrados mais do que 14 pence por semana por um quarto.
	As mulheres teriam de ser submetidas a exames de sade regulares,
     
     Tentavam, assim, criar centros ordeiros e eficientes para a satisfao sexual e que no ofendessem a decncia pblica. Outra preocupao era manter as prostitutas fora das muralhas da cidade, confinadas nas conhecidas zonas de luz vermelha. Buscavam tambm que fosse cumprida a regulamentao do vesturio e a exigncia de usar a marca distintiva, o que at ento no havia sido regra em Londres. Em 1351, foi publicado um edital que protestava contra a adoo por mulheres devassas do vesturio de damas boas e nobres e ordenava que elas no usassem qualquer roupa adornada com peles ou forrada de seda ou qualquer material rico, e, sim, um capuz de pano listrado e vestes simples. Em 1437, o capuz prescrito passou a ter que ser vermelho.
     O conselho municipal de Londres, com o apoio da Coroa, em 1393, imps um toque de recolher por considerar as prostitutas e os bordis um perigo para a ordem e a moral pblica. Nenhum homem poderia circular pela cidade ou subrbios depois das nove horas da noite, e os estrangeiros, depois das oito. A pena era multa e priso. Para as prostitutas era proibido circular ou se alojar na cidade ou nos subrbios de dia e  noite. Tinham que se manter nos lugares a elas designados. Caso descumprissem o toque de recolher, eram punidas com o confisco de suas roupas e o emblema de sua profisso, o que as impediria de trabalhar.
     Nada, porm, conseguia conter a prostituio. Nem mesmo quando Henrique VI, em 1460, ordenou que se removessem todas as prostitutas e seus cmplices para a priso.
     Na Frana, a prostituio ficou sob controle e foram criados bordis municipais, que eram obrigados a fechar s 11 horas da noite. Os proventos da prostituio eram postos numa arca que as autoridades esvaziavam no incio de cada ms, pagando os salrios dos empregados do bordel e dando s prostitutas sua parte. Os funcionrios do Estado eram proibidos de dormir com as prostitutas, que s tinham autorizao para deixar o local que viviam nas manhs de sbado e eram obrigadas a se vestir com uma capa curta e usar um leno amarelo amarrado em torno do pescoo.
     A posio oficial das prostitutas era semelhante  dos judeus ou  dos leprosos. Todos os trs grupos eram obrigados a usar roupas especiais, cada vez eram mais segregados e estimulados a se arrepender e a se regenerar. A legislao da cidade de Avignon proibia tanto os judeus quanto as prostitutas de tocarem em frutas e po no mercado, forando-os a comprar o que tocassem.
     Da mesma forma que fazia com os leprosos, a Igreja privava as prostitutas de seus direitos civis. Elas eram impedidas de acusar algum de crime e de comparecer ao tribunal, de herdar propriedade, alm de ser consideradas incapazes de ser vtimas de estupro.
     Apesar da lei cannica, foi havendo uma melhoria na posio legal das prostitutas em decorrncia de uma mudana de atitude em relao a elas, ocorrida no sculo XV. Foram aos poucos se integrando  sociedade. Eram encontradas participando de festas cvicas, casamentos, funerais e batizados e o uso da aiguillete foi abandonado. Entretanto, no sculo XVI, a Ordenao de Orleans fechou todos os bordis. As causas foram possivelmente a epidemia de sfilis que varreu a Europa nessa poca e a presso moral que vinha do protestantismo, o qual exigia castidade tambm para os homens antes do casamento. Os pregadores luteranos tiveram participao no fechamento de vrios bordis pblicos.
     A resposta catlica  Reforma buscava se equiparar a esta ltima na represso  imoralidade sexual e acabou por ser ainda mais severa. A prostituio tornou-se, ento, algo a ser reprimido, mesmo dentro de limites estritamente definidos.
     No sculo XIX, a funo social da prostituio se transforma profundamente. A populao das grandes cidades  constituda de muito mais homens do que mulheres. So os camponeses que vm trabalhar e s mais tarde conseguem trazer a famlia. Para evitar estupros e outros problemas, o bordel se torna indispensvel, mas a vigilncia da polcia  intensa. Surge uma nova clientela para a prostituio, formada por filhos da burguesia que se casam tarde e tm de respeitar a virgindade das moas, empregados do comrcio ou de escritrios que no podem casar por terem salrios baixos, estudantes das faculdades, soldados etc.24
     Moas vindas do meio operrio marcam a poca das costureirinhas. No querendo fazer parte da classe operria, que agora se familiarizou, optam pela prostituio. A sfilis, nesse momento, se propaga peias grandes cidades. Trabalhando como modistas, entram em contato com as burguesas; o burgus, no satisfeito sexualmente com sua esposa, freqenta essas moas, que o contaminam e, conseqentemente, sua mulher. Calcula-se que pelo menos 20% das esposas fiis aos maridos so por eles contaminadas, e que somente em Paris existiam 125 mil sifilticos.25
     Discursos inflamados anunciam que se a moral no prevalecer sobre os impulsos,  certa a sifilizao da espcie humana. Nos Estados Unidos, em 1913, afirma-se que "a nao que for a primeira a conseguir diminuir a doena venrea ter adquirido uma superioridade considervel sobre seus adversrios".26
     Hitler impe em 1935 a lei que torna obrigatrio o exame pr-nupcial, probe o casamento de homens com doenas venreas e lhes impe a esterilizao pela castrao.27 A sifilofobia  pavor da sfilis  s termina aps a Segunda Guerra Mundial, com o surgimento dos antibiticos.
     No final do sculo XIX havia uma preocupao em descobrir as causas da prostituio. Alguns especialistas sustentavam a tese da prostituta de nascena. Em 1911, um mdico da Delegacia de Costumes em Paris examina duas mil prostitutas e conclui que "a prostituio  uma afeco orgnica patolgica" e lhe d o nome de loucura da gerao, por ser  segundo ele  de origem hereditria, resultante de "uma modificao qumica, biolgica, do plasma herdado".28 H quem sugira, entretanto, apesar da extrema audcia para a poca, que  normal que o marido frustrado  a maioria nunca viu a esposa nua  recorra s prostitutas. Empregadas domsticas, balconistas, atendentes de bares, costureiras que trabalham em casa, governantas, professoras de piano, apesar de no serem verdadeiras profissionais, proporcionam aos homens casados da burguesia a satisfao sexual que, para suas esposas virtuosas,  impensvel. So as prostitutas de meio perodo.29
     Mas quem  o cliente? O historiador Grard Vincent se faz esta pergunta sem conseguir uma resposta:
     
"Para o imigrante solteiro que vai procurar no bordel um alvio necessrio e imperfeito, a motivao  evidente. Mas, e o executivo quarento que, ao volante de sua BMW, pega uma prostituta na hora do almoo na Avenue Foch? O Relatrio Simon nos informa que so os clientes ocasionais que sustentam as prostitutas e seus cftens. Mas quem so eles? No sabemos. Homens vidos por certos refinamentos que sua esposa (ou amante) recusaria? Perversos envergonhados que assim realizariam seus desejos voyeuristas, fetichistas ou sadomasoquistas? Tmidos que s se atrevem a abordar prostitutas, pois o dinheiro no garante o consentimento? Psicopatas do secreto que encontram no anonimato da relao a certeza da dissimulao? Homossexuais oficiosos que fantasiam sobre o sexo dos outros clientes? Catlicos convictos, porm pecadores, que dissociam sexo do afeto e querem poupar s esposas uma fatal adoo do hbito de atingirem o orgasmo? O complexado que quer evitar qualquer comparao que talvez pudesse ser expressa por uma parceira no remunerada? O rico que quer mais uma vez provar para si mesmo que pode conseguir tudo com o dinheiro? Se no 'tudo', pelo menos simulacros quase perfeitos? Indivduos ultra-socializados que querem de vez em quando gozar a transgresso? So apenas hipteses."30
     
     Com a liberao dos anos 60, supunha-se que a prostituio estivesse com os dias contados. O homem no mais teria interesse em fazer sexo com uma desconhecida, quando poderia ter prazer com a namorada que ele ama ou com a esposa, agora, uma mulher que valoriza a satisfao sexual. Na falta de uma relao estvel, uma colega de trabalho, uma amiga ou algum que conhecesse numa festa poderia lhe dar um prazer mais completo sem que precisasse pagar. Mas nada disso aconteceu. A prostituio, ao contrrio do que se esperava, aumentou e se sofisticou bastante. Os jornais diariamente testemunham a variedade de servios oferecidos. A imagem da prostituta sofrida, mal-cuidada e infeliz foi substituda pela garota de programa, jovem, bonita, bem vestida.
     
     No faz muito tempo, um caso ficou famoso no mundo todo, causando perplexidade e um certo incmodo em quem buscava explicao. O ator ingls Hugh Grant, casado com uma bela atriz e modelo pertencente ao time das mulheres mais desejadas do planeta, foi flagrado praticando sexo oral com uma prostituta dentro do carro, numa rua de Los Angeles. Independentemente do que faam sexualmente com suas esposas ou namoradas, os homens continuam desejando se relacionar com prostitutas. Por qu?
     Atualmente, as mulheres exigem cada vez mais seu direito ao prazer sexual. O homem se sente avaliado, julgado no seu desempenho e na sua competncia nessa rea. Vai para o ato sexual temendo no corresponder ao que a mulher espera e, assim, decepcion-la. Qualquer falha pode abalar a certeza de sua virilidade, alm de se sentir cobrado no seu comportamento antes, durante e depois do sexo.
     Com a prostituta, o homem se sente livre para fazer o que deseja no sexo, do jeito e da forma que quiser e quando tiver vontade. O pagamento em dinheiro o livra de qualquer outro tipo de dvida. No precisa se preocupar com o que a mulher deseja, se est agradando ou correspondendo s suas expectativas. No h nenhuma cobrana. Se ela tem ou no orgasmo no  problema dele. No precisa fingir que est apaixonado ou que vai procur-la novamente, nem precisa pensar numa desculpa quando ela lhe telefonar. Isso nunca vai acontecer. Mesmo sendo um prazer individual, as regras no deixam dvidas e ningum est sendo enganado.
     Acrescente-se a isso a tendncia atual de se valorizar a individualidade, de se buscar a auto-suficincia, no se admitindo mais que o outro cause qualquer tipo de insatisfao. "A explorao do ego comanda uma nova metodologia: o narcisismo. 'Conhea-te a ti mesmo' e 'Ama-te' so as duas condies prvias para qualquer valorizao do ego. A poca de falsos pudores e de falsas modstias j passou. Uma vez que inaptides e inapetncias so colocadas por conta de um ego infeliz, bloqueado,  um dever escut-lo, olh-lo, dissec-lo para estar em condies de liber-lo." 31
     Gilmar, advogado, de 45 anos, separou-se da mulher h oito anos e nunca mais quis saber de casamento. Teve alguns namoros que no duraram mais de trs ou quatro meses. Segundo ele, havia muitas obrigaes a cumprir que o desagradavam e o saldo acabava sendo aborrecimentos. A partir da, passou a ter encontros casuais com algumas mulheres quando se sentia atrado, mas era cauteloso para no deixar que se transformasse num namoro. s vezes, era algum que conhecia no escritrio ou no frum, ou era apresentada por algum amigo. A nova estratgia tambm no funcionou: as mulheres com quem saa criavam uma expectativa de continuidade que o deixava constrangido. Tomou uma deciso radical, que considera a mais sensata da sua vida: s transar com garotas de programa.
     
"J h algum tempo tive a certeza de no querer me relacionar amorosamente com nenhuma mulher. Gosto de morar sozinho e fazer o que quero da vida. No quero filhos e no sinto falta nenhuma de algum do meu lado, mas adoro fazer sexo. Quando ainda saa com uma mulher interessante, na verdade meu objetivo principal era transar sem compromisso. A, eu a levava para jantar, depois para ouvir msica em algum lugar e s cinco horas da manh a situao era a seguinte; exausto, j tendo gastado a maior grana, eu ainda no sabia se ela ia querer ou no transar comigo. Resolvi simplificar as coisas. Conheo algumas meninas de programa lindas, de vinte e poucos anos, que vm quando telefono e por quem tenho carinho, mas no sou cobrado em nada. Dinheiro eu j gastava tambm quando saa com qualquer outra mulher. Afinal, tudo neste mundo  pago mesmo. A diferena est na maior ou menor dose de hipocrisia que vem junto com o produto. Agora posso escolher s os melhores momentos. Sempre que penso nesse assunto, vem  minha cabea o lema de uma empresa carioca: 'Alugar  melhor.'"
     
     E quem so as garotas de programa? O que sentem e como vem a atividade que exercem? Para responder a estas perguntas, entrevistei algumas, com idade entre 20 e 27 anos. A seguir, transcrevo o relato de duas delas:
     Flvia tem 23 anos, alta, morena, cabelos cacheados, fala tranqila e um sorriso contagiante.  universitria, cursando o segundo ano de direito.
     
"Fao programas porque gosto de conhecer pessoas e tambm  uma forma de manter minha vida sexual ativa. No transo s pelo dinheiro. Gosto dessa vida, se fosse sacrifcio eu jamais faria. No preciso disso para viver, meu pai me d tudo. Mas quero continuar. D para eu tirar uns dois mil por ms. A cafetina fica com metade, mas eu sempre roubo os clientes dela, quando sinto que o cara no vai contar, que  meu amigo. Nunca trabalhei na rua ou em bar. Vou na casa dos clientes ou ento a um motel. (...) Acho que 80% das meninas fazem programa. Tenho amigas que tm pais ricos e fazem por prazer. Quando me apaixono, sou muito fiel e dispenso os programas. (...) A nica vez que me senti usada foi quando estava transando com um cara e ele insistia: 'Fala que eu estou comendo a tua me.' Detesto isso, fiquei com medo. Seleciono bem os meus clientes, nunca fui agredida mas j tive algumas transas estranhas. Teve um cara que me pagava s para eu fazer xixi na cara dele. Ele gargarejava e engolia. No trepava, gozava se masturbando. Um outro me pagava superbem, 500 reais, para eu fazer coc na boca dele. Eu no curto isso, no. Nunca mais quis transar com ele. Esses caras so exceo. A grande maioria transa normal. Tem muito homem casado que procura a gente. (...) J transei com polticos famosos e jogadores de futebol. H dois anos, um jogador italiano mandou me buscar. Fui para Itlia. Isso faz bem para o ego. L eu era mais cara que aqui. No mnimo 500 dlares, aqui geralmente  100, no mximo 300. Jamais consegui ter um cara rico nem caso amoroso por dinheiro. Seria sacrificante."
     
     Claudete  loura, 25 anos. Alegre, extrovertida, orgulha-se de seu corpo escultural:
     
     "Perdi a virgindade com 22 anos. Antes disso j namorava bastante, s que as pessoas me convidavam para um programa e eu no podia porque era virgem. Sempre tive vrios namorados ao mesmo tempo, mas minha me controlava minha virgindade. Ela me ameaava, dizia que ia descobrir pelo meu corpo jeito de andar. Minha irm era modelo e conhecia muita gente, a veio o convite para eu vender minha virgindade por mil dlares. O cara s pagava se eu fizesse exame para comprovar que era virgem. Senti medo, mas tirei de letra. Era um coroa bonito. Da em diante, continuei. Pela propaganda, vrias cafetinas me procuraram. No incio sentia repulsa, depois passa a ser um trabalho. (...) No me envolvo com os clientes, mantenho distncia. At hoje, s tive um namorado que sabia.
     "Depois que vendi minha virgindade, descobri que tinha o hmen complacente. A, a cafetina arranjou um rabe e vendi novamente, por 10 mil dlares. Ela ficou com metade. (...) Meus planos para o futuro so: gastar muito dinheiro com roupa, amigos e farras. Estou querendo parar, mas no d para ser de repente. Tenho que comprar pelo menos um carro. Se trabalhar muito, d para ganhar mais. J tive noite de sair com trs ou quatro clientes, eles pagam 200 reais, metade fica para mim. (...) A maioria que nos procura  homem casado. Quase todos trepam mal. Muitos perguntam se fao coito anal.  o meu ponto mais forte, mas s dou quando simpatizo com o cara. Sou temperamental. Quando o homem  nojento, vou embora. De que eles mais gostam? Que eu transe com outra mulher para eles verem, gostam tambm de gozar na minha boca. (...) Geralmente,  o homem que decide, mas quando ele no sabe o que fazer, tenho que tomar a iniciativa. Fao um teatrinho. Uso meu corpo como seduo. (...)  comum um casal querer transar comigo. Na maioria das vezes, os trs transam juntos, mas um dos dois fica vendo. Tem homem que s quer assistir e ficar se masturbando. (...) No tenho vontade nenhuma de casar, mas quero ter um filho. Quero ser totalmente independente para escolher o homem que quiser. (...) Para continuar nessa vida, depende do fsico. Depois dos 30 anos comea a ficar mais difcil. No fundo toda garota gosta de fazer isso. Eu gosto. Sou uma prostituta que gosta de ser prostituta. Todo mundo me deseja. Fico seduzindo as pessoas pelo prazer de saber que tem gente me desejando. (...) Comecei a transar com mulher por causa do trabalho. A primeira vez foi com uma garota linda que era modelo. Eu tinha 19 anos, era virgem e no podia transar. O cara ficou olhando e se masturbando. A partir da, passei a adorar transar com mulher. A mulher sabe tocar. Namoraria uma mulher, mas no assumiria a relao. J transei com uma garota que tinha um cime doentio de mim. Eu estava apaixonada, mas liberdade no tem preo. (...) Estou satisfeita com a minha vida. No procuro nada. S fao coisas de que gosto. Uma psicloga disse que tenho um desequilbrio emocional. J tentei suicdio. A nica coisa que me deixa deprimida  minha me. Ela no me entende. Choro muito por causa disso. Comecei a fazer programa para atingir minha me. Quando estou transando com uma mulher e acordo com ela, sinto uma enorme carncia de me. Sou completamente teleguiada pela minha me. No consigo fazer nada sozinha. Ela tem muita autoridade sobre mim. No sei se ela sabe. D muitas indiretas. Meu pai  militar, somos de classe mdia, temos conforto. Tenho tudo, mas no pego dinheiro com eles para nada. (...) Acho que me arrisco muito. Tem homens que so muito agressivos, muito loucos. Me arrisco quando durmo com um desconhecido. Posso ser assassinada. O risco que corro, sinto como um desafio e experincia de vida, amadurecimento. Aos 25 anos, me sinto uma mulher madura."
     
     Sendo as prostitutas as guardis da moral sexual da sociedade, seu verdadeiro crime  revelar a hipocrisia dessa dupla moral. No dicionrio encontramos a seguinte definio: "mulher, que pratica o ato sexual por dinheiro." Ento, quantas mulheres casadas, respeitadas e valorizadas socialmente se prostituem com seus prprios maridos? Quantas moas so educadas para s se casar com homens que lhes possam dar conforto e dinheiro? Quantas mulheres solteiras s aceitam ir para um motel com um homem se antes ele pagar o jantar num restaurante caro?  impossvel calcular, mas nada disso  falado. Tudo se passa por baixo do pano para que a respeitabilidade dessas pessoas seja preservada. A prostituta  desprezada, mas a nica diferena  que seu jogo  claro. Ela no se preocupa em fingir. "Entre as que se vendem pela prostituio e as que se vendem pelo casamento, a nica diferena consiste no preo e na durao do contrato." 32
     Nanda, bonita mulher de 34 anos, nunca trabalhou. Casou com Carlos Augusto quando tinha 23 anos e tiveram dois filhos. Seu padro de vida sempre foi alto. Ele, empresrio bem-sucedido, no se importava com o cio da mulher. Sentia uma grande atrao sexual por ela e ficava feliz em poder mim-la. Nanda fazia ginstica, dana, massagem e comprava tudo o que desejava. Com o tempo, seu desejo sexual pelo marido foi diminuindo, at se tornar um sacrifcio fazer sexo com ele. Passou a evitar, dando desculpas que j no convenciam mais. Carlos Augusto parou de insistir, mas sutilmente foi diminuindo o dinheiro que lhe deixava todos os dias de manh. Quando Nanda alegava que precisava comprar alguma coisa ou pagar uma conta, ele carinhosamente lhe dizia para ter pacincia porque os negcios estavam numa fase difcil. A situao chegou ao ponto de ela ficar praticamente sem dinheiro algum, apenas a conta certa do supermercado e das despesas das crianas.
     Numa tarde em que estava reunida com os amigos, Nanda, desesperada, desabafou:
     
"No transo com ele h dois meses, no consigo.  um: sacrifcio, mas hoje no tem jeito, vou ter que fazer sexo de qualquer maneira. Meu cabelo est horrvel, preciso cort-lo com urgncia."
     
     Essa  uma histria bem antiga. Quando o patriarcado se estabeleceu, a mulher tornou-se um objeto que podia ser comprado, trocado ou repudiado. Instalada a relao opressor/oprimido, a mulher no encontrou outra alternativa. Usou a nica arma que tinha para se defender: seu corpo. Controlando a satisfao das exigncias sexuais masculinas, conseguia obter em troca vantagens, como jias, vestidos, perfumes etc.
  
  
Homossexualidade



O amor grego
     
     Na Grcia clssica (sculo V a.C), principalmente em Creta e Esparta, a homossexualidade era uma instituio, e os gregos no se preocupavam em julg-la. Constitua, assim como o amor pelas mulheres, uma manifestao legtima do desejo amoroso. No consideravam o amor por algum do seu prprio sexo e o amor pelo sexo oposto como dois tipos de comportamento radicalmente diferentes. Se havia elogio ou reprovao, no era  prtica de homossexualidade, mas  conduta dos indivduos. Os termos homossexual e heterossexual eram desconhecidos na lngua grega e para eles todo indivduo podia ter preferncia por rapazes ou moas, dependendo da idade e das circunstncias.
     Muitos documentos  epigramas, textos filosficos, etnogrficos, biografias, discursos em defesa de algum acusado  e inmeras imagens  pinturas sobre vasos e em tmulos  comprovam a realidade e a banalidade dessas relaes amorosas. "O banquete serve freqentemente de moldura s tentativas de seduo dos amantes. Um homem adulto comea a acariciar seu companheiro de leito,? mais jovem; outro, mais ousado, titila com o p o sexo de seu vizinho; um terceiro agarra o membro do jovem que segura sua cabea. As cenas dos ginsios e palestras suscitam mais ainda tais representaes. Em meio aos atletas nus e sempre jovens, homens mais velhos (erastes), reconhecveis pela barba, desempenham o papel de caadores; um acaricia o queixo, as ndegas ou o pnis de um adolescente, o qual, conforme o caso, repele suas tentativas ou, mais freqentemente, deixa que ele o faa. O amado (eromeno) enlaa ento seu sedutor antes de se entregar com este a uma relao sexual mais explcita. Os vasos mostram, em geral, um coito intercrural (entre as coxas) de frente, mas os textos provam que a sodomia era tambm praticada."33
     A palavra pederasta define hoje a atrao sexual de um adulto por um menino imaturo, mas para os gregos significava o amor de um homem por um jovem que j passara pela puberdade, mas no atingira a maturidade. "A florescncia de um menino de 12 anos  desejvel", disse Straton, "mas aos 13  mais deliciosa. Ainda mais doce  a flor do amor que floresce aos 14, e seu encanto aumenta aos 15. Dezesseis  a idade divina." 34
     O estmulo ao contato fsico entre homens deve ter sido incentivado pelo hbito de encontros nos ginsios, onde os jovens de Atenas se dedicavam  luta livre, corrida, saltos e arremesso de discos ou dardos. Inteiramente nus, exceto pelo leo em seus corpos e finos cordis que atavam o prepcio protegendo a extremidade do pnis. "Os prprios jovens poderiam ter sido receptivos o suficiente: a homossexualidade na adolescncia  um fenmeno comum, mesmo em sociedades com abundncia de jovens escravas e prostitutas substituindo as fortemente guardadas filhas de cidados respeitveis. Em sua maioria, as civilizaes tentaram ignor-la ou reprimi-la; somente os gregos e os maias de Yucatan no sculo XV a institucionalizaram com sucesso." 35
     As mulheres eram encaradas como inferiores aos homens de todas as formas: intelectual, fsica e emocionalmente. No casamento, nenhuma regra impedia o homem de ter relaes com rapazes, o que, alm de admitido, era valorizado. O cidado grego casado podia manter uma concubina alm da esposa legtima e freqentar prostitutas. Esse aspecto da sua vida sexual era silencioso, a no ser que houvesse excessos notrios.
     Na realidade, cada homem adulto tinha uma vida sexual dupla: uma vida privada, orientada para as mulheres, discreta e jamais mencionada; e uma vida pblica, orientada para os belos rapazes e objeto de todas as atenes e comentrios. De maneira geral, somente essa vida amorosa confere a seus protagonistas prestgio social e boa reputao.36 Alm disso, os gregos encontram nas relaes homossexuais uma intensidade de trocas pessoais que no ocorre no casamento ou entre pais e filhos. Entretanto, havia uma oposio entre um homem senhor de si e aquele que se entrega aos prazeres. Do ponto de vista moral, o cidado grego deveria ter domnio sobre suas paixes, o que era considerado muito mais importante do que a escolha da forma de prazer. Ter costumes frouxos consistia em no saber resistir nem s mulheres nem aos rapazes.
     Falando sobre o prejuzo de se sujeitar ao domnio do prazer, Plato afirma: "Se ele se apaixona por uma cortes que  para ele somente um novo e suprfluo conhecimento, de que maneira trataria ele  sua me, amiga de longa data e que a natureza lhe deu? E se tem por um belo adolescente um amor recente e suprfluo, como trataria ele seu pai?",37 o que no deixa dvidas quanto  pouca importncia que tem o fato de o objeto de amor ser um homem ou uma mulher. Em algumas cidades gregas, a homossexualidade aparece como uma prtica necessria dos ritos de passagem da juventude cvica, num quadro regido pelas leis, mas se relacionando estreitamente com a masculinidade.
     A efebia  relao homossexual grega bsica  se dava entre um homem mais velho e um mais jovem. O mais velho admirava o mais jovem por suas qualidades masculinas: fora, velocidade, habilidade, resistncia e beleza, e o mais jovem respeitava o mais velho por sua experincia, sabedoria e comando. O efebo  rapaz que atingiu a puberdade  era entregue a um tutor, que o transformaria num cidado grego. O tutor deveria treinar, educar e proteger o efebo. Ambos desenvolviam uma paixo mtua, mas deveriam saber dominar essa paixo. Aprender a controlar as prprias paixes, na verdade, era a base desse sistema de efebia. Havia sexualidade, mas o tutor impunha ao jovem a desiluso de uma paixo que no podia se realizar. Quando crescia, tendo ento se tornado um cidado grego, deixava de ser o amante-pupilo e tornava-se amigo do tutor; casava-se, tinha filhos e buscava seus prprios efebos.
     Esse sistema de preparao para a vida adulta do homem grego poderia parecer para alguns um relacionamento afetivo entre tutor e discpulo, sem contato sexual, mas Plato concedeu que havia uma certa dose de nebulosa emoo envolvida e escreveu sobre as preces e splicas com que os enamorados sustinham seus pedidos, dos "juramentos trocados, das noites passadas  soleira do bem-amado e da escravido suportada por causa disso".38
     Aristfanes faz uma pilhria a respeito da pederastia, to valorizada na sociedade grega. Em Os pssaros, um de seus personagens se queixa a outro: "Bem, este  um belo estado de coisas, maldito facnora! Voc encontra meu filho assim que ele sai do ginsio, todo fresco do banho, mas no o beija, no lhe diz uma palavra, no o acaricia, no apalpa seus testculos! No entanto, ns o julgamos nosso amigo!"39
     A sociedade grega, porm, reprovava energicamente relaes sexuais entre homens da mesma idade. Isso era considerado antinatural, pois significava que um dos homens adotava a posio passiva, traindo assim a masculinidade, que exigia dele o papel ativo. Enquanto um homem tivesse como parceiros uma mulher (naturalmente inferior), um escravo (no-livre) ou um jovem (um homem ainda no completamente desenvolvido), seu papel seria ativo e, portanto, sua masculinidade estaria preservada.40
     A sociedade grega  marcada pela dominao dos homens livres capazes de ditar as prprias regras do seu mundo. So os senhores das mulheres, das crianas e dos escravos. Demstenes faz uma formulao famosa: as cortess ns as temos para o prazer, as concubinas para os cuidados de todo dia, as esposas para ter uma descendncia legtima e uma fiel guardi do lar.
     Aparentemente, no h preocupao moral com o comportamento do homem, desde que faa com moderao o que mais gosta para nunca cair escravo de suas paixes, e as paixes homossexuais parecem ter sido muitas.

O amor entre as mulheres na Grcia
     
     Lesbos  uma ilha grega ao norte do mar Egeu. L, no sculo VII a.C, viveu a poetisa Safo. Seus poemas so ardentes, sensuais e dirigidos s mulheres, fato sempre destacado na sua obra. As mulheres homossexuais so chamadas de lsbicas em referncia ao lugar onde ela nasceu.
     Safo, a lsbica, era objeto de gracejos obscenos e julgamentos moralistas. Um papiro escrito por autor annimo dizia: "Ela foi criticada por alguns como desregrada e apaixonada pelas mulheres." 41
     Os amores de Safo foram ridicularizados pelos poetas cmicos de Atenas, mas como a vida das mulheres gregas no  muito conhecida, no se tem quase informao a respeito da homossexualidade feminina nessa poca. Sabe-se, entretanto, que as jovens s quais ela dirige suas palavras ardentes so ainda meninas e, quando elas a abandonam para se casar, Safo lhes dedica adeuses comovedores:
     
 noiva, teu corpo  cheio de graa e teus olhos cheios de mel/ O amor est espalhado sobre teu rosto sedutor/ E por certo Afrodite distinguiu-te entre todas as mulheres.42
     
     Os poemas expressam seu desejo pelas alunas, o cime que a atormenta e testemunha a vida amorosa que levavam. Os versos dirigidos a Agallis, que, como as outras, a deixou para casar, eram dolorosos:
     
Parece-me igual aos deuses este homem que, sentado frente a ti, bem de perto ouve tua voz to doce./ E este riso encantador que, eu juro, fez fundir meu corao dentro do meu peito; pois mal te vejo um instante, no me  mais possvel articular uma palavra./ Mas minha lngua emudece e sob minha pele de repente desliza um fogo sutil; meus olhos no tm olhar, minhas orelhas zumbem./ O suor escorre por meu corpo, um calafrio me toma por inteira, fico mais verde que a relva e por muito pouco no sinto chegar minha morte.43
       
     Mas Safo amou tambm os homens, ambigidade caracterstica do meio aristocrtico ao qual pertencia. Da mesma forma sensual que amava as mulheres, lhe foi atribuda uma paixo ardente por um homem chamado Fon que, segundo o poeta Meandro (sculo IV a.C), ela teria "perseguido com um amor furioso". No sendo correspondida no seu amor, Safo teria se lanado ao mar do alto de uma rocha, suicidando-se. Embora denegrida por alguns por seus amores, foi glorificada por seu talento. Desde a Antigidade, foi chamada de a "dcima Musa". Mesmo assim, seu nome ser sempre ligado aos amores que ela cantou,  homossexualidade.44

A homossexualidade na Idade Mdia
     
     Na Grcia e no Imprio Romano, no havia a classificao das pessoas entre heterossexuais e homossexuais. Os papis masculinos e femininos eram bem definidos socialmente e o fundamental era a manuteno desses papis, independentemente do parceiro amoroso ser homem ou mulher.
     Com o cristianismo, houve uma mudana radical, e na Idade Mdia havia uma oposio clara  homossexualidade. O judasmo, que foi a matriz do cristianismo, declarou a homossexualidade uma abominao passvel de pena de morte e a incluiu na mesma categoria que o incesto, a bestialidade e o adultrio. Para o cristianismo, o sexo foi dado ao homem unicamente para a reproduo e qualquer atividade que no levasse  procriao seria um pecado contra a natureza.
     O termo homossexual era desconhecido na Idade Mdia. O termo usado era sodomia e, embora utilizado para descrever as relaes anais masculinas, tambm era aplicado  masturbao ou a qualquer prtica sexual que no levasse  procriao.
     Richards, num estudo sobre as minorias da Idade Mdia, nos fala sobre a homossexualidade naquela poca.45
     O imperador bizantino Justiniano (527-565) imps a pena de morte para atos homossexuais. Ele acreditava que essa violao da natureza provocava retaliao da mesma. "Por causa desses crimes, ocorrem fomes coletivas, terremotos e pestes."
     Num perodo posterior (sculo XIV), esse refro foi retomado por pregadores populares e telogos, quando ocorreu uma sucesso de calamidades:
     
"Por causa deste pecado detestvel, o mundo foi uma vez destrudo por um dilvio universal, e as cinco cidades de Sodoma e Gomorra foram queimadas pelo fogo celestial, de modo que seus habitantes desceram vivos ao inferno. Igualmente por causa desse pecado  que suscita a vingana divina , fomes coletivas, guerras, pestes, enchentes, traies de reinos e muitas outras calamidades acontecem com mais freqncia, como atesta a Sagrada Escritura." 46
     
     Nos guias para confessores, chamados penitenciais, as penitncias da Igreja para a homossexualidade variavam em funo da idade, do status e do sexo do pecador e dependiam tambm se fosse leigo ou eclesistico.
     Uma das mais influentes dessas obras foi o Decretum de Burchard de Worms, no qual Buchard tentou se manter o mais prximo possvel da moral comum. Ele equiparou a sodomia  bestialidade. Declarava que, se o ato tivesse sido cometido uma ou duas vezes, e se o penitente fosse solteiro, sendo a desculpa "que no tens esposa para poderes despender tua lascvia", a penitncia era de sete anos de jejum e abstinncia. Se o penitente fosse casado, a penitncia era de dez anos; se a ofensa fosse habitual, 15 anos. Se o pecador fosse um jovem, a penitncia era de 100 dias a po e gua. Havia uma distino entre sodomia heterossexual (trs anos para adultos, dois anos para jovens) e sodomia homossexual (dez anos na primeira ofensa, 12 anos se habitual). A masturbao mtua implicava uma penitncia de 30 dias, e o intercurso interfemoral (sexo nas coxas) uma de 40, a mesma penitncia imposta por induzir algum a uma bebedeira ou por fazer sexo com a esposa durante a quaresma.
     Apesar de toda a punio, o clero foi acusado de praticar a homossexualidade. Havia muito mexerico sobre o que acontecia nos mosteiros. As autoridades temiam o contato sexual entre os monges e desencorajavam as relaes de amizade mais ntimas entre eles. Regulamentos foram criados para reduzir os perigos de encontros noturnos. A regra do mestre, por exemplo, continha uma clusula em que todos os monges deveriam dormir na mesma pea, com a cama do abade no centro, e a regra de So Bento prescrevia que os monges deveriam dormir vestidos, com a luz do dormitrio acesa a noite toda.
     So Pedro Damio, no sculo XI, via como hediondo o pecado da homossexualidade e enumerou quatro variaes: masturbao, masturbao recproca, relao interfemoral e relao anal. Condenava especificamente os padres que, aps as praticas homossexuais, se confessavam uns aos outros, de modo a receber penas mnimas. Ele tentava impedir os pecadores homossexuais de algum dia tornarem-se padres e exigia a exonerao indiscriminada dos pecadores do clero. Para ele, havia uma vinculao direta entre a homossexualidade, a heresia, a lepra e o Diabo. A homossexualidade, no tinha dvidas, era um impulso demonaco.
     O papa Leo IX, para quem o livro que Pedro Damio escreveu era dedicado,  menos rigoroso. Declara que aqueles culpados de masturbao  solitria ou mtua , ou de intercurso interfemoral, se no fossem habituais e se conseguissem refrear seus desejos e, alm disso, cumprissem as penitncias apropriadas, poderiam ser admitidos nas fileiras eclesisticas. Agora, os que fossem culpados de coito anal, jamais seriam readmitidos.
     No final do sculo XII, Alain de Lille, em seu Liber poenitentiatis, definiu o pecado contra a natureza como o despender do smen fora do recipiente apropriado, e proscreveu a masturbao, a relao oral ou anal e a bestialidade, o estupro e o adultrio como includos nessa categoria. Seus sermes sobre pecados capitais classificam sodomia e homicdio como os dois crimes mais srios.
     Outro telogo, Guilherme de Auvergne, declarou no sculo XIII que a homossexualidade levava  lepra e  insanidade e que seus praticantes eram culpados de homicdio (desperdiando seu smen improdutivamente) e de sodomia (depositando seu smen em recipiente imprprio). Caesamis de Heiterbach acrescentou outras advertncias sobre os perigos de desperdiar o smen. Afirmou que os demnios colhiam sistematicamente o smen humano desperdiado para mold-lo na forma de corpos masculinos e femininos e os usavam nas aparies que faziam para atormentar e perseguir a humanidade.
     Nos sculos XII e XIII, desenvolveu-se uma poltica rigorosa para lidar com o homossexualismo. O Concilio de Nablus em 1120 estabeleceu que o adulto sodomita do sexo masculino seria queimado pelas autoridades civis.
     O rei Eduardo I da Inglaterra e o rei Lus IX da Frana tambm decretaram a morte pelo fogo para os homossexuais, e Afonso X de Castela determinou que os homossexuais deviam ser castrados e pendurados pelas pernas at a morte.
     Assim, os homossexuais foram colocados no mesmo nvel dos assassinos, hereges e traidores.
     A partir do sculo XIV, a homossexualidade tornou-se uma parte cada vez mais importante das acusaes de bruxaria. Havia uma pregao constante contra a sodomia. O mais notvel dos pregadores foi So Bernardino de Siena. Franciscano, incentivado pelo governo, pregava para imensas multides, esbravejando contra a prtica da homossexualidade. Ele responsabilizava a indulgncia dos pais, as modas provocativas, a negligncia com a confisso e a comunho, e os estudos clssicos, os quais exaltavam o erotismo, o paganismo e a pederastia, Para ele, os sodomitas deveriam ser afastados da sociedade: "Assim como o lixo  retirado das casas, de modo que no as infecte, os depravados devem ser afastados do comrcio humano pela priso ou peta morte. O pecado tem que ser destrudo pelo fogo e extirpado da sociedade. Ao fogo!", esbravejava So Bernardino em sua assemblia.47
     Os processos de sodomia em Veneza no sculo XV se multiplicavam. Foi decretado que qualquer um que cometesse a sodomia numa embarcao veneziana seria punido como se tivesse cometido a ofensa em territrio veneziano. Foi realizado um censo da sodomia, com dois nobres de cada parquia destacados para passar o ano investigando suas vizinhanas. As autoridades, temendo as atividades homossexuais, determinaram que nenhum mestre estava autorizado a dar aulas depois do pr-do-sol para que o vcio abominvel fosse eliminado.

A homossexualidade a partir do sculo XVIII
     
     Na Idade Mdia a atividade homossexual era considerada crime e nunca pde ser exercida sem punio. A condenao dessas prticas evoluiu da simples penitncia  morte na fogueira, o que se estendeu at o sculo XVIII.
     P. Aris destacava uma notcia do Journal de Barbier, datado de 6 de julho de 1750: "Hoje foram publicamente queimados na Place de Greve, s cinco horas da tarde, dois operrios, a saber: um rapaz marceneiro e um salsicheiro, com 18 e 25 anos, que a patrulha encontrou em flagrante delito de sodomia. A opinio  que os juzes tiveram a mo um pouco pesada. Pelo visto, correu um pouco de vinho em excesso que levou a afronta a esse ponto." 48
     O Cdigo Napoleo, retomando o cdigo revolucionrio, mostra-se muito mais tolerante; no mais condena a sodomia em si. Visa somente a proteo dos menores e ignora a homossexualidade dos adultos. J no sculo XVIII, o vocabulrio muda: o termo sodomia  gradativamente substitudo por pederastia. O crime se banaliza, tornando-se simples delito, desde que no envolva violncia.
     Voltaire insiste na idia de que se trata de um mal-entendido: "Os jovens machos de nossa espcie, educados juntos, sentindo essa fora que a natureza comea a manifestar neles e, no encontrando o objeto dos seus instintos, lanam-se sobre aquele que lhes  semelhante." 49
     Antes da Revoluo Francesa, a sodomia era proibida por motivos religiosos, mas no havia clareza no conceito desse termo. O Tratado de sodomia do padre L. M. Sinistrati d'Ameno, em meados do sculo XVIII, faz diferenciaes sutis e curiosas. Para ele, a sodomia se define como a relao carnal entre dois machos ou duas fmeas, entretanto, para que haja crime,  necessrio haver coito, introduo do pnis no nus, o que a diferencia da masturbao mtua. "O pecado existe quando nos enganamos de vaso e a introduo do membro viril no vaso posterior acontece com regularidade." Seria preciso tambm que houvesse descarga de smen no interior do nus. Nesse caso, seria a "sodomia perfeita" e os pecadores s podiam ser absolvidos pelo papa ou pelos bispos. No caso de um homem ejacular no nus de uma mulher, a sodomia era "imperfeita", e um simples confessor podia absolv-lo.50
     No comeo do sculo XIX, o discurso sobre a homossexualidade oscila entre duas hipteses: para os conservadores,  uma perversidade que  preciso condenar; para os liberais,  uma doena que se deve compreender e tratar. No final do sculo, surgem novas concepes sobre a homossexualidade, que passa a caracterizar uma espcie em particular. O mdico hngaro Benkert cria, em 1869, o termo "homossexualidade", ao mesmo tempo em que pede ao ministro da Justia a abolio da velha lei prussiana dessa prtica.51 A palavra homossexual vem do grego homo e significa "o mesmo", designando aqueles que sentem atrao pelo mesmo sexo. A inveno de novas palavras, como "homossexual" e "invertido", altera a idia que se tinha dessas pessoas, que passam a ser vistas como doentes.
     A homossexualidade foi incorporada ao campo da medicina, mas continuou vulnervel a julgamentos morais. O homossexual era considerado uma ameaa  nao e  famlia, e um traidor do ideal masculino da nossa cultura. Falava-se tambm das conseqncias da reduo da natalidade.
     Desde o incio do sculo XX, inmeras teorias foram criadas para explicar o homossexualismo e suas causas: corrupo ou degenerao, carter inato ou trauma de infncia... O fato  que as prticas homossexuais sempre existiram, em todos os lugares. "At que a sexologia lhes colocasse um rtulo, a homossexualidade era apenas uma parte difusa do sentimento de identidade. A identidade homossexual tal como a conhecemos , portanto, uma produo da classificao social, cujo principal objetivo era a regulao e o controle. Nomear era aprisionar." 52
     No sculo XX, o homossexual continuou aprisionado. Hoje, ainda  visto por muitos como perigoso ou sem-vergonha e, na melhor das hipteses, como doente e desviante. "Duas razes podem explicar essas atitudes discriminatrias. A primeira deve-se  nossa ignorncia: depois de 150 anos de estudos e polmicas, ainda no sabemos definir com preciso esse comportamento fluido e multiforme, cuja origem no se conhece claramente. A multiplicidade de explicaes reforou o mistrio e, portanto, a estranheza. A outra razo  de ordem ideolgica. Uma vez que nossa concepo de masculinidade  heterossexual, a homossexualidade desempenha o til papel de contraste, e sua imagem negativa refora ao contrrio o aspecto positivo e desejvel da heterossexualidade." 53

As causas da homossexualidade
     
     No  somente o Homo sapiens que pratica a homossexualidade. Esta  bastante comum na natureza, onde se pode observar em muitos mamferos um macho tentando cobrir outro macho, enquanto este ltimo adota a atitude copulatria prpria do sexo feminino.  observado tambm nos helpers dos pssaros, que ajudam o casal a alimentar os filhotes, mas no participam diretamente da reproduo.54 As gatas alojadas separadas dos machos exibem todos os padres de comportamento homossexual. As gaivotas fmeas, s vezes, se acasalam entre si. Os gorilas machos andam em bando exibindo homossexualidade. As fmeas dos chimpanzs pigmeus tm relaes homossexuais regulares. At certos peixes machos ocasionalmente agem como fmea, assim como os patos selvagens e outras aves.55 "Na verdade, a homossexualidade  to comum em outras espcies  e ocorre em circunstncias to variadas  que a homossexualidade humana chega a ser notvel, no por sua prevalncia, mas por sua raridade." 56
     Sabe-se muito pouco sobre as causas da homossexualidade, seja ela o amor entre dois homens ou entre duas mulheres, mas as estatsticas revelam que 5 a 10% da populao do mundo ocidental tem alguma prtica homossexual sistemtica.
     Na discusso sobre as causas da homossexualidade h os que percebem as semelhanas entre homossexuais e heterossexuais e insistem na universalidade da pulso homossexual, isto , todos seramos bissexuais, e h os que ressaltam as diferenas e a especificidade homossexual.57
     O socilogo Frederick Whitam foi um dos pesquisadores que estudaram a homossexualidade a partir de uma perspectiva transcultural e, como os outros, constatou certo nmero de dados que no variavam. Ele trabalhou em vrias comunidades homossexuais de pases to diferentes como os Estados Unidos, a Guatemala, o Brasil e as Filipinas e chegou a seis concluses:58
     
1.  	Homossexuais existem em todas as sociedades.

2.  	A porcentagem de homossexuais parece ser a mesma em todas as sociedades e mantm-se estvel no tempo.
3.  	As normas sociais no impedem nem facilitam a emergncia da orientao homossexual.

4.  	Subculturas homossexuais aparecem em todas as sociedades que tm uma populao suficientemente grande.

5.  	O comportamento e os interesses dos homossexuais das diferentes sociedades tendem a ser parecidos.

6.  	Todas as sociedades apresentam um continuam similar de homossexuais masculinos e femininos.
     
     "Tudo isso faz pensar que a homossexualidade no foi criada por uma forma particular de organizao social, mas seria antes uma forma fundamental de sexualidade, que se exprime em todas as culturas." 59
     So vrias as hipteses da origem da homossexualidade. Para Freud, o ser humano  biologicamente bissexual. Todos nasceramos com um impulso sexual dirigido tanto para pessoas do sexo oposto como para as do mesmo sexo. A orientao sexual  homo ou hetero  seria determinada na infncia. A homossexualidade seria uma variao da funo sexual provocada por certa interrupo do desenvolvimento sexual. A forma como  vivida a relao amorosa da criana com a me, na fase em que ocorre o complexo de dipo, determina se a direo heterossexual ficar bloqueada ou a homossexual estimulada.
     O Relatrio Kinsey publicado em 1948 contribuiu para a tese da bissexualidade humana. Nele  apresentado o continuum hetero-homossexual e a fluidez dos desejos sexuais. Numa escala de zero a seis, a tendncia heterossexual e homossexual existiria na maioria das pessoas. A inclinao heterossexual exclusiva teria o grau zero, variando at a inclinao homossexual exclusiva no grau seis da escala. Cada grau intermedirio corresponde a uma proporo mais ou menos forte de inclinao homossexual ou heterossexual. Foram pesquisados por Kinsey e seus colaboradores 16 mil americanos, e os resultados mostraram que, embora apenas 4% da populao masculina fosse exclusivamente homossexual desde a puberdade, 37% dos homens e 19% das mulheres tiveram, entre a puberdade e a idade adulta, pelo menos uma experincia homossexual culminando em orgasmo. Pouco tempo depois, Masters e Johnson confirmaram em suas pesquisas as teses de Kinsey.
     O novo Relatrio Kinsey, com pesquisas realizadas nos anos 1969-70 com homossexuais da cidade de So Francisco (EUA), reforou os resultados do relatrio de 1948, mas insistiu especialmente na diversidade das homossexualidades.
     Shere Hite, numa pesquisa mais recente, com sete mil americanos, confirma os trabalhos anteriores. Inmeros rapazes (mais de 40%), que em sua maioria se tornaram homens heterossexuais, tiveram relaes sexuais com outros rapazes quando eram meninos ou adolescentes, e muitos homossexuais no tiveram.60
     Outros autores no aceitam a idia de uma homossexualidade universal. Para Robert Stoller, "a homossexualidade no  uma doena.  uma preferncia sexual e no um conjunto de sinais e sintomas uniformes; mas s pertence aos homossexuais, que so diferentes dos outros e formam, portanto, uma minoria. (...) mas  inexato confundi-los com os heterossexuais".61
     R. Friedman tem a mesma opinio de Stoller e tentou provar que "a maioria dos homens heterossexuais no tem predisposio para a homossexualidade inconsciente e, inversamente, a maioria dos homens homossexuais exclusivos no tem predisposio para uma heterossexualidade inconsciente... O que existe  uma minoria de homens bissexuais forados a reprimir, seja suas fantasias homossexuais, seja suas fantasias heterossexuais".62
     Partindo da idia de que a homossexualidade  uma caracterstica prpria de alguns e no de outros, foram consideradas as hipteses de anomalia endcrina, anomalia gentica ou fatores fsicos.
     Atualmente, a maioria dos pesquisadores inclina-se pela hiptese de uma influncia endcrina pr-natal sobre a orientao sexual. Se existe uma orientao hormonal do comportamento, seria produzida na vida embrionria, quando os hormnios sexuais sexualizam o sistema nervoso em todos os nveis.63 A homossexualidade estaria associada, em parte, a alteraes no crebro fetal. Algumas semanas depois da concepo, os hormnios fetais comeam a esculpir os genitais masculinos e femininos, e supe-se que esses hormnios podem tambm compor o crebro fetal masculino e feminino. A forma como  dado esse banho hormonal determina a orientao sexual da pessoa durante sua vida.64
     "Sempre fui e serei gay. Nasci assim." Esta declarao foi dada recentemente aos jornais pelo americano Dirk Shaffer, que ironicamente foi eleito em 1992 o Homem do Ano da revista feminina Playgirl. Ao longo desse perodo, Shaffer apareceu em revistas e talk-shows dos Estados Unidos como o smbolo do macho da Amrica e o homem mais desejado pelas mulheres. Usando uma amiga como falsa namorada e, quando necessrio, escondendo o namorado dentro do banheiro, ele fingiu ser heterossexual durante um ano at acabar seu contrato com a revista. Perguntado se, quando as mulheres se jogavam a seus ps, em algum momento desejou ser heterossexual e pegar logo uma mulher daquelas e no precisar mais fingir nada, Shaffer respondeu: "Vrias vezes. Mais de uma vez eu quis gostar de mulher e ser hetero, o chamado normal. Mas sempre fui e serei gay. Nasci assim. Acredito que isso no  uma escolha. A pessoa nasce gay, como nasce de olhos castanhos ou azuis." 65
     Alguns dias depois, o Jornal do Brasil publica uma entrevista com Chandler Burr, jornalista especializado na rea cientfica, que acabara de lanar, nos Estados Unidos, A separate creation  The search for biolgica/ origins of sexual orientation, em que cita vrios estudos em andamento para defender a tese de que a homossexualidade  determinada biologicamente desde a fecundao. Transcrevo a seguir alguns trechos da entrevista dada ao jornalista Renato Aizenman:66
     
      Qual  a principal concluso de seu livro?
      A principal concluso  a de que a orientao sexual humana, tanto no caso da homossexualidade como no da heterossexualidade,  determinada geneticamente antes mesmo do nascimento. Trata-se de uma determinao exclusivamente biolgica e no h fator social que possa cri-la ou mud-la. A homossexualidade  imutvel.
      Pode-se dizer, ento, que todo gay j nasce gay?
      Sim, com certeza, e isso se aplica tanto aos homens quanto s mulheres.
      Que tipo de pesquisas cientficas foram utilizadas para embasar seu livro?
      H duas vertentes de pesquisas sobre o assunto. Uma  a pesquisa clnica, na qual se estuda o aspecto exterior das pessoas. Ela procura responder  pergunta "O que  a homossexualidade?". Outra  a pesquisa gentica, que se detm no interior dos cromossomos e quer responder  pergunta "O que causa a homossexualidade?". Ambas apontam atualmente para a concluso de que a homossexualidade  uma caracterstica gentica minoritria entre os humanos, e que  transmitida atravs das geraes de uma mesma famlia. Todas as pesquisas indicam que se pode comparar os gays aos canhotos. Algumas pessoas simplesmente nascem canhotas e no h nada que se possa fazer a respeito. Estas duas caractersticas genticas tm, inclusive, uma incidncia bastante parecida na humanidade.
      Sabe-se que a obrigao de escrever com a mo direita  prejudicial ao desenvolvimento dos canhotos e pode, inclusive, gerar um comportamento agressivo da parte deles, O mesmo acontece com os homossexuais?
      Sim. Voc pode forar um canhoto a escrever com a direita, assim como pode forar um gay a ter relaes com o sexo oposto. Mas em ambos os casos estar impelindo essa pessoa a agir contra a sua natureza. Isso causar nela uma profunda dor e angstia, que podem gerar distrbios mentais.
      Como  a aceitao da teoria do gene gay dentro da comunidade cientfica?
      Todos os cientistas hoje aceitam o fato de que a homossexualidade  uma caracterstica de nascena e concordam que a metodologia usada nas pesquisas de busca do gene gay  bastante eficiente. Mas ainda precisamos saber qual  exatamente esse gene e como a protena especfica que ele produz atua nas molculas.
      Em que poca da vida de uma pessoa o gene gay comea a se manifestar?
      Muito cedo. Eu, por exemplo, soube que era gay quando tinha 6 anos de idade. No sabia o que era homossexualidade, mas sabia que era diferente dos outros garotos. O mesmo acontece com a maioria dos homens e mulheres gays.
      A existncia do gene gay botaria abaixo todas as teorias psicanalticas at agora aceitas a respeito da homossexualidade?
      As explicaes psicanalticas para a homossexualidade, desde Freud at hoje, so completamente ridculas. Muitos pais, quando percebem um comportamento sexualmente inverso em seus filhos, levam-nos correndo ao psicanalista. Isso  intil.
      A existncia do gene gay pode ajudar homossexuais no relacionamento com o mundo hetero?
      O fato de a homossexualidade ser decorrncia de uma imposio gentica mostra a nossos pais, amigos e colegas que somos pessoas completamente normais, saudveis, felizes e boas. Apenas a natureza quis que nossa orientao sexual fosse diferente da maioria.
      Um filho gay pode ento alegar aos pais que, se ele  homossexual, herdou essa caracterstica da prpria famlia?
      A orientao sexual  transmitida atravs das geraes do mesmo modo que os olhos azuis. Se uma famlia tem ou teve algum gay entre seus membros, as estatsticas mostram que  provvel que existam ou apaream outros. No caso do gene gay, est provado que ele  herdado sempre da me. O que no quer dizer que mes de filhos gays devam comear a se sentir culpadas por isso. Pelo contrrio, a existncia do gene gay prova que no h culpa de parte alguma.  apenas a natureza agindo.

O movimento gay
      
     O tabu sobre a homossexualidade perdurou at a metade do sculo XX. Os anticoncepcionais surgidos na dcada de 1960 permitiram a dissociao entre o ato sexual e a reproduo, revolucionando os valores e as normas relativos  sexualidade. A homossexualidade, representante mxima dessa dissociao, em que  possvel atingir um alto nvel de prazer sem a menor possibilidade de reproduo, foi beneficiada socialmente. Os homossexuais puderam, ento, sair da clandestinidade e afirmar sua normalidade especfica, e assim a prtica homossexual se aproximou da heterossexual.67 Isso no significa que no existam mais preconceitos, apenas que essa prtica  mais aceita, Uma pesquisa americana de 1957 revela a reprovao quase unnime da homossexualidade, ao passo que, em 1976, apenas um tero dos entrevistados manifesta uma condenao irrestrita.68
     O Relatrio Kinsey de 1948 mostrou que apenas a metade de todos os homens americanos eram exclusivamente heterossexuais, isto , no participaram de atividades homossexuais nem sentiram desejos por pessoas do mesmo sexo. Na poca, essa publicao escandalizou muita gente, j que a homossexualidade era considerada uma patologia, um distrbio psicossocial.
     Embora a homossexualidade seja, at hoje, considerada por muitos heterossexuais como uma perverso, um comportamento antinatural e passvel de condenao moral, a averso que provoca no recebe mais apoio substancial da profisso mdica.69 Em 1973, a Associao Mdica Americana retirou-o da categoria de doena e, hoje, o prprio termo perverso desapareceu quase completamente da psiquiatria clnica.
     Nos ltimos 35 anos, ao mesmo tempo em que o movimento feminista reconsiderava as identidades e os papis sexuais, a homossexualidade era afetada por mudanas to profundas quanto aquelas que influenciaram a conduta heterossexual.
     O primeiro passo foi dado por alguns homossexuais que saram da clandestinidade e se autodenominaram gays. Isso designar uma cultura especfica e positiva. "Gay,  claro, sugere colorido, abertura e legitimidade, um grito muito diferente da imagem da homossexualidade antes sustentada por muitos homossexuais praticantes e tambm pela maioria dos indivduos heterossexuais." 70
     Nasce, assim, o Movimento Gay, disposto a mostrar que a heterossexualidade no  a nica forma de sexualidade normal, questionando determinados aspectos das instituies masculinas e o privilgio dos machos, e, dessa forma, contribuindo bastante para a reflexo feminista.71 Nos Estados Unidos e em algumas cidades da Europa, as leis e atitudes face  homossexualidade so reavaliadas devido  crescente fora desse movimento e s atitudes mais liberais quanto  sexualidade em geral.
     Surgem os gay's studies, um conjunto de trabalhos sobre a homossexualidade, sua histria, sua natureza e sua sociologia. Na dcada de 1970, em vrias partes do mundo assistiu-se ao surgimento de uma nova minoria que reivindicava sua legitimidade. Tendo cultura e estilo de vida prprio, ao se tornar visvel, causou impacto sobre toda a sociedade.72 "Uma verdadeira comunidade gay no se limita aos bares, clubes, saunas, restaurantes (...) nem a uma rede de amizades.  antes um conjunto de instituies, incluindo clubes sociais e polticos, publicaes, livrarias, grupos religiosos, centros comunitrios, estaes de rdio, grupos de teatro etc, que representam, ao mesmo tempo, um senso de valores compartilhados e uma vontade de afirmar sua homossexualidade como parte importante de sua vida e no mais como algo privado e escondido." 73
     A sexualidade torna-se mais livre; ao mesmo tempo que gay  algo que se pode "ser" e "descobrir-se ser".74 O novo Relatrio Kinsey publicado em 1990 descreve o caso de um homem de 65 anos, que ficou vivo depois de 45 anos de um casamento feliz. Um ano aps a morte da esposa, ele se apaixonou por um homem.
     Segundo seu relato, jamais havia sentido atrao por outro homem ou fantasiado sobre atos homossexuais. Ele no esconde sua orientao sexual do momento e s se preocupa com o que vai dizer para os filhos. Para outros, contar para os filhos que  homossexual pode no representar grandes dificuldades.
     Valentim casou-se com 18 anos com a primeira namorada quando ela ficou grvida, no incio da dcada de 1960. Nunca tivera experincia sexual com outra mulher, mas desde a adolescncia sentia-se atrado por homens. Tiveram trs filhas e formavam uma famlia considerada perfeita. Durante muitos anos, Valentim saa  tarde do trabalho para ter encontros homossexuais em saunas. Essa vida dupla durou at completar 20 anos de casamento. Disposto a no mais buscar seu prazer escondido e j estando as filhas quase adultas, props  mulher que se separassem. Comunicou ento a toda a famlia  orgulhando-se de ser autntico  sua homossexualidade, aproveitando a ocasio para marcar a data para apresentar seu novo parceiro.
     A confiana que os gays passaram a sentir em si prprios e a maior aceitao da prpria sexualidade foram benficas, mas o reconhecimento da condio de minoria trouxe desvantagens. Num primeiro momento, os homossexuais reivindicaram o direito  diferena  etapa necessria de reconhecimento pela maioria , mas isso despertou a questo do carter inato da homossexualidade e, com ela, a idia de que o homossexual  uma espcie  parte, acarretando o que eles menos desejavam: sua excluso da sociedade. A nfase na idia de minoria dificultou a viso de que a homossexualidade, explcita ou recalcada,  um aspecto da sexualidade de cada um.75
     Nos anos 80, houve uma modificao na teoria e ttica do Movimento Gay, ao perceber o perigo de persistir num caminho que levava ao estigma e ao gueto. Ampliou-se o conceito de homossexualidade que antes se restringia  identidade sexual. Preocupou-se em mostrar que os homossexuais so homens como os outros e, mesmo que haja uma recusa aos papis sexuais tradicionais, a sexualidade no determina o gnero  masculino ou feminino.76 J. Katz sugere que se acabe com a prpria diviso entre homo e hetero. Concordando com o continuum de Kinsey e alegando a freqncia do coito anal entre os heterossexuais, ele no v necessidade de manter o dualismo das atividades sexuais. "Os homossexuais no mais reclamam o direito  diferena, mas o direito  indiferena. Anseiam ser olhados como seres humanos e como cidados entre outros, sem handicaps nem privilgios particulares. Mas o drama da minoria homossexual  que seu destino depende do olhar que a maioria heterossexual pouse sobre ela."77
     Em 26 de junho de 1983, ocorreu uma manifestao em Nova York para mobilizar a opinio pblica contra a Aids. Desfilaram policiais entre uma orquestra gay e vrios escrives acenando fotos de Roland Barthes, Jean Cocteau e Andr Gide. A reao dos moralistas no demorou a chegar. Patrick J. Buchanan, ex-redator dos discursos do presidente Nixon, pronunciou-se: "Os homossexuais declararam guerra  natureza. A natureza se vinga (...). A revoluo sexual comea a devorar seus filhos." 78
     Os machos heterossexuais que perseguem o ideal masculino da nossa cultura e so, portanto, prisioneiros da ideologia patriarcal, utilizam-se dos homossexuais como contraste psicolgico para a afirmao de sua masculinidade. Ento, "o destino dos homossexuais, tanto quanto o das mulheres, est na dependncia direta da morte do patriarcado".79

A difcil deciso
     
     O momento decisivo da vida de um homossexual parece ser o coming out, isto , o primeiro ato sexual. Uma pesquisa americana revela que 36% dos homossexuais passaram por ele aos 24 anos ou mais.  "Isso significa que pode levar anos. Chega o momento de conciliar a socializao anterior (sobretudo pelo casamento) e o habitus homossexual." 80 Quanto mais tardio  o coming out, maior  o impacto sobre a personalidade do indivduo. As tentativas de suicdio so, nesses casos, duas vezes mais freqentes do que na populao da mesma faixa etria. Numa pesquisa alem, 35% dos entrevistados declararam que, naquele momento crucial, tiveram vontade de se "tratar". Entretanto, uma vez dobrado o cabo do coming out, o ndice de suicdios entre a populao homossexual seria extremamente baixo.81
     Um homem homossexual  aquele que tem como objeto de amor e desejo outro homem, mas isso no significa que ele se sinta mulher ou deseje ser mulher. A orientao afetivo-sexual  algo que est dentro da pessoa e no depende, ao contrrio do que muitos pensam, de uma escolha pessoal. "Ningum faz opo por um modo de vida que sabe ser discriminado." 82 A escolha  se a pessoa vai esconder ou exteriorizar sua orientao sexual.
     Uma pessoa  homossexual mesmo que nunca tenha tido contato sexual com algum do mesmo sexo. Muitas vezes, o desejo homossexual existe no inconsciente, mas a pessoa no sabe disso porque o desejo est reprimido. Em outros casos, o homossexual percebe sua atrao pelo mesmo sexo e reconhece que essa atrao sempre existiu. Pode acontecer de a presso social ser to forte que ele renuncie  realizao dos seus desejos e passe toda a vida insatisfeito e mesmo em desespero.
     Geraldo, de 55 anos, no suportava mais o desnimo e a falta de vontade de viver. Deprimido, falava lentamente, com o olhar perdido. Desde jovem, percebia sentir desejo sexual por outros homens, mas isso o horrorizava. Casou-se com 25 anos sem nunca ter tido qualquer experincia sexual  com mulheres ou com homens. Sua esposa, uma mulher muito religiosa e moralista, nunca demonstrou interesse por sexo nos 30 anos de casamento, facilitando sem saber a vida do marido. Geraldo diz nunca ter tido um orgasmo e que s experimenta essa sensao dormindo, quando sonha estar fazendo sexo com algum rapaz. Seu conflito  terrvel. H momentos em que se enche de coragem e se imagina procurando um homem para realizar seus desejos, mas logo em seguida desiste. Como um condenado que anseia pela morte como nica forma de libertao, argumenta, cabisbaixo:
     
     "Se eu j consegui agentar at aqui, agora que falta pouco..."
     
     Homens e mulheres so educados para corresponder ao papel masculino e feminino que deles se espera e desde crianas aprendem que mais tarde devero se relacionar afetiva e sexualmente com o sexo oposto. "Mulher com mulher d jacar" e "Homem com homem d lobisomem" so frases que nas brincadeiras infantis deixam claro como existe a preocupao de se desenvolver uma idia negativa em relao  homossexualidade. Geralmente,  na adolescncia que a orientao afetivo-sexual comea a ser percebida.  comum o adolescente se sentir diferente, no compartilhar dos mesmos interesses do grupo de amigos, mas no entender bem o que se passa com ele. Tenta negar a idia de homossexualidade, pois sabe que isso no  aceito, que decepcionaria a famlia, os amigos e a si prprio. Com esse conflito interno, ele confunde amizade, amor e desejo sexual. Aceitar-se como homossexual , para a maioria, um processo difcil, cheio de dvidas e medos. No h com quem conversar e surge a sensao de que vai ser rejeitado e nunca compreendido. "Esse homem homossexual s se estabilizar psicolgica e emocionalmente quando aceitar esses sentimentos e esse modo de vida para si mesmo. E quando tiver claro para si que so sentimentos e um modo de vida ainda condenados e abominados pela sociedade. Com isso, ele no mais incorporar para si o que pensa a sociedade a seu respeito." 83
     Entretanto, existem homens que j na adolescncia aceitam e vivem a homossexualidade como natural, no se deixando afetar pelos preconceitos sociais.
     Pablo, advogado de empresa, de 30 anos, declara sentir-se feliz com sua orientao sexual. Transcrevo a seguir alguns trechos do relato que me fez dos seus episdios amorosos:
     
"Acho que a gente j nasce homo.  sempre inconveniente ser homossexual numa sociedade machista, mas comigo no tem problema nenhum. A sexualidade se manifesta desde que voc se relaciona com gente. Desde muito pequeno eu sentia atrao pelos meus irmos. Tive a primeira experincia com 5 anos. Quando entrei na puberdade, mais ou menos aos 12 anos, a sexualidade explodiu. Sentia um desejo incontrolvel pelos meninos. Meus sonhos erticos sempre foram com homens. Acordava com a cueca suja, mas nessa poca a culpa era enorme. Meus irmos percebiam, e eles eram preconceituosos.  noite, ao deitar, pedia a Deus para no sonhar, porque no queria acordar com aquela culpa. Enfim, com 17 anos me livrei completamente dessa culpa. Fui com a minha famlia para a capital e comecei a fazer teatro. A, minha vida sexual tornou-se superativa. Acho que uma das dificuldades do homossexual  se relacionar. A fmea e o macho tm um papel estabelecido. Na relao de dois homens, ambos esto procurando o mesmo sexo. Tem cara que no assume sua homossexualidade e s quer ser ativo para se isentar de culpa. A o sexo  super-rpido. Se a transa for com algum com quem se tenha um relacionamento, existe afeto e pode ter carinho depois. Ultimamente, tem aparecido muito homem casado na minha vida. H pouco tempo tive um caso com um que conheci num shopping. Eu estava descendo a escada rolante, ele estava subindo. Virou-se para mim e falou: 'Vamos experimentar umas roupas naquela loja?' Foi uma loucura total na cabine. Eu queria ir para o motel, mas no podia. A mulher e o filho estavam esperando por ele. O desejo desses caras casados por outro homem  incontrolvel. E eles so muito melhores de cama do que os gays. Uma vez transei com um que era msculo demais. Fui para casa dele. Eu era bem mais novo e ele pensou que eu era menor de idade. Ele estava muito preocupado e dizia: 'Isso que vai acontecer entre ns voc no pode contar para ningum. Sua famlia no pode nem sonhar.' Num dado momento, quando percebeu que a coisa estava ficando sria, ele foi at o banheiro, encharcou um monte de algodo no ter e colocou no meu nariz. Eu entrei em pnico, pensei que ele queria me matar. Mas, no, o que ele queria era que eu perdesse os sentidos e ele pudesse transar comigo sem eu ver. Na verdade queria fazer sexo comigo sem nenhuma testemunha, nem mesmo eu."

     O nmero de heterossexuais que se envolvem regularmente em atividades homossexuais episdicas aumentou muito nos ltimos tempos, apesar da Aids. E os pesquisadores calculam que nos Estados Unidos mais de 40% dos homens casados mantiveram relaes homossexuais em algum momento da vida.
     
A nova expresso dos gays
       
     Vrios dados cientficos indicam que, como grupo, os homossexuais no apresentam maior ndice de anormalidades psicolgicas do que os heterossexuais. Entretanto, as presses familiares e a discriminao social e econmica que enfrentam tendem a aumentar bastante as tenses do dia-a-dia. Muitas pesquisas defendem atualmente que a homossexualidade no  um comportamento desviante, situando-se dentro do mbito normal da expresso sexual humana.84
     Os heterossexuais, de maneira geral, acreditam que os gays so facilmente identificados por certas caractersticas fsicas ou pela forma de se vestir e se comportar. O gay seria sempre afetado e afeminado. Mas, na verdade, a maioria dos homossexuais no poderia ser identificada por sinais externos. Sem dvida, existem gays exibicionistas que desejam chamar a ateno com trejeitos e atitudes que os tornam caricaturas de mulher. Mas so minoria. Esses gays afeminados que revelam publicamente sua orientao sexual passam a ser o nico referencial da homossexualidade para a sociedade. Os meios de comunicao, principalmente a televiso, aproveitando-se dessa caracterstica, tratam o homossexual de forma caricata e ridcula.85
     Observamos, ento, no sculo XX, que os homossexuais se dividem entre uma maioria que se esfora para esconder sua sexualidade e uma minoria que exibe uma feminilidade caricata. A partir do movimento gay, muitos homossexuais puderam sair de suas clausuras e, menos envergonhados, buscaram se integrar  sociedade. E os escandalosos? "Agora reconhecidos em sua indiferena reivindicada e assumida, o homossexual pode parar de se autocaricaturar falando alto e adotando o 'estilo bicha louca' exigido pelo heterossexual, que assim imaginava estar estabelecendo garantias para si mesmo, ao definir as fronteiras."86 S que a minoria continuou se autocaricaturando. O movimento gay contribuiu para livrar muitos homossexuais da culpa, mas no conseguiu acabar com os esteretipos. Nas grandes cidades americanas, surge um novo tipo de homossexual que substitui a feminilidade ostensiva por uma expresso da sexualidade teatralmente masculina. So musculosos, usam barba ou bigode, roupas de couro com tachinhas e correntes e privilegiam a imagem do supermacho. O que se v com mais freqncia na imprensa homossexual e nas revistas pornogrficas so o caubi, o caminhoneiro e o esportista. Na Frana, uma pesquisa com mais de mil homens mostrou que 83% deles procuram parceiros de porte viril contra 13% que antes preferiam homens de maneiras afeminadas.87
     Como vimos em captulos anteriores, os heterossexuais  homens e mulheres  tentam se livrar da submisso ao modelo patriarcal que os aprisiona aos esteretipos masculinos e femininos, obrigando-os a repudiar aspectos de sua personalidade (homem = forte, decidido, agressivo; e mulher = frgil, dcil, indecisa). O movimento feminista e as atuais discusses sobre a desconstruo do masculino abriram espao para indivduos autnomos que, no se submetendo aos esteretipos sexuais e, portanto, mais inteiros, podem se reconhecer como fortes e fracos, agressivos e dceis, decididos e indecisos, dependendo do momento e das circunstncias.
     "Enquanto os heterossexuais tentam apagar os esteretipos sexuais, a maioria dos homossexuais hipermachos os ostenta, numa homenagem apoiada na virilidade tradicional com seu cortejo de violncias e de menosprezo pelo feminino. (...)
     "De fato, a cultura machista mostra-se to alienante quanto a precedente. No s porque probe outras expresses da homossexualidade, mas, sobretudo, porque mostra uma submisso absoluta aos esteretipos heterossexuais. Entre o homossexual amaneirado de antes, que fazia o papel de louca para entrar no mundo caricatural que a sociedade criara para o homossexual, e o hipermacho, que faz a mmica do velho ideal masculino, no h qualquer diferena."88
     O homossexual que realmente se aceita no representa a bicha-louca nem o hipermacho, situando-se fora dos esteretipos sexuais criados pelo patriarcado. Vive como as outras pessoas, sem necessidade de se ocultar ou de se exibir, mesmo porque acredita que ser homossexual no significa infelicidade, da mesma forma que ser heterossexual no garante felicidade a ningum.
     Assim como no  comum encontrar homens e mulheres autnomas,  provvel que a proporo de homossexuais livres de esteretipos se compare  dos heterossexuais.
     Lus Andr, diretor de teatro, de 42 anos, seria um exemplo do homossexual autnomo. Na juventude namorou vrias garotas e aos 25 anos ficou noivo, pretendendo casar-se em breve. Nesse meio-tempo, conheceu Alan, ator que tambm tinha uma namorada h dois anos. O convvio profissional resultou numa grande intimidade, na qual os dois experimentaram pela primeira vez a emoo da descoberta do sentimento amoroso e do desejo pelo mesmo sexo. Formaram um casal, vivendo juntos por oito anos. Hoje, sem nenhuma relao estvel, Lus Andr tem encontros eventuais com outros homens, em que a tnica  a prpria relao humana que se estabelece a partir da. Durante todos esses anos, no sentiu nenhum desejo sexual por mulheres. Seus maiores amigos so pessoas de ambos os sexos, independentemente de orientao sexual. Por ser um homem interessante e comunicativo,  com freqncia assediado pelas mulheres que conhece, que nem de longe imaginam tratar-se de um gay. Os homens heterossexuais tambm se surpreendem, sem saber bem como conciliar a idia que tm de um homossexual com uma pessoa como Lus Andr. Os homens por quem sente atrao tambm no so facilmente identificados como gays, sendo que a maioria  bissexual, inclusive alguns casados. Quanto aos gays afeminados, Lus Andr  objetivo:
     
"No consigo me imaginar na cama com uma bicha. Se eu desejasse uma mulher, escolheria uma de verdade e no uma caricatura."
       
     "O hipermacho e a bicha-louca ou tia so vtimas de uma imitao alienante dos esteretipos heterossexuais masculino e feminino."89 Ambos so pessoas mutiladas, da mesma forma que o homem masculino e a mulher feminina. Entretanto, os mais mutilados de todos so os homossexuais que interiorizam a rejeio dos heterossexuais. So os homfobos, os que odeiam os homossexuais e, portanto, odeiam a si mesmos, Numa grande pesquisa de opinio nos Estados Unidos, cerca de 25% dos homossexuais declararam lamentar sua homossexualidade e desejar ter recebido uma plula mgica de heterossexual idade ao nascer. Em outra pesquisa, na Frana, aqueles que a rejeitavam evocavam o sofrimento causado pelas pessoas em volta, a rejeio global da sociedade, os conflitos religiosos, o desgosto por no ter filhos e o problema da solido.90
     Fabiano tem 28 anos e mora com a famlia. Desde os 22, quando foi obrigado a admitir sua homossexualidade, sofre intensamente. Tendo lido as teorias psicanalticas a respeito, amaldioa o pai, imaginando ter sido ele ausente na sua infncia, e a me por ser autoritria, s se referindo a ela como "parideira de homossexual". Aps algumas poucas tentativas frustradas de se relacionar sexualmente com mulheres, vive recluso, trancado em casa, s se comunicando de forma precria com os pais e os trs irmos. Considera impossvel ter amigos. Tenta justificar essa certeza alegando que todos os homossexuais so promscuos e repugnantes. Quanto aos heterossexuais, acredita no poder se aproximar pois seria discriminado por todos. Muito a contragosto, freqenta saunas gays, onde mantm contatos sexuais rpidos, com homens desconhecidos. Recrimina-se muito por isso, referindo-se a esses lugares como "aquela coisa ftida".
     O fato de ser homossexual afeta sua vida a ponto de no conseguir nem trabalhar, apesar de ter se formado em Direito e iniciado um mestrado, logo interrompido. Fabiano introjetou de tal forma os valores da sociedade em relao  homossexualidade, que sua homofobia o transformou no mais cruel algoz de si mesmo.

Homofobia  dio por homossexuais
       
     Apesar de toda a liberao dos costumes, os gays ainda so hostilizados pela maior parte da sociedade. Como a ideologia patriarcal identifica masculinidade e heterossexualidade, "a homossexualidade  ainda aceita como argumento para a dispensa do servio militar e, a despeito do movimento que existe entre os protestantes nos Estados Unidos para incluir no clero homossexuais, a Igreja Catlica Romana, alm de outros grupos religiosos, continua a encarar a homossexualidade como uma perverso".91
     Por que persiste ainda tanto preconceito contra a homossexualidade? Para alguns, isso estaria ligado  noo de que a homossexualidade est em ascenso e que, se no for refreada, poder ameaar a unidade familiar e a estrutura da sociedade como um todo. Outro motivo seria a convico de que a maioria dos homossexuais no se controla sexualmente,  tarada e poderia seduzir crianas. Um temor mais sutil  que a aceitao cada vez maior da homossexualidade faa com que o papel do homem seja menos claramente definido, o que tornaria mais fcil aos garotos o caminho da homossexualidade.92
     Entretanto,  provvel que a razo mais significativa da hostilidade dos homens heterossexuais seja o temor secreto dos prprios desejos homossexuais. Muitos heterossexuais reagem como se temessem ser contaminados em contato com gays. "Ver um homem afeminado desperta enorme angstia em muitos homens, pois desencadeia neles uma tomada de conscincia de suas prprias caractersticas femininas, como a passividade e a sensibilidade, que eles consideram um sinal de fraqueza." 93
     Muitas vezes, o heterossexual sente que tem de proteger sua masculinidade de uma contaminao imaginria, reagindo de forma agressiva ou at atacando o homossexual. Um homem seguro de sua orientao heterossexual, sem necessidade, portanto, de perseguir o ideal masculino, integra os vrios aspectos de sua personalidade, no sentindo a exigncia desse tipo de reao. Caso seja assediado por um gay, deixa claro, de forma tranqila, que no tem interesse em um encontro homossexual, sem que isso impea o prosseguimento da relao de amizade, se for o caso. Porm, o que mais se observa  o homem heterossexual afirmar que, se isso acontecer com ele, no h dvida: arrebenta, quebra ou mata o homossexual em questo. A homofobia serve tambm para o heterossexual deixar claro para os outros que ele no  homossexual.
     Num dos exerccios de dinmica de grupo que fao h 18 anos com alunos do curso de Comunicao Social, a hostilidade aos homossexuais se mostra quase inalterada. Com o objetivo de que a turma discuta os preconceitos existentes na nossa sociedade, apresento uma situao em que, numa guerra, entre um grupo de 12 pessoas, devem escolher apenas seis para entrar num abrigo subterrneo durante um bombardeio. So dadas informaes sucintas de cada uma das 12 pessoas: viciado em drogas, prostituta, ex-presidirio, moa que saiu do manicmio, rapaz com ataques epilticos, homossexual etc. Sistematicamente, o homossexual  rejeitado. Por mais que as alunas tentem argumentar a favor de sua incluso, a gritaria dos homens  sempre to impositiva que ele acaba sendo excludo. Os argumentos so vrios: o homossexual vai querer agarr-los; vai ficar desesperado sem sexo; no vai poder procriar etc.
     "A homossexualidade suscita em alguns homens (em particular nos rapazes) um temor que no tem equivalente entre as mulheres. Esse temor se traduz por atitudes de afastamento, agressividade ou repulsa dissimulada." 94
     Um estudo para determinar os efeitos da percepo de um homossexual no espao interpessoal utilizou simplesmente a colocao de uma cadeira como critrio de distncia social. Constatou-se que, quando um pesquisador portava um distintivo em que se lia "gay and proud" e se apresentava como membro de uma associao de psiclogos gays, os participantes colocavam suas cadeiras ostensivamente mais longe desse pesquisador do que de outro, neutro, que no manifestava nenhuma caracterstica homossexual. Os homens reagiam deixando trs vezes mais espao entre eles e o pesquisador do que as mulheres, quando submetidas a um estudo semelhante por uma pesquisadora com um distintivo de lsbica.95
     Na nossa sociedade, os meninos aprendem desde cedo que no devem ter qualquer tipo de contato fsico com homem. As amizades masculinas so raras, restringindo-se geralmente a encontros em grupo ou competies esportivas. O abrao entre dois homens  pouco freqente, e o afeto  manifestado no mximo com aperto de mo ou tapinha nas costas. Muitos pais no abraam nem beijam seus filhos depois de determinada idade. " muito provvel que esta restrio vise preservar o conceito ideal da sociedade do que seja 'msculo' (...). A demonstrao de afeto entre as mulheres  aceita por todo mundo e no parece despertar temores de que ir incentivar o lesbianismo." 96
     Uma pesquisa realizada pelo Ibope em 1993 ouviu duas mil pessoas e concluiu que a metade delas j admite que convive com homossexuais em seu bairro, local de trabalho ou clubes que freqenta. Entretanto, de todos os entrevistados, 36% no contratariam um homossexual para sua empresa, mesmo que fosse o mais qualificado; 47% mudariam seu voto caso descobrissem que seu candidato  homossexual; 79% ficariam tristes se tivessem um filho homossexual e 8% seriam capazes de castig-lo por isso.97
     Nada melhor para ilustrar a homofobia e a hipocrisia da sociedade em que vivemos  na qual a maioria das pessoas defende os direitos humanos  do que a frase de Leonardo Matlovich, soldado da Fora Area Americana, condecorado por sua atuao na Guerra do Vietn e expulso da corporao em 1975, por homossexualismo: 98
     
"A Fora Area me condecorou por matar dois homens no Vietn e me expulsou por amar um."

Como vivem os gays
     
     Em algumas cidades americanas como Nova York e So Francisco, no final da dcada de 1960, os gays comearam a sair do silncio e levar a vida que desejavam. Mas em todas as outras regies, tanto da Europa, Amrica do Sul e mesmo dos Estados Unidos, a aceitao  restrita a alguns grupos e lugares. "Se  verdade, como diziam os romanos, que a natureza humana  estruturalmente bissexual, resta muito a fazer para que se apaguem quase dois mil anos de condenao crist."99
     O Relatrio Kinsey sobre a homossexualidade, publicado em 1978, apresenta o resultado de uma pesquisa sobre o estilo de vida dos homossexuais de So Francisco, em que foram entrevistados 3.854 gays, numa poca em que ainda no havia a ameaa da Aids. O estudo concluiu que 64% dos homens homossexuais no eram promscuos, 39% mantinham um vnculo amoroso estvel e 25% eram homossexuais assexuados que, por no se aceitarem como homossexuais, mantinham relaes sexuais espordicas.100
     Alguns casais gays tentam legalizar sua situao com casamentos formais, reivindicando os mesmos direitos e as vantagens concedidas aos heterossexuais. Os gays se organizam de vrias maneiras. Grupos militantes lutam pelo fim da discriminao e grupos de discusso crescem nas grandes cidades. Como qualquer grupo minoritrio, os gays so discriminados e, por isso, criam pontos de encontro onde podem compartilhar suas prprias preferncias, problemas e estilos de vida, sem o olhar crtico do heterossexual. Em bares, boates e saunas, procuram contatos com outros homossexuais, que podem durar apenas uma noite ou se transformar numa relao longa.
     Para alguns gays, o encontro pode ocorrer tambm andando ou dirigindo o carro por reas de alta concentrao de outros gays  procura de ligaes sexuais. Essa caa  quer acontea num bar, numa boate, num cinema, numa festa ou numa sauna  implica um sutil e complexo sistema de indcios no-verbais, diferentes do comportamento sedutor comum s pessoas heterossexuais.101 "Usar as chaves em cima do bolso esquerdo de trs indica preferncia por um papel ativo;  direita, por um papel passivo (...). A cor do leno que sai do bolso de trs simboliza a atividade procurada: azul-claro (prticas orais), azul-escuro (coito anal), vermelho vivo (penetrao com o punho)."102
     A maior parte dos encontros sexuais annimos entre gays em saunas ou banheiros pblicos masculinos  destituda de afeto e emoo. Muitos que se entregam a esses relacionamentos annimos tm uma relao estvel com outra pessoa. Funciona da mesma forma que o heterossexual casado ao procurar uma prostituta.
     A interdio de muitos sculos obrigou o homossexual a dissociar a sexualidade do afeto "por terem de obedecer a uma organizao que minimizasse os riscos, ao mesmo tempo em que otimizava a eficcia, isto , o rendimento orgstico".103 E comum gays procurarem terapeutas buscando a soluo desse problema, ou seja, conciliar a estabilidade do casal e a liberdade sexual.
     Duas importantes pesquisas sobre a homossexualidade  uma americana e outra alem  indicam que uma substancial parcela dos entrevistados mantinha, no momento da entrevista, uma relao estvel de cinco anos ou mais: 31% na americana e 23% na alem. Mas a sexualidade episdica  bastante intensa entre alguns gays. Nas saunas, geralmente procuram vrias experincias sexuais a cada noite e "a maioria ficaria desapontada se tivesse tido apenas um encontro sexual no decorrer de vrias horas".104
     Num estudo da cultura de sauna, na dcada de 1960, Martin Hoffman entrevistou um jovem que, como parceiro passivo, freqentemente tinha cerca de 50 contatos sexuais no espao de uma noite. Ele era casado e pai de dois filhos.105
     No sexo annimo praticado nas saunas ou em outros lugares de atividade sexual dos gays, os homens geralmente no estabelecem contato um com o outro, havendo no mximo conversas casuais. A vida pessoal de cada um fora dali no  abordada.
     Para Anthony Giddens, seria errneo considerar-se uma orientao para a sexualidade episdica apenas em termos negativos. Assim como as lsbicas, os gays questionam a tradicional integrao heterossexual entre o casamento e a monogamia. Ele argumenta que, da maneira como  compreendida no casamento institucionalizado,  a  monogamia sempre esteve  ligada  ao  padro duplo e, por isso, ao patriarcado. Quando os encontros episdicos no constituem um vcio  como certamente  o caso na situao descrita por Hoffinan , eles so, na verdade, exploraes das possibilidades oferecidas pela sexualidade plstica. Assim, mesmo que os contatos sejam impessoais e passageiros, a sexualidade episdica pode ser uma forma positiva de experincia do cotidiano.
     Giddens acredita que a sexualidade gay episdica semelhante  do tipo da cultura da sauna  o sexo libertado de sua antiga subservincia ao poder diferencial, e, por isso, expressa uma igualdade que est ausente na maioria dos envolvimentos heterossexuais, incluindo os transitrios. Por natureza, ela s permite o poder sob a forma da prtica sexual! O nico determinante  o gosto sexual. E este, para Giddens, certamente faz parte do prazer e da realizao que a sexualidade episdica pode proporcionar, quando despojada de suas caractersticas compulsivas.
     Pela falta de conhecimento direto que se tem dos hbitos das minorias, h uma tendncia a se atriburem aos gays prticas sexuais excntricas ou perversas. Entretanto,  provvel que o percentual do comportamento sexual estranho encontrado entre os gays no seja maior do que entre os heterossexuais. "A maior parte das tcnicas sexuais utilizadas pelas duplas gays so idnticas s usadas pelos heterossexuais  fato que salienta o absurdo de identificar qualquer tcnica sexual praticada como especificamente ato homossexual." 106
     O contato oral-genital e o coito anal so heterossexuais se os parceiros envolvidos so do sexo oposto, e homossexuais se so do mesmo sexo. A felao  um comportamento sexual bastante comum entre os homossexuais. Pode ser mtua ou praticada por um parceiro de cada vez. Assim como na heterossexualidade, pode ser usada como forma de excitao sexual ou pode resultar em orgasmo. A cpula anal  outra tcnica sexual adotada por gays e tambm experimentada por um entre cada quatro casais heterossexuais.107 Ao contrrio do que a maioria das pessoas acredita, no  regra entre os homossexuais a prtica do sexo anal para que um dos parceiros assuma o papel da mulher, e o outro, o de homem. Mais comum  eles alternarem-se, assumindo posies receptivas e penetrantes.108
     Outras formas de expresso sexual usadas pelos gays incluem a masturbao mtua, a pottage (uma simulao da relao sexual representada pela esfregao mtua do pnis contra o abdmen do parceiro) e a cpula interfemoral, que consiste em esfregar o pnis entre as coxas do parceiro. Abraos, beijos e carcias preliminares, que fazem parte do ato sexual entre os heterossexuais, em geral integram tambm os encontros entre gays.109
     Quanto s profisses desempenhadas pelos homossexuais, existe a falsa idia de que eles so mais sensveis e, por isso, com maiores inclinaes artsticas. Comprometedora na classe dominante, a homossexualidade estimula seus membros a escolher de preferncia carreiras intelectuais ou artsticas, onde ela  tolerada. "Como o homossexual tem que mudar de 'papel' conforme o interlocutor,  no domnio das relaes pblicas que ele melhor pode utilizar esses dons adquiridos pela obrigao de se adaptar  discriminao implcita de que  objeto."110 Talvez, por isso, haja um maior nmero de homossexuais nas profisses de servios  cabeleireiro, estilista, decorador etc. Ao contrrio, o campons e o operrio homossexuais so alvo de piadinhas e condenados a uma verdadeira excluso.111
     Existe a tendncia de se pensar que todos os homossexuais so iguais, mas na verdade so to diferentes entre si quanto todas as outras pessoas. Eles se encontram em todas as camadas sociais. So ricos ou pobres, inteligentes ou limitados, dependentes ou independentes, maduros ou imaturos.

As lsbicas
     
     A homossexualidade feminina sempre foi mais tolerada do que a masculina nas sociedades patriarcais. Causa mais curiosidade do que averso, no sendo raro encontrar um homem declarando que sua fantasia ertica  assistir a duas mulheres fazendo sexo. Talvez at por imaginar que, como no tm pnis, vo solicit-lo em algum momento,
     Socialmente, existe maior liberdade para as mulheres se tocarem, se beijarem, se aconchegarem, manifestando carinho umas pelas outras. A relao amorosa entre elas , ento, menos aparente, e  mais fcil dissimular sua verdadeira orientao sexual.
     Desde pequenas, as meninas so educadas para o casamento com o sexo oposto e para o papel materno. Entretanto, isso no corresponde ao desejo de algumas quando se tornam adultas. So as lsbicas que procuram um vnculo amoroso com outra mulher e no com um homem e, portanto, tm uma orientao afetivo-sexual diferente da maioria. "Essa orientao, que comeou na infncia, revelou-se na adolescncia e definiu-se na idade adulta,  de natureza homossexual."112
     O relacionamento entre duas mulheres lsbicas  diferente do de dois homens gays. Cada casal leva para a relao caractersticas que a sociedade determina para o homem e para a mulher. Kinsey mostra que 63% das lsbicas constituem relacionamentos estveis e duradouros; para os gays essa percentagem  de quase 40%.113 A maioria dos casais de lsbicas no sente necessidade de reproduzir o padro de relacionamento heterossexual, em que um tem o poder sobre o outro. Entre elas, existe a possibilidade de viver uma relao em que duas pessoas so iguais, fora dos esteretipos patriarcais de gnero. Duas mulheres lsbicas bonitas, atraentes e charmosas podem confundir as pessoas quanto  sua orientao sexual. "Alguns maches desinformados acreditam que uma mulher s  lsbica porque foi mal-amada por um homem, A mulher lsbica passa a ser, para esse tipo de homem, um desafio muito grande a ser vencido, um 'verdadeiro trofu de caa'."114
     De uma maneira geral, a lsbica no se sente homem nem quer ser homem. Entretanto, do mesmo modo que ocorre com alguns gays, numa atitude defensiva, uma minoria se esfora para corresponder aos esteretipos masculinos da nossa cultura. So mulheres com atitudes e comportamentos tpicos do macho, submetendo-se, assim, aos padres patriarcais. No relato de vrias lsbicas por mim entrevistadas, houve um ponto coincidente: todas tiveram algum tipo de contato com "mulheres menos femininas", que durante o ato sexual no permitem que seus rgos genitais sejam tocados  muitas no tiram a roupa , alm de exigirem total passividade da parceira. "Elas funcionam como se tivessem pnis", era a explicao.
     Nas pesquisas de Hite, 144 mulheres (8% das entrevistadas) declararam preferir fazer sexo com mulheres. O fato de o corpo feminino no ser provido de rgo de penetrao intriga as pessoas, que no entendem como pode haver uma relao sexual sem a presena do pnis. Mas, "as mulheres tm um sistema de excitao diferente do homem. Sua excitao  uma resposta do corpo todo e no apenas genital".115 Lbios, lngua, pescoo, orelha, barriga, costas, seios, ndegas, quadris, joelhos so algumas das zonas ergenas mais importantes do corpo feminino. Muitas mulheres se queixam de que o homem, por no perceber isso, inicia o ato sexual tocando diretamente o clitris e, sem preliminares, parte diretamente para a penetrao. Isso desagrada  mulher, j que a erotizao do seu corpo no  necessariamente alcanada  custa de sensaes genitais. Alm disso, se o prazer sexual for medido por resposta orgstica  um ndice duvidoso segundo as pesquisas de Hite , o sexo lsbico parece mais bem-sucedido do que a atividade heterossexual, e tambm por haver maior igualdade no dar e receber da experincia sexual.116
     s perguntas: "Como as mulheres se relacionam fisicamente?" e "Por que preferem relaes com outras mulheres?", Hite encontrou respostas semelhantes aos seis exemplos que se seguem:117
     
     "Nos abraamos muito, nos beijamos e nos acariciamos. Como 'tcnica', nos masturbamos mutuamente com as mos, os dedos e oralmente. Tambm nos masturbamos com outras partes de nossos corpos. Basicamente, as mesmas coisas que um homem e uma mulher podem fazer sem o pnis e geralmente no fazem!"
     
    "Fazer amor com uma mulher  sempre mais variado do que com um homem, e as aes fsicas so mais mtuas. Embora sejam tocados e beijados os mesmos lugares que com um homem, para mim a sensao  aprofundada quando se trata de uma mulher, e a grande diferena so os fatores psicolgicos e emocionais envolvidos. Os toques e os beijos so diferentes. Toda a aura  diferente."
     
     "Para se relacionar fisicamente com outra mulher, voc s precisa alcanar o corpo dela do jeito que voc gosta de ser acariciada e/ou do jeito que ela lhe indica. Voc explora em conjunto o ato sexual e acha o que funciona. No sei como responder de modo mais especfico. Acho que no existe nenhum livro de receitas que funcione em todas as situaes, graas a Deus. Para mim,  uma coisa que acontece de modo mais natural do que com homens."
     
     "Tenho orgasmos  sempre mltiplos  na masturbao, mas no os tenho com muita freqncia com meu marido. Algumas vezes finjo, mas, s vezes, nem me importo de fingir porque  s para o bem-estar dele. Estou nos 40. No ano passado me envolvi pela primeira vez com uma mulher.  completamente diferente e sempre tenho orgasmos."
     
    "Os homens, geralmente, estavam mais preocupados com o prazer deles do que com o meu. No achei amor emocional, s fsico. Acho as mulheres melhores amantes; sabem o que uma mulher quer e principalmente possibilitam uma proximidade emocional que nunca pode ser partilhada com um homem. Mais ternura, mais considerao e compreenso dos sentimentos etc."
     
     "A maioria dos homens de minha carreira heterossexual (dos 20 aos 28 anos) queria que eu excitasse seu pnis oralmente e depois trepasse para atingir o clmax. Depois de ejacular, perguntavam: 'J gozou?' Minhas amantes geralmente tm uma abordagem muito mais criativa e variada do ato sexual. Todas comeam tendo uma incrvel gentileza e conscincia de minhas necessidades, bem como das delas. As mulheres no agem como se eu fosse sua 'mquina de masturbao', nem caem no sono quando termina. Nenhuma mulher j me perguntou 'J gozou?' Elas sabem. Minhas relaes com mulheres sempre duram muito mais do que com os homens. Vinte minutos com um homem, pelo menos uma hora com uma mulher, e geralmente mais. Espero que chegue o dia em que os casais heterossexuais possam proclamar que tm o tipo de bons encontros sexuais que estou tendo atualmente."
     
     Kinsey j havia observado que as relaes sexuais entre lsbicas tendem a ser mais demoradas, envolvendo maior sensibilidade do corpo todo, j que o orgasmo no marca automaticamente o final da sensao sexual, como acontece na maioria das relaes heterossexuais.
     Uma proporo menor de lsbicas do que de mulheres heterossexuais tem casos fora de seus relacionamentos principais e, em gerai, quando se separam, ficam amigas de suas ex-amantes. Entretanto, em alguns casos, as lsbicas podem se tornar bastante violentas nas relaes amorosas. Estudos de violncia sexual feminina nos Estados Unidos descrevem casos de estupros, espancamento fsico e ataques com revlveres, facas e outras armas letais, em relacionamentos lsbicos."118
     Maria Regina tem 34 anos e, depois que se separou do marido, conheceu Snia e com ela viveu uma tumultuada relao amorosa durante dois anos e meio. Era freqente sua parceira beber e nas discusses partir para a agresso fsica. Na ltima briga, Maria Regina disse que no suportava mais aquele tipo de vida e, portanto, estava indo embora. Desesperada, disposta a tudo para impedir sua sada, Snia atracou-se com ela, mordendo com violncia todo o seu corpo. Num estado deplorvel, necessitando ser atendida num pronto-socorro, Maria Regina declarou:
     
"Ela  insegura e faz tudo para me agradar. Mas sempre foi assim. A qualquer possibilidade de me perder, transforma-se num co raivoso."
     
     H lsbicas que, ao iniciar a relao com uma mulher, trazem filhos de um casamento heterossexual anterior. Nesse caso, as duas juntas criam as crianas. Pode haver tambm o desejo de ter filho e, como as duas no podem ger-lo, escolhem um homem apenas para fecund-las ou optam pela inseminao artificial.
     A maioria das pessoas reage negativamente a essa idia, afirmando que com certeza estariam criando filhos desajustados e problemticos. At agora nada comprova a veracidade dessas afirmaes, mesmo porque se trata de uma alternativa familiar recente. Entretanto, sabemos que o simples fato de uma criana ser educada dentro de uma famlia tradicional no lhe garante uma vida ulterior mais saudvel. Quanto  ausncia da figura paterna, considerada por muitos como indispensvel para o desenvolvimento infantil, surgem novos questionamentos.
     Shere Hite afirma que, em suas recentes pesquisas com centenas de famlias e crianas, descobriu um fato que  primeira vista pode parecer estranho: os meninos criados apenas pelas suas mes e no pelo casal parecem ter maior facilidade para estabelecer relaes humanas mais conseqentes e responsveis, quando se tornam adultos. Ou seja: esses garotos, quando se tornam rapazes, tendem a ser estveis e tanto seu relacionamento amoroso com as mulheres quanto suas amizades com outros homens tendem a ser mais profundos, de maior repercusso em suas vidas. Tornam-se homens mais corajosos e mais ntimos no relacionamento humano.
     Para Hite, esses dados j haviam aparecido em suas pesquisas ao longo da dcada de 1980, mas no os publicou temendo que no promovessem na poca um debate produtivo. Ela verificou que por um condicionamento social os pais costumam ter um comportamento mais arredio e uma certa resistncia a aumentar a intimidade nas suas relaes com os filhos. Muitos so emocionalmente distantes e at fisicamente agressivos. O modelo de comportamento transmitido aos filhos leva-os a perpetuar o machismo, a fugir das emoes calorosas, da empatia e da compreenso. Sob essas perspectivas, Hite acredita que os valores transmitidos pelas mulheres parecem ter mais qualidades que os valores tradicionalmente masculinos, embora alguns deles, como a coragem, iniciativa, racionalidade, sejam muito importantes. Como com freqncia as mulheres ainda so medrosas e passivas, o ideal seria a mistura dos valores masculinos e femininos, mas isso, para acontecer, depende do fim da ideologia patriarcal.119
     Em alguns segmentos da sociedade, a relao amorosa entre mulheres passou a ser valorizada. Propagandas e ensaios fotogrficos retratando situaes homossexuais femininas so publicados em revistas e, pela qualidade esttica, muito bem aceitos. So conhecidos como lesbian chies.
     Assim como os gays, as lsbicas tambm formam grupos organizados para se defender da discriminao. Em 1995, representantes de associaes dos direitos dos gays e lsbicas de diversos pases se reuniram em Nova York para o Primeiro Tribunal Internacional sobre Violaes dos Direitos Humanos de Minorias Sexuais. O encontro visava traar as diretrizes bsicas de um documento a ser entregue  Comisso de Direitos Humanos das Naes Unidas, pedindo maior empenho no combate  discriminao profissional e social de homossexuais. No Brasil, a deputada Marta Suplicy luta pela aprovao do direito de unio civil entre pessoas do mesmo sexo.
     Renata, 30 anos, professora de educao fsica, mora com a namorada h um ano e meio:
     
"Sexo para mim tem que ser carinhoso, meigo, florido. Na relao entre duas mulheres, isso aparece mais do que na relao com um homem. Tive a primeira paixo aos 12 anos por uma menina. Durou trs anos, s havia toques de carinho. Deixei de ser virgem com 13 anos. Foi s uma vez, e muito ruim, no tive prazer nenhum. Aos 19 anos me apaixonei por outra mulher, mas na cama vi que no tinha nada a ver. Eu no tinha muito acesso ao mundo hetero. No tinha vontade de conhecer homens, sentia-me mais madura do que eles. Depois dos 19 anos, nunca mais tive casos, s namoros. A primeira vez que moro com algum  agora. O sexo nunca vem no primeiro dia que conheo algum, para ter cama preciso de um pr-envolvimento. Com minha parceira h harmonia. Ns duas somos passivas e ativas. Tenho mais experincia como passiva. Ser passiva  se soltar. Deixar ser tocada pelo corpo todo. J transei com mulheres que ficavam de roupa. No tiravam a calcinha e, s vezes, nem a camiseta. So s ativas, no deixam que a outra encoste nos seus rgos genitais. Acho que as mulheres assim tm prazer s em tocar. Isso  possvel. J tive orgasmo s de olhar uma namorada. Geralmente, quem j teve relao com homem  passiva. A maioria no se solta na cama, mas orgasmo sempre acontece. Tive uma relao anterior na qual minha parceira era muito bloqueada. Ela estava acostumada a transar comigo como se fosse um homem. Quando acabava, virava para o lado e ficava de costas para mim. A maioria das mulheres gosta de penetrao, mas no  necessrio para ter orgasmos. H muito tempo que s transo com mulher. A maior dificuldade de conviver no meio heterossexual  o preconceito. Deixo de conhecer pessoas legais por isso. No acho legal viver em guetos, acho pobre. Meu prazer  maior em dar prazer a algum que amo. Muitas vezes, minha parceira chora quando tem orgasmo. Chego at a ter orgasmo mesmo sem meu clitris ser tocado, s em v-la ter. Para mim,  muito mais importante o lado afetivo. Com homem, isso no acontece, de jeito nenhum.
     
     Alexandra, 29 anos, arquiteta, teve sua primeira experincia sexual aos 9 anos:
     
"Foi com meu primo, que tinha 14 anos. Eu no tinha idia do que fazia. Minha famlia era muito catlica, tudo era pecado. Tivemos muitas relaes sexuais. Eu gostava, sentia prazer. S quando ele disse que isso era o que meus pais fizeram para eu nascer, percebi ser coisa de adulto e o empurrei. Ele queria e eu dizia que no. Acho que eu gozava porque o prazer era muito grande. Isso durou no mnimo um ano. Depois que o empurrei, chorei todos os dias at os 15 anos. Logo depois da menstruao, achava que ia engravidar por causa daquelas relaes. No conseguia dormir direito por causa do pecado. Com 17 anos comecei a namorar o homem com quem me casei, Ele tinha 29 anos. Casamos um ano depois. Quando eu tinha 16, fui ao teatro com meus pais assistir a uma pea bblica. Tinha uma personagem que era prostituta.  noite, dormi e sonhei que transava com ela. Enlouquecia no sonho. Tinha altos prazeres. Quando acordei, chorei durante uma semana achando que estava doente. Como podia ter teso por uma mulher? Depois, fui morar nos Estados Unidos, onde uma mulher se interessou por mim. Repudiei a idia, fugi dela. Me apaixonei pela minha professora de francs. Transei com um homem uma vez, depois transei com a primeira mulher da minha vida. Durou trs meses. Depois fiquei com outra mulher, durante um ano e meio. Eu no tenho na minha cabea a idia de que no transaria com homem. Precisaria que ele tivesse um lado muito feminino, delicado. Sei que nas mulheres homo tambm no encontro isso. As homossexuais femininas so mais limitadas culturalmente do que os homossexuais masculinos. Eles so mais refinados, as mulheres so mais prticas. Eu gosto de pessoas fortes, mas delicadas. Tenho uma transa de pele mais fcil com a mulher, mas de jeito nenhum fecho a possibilidade do homem na minha vida. A terceira mulher que tive durou dois anos e meio. Uma vez tentei me esforar para me interessar por um homem. Esse pensamento durou pouco. H um ano e meio estou casada. Meus pais pensam que moro sozinha. Minha parceira no atende o telefone. Tive mulheres extremamente diferentes: recatadas, ativas, criativas. Sempre foi mais positivo do que com meu marido. Gosto de coisa quente. Odeio rotina. Orgasmo  fundamental. A penetrao, s vezes,  necessria. Uso o artifcio de acessrios, mas de brincadeira. J tive uma parceira que no deixava que a tocasse e eu consegui quebrar isso. Para mim a relao sexual  muito especial, no consigo dividir, quero dar tudo para uma pessoa s."
     
     Mnica  administradora de empresas, tem 31 anos e relata suas experincias:
     
"Tenho duas irms homossexuais. Elas so quase 20 anos mais velhas do que eu e nunca percebi a homossexualidade netas. Com 12 anos, comecei a praticar esporte. Todas as meninas eram homossexuais, mas eu no sacava que elas eram iniciadas. Convivia com elas, mas de repente comecei a ser excluda. Eu tinha paixo por amigas do esporte, mas imaginava que era amizade mesmo. Com 15 anos tive o primeiro namorado. Tive muitos namorados, deixei de ser virgem com 17 anos, mas sempre me senti infeliz. Alguma coisa me incomodava profundamente e eu no sabia o que era. Transava com eles, acho que sentia teso. Eu no conseguia ficar bem com nenhum namorado nem no grupo de amigos. Sempre a mesma sensao de vazio. Com 20 anos me flagrei apaixonada por uma mulher. Estar apaixonada me deu conforto. Fiquei cega de paixo e aquele fogo me preencheu, no conseguia pensar em outra coisa. Nosso caso comeou quando ela foi na garupa da minha moto para a festa de rveillon. Danando, ela foi me levando para o fundo da boate. Ficamos um ano namorando. Foi livre, suave, bem legal. Depois disso tive mais trs homens, mas foi uma droga. Acho que foi mpeto de loucura, bebedeira de fim de festa. Da para frente, s me relacionei com mulheres. Foi muito tranqilo me saber homossexual. Freqento qualquer tipo de ambiente heterossexual, mas no me sinto atrada por homens. Tive milhes de namoradas. Ia a uma boate, batia o olho e dizia: ' esta que eu quero.' Depois queria outra e assim por diante. Geralmente, o sexo que vivo  muito bom. Quando acaba, fica uma sensao plena.  bom ficarmos juntas abraadas. Normalmente, isso acontece. Presto muita ateno ao que a parceira deseja. Me preocupo em satisfaz-la e gosto disso. No  importante a penetrao, mas pode haver, com algum artifcio. No tenho o menor problema em ter fantasias. Sempre tenho orgasmo. Trabalho num ramo machista. J sofri discriminao na empresa, alguns boicotes, mas nunca uma coisa declarada. Impus respeito pela competncia. Sou considerada uma das mais competentes da empresa e talvez do mercado. Tive oportunidade de assumir a diretoria, mas a homossexualidade impediu. Agora sou imprescindvel na minha empresa. No podem mais me boicotar. Atualmente, estou tentando sair de uma relao complicada de oito anos de casamento, mas est difcil, j no sinto mais teso por ela, mas  uma pessoa que amo. Ela  muito possessiva, castra-me e compete em tudo comigo. Existe uma dependncia emocional violenta entre ns. Quero v-la bem feliz, mas no como parceira. No tenho medo de ficar sozinha, mas temo a reao que ela pode ter. Ela j me agrediu fisicamente por cime. No consigo nem quero revidar, embora seja mais forte fisicamente.
  
  
Virgindade
       
       
       
     A perda da virgindade  para os rapazes uma expresso imprpria, j que a primeira experincia sexual  um ganho, simbolizando sua capacidade masculina. Para as meninas, ao contrrio, a preocupao com a escolha do momento e das circunstncias certas retarda a iniciao sexual que para elas ainda est relacionada a narrativas romnticas.120
     O hmen, indicador de que a vida sexual ainda no comeou, contribui para agravar as restries sexuais que as mulheres sempre suportaram desde o estabelecimento do patriarcado. Tenta-se explicar a existncia do hmen pela biologia, a maneira como surgiu em termos evolutivos, as funes que pode ter desempenhado, as presses que pode ter gerado. Alguns afirmam que o hmen no tem uma funo especfica, sendo apenas um pedao de tecido inconveniente e descartvel. Outros acreditam tratar-se de uma premonio da natureza, que sabiamente protege as mulheres contra o sexo eventual e promscuo, at que encontrem o parceiro conveniente  "como se a Me Natureza esperasse astutamente pela cerimnia da noite de npcias, na qual o duque e sua duquesa selavam sua parceria alterando para sempre o corpo dela".121 Independentemente da razo da sua existncia, o fato  que toda a sociedade encara o rompimento do hmen como uma questo importante, variando apenas de grau.
     A perda da virgindade pode ser vivida como uma experincia sem importncia ou dramatizada ao ponto da ostentao pblica de lenis nupciais manchados de sangue. O sistema patriarcal passou a exigir a virgindade das noivas quando se tornou fundamental persuadir as mulheres de que qualquer relao fora do casamento era pecaminosa. O controle da sexualidade feminina tinha como propsito garantir que o filho daquela unio seria efetivamente produto de ambos os parceiros, alm do fato de que uma virgem era uma mercadoria valiosa.
     Todas as prescries bblicas para proteger a virtude feminina na verdade visavam proteger os direitos de propriedade dos homens em relao s suas esposas e filhos. Um homem que fizesse sexo com uma moa solteira e virgem, se descoberto, deveria ressarcir o pai da moa em dinheiro. Quando havia a exigncia legal de que o homem desposasse a moa, o nico objetivo era proteger a economia masculina. A jovem tornou-se mercadoria sem valor e no seria justo sobrecarregar o pai com ela, e o homem que causou a perda deveria adquiri-la.122
     Se um homem depois de casado descobrir que sua noiva no  mais virgem, as solues oferecidas pela Bblia (Dt 22:13-21) so as seguintes: se os pais da noiva puderem apresentar "os sinais da virgindade da donzela" e "expor o lenol diante dos idosos da cidade", o marido ter de pagar ao pai da noiva 100 sidos de prata e nunca mais poder devolver a esposa a seus pais. Caso contrrio, se a virgindade da noiva no foi satisfatoriamente estabelecida, o marido poder de fato livrar-se dela, pois a lei ordena que "levem a donzela at a porta da casa do seu pai e os homens da cidade devero apedrej-la at que morra".123 Essa lei visava proteger tambm o pai da moa. Uma noiva desonrada no poderia ser revendida, ento, providenciava-se a destruio desse bem, agora economicamente sem valor.
     As atitudes em relao  virgindade variam bastante em cada cultura. Alguns povos usavam na cerimnia de casamento determinado falo com associaes religiosas. A ruptura forada do hmen de uma virgem pelo deus-falo tinha intenes de propiciar a fertilidade. Dessa forma, tambm, o deus possuir todas as virgens, j que homem algum poderia possuir uma virgem. Isso tambm evitava cimes numa comunidade em que a disputa entre os machos era contraproducente. O mtodo selvagem mediante o qual a primeira penetrao era executada causava muita dor e hemorragia, demonstrando a todos a virgindade da menina, honrando sua famlia e o novo marido. O defloramento era completo, e o pnis inicitico era muito grande e manuseado bruscamente. A dilatao preparava para a penetrao, poupando o marido do aborrecido prazer da primeira vez e tambm de qualquer remorso ou queixa por causa do ato. Acreditavam que, assim, a mulher seria sexualmente mais feliz, por nunca poder responsabilizar o marido de t-la machucado ao desvirgin-la.124
     Entre os ndios sioux de Oglala, a virgindade  uma das questes mais importantes, e as jovens devem preserv-la. Como alguns homens rondam as tendas  noite para tentar dormir com as moas da tribo, as mes tentam defend-las com cintos de castidade. Se um deles conseguir tocar-lhe a vagina, a moa  obrigada a oferecer-lhe sua virgindade. Para se protegerem melhor, devem dormir com os ps voltados para o fogo.125
     Nos Estados Unidos, a atitude adotada pelos negros  liberal, mas entre os imigrantes italianos a virgindade das filhas  defendida ferozmente.126
     Esses so apenas alguns exemplos das variadas atitudes e prticas adotadas, mas em todas h algo em comum: "A virgindade feminina  mais digna de nota e mais importante que a masculina. Desse modo, o prazer sexual feminino  mais rigorosamente policiado e mais facilmente controlado." 127
     A represso da sexualidade feminina sempre teve a inteno de bloquear o sexo at o casamento, na medida em que sexo e reproduo, at recentemente, estavam intimamente ligados. Na puberdade, o desejo sexual  to intenso no homem quanto na mulher. O menino  incentivado por todos a ter sua primeira experincia sexual. Precisa provar logo que  macho. A menina, ao contrrio, deve ser atraente e sedutora para os rapazes mas, ao mesmo tempo, manter uma atitude de recato em relao ao sexo.
     Pesquisas indicam que aos poucos esse quadro se transforma e cada vez menos moas casam-se virgens, principalmente em alguns centros urbanos. Mas, de qualquer forma, a virgindade no  to sem importncia nos dias de hoje como se possa pensar. Numa pesquisa com jovens solteiras de 20 anos, numa universidade da Zona Sul do Rio de Janeiro, 36% declararam-se virgens, embora a metade no pretenda se casar assim.128 Apesar desse percentual demonstrar que muitas moas ainda no iniciaram sua vida sexual, houve uma mudana significativa se comparados os dados de outras dcadas. Nos Estados Unidos, no incio dos anos 60, metade das moas casava-se virgem, e nos anos 80, nem 20%.129 Mesmo com as grandes mudanas de comportamento quanto  virgindade, a maioria dos pais, nessa pesquisa, se mostra adepta da dupla moral, quando defende a idia de que os filhos devem ser mais experientes que as filhas.130
     Com todo o liberalismo trazido pela revoluo sexual, a expectativa do prazer no sexo continua a ser mais complicada para as moas do que para os rapazes. Nossa cultura estimula a culpa na menina quando percebe o despertar de seus desejos sexuais. A represso  to grande, embora muitas vezes sutil, que elas se tornam amedrontadas e inseguras. So tantos os conselhos e advertncias, tantas proibies e alertas quanto aos perigos que podem estar envolvidos, que em raros casos o sexo  vivido com tranqilidade e prazer. Apesar de a plula anticoncepcional ter resolvido a questo da gravidez indesejada, muitos rapazes, vtimas tambm da cultura patriarcal, sem saber explicar por qu, declaram preferir moas virgens para um relacionamento duradouro. Surge, ento, o que durante muito tempo ficou camuflado sob a preocupao da legitimidade dos filhos: a insegurana do homem quanto  sua competncia sexual. Temendo a comparao com outros homens, a maioria prefere mulheres inexperientes sexualmente.
     Mesmo as mes que se consideram liberadas e viveram as transformaes da dcada de 1970, no tendo inclusive casado virgens, passam muitas vezes s filhas preconceitos moralizantes quanto ao sexo em um discurso dbio.
     Eleonora, psicloga, de 42 anos, orgulha-se de ser moderna e da intimidade que tem com Tais, sua filha de 18 anos. Quando a jovem comeou um namoro estvel, procurou a me para falar que gostaria de ir a um ginecologista e tomar anticoncepcional.
     
"No tenho nada contra voc ter relaes sexuais com seu namorado, desde que esteja certa de poder assumir essa responsabilidade, de que  um namoro srio, de que tenha certeza que o ama, que ele no a esteja usando, que se o namoro terminar voc no vai ficar mal, que a camisinha no vai furar, que..."
     
     Algum aos 80 anos pode ter tantas certezas? E aos 18? Eleonora no quer que a filha inicie sua vida sexual, mas no percebe isso. Penso, ento, que as mes de 40 anos atrs eram menos prejudiciais nessa rea. No davam duplas mensagens. Tudo era considerado proibido mesmo, e dessa forma facilitavam a opo das jovens quanto  prpria vida sexual. Seus valores eram passados com clareza e, assim, era fcil perceb-los como ultrapassados.
     H tambm pais que no se preocupam em se mostrar sintonizados com a evoluo dos costumes e exigem que a filha chegue virgem ao casamento. Para isso, entregam-se a um policiamento ostensivo de suas atividades sexuais.
     Branca tem 19 anos e  a mais nova de quatro irmos, homens. Todos muito conservadores, fazem coro ao excessivo controle que sua me exerce sobre ela. Namorando Joo h seis meses, iniciou sua vida sexual escondida da famlia e com muito medo. Apesar de nunca ter feito sexo sem camisinha, engravidou. Desesperados, ela e o namorado elaboraram uma sada extrema para no serem descobertos, enquanto tentavam conseguir o dinheiro para o aborto.
     
"S fiz o aborto quando estava quase no terceiro ms. Para que minha me no desconfiasse da ausncia de menstruao, nos dois primeiros meses, durante quatro dias, o farmacutico tirava sangue de Joo que colocava num absorvente que eu jogava na cestinha do banheiro l de casa."
     
     A conexo entre sexo e reproduo consistiu durante um longo perodo no nico meio que as mulheres possuam para convencer os homens a se comprometer num relacionamento. Desfeita essa conexo, algumas moas "tentam recuar para idias e modos de comportamento preexistentes  aceitao do padro duplo, 'sonhos melosos de maturidade', esperanas de amor eterno".131 A maioria, embora rompendo com normas e tabus estabelecidos, adapta-se de forma provisria aos novos ideais possveis. Conscientes de que o romance no pode mais ser vinculado  permanncia, quase todas admitem a importncia da formao profissional para a garantia da autonomia futura. Uma garota entrevistada por Sharon Thompson no final da dcada de 1980, num estudo sobre os valores e comportamento sexual dos adolescentes, declarou: "A minha idia do que quero fazer exatamente agora  abraar uma carreira que eu amo (...) Se eu me casar ou mesmo viver com algum e ele me deixar, no tenho de me preocupar, porque serei totalmente independente." Nesse estudo ficou claro que a diversidade sexual existe juntamente com a persistncia das idias de amor romntico, embora, s vezes, em uma relao inquietante e conflituosa. A mesma garota concluiu: "Desejo o relacionamento ideal com um rapaz. Acho que quero algum que me ame e cuide de mim, tanto quanto eu dele." 132
  
  
Orgasmo
       
       
       
       
     O orgasmo, do grego orgasms, de orgn, ferver de ardor,  definido como o mais alto grau de excitao sexual e, portanto, o prazer fsico mais intenso que um ser humano pode experimentar. Durante longos sculos, a mulher foi privada desse prazer, j que o orgasmo feminino no est vinculado  procriao.
     At meados do sculo XIX, quando o amor ainda no fazia parte do casamento, havia uma regra para a vida do casal. Era o dever conjugal a ser cumprido, principalmente na cama. Caso um dos dois cnjuges recusasse o ato sexual, recorria-se ao confessor, que censurava e podia negar a absolvio e a comunho.133
     Na era vitoriana, h 100 anos, o prazer sexual das mulheres, era inaceitvel. A falta de desejo sexual era um importante aspecto da feminilidade. O ponto de vista oficial da poca foi bem expresso por Lord Acton, que escreveu: "Felizmente para a sociedade, a idia de que a mulher possui sentimentos sexuais pode ser afastada como uma calnia vil."134
     Num compndio para esposas e mes zelosas, escrito em 1840, o conceito vitoriano da funo da mulher  estabelecido com clareza:
     "A funo peculiar da mulher  zelar com paciente assiduidade em torno da cama dos doentes; vigiar os frgeis passos da infncia; informar aos jovens os elementos do conhecimento e abenoar com sorrisos os amigos que se esto consumindo no vale de lgrimas." 135
     O neuropsiquiatra alemo Kraffi-Ebing, estudioso da patologia sexual, encarava a sexualidade como uma espcie de doena repugnante. Sobre as mulheres ele era categrico:
     
"Se ela for normalmente desenvolvida e mentalmente bem criada, seu desejo sexual ser pequeno. Se assim no fosse, o mundo todo se transformaria num prostbulo, e o casamento e a famlia, impossveis. No h dvida de que o homem que evita as mulheres e a mulher que busca os homens so anormais."136
     
     Mais tarde, o orgasmo feminino passou a ser admitido, mas com muita cautela. A mulher que gozava sem amor era tida como ninfomanaca, ao passo que o homem casado que freqentava os bordis era considerado normal.137
     No sculo XX, estudos sobre a sexualidade humana como os de W. Reich (A funo do orgasmo, 1927), Kinsey (Comportamento sexual do homem, 1948) e Masters e Johnson, que em 1950 observaram pela primeira vez os aparelhos genitais masculinos e femininos durante o ato sexual e, em 1966, publicaram A conduta sexual humana, elevaram a sexologia a um ramo legtimo das cincias humanas.
     Agora, a mulher insatisfeita, o homem com problemas de ereo, com ejaculao precoce ou impossvel, vai consultar o sexlogo: "No plano tico, ele coloca e define uma norma simples: o imperativo orgsmico, isto , um contrato sexual recproco do gozo que inaugura uma democracia sexual. No plano tcnico, ele ensina ao paciente a autodisciplina orgsmica." 138
     Masters e Johnson relatam que, na dcada de 50, seus pacientes eram homens preocupados com a impotncia e a ejaculao precoce. A partir da, surge um novo discurso feminino que expressa sua sexualidade e manifesta suas reclamaes. Dos anos 60 em diante, um nmero cada vez maior de mulheres vai consult-los pela dificuldade ou incapacidade de atingir o orgasmo.

A resposta sexual  orgasmo
     
     Masters e Johnson dividiram em quatro fases distintas as reaes fisiolgicas aos estmulos sexuais: fase de excitao, fase de plat, fase de orgasmo e fase final ou de resoluo.139
     
     PRIMEIRA FASE: DE EXCITAO  Essa fase desenvolve-se a partir de qualquer fonte de estmulo fsico ou psquico. Os estmulos que provocam a excitao variam em cada pessoa. Podem ser visuais, olfativos, tteis, lembranas de outros momentos vividos ou um pensamento. Se o estmulo for adequado  necessidade individual, a intensidade da resposta aumenta rapidamente. Se, porventura, o estmulo estiver sujeito a objees fsicas ou psicolgicas, ou se for interrompido, a fase de excitao pode prolongar-se muito ou interromper-se.
     Os estmulos que provocam a excitao chegam a certas regies dos centros cerebrais superiores da resposta sexual, ocasionando diversas reaes corpreas neurolgicas, musculares, endcrinas e vasodilatadoras. Assim, os rgos genitais passam do estado de repouso para o de excitao.
     Na mulher, estando os rgos genitais em estado de repouso, o tero situa-se dentro da cavidade plvica, o clitris escondido no prepcio, a vagina enxuta. Os estmulos sexuais fazem com que esses rgos recebam aumento do fluxo sangneo. O clitris se ingurgita e torna-se sensvel ao toque, as glndulas de Bartholin  localizadas na vagina  liberam sua secreo e os msculos circunvaginais comeam a transudar (suar), lubrificando a vagina e facilitando a penetrao.140 A sensao de umidade que chega aos rgos externos  acompanhada pelo relaxamento desses msculos que circundam a entrada vaginal. Ao mesmo tempo, as mamas aumentam 25% de tamanho, ocorre a ereo dos mamilos, a dilataro das arolas, os grandes lbios se afastam do orifcio vaginal e os pequenos aumentam de tamanho. "A vagina se alarga e se aprofunda e os tecidos perivaginais ingurgitados de sangue e suados formam a chamada plataforma orgstica, ou seja: incio da fase de plat." 141
     Mas nem sempre a excitao ocorre naturalmente. Se a mulher estiver ansiosa ou preocupada, o estado de excitao pode ser de uma intensidade muito baixa ou mesmo no se produzir. Com os msculos tensos e a vagina seca, a introduo do pnis  dolorosa e, em alguns casos, at impossvel.
     No homem, o pnis  um rgo cilndrico, cujos tecidos podem enrijecer-se quando se enchem de sangue. Os corpos cavernosos so duas espcies de cilindro que se estendem do osso pbico at a glande. Normalmente, suas paredes esto quase secas, pregadas uma  outra. Na fase de excitao, o sangue entra nesse tecido e fica retido l dentro. Enquanto isso acontece, a ereo se mantm. Qualquer distrao, mudana de posio ou de estmulo, pode fazer variar a ereo. Quando o sangue flui das veias penianas para o interior do abdmen, ocorre a flacidez.
     Os homens excitam-se principalmente com estmulos visuais e a mulher, com estmulos tteis. Alm dessa diferena, a mulher se excita em geral mais lentamente do que o homem.
     Passos progressivos da excitao sexual:142
     
1.  A viso da pessoa desejada desencadeia estmulos erticos.
2.  Estmulos olfativos: perfumes, odores caractersticos.
3.  Beijos e palavras carinhosas.
4.  A pele da orelha e a audio de palavras carinhosas.
5. Explorao e carcias nas zonas sexuais secundrias (seios, ndegas etc).
6.  Sentido ttil. Leva grande quantidade de estmulos ao crebro.
7.  Centros cerebrais superiores e inferiores. Organizam o sentido e o significado dos estmulos.
8. rgos sexuais primrios: aparelho genital feminino e masculino (lubrificao vaginal e ereo).
      
     SEGUNDA FASE: PLAT  Nessa fase a excitao sexual  intensificada e atinge o nvel mximo. A pele do corpo pode ficar avermelhada, o corao bate mais rpido (os batimentos podem chegar a 120 por minuto), a respirao fica mais intensa e h um aumento da presso sangnea. Para que o orgasmo vaginal acontea,  necessrio que o ponto G seja estimulado nesse momento.
     Para a mulher  importante que essa fase se prolongue, permitindo que o sangue irrigue adequadamente toda a cavidade plvica, onde esto os rgos genitais, propiciando um orgasmo satisfatrio. No homem, os corpos cavernosos e o corpo esponjoso esto cheios de sangue, fazendo com que a ereo seja total, e os testculos dobrem de tamanho.
     A durao da fase de plat depende da combinao entre a eficcia dos estmulos utilizados e a necessidade pessoal de cada um para chegar  excitao mxima. Se os estmulos forem inadequados ou suprimidos, no haver orgasmo e da fase de plat passa-se direto  mas vagarosamente  para a fase final, de resoluo.
     H uma diferena de tempo entre o perodo de excitao do homem e da mulher. Para ele so necessrios apenas 20 a 30cm3 de sangue para encher seus rgos genitais e manter uma boa ereo. A mulher, entretanto, necessita do triplo, pelo menos, para garantir uma excitao constante e uma lubrificao adequada. Esse tempo varia muito e oscila de mulher para mulher, mas geralmente nunca  menor do que 15 ou 20 minutos.143
     O desconhecimento desse fato  responsvel pelo desprazer que muitas mulheres sentem no momento da penetrao, j que no esto suficientemente lubrificadas. Isso,  claro, tambm dificulta o orgasmo. O homem, muitas vezes estando bastante excitado, supe que sua parceira tambm esteja.
     No final da fase de plat produzem-se contraes uterinas e retrao do clitris e da glande. Chega-se, ento, ao orgasmo.
       
     TERCEIRA FASE: ORGASMO  O envolvimento total do corpo na resposta  excitao sexual  experimentado de forma subjetiva pelas pessoas. Existe grande variedade tanto na intensidade quanto na durao da experincia orgstica.  uma fase de muito menor durao que as anteriores, mas de altssimo nvel de prazer. "As sensaes produzidas so de intenso alvio, como libertar-se bruscamente de uma carga de tenso acumulada durante certo tempo. Algo assim como subir lentamente por uma escada a um tobog muito alto e, depois de se sustentar l em cima por um tempo, soltar-se numa queda vertiginosa, carregada de tenso, mas alegre, vigorosa, relaxante."144
     Na mulher, os msculos do aparelho genital contraem-se ritmicamente. Os movimentos na entrada da vagina, nus, uretra e tero podem ser espontneos e ocorrer ao mesmo tempo. Quando as contraes so muito fortes  podem ocorrer a cada 12 segundos ou a cada um ou dois minutos , o muco aglutinado no fundo da vagina pode se liberar junto com a secreo das glndulas de Skene, localizadas na entrada da uretra e responsveis pela ejaculao feminina.145 "As contraes podem ser rtmicas, simultneas e podem ocorrer separadas. s vezes, a mulher pode nem perceber os movimentos ondulatrios do baixo-ventre, como pode tambm contribuir para iniciar voluntariamente as contraes do orgasmo.
     "O controle dessa musculatura vem diminuindo no decorrer dos tempos. As civilizaes mais antigas tinham maior controle sobre esse tipo de musculatura. Basta, porm, que voc contraia o abdmen, o nus e, em seguida, o orifcio vaginal, tentando engolir o pnis com a vagina e, logo aps, expuls-lo. Repita isso vrias vezes. Dessa forma, voc pode 'chamar' o orgasmo e pode aument-lo em durao (o orgasmo feminino dura de 90 a 104 segundos). Nessa fase, quanto maior a frico entre o pnis e a vagina, maior o nvel de excitao e mais facilmente voc chega ao orgasmo." 146
     No homem, iniciam-se as contraes do pnis e dos rgos que conduzem o lquido ejaculatrio at o bulbo uretral. Num segundo momento, ocorre a expulso desse lquido devido s contraes dos msculos perineais e bulbocavernosos. Quando o lquido ejaculatrio est sendo expulso, a uretra do pnis se contrai, assim como o nus e os msculos do assoalho plvico.147 Segundo Masters e Johnson, o orgasmo masculino pode durar at 20 segundos, mas existem exerccios musculares para aumentar esse tempo, assim como para possibilitar que o homem tenha orgasmos mltiplos.
     Geralmente, o orgasmo masculino ocorre simultneo  ejaculao, embora possa existir independentemente dele.
     
     QUARTA FASE: RESOLUO  O homem e a mulher, a partir do ponto culminante do orgasmo, caminham para a fase de resoluo do ciclo sexual. A sensao  de plenitude e bem-estar. A mulher pode entrar nessa fase aps um nico orgasmo ou aps vrios, consecutivos. E tambm pode retornar a uma nova experincia orgsmica a qualquer momento, desde que submetida a novos estmulos. No homem, geralmente existe um perodo refratrio que varia de durao. Sua capacidade fisiolgica para responder  nova estimulao aps a ejaculao  muito mais vagarosa do que a da mulher.

Orgasmo clitoriano e orgasmo vaginal  
uma antiga polmica
     
     Nas teorias que elaborou sobre a sexualidade feminina, Freud acreditava ser o clitris o vestgio de um pnis inferior. Na infncia, seria natural o clitris ser descoberto primeiro como rgo do prazer feminino, por ser mais perceptvel. Mas, no seu desenvolvimento para a vida adulta, a menina deveria transferir seu interesse pelo clitris para a vagina que, por ser um rgo receptor, lhe proporcionaria alcanar a sexualidade madura. Para ele, a atitude feminina normal que a mulher desenvolve para compensar a inveja do pnis  de passividade, submisso e dependncia,
     Karen Horney, a partir de 1924, desafiou as opinies de Freud, admitindo a influncia da cultura  "que naquele tempo obrigava as mulheres a se adaptarem aos desejos dos homens e a encararem essa adaptao como um reflexo de sua verdadeira natureza" , recusando-se a aceitar a anatomia como destino. Ela considerava ser a capacidade da mulher para a maternidade uma prova de sua superioridade fisiolgica  o que era invejado pelos homens  e tambm como evidncia de que a vagina, assim como o clitris, representa um papel na organizao genital infantil das mulheres.148
     A antroploga Margareth Mead, aps estudar os hbitos sexuais das pessoas comuns em dezenas de sociedades, concluiu que "a capacidade para o orgasmo  uma resposta aprendida, que uma determinada cultura pode ou no ajudar as mulheres a desenvolverem".149 Na Nova Guin, os mondugumor, por exemplo, acreditam no orgasmo das mulheres, o que faz com que elas sejam tipicamente orgsmicas. J seus vizinhos arapesh no acreditam. A maioria das mulheres arapesh  anorgsmica.150
     A partir da dcada de 1950, o bilogo Alfred Kinsey estudou os hbitos sexuais em nossa cultura, usando mtodos quantitativos, e a teoria da transferncia clitoriano-vaginal de Freud comeou a ser oficialmente desafiada.
     Kinsey reuniu sete mil de aproximadamente 17 mil casos ou observaes. Numa palestra na Academia de Medicina de Nova York, em 1955, revelou a uma grande platia atnita de ilustres mdicos a ampla variedade de comportamentos sexuais masculinos e femininos, como a masturbao, a homossexualidade, o coito anal e, especialmente, as relaes extraconjugais, praticados em muito maior nmero do que a sociedade desejava admitir publicamente.151 "Como Freud e todos os outros grandes pioneiros, Kinsey cometeu alguns erros. Um deles, que afeta o nosso dilema atual (orgasmo clitoriano versus vaginal), nasceu do seu desejo de ser to cientfico quanto possvel." 152 Numa pesquisa especial do Instituto Kinsey, tentaram determinar quais as reas dos rgos genitais femininos eram mais sensveis ao estmulo sexual. Trs ginecologistas homens e duas mulheres testaram mais de 800 voluntrias, tocando 16 pontos, inclusive o clitris, os grandes e os pequenos lbios, a mucosa vaginal e o colo do tero. Desejando ser impes-soais e cientficos, os experimentadores no quiseram tocar diretamente as pessoas pesquisadas. Foi usado ento um dispositivo semelhante a uma ponte em Q. "Infelizmente, sabemos agora, as reas sensveis da vagina respondem  presso forte, mas no ao toque suave, e assim os pesquisadores de Kinsey concluram, erradamente, que o clitris  sensvel e a vagina, no." 153
     Masters e Johnson, encorajados pelo progresso cientfico do trabalho de Kinsey, decidiram observar, pela primeira vez, o sexo em laboratrio. Devido ao erro de Kinsey, eles admitiram que a capacidade da masturbao at atingir o orgasmo pelo estmulo do clitris era o ponto crucial da resposta sexual feminina normal. "Agora sabemos que eles se esqueceram, ou deixaram passar, as mulheres que funcionam de modo diferente."154 Passaram a defender, ento, que todos os orgasmos femininos envolvem o clitris e so fisiologicamente indistinguveis. Para eles, todos os orgasmos da mulher envolvem o contato com outras partes da abertura da vagina, provocando uma frico entre o clitris e o seu prprio capuz. A mesma frico que ocorre durante a masturbao pode ocorrer durante o coito. Para Freud, o orgasmo clitoriano era imaturo, para Masters e Johson, o nico orgasmo possvel. Em 1977, Alice e Harold Ladas decidiram elaborar e enviar um questionrio annimo para 198 mulheres analistas bioenergticas, com o objetivo de discutir as diferenas tericas que envolviam a importncia do clitris. Acreditavam que assim elas estariam mais livres para responder, j que manter interesse pelo clitris, para elas, era ser imaturo. "A grande concluso dessa pesquisa , pois, desafiar a teoria freudiana da transferncia clitoriano-vaginal. De acordo com o que responderam, as mulheres no prefeririam abandonar o clitris em favor da vagina, mas, pelo contrrio, adicionar a sensibilidade vaginal ao seu desfrute do estmulo clitoriano!" 155
     Em 1980, os resultados desse estudo foram apresentados por Alice Ladas no congresso nacional da Sociedade para o Estudo Cientfico do Sexo, em que demonstrou que os orgasmos no implicam, necessariamente, o clitris e tambm que o orgasmo clitoriano no  imaturo. No mesmo congresso, ela tomou conhecimento pela primeira vez do trabalho de John Perry e Beverly Whipple sobre o ponto G e a ejaculao feminina.

O ponto G
       
     Contrrio tambm  opinio de Masters e Johnson e de muitos outros, de que todos os orgasmos implicam o clitris, foi apresentado o seguinte resultado do estudo de Perry e Beverly no congresso nacional da Sociedade para o Estudo Cientfico do Sexo, em 1980, nos Estados Unidos:156
     
	Existe um lugar dentro da vagina que  extremamente sensvel  presso intensa. Localiza-se na parede anterior da vagina, a cerca de cinco centmetros da entrada. Eles deram a esta regio o nome de ponto de Grfenberg, em homenagem ao dr. Ernst Grfenberg, primeiro mdico da atualidade a descrev-la.

	O ponto foi encontrado em todas as mulheres por eles examinadas. Quando adequadamente estimulado, o ponto G intumesce e leva muitas mulheres ao orgasmo. No momento do orgasmo, muitas mulheres ejaculam pela uretra um lquido quimicamente semelhante ao smen masculino, mas sem conter espermatozides.

	Em conseqncia do estmulo do ponto G, as mulheres, muitas vezes, tm uma srie de orgasmos seguidos. Para muitas mulheres,  difcil estimular adequadamente o ponto G quando deitadas de costas. Nas outras posies, fica mais fcil.

	O emprego do diafragma para controle da natalidade interfere com o estmulo do ponto G, em algumas mulheres.

	Como acham que esto urinando, muitas mulheres se embaraam com a sua ejaculao. Pensando a mesma coisa, seus parceiros muitas vezes as menosprezam, o que  uma das razes pelas quais muitas mulheres aprenderam a reprimir o orgasmo.

	A fora do msculo pubococcgeo de uma mulher est diretamente relacionada com sua capacidade de atingir o orgasmo atravs do coito. As mulheres podem aprender a fortalecer seus msculos pubococcgeos ou a relax-los, se estiverem muito tensos.

	Se os homens aumentarem a fora de seus msculos pubococcgeos, tambm podem aprender a ter orgasmos mltiplos e a separar o orgasmo da ejaculao.

	H vrios tipos de orgasmos nas mulheres e nos homens. Nas mulheres, existe um orgasmo vulvar, desencadeado pelo clitris; um orgasmo uterino, desencadeado pelo coito; um orgasmo que  a combinao dos dois.

	Nos homens, h um orgasmo desencadeado pelo pnis, e outro pela prstata.

     Esses resultados foram apresentados, no sem resistncia de alguns mdicos. O dr. Martin Weisberg, ginecologista no hospital da Universidade Thomas Jefferson, na Filadlfia, respondeu: "Bolas, eu passo metade das minhas horas de viglia examinando, separando, reunindo, removendo ou tornando a arranjar os rgos reprodutores femininos. No existe prstata feminina e as mulheres no ejaculam."157 Horas mais tarde, depois de ter assistido ao filme de Perry e Whipple e de haver examinado uma das mulheres submetidas  pesquisa, ele reconsiderou:
     
     "A vulva e a vagina estavam normais, sem quaisquer massas ou pontos anormais. Tudo estava normal. Ento, ela fez com que seu parceiro a estimulasse inserindo dois dedos na vagina e friccionando-os ao longo da uretra. Para nosso espanto, a regio comeou a intumescer. Finalmente, a regio tornou-se firme numa rea oval de 2 centmetros, distintamente diferente do resto da vagina. Em poucos minutos, a criatura parecia realizar uma manobra de Valsalva (fazendo fora para baixo, como se fosse iniciar uma defecao) e, segundos aps, a uretra expeliu vrios centmetros cbicos de um lquido leitoso. Evidentemente, o material no era urina. Com efeito, se a anlise qumica descrita no artigo est correta, sua composio era muito prxima do fluido prosttico...
     Eu fiquei confuso. Fiz uma checagem com vrios anatomistas que pensaram, todos eles, que eu estava maluco. Mas minhas pacientes no achavam que eu estivesse louco. Algumas me disseram que ejaculavam. Outras conheciam a rea ertica em torno da uretra. E todas que foram para casa com instrues para experimentar, encontraram o ponto de Grfenberg.
     Ainda no tenho uma explicao para isso, mas posso atestar o fato de que o ponto de Grfenberg e a ejaculao feminina existem. Estou certo de que, daqui a alguns anos, um professor da faculdade de medicina far uma piada sobre como s na dcada de 1980 a comunidade mdica aceitou, finalmente, o fato de que as mulheres realmente ejaculam."158
     
     At hoje muitas pessoas, inclusive ginecologistas, ignoram a existncia do ponto G e da ejaculao feminina. Alguns autores atuais afirmam ainda em seus livros que a mulher s pode ter orgasmo com a estimulao do clitris.
     Mas qual a localizao exata do ponto G? Em 1944, o obstetra alemo Ernst Grfenberg descreveu uma "zona de sensao ergena localizada ao longo da superfcie suburetral da parede anterior da vagina". Ladas, Whipple e Perry descrevem detalhadamente como localiz-lo:
     
"O ponto de Grfenberg situa-se diretamente por trs do osso pbico dentro da parte anterior da vagina. Fica geralmente a meio caminho da parede posterior do osso pbico e  frente da crvix, ao longo do curso da uretra (o canal pelo qual voc urina), e perto do colo da bexiga, onde esta se une com a uretra. O tamanho e a localizao exata variam. (Imagine um pequeno relgio dentro da vagina, com as 12 horas apontadas para o umbigo. A maioria das mulheres encontrar o ponto G situado na regio entre 11 e 1 hora) Ao contrrio do clitris, que se projeta do tecido circundante, ele fica profundamente situado na parede vaginal e, muitas vezes  preciso uma presso forte para contatar o ponto G em seu estado de repouso, no estimulado." 159
     
     O estudo e as pesquisas sobre a sexualidade feminina so recentes. Vrias teorias foram criadas afirmando que, no sexo, a funo das mulheres  conceber e procriar filhos, sendo apenas receptoras passivas da atividade sexual masculina. Assim, no devem ter desejo ou reagir como seres sexuais.  provvel, ento, que a resistncia a se admitir o ponto G como algo real e no como um mito (como muitos afirmam) se deva a mais uma tentativa de restringir o prazer da mulher.
      possvel, entretanto, que a maioria dos ginecologistas desconhea o ponto G, porque durante um exame ginecolgico essa rea  apalpada e no estimulada. Como em seu estado de repouso ela  relativamente difcil de ser localizada, passa despercebida.
     Para descobrir se o ponto G existe em todas as mulheres, foram examinadas 400 que se ofereceram como objeto de estudo. O ponto foi encontrado em todas elas. "Embora ainda no possamos afirmar, com certeza, que todas as mulheres o possuem,  agora cada vez maior o nmero de mdicos que informam estar encontrando o ponto G."160
     Quando essa regio  estimulada, as mulheres, geralmente, experimentam uma sensao semelhante a uma necessidade urgente de urinar. Ao toque, o ponto G se apresenta como um pequeno feijo, mas, quando estimulado, comea a intumescer e, muitas vezes, pode ser sentido como um pequeno caroo entre os dedos. Pode crescer at o tamanho de uma moeda.161
     Para muitas mulheres, o orgasmo obtido a partir da estimulao do ponto G  qualitativamente superior ao orgasmo clitoriano.
     Transcrevo a seguir a declarao de algumas mulheres pesquisadas por Whipple e Perry, num estudo de 1982 sobre a reao sexual feminina:162
     
     	Mulher de 35 anos, casada h 14: "Parece incrvel que somente agora isto seja estudado. No h dvida de que  preciso saber se a discriminao contra as mulheres tem algo a ver com isso, historicamente falando.  bem possvel que muito mais pesquisas tivessem sido feitas sobre o assunto, se os pesquisadores, em sua maioria, no fossem homens. E no  pattico que em pleno 1982 ns mulheres estejamos apenas comeando a discutir esse assunto?"
     
     	Jovem de 21 anos de idade falando sobre o seu primeiro e nico amante: "Sim, existe um ponto especial l dentro. Fica na frente e um pouco  direita do centro. Quando ele o toca com o pnis,  muito agradvel e muito mais fcil de alcanar quando estou por cima dele."
     
     	Mulher casada h 33 anos: "Devo dizer-lhe que voc est absolutamente certo quanto ao ponto G. Eu ignorava o nome pelo qual  conhecido, mas, definitivamente, ele est presente. Tenho ouvido muitos especialistas em sexo enganarem as mulheres, levando-as a crer que o estmulo clitoriano leva ao orgasmo   claro que o estmulo  bom , porm, em nada se compara com o verdadeiro orgasmo, que ocorre l no fundo da vagina; se voc conseguir obter os dois ao mesmo tempo, certamente alcanar o xtase."
     
     A posio para o coito tem alguma relao com o estmulo do ponto G, mas a estrutura fsica e a cooperao dos parceiros so extremamente importantes. Grfenberg afirma: "O ngulo que o pnis forma com o corpo tem um significado importante e tem de ser levado em conta. Talvez a fama do 'amante perfeito' se baseie nessas caractersticas fisiolgicas." 163
     
      	Mulher de 42 anos, casada pela segunda vez, confirma esta afirmao: " uma experincia diferente de todas as que eu tive antes. Com Dan, ns podemos nos deitar, olhando um para o outro, e seu pnis alcana aquele ponto dentro de minha vagina que me d uma sensao to maravilhosa e me leva sempre ao orgasmo. Acho que isso se deve  maneira pela qual seu pnis fica quando ereto, encostado de encontro  sua barriga. Com meus outros parceiros, jamais aconteceu isso."
     
     Para alguns casais, o coito com a mulher por cima  a melhor posio para estimular a rea do ponto G. E, nesses casos, para algumas mulheres, um pnis menor  mais eficiente do que um maior.
     
      	Mulher de 30 anos, esposa de um mdico: "Sempre tive orgasmos, mas nunca com intensidade quando o pnis se achava completamente dentro da minha vagina. Na verdade, s vezes minha excitao cessava abruptamente quando o pnis me penetrava completamente. Sempre me senti mais excitvel quando o pnis havia penetrado a metade ou um tero de minha vagina. Agora eu sei por que  naquela regio ele toca 'meu ponto mgico'."
     
     Algumas mulheres relatam sensaes orgsticas durante o parto.  possvel que o ponto G seja estimulado durante a passagem do beb pelo canal vaginal.
     
      	Mulher de 61 anos, casada h 37: "Dei  luz trs filhos, vivos e felizes. No entanto, experimentei algo que realmente me aborreceu. Quando eu estava para ter meu segundo filho, encontrava-me no hospital e o mdico sugeriu que eu fosse ao banheiro. Na privada eu experimentei o mais terrvel dos orgasmos. O sexo estava longe de meus pensamentos. O mdico no deu ateno quando lhe relatei o acontecido ou no acreditou em mim. Sempre encarei esse fato com um sentimento de culpa, e amigas ntimas me diziam que eu estava maluca. Poderia o feto ter feito presso sobre o ponto G?"
       
     O ponto G pode ser de tal forma responsivo, que em algumas situaes cause constrangimentos.
     Cada vez mais perde o sentido a antiga controvrsia orgasmo clitoriano versus orgasmo vaginal. No resta dvida que existem, no mnimo, esses dois tipos de orgasmo. Shere Hite, em seu Relatrio publicado em 1976, no aborda ainda o ponto G, mas aps pesquisa feita com milhares de mulheres conclui a respeito dessa questo: "Seja l como forem interpretadas as sensaes fsicas,  indiscutvel que elas diferem: um orgasmo clitoriano sem relao d sensao de ser mais intenso no local, enquanto um orgasmo no coito d a sensao de ser mais espalhado pela regio ou pelo corpo." 164
     Quem primeiro descreveu o ponto G no foi o ginecologista Ernst Grfenberg, mas um anatomista holands do sculo XVII, Regnier de Graaf. Ele descreveu a mucosa membranosa da uretra em detalhes e escreveu que "a substncia podia ser chamada muito adequadamente de prostatae feminina ou corpus glandulosum (...). A funo da prostatae  gerar um suco pituito-seroso, que torna a mulher mais libidinosa. (...) Aqui tambm deve-se notar que o corrimento da prostatae feminina causa tanto prazer quanto o da prstata masculina".165 Uma das funes da prstata masculina  fabricar parte do fluido seminal (o smen  fornecido pelos testculos). Considerando o ponto G um homlogo da prstata masculina, podemos entender por que o lquido que algumas mulheres expelem no momento do orgasmo  similar ao do homem, sem conter espermatozides, e essa expulso conhecida como ejaculao feminina.166

A ejaculao feminina
     
     A descoberta da ejaculao feminina  ainda mais revolucionria do que a do ponto G. Essa ejaculao ocorre com mais freqncia quando o ponto G  estimulado, provocando orgasmos consecutivos na mulher. O lquido que esguicha da uretra  produzido nas glndulas de Skene, e sua quantidade pode variar de 15 a 200ml. A sensao para o homem  "de uma calda de chocolate quente escorrendo em cima de seus rgos genitais" 167 e, dependendo da quantidade expelida, pode molhar bastante o lenol da cama.
     J em 1926 o mdico Theodore H. Van de Velde publicou um manual sobre o casamento, no qual mencionava que algumas mulheres expelem um lquido durante o orgasmo. Antroplogos relataram rituais de puberdade na tribo batoro de Uganda, frica, onde a ejaculao feminina tem um papel importante num costume chamado kachapati, que significa "aspergir a parede". Nele, a jovem batoro  preparada para o casamento pelas mulheres mais velhas da aldeia, que lhe ensinam como ejacular.168
     Em 1950, Grfenberg descreveu detalhadamente a ejaculao da mulher em relao ao prazer: "Esta expulso convulsiva de fluidos ocorre sempre no apogeu do orgasmo e simultaneamente com ele. Se se tem a oportunidade de observar o orgasmo dessas mulheres, pode-se ver que grandes quantidades de um lquido lmpido e transparente so expelidas em esguichos, no da vulva, mas pela uretra (...). As profusas secrees que saem com o orgasmo no tm um objetivo lubrificador, pois nesse caso seriam produzidas no incio do coito e no no auge do orgasmo." 169
     A partir de 1980, vrios pesquisadores, inclusive o prprio Grfenberg, se dedicaram a examinar os fluidos expelidos pela mulher durante o orgasmo. A anlise qumica estabeleceu a diferena entre os fluidos ejaculados e a urina.
     Embora os primeiros resultados j tenham sido publicados no Journal of Sex Research em fevereiro de 1981, o desconhecimento da ejaculao feminina como conseqncia de um grande prazer sexual continua causando vtimas.
     Tatiana, estudante universitria de 22 anos, vive uma situao difcil desde que terminou com o namorado  o nico homem com quem teve relaes sexuais. Embora saia com outros rapazes, no admite qualquer possibilidade de contato sexual.
     
"Acho que nunca mais vou fazer sexo. Algum tempo depois de comear a transar com meu ex-namorado, descobri que tenho um problema srio. Na hora do orgasmo, urinei na cama e molhei tudo. No sei como aconteceu. Fiquei superconstrangida. Ele ficou desconcertado tambm, mas passou. Quando aconteceu novamente, eu no sabia o que dizer. Preferi terminar tudo, No quero mais passar por isso, de jeito nenhum."
     
     Ladas relata o comentrio de algumas mulheres que entrevistou na sua pesquisa:170
     
     "Moa de 21 anos informou que seu marido se convenceu que ela urinava de propsito sobre ele todas as vezes que tinham relaes sexuais, o que o deixava to zangado que, finalmente, um dia, "ele premeditadamente urinou em cima de mim, deixou-me e entrou com uma ao de divrcio".
     Vrias mulheres buscaram auxlio de mdicos, tentando encontrar uma explicao, mas na maioria dos casos foi intil: "Acontece que eu sou uma dessas mulheres que h anos vm pedindo aos mdicos, e at s mdicas, uma explicao sobre o que est acontecendo comigo. Alguns me disseram que se tratava de uma bexiga atnica. Outros, simplesmente, que certas mulheres tm mais lubrificao do que outras."
     "Depois de passar 20 anos consultando uma poro de mdicos e gastar muitas centenas de dlares  dez mdicos me disseram que eu precisava submeter-me a uma operao para resolver esse problema , agora finalmente sei qual  o meu caso e no vou ficar maluca."
     
     H muito tempo, mulheres so encaminhadas para operao por serem consideradas portadoras de incontinncia urinria de estresse. Mas em 1958 o urologista Bernard Hymel, nos Estados Unidos, j se recusara a oper-las por ter conhecimento do ponto G e da ejaculao feminina. Tentou vrias vezes expor a seus colegas o equvoco de suas avaliaes diagnsticas, mas a maioria o considerou maluco, isolando-o.171
     A represso do prazer sexual  to grande na nossa cultura que somos obrigados a concordar com Reich quando fala na "misria sexual das pessoas".

Orgasmos mltiplos da mulher
     
     No  mito nem tampouco privilgio de algumas mulheres especiais. Toda mulher pode ter essa aptido. O desconhecimento da sexualidade, aliado  falta de autonomia por conta de preconceitos e tabus, impedem que se vivenciem as infinitas possibilidades de prazer sexual. Existe tambm a crena de que, com um nico orgasmo, atinge-se o mximo desejado. As pessoas se do por satisfeitas e no prosseguem na busca de novas sensaes. O orgasmo feminino pode ocorrer no aparelho genital externo, dentro da vagina, no ponto G e, no muito freqentemente, em vrias outras partes do corpo.
     Como conseguir orgasmos mltiplos? Desejo pelo parceiro, liberdade e nenhuma pressa so fatores decisivos para que, no ato sexual, experimentem-se sensaes e emoes intensas.
     No aparelho genital externo, o clitris e os pequenos lbios possuem terminaes nervosas sensveis ao estmulo sexual. Orgasmos consecutivos podem acontecer com a excitao manual ou oral dessas reas, em suas diferentes partes.  necessrio que o homem, conhecendo o corpo feminino, no interrompa seu movimento aps o primeiro orgasmo da mulher. Esta, tambm por desconhecer o prprio corpo, muitas vezes, aps o primeiro gozo, solicita ao parceiro que pare a excitao, alegando estar muito sensvel, confundindo com desprazer outro orgasmo que se aproxima.
     A zona ergena da vagina se situa na metade anterior do canal vaginal. Com o pnis introduzido, a mulher pode atingir quatro, cinco, seis ou mais orgasmos consecutivos, tocando o ponto G. Para isso, o movimento feito pelo homem  da maior importncia.  muito comum que o vaivm do pnis dentro da vagina seja rpido, para a frente e para trs. Assim, dificilmente a mulher ter prazer. Porm, se o movimento do pnis for mais lento, variando a trajetria de forma a tocar toda a parede do canal vaginal, sua parceira poder ter vrios orgasmos. Isso tambm ocorre estando o homem imvel, apenas com a pulsao do seu rgo dentro da vagina e a mulher se movendo lentamente.
     "H casos de mulheres que chegam a ter 36 orgasmos em seguida, mas a mdia  de cinco para a mulher jovem e nove para a mulher madura." 172
     Sofia, mulher divorciada, de 39 anos, h dois anos se encontra quinzenalmente num motel com um homem casado. O sexo sempre foi o ponto alto dessa relao e, embora quase no conversem, a comunicao entre os dois  intensa.  raro ter menos de dois orgasmos com ele. O primeiro, no clitris, quando ele lhe faz carcias orais, e o outro, vaginal, durante a penetrao. Certa vez, entretanto, ocorreu algo que a impressionou e que desconhecia, apesar de j ter tido dezenas de parceiros diferentes:
     
"Eu estava muito excitada e ele, deitado por cima de mim, imvel, me olhando nos olhos. Mas eu podia sentir seu pnis pulsar dentro de mim. De repente, comecei a gozar sem parar. No sei se foram oito, dez ou 15 orgasmos seguidos. Parecia que no ia parar nunca, e eu no conseguia controlar. A, ento, ouvi-o dizer baixinho no meu ouvido: 'Tem uma cachoeira saindo de dentro de voc.' Eu j tinha ouvido falar  de Orgasmos mltiplos e de ejaculao feminina, mas no tinha certeza disso existir. S sei que nunca mais vou esquecer a sensao de leveza que tive depois."

Orgasmos mltiplos do homem
     
     O homem pode ser multiorgstico, isto , ter dois ou mais orgasmos consecutivos sem passar por um perodo refratrio. Mesmo depois do primeiro orgasmo, ele pode manter a ereo e continuar fazendo sexo, alcanando mais um, dois ou trs orgasmos sem descansar. Para isso,  necessrio que ele aprenda a ter orgasmos completos sem ejacular. No havendo ejaculao, no h perodo refratrio e, portanto, no h perda de ereo.
     O orgasmo e a ejaculao do homem so duas coisas distintas. Por ocorrerem juntas, na grande maioria das vezes  sentido como se fossem inseparveis. Existe um centro superior cerebral que controla a ejaculao e outro que controla o orgasmo. O orgasmo mltiplo masculino no  novidade. As culturas orientais, por exemplo, h muito tempo conhecem o orgasmo no-ejaculatrio. No tantrismo, antiga doutrina da ndia, o homem no ejacula, mesmo havendo penetrao na relao sexual. O smen  retido no seu corpo por ser considerado essncia divina. Sua finalidade  circular atravs dos chacras at atingir o crebro e inund-lo dessa energia divina.
     Quando o orgasmo mltiplo masculino foi mencionado pela primeira vez nos Estados Unidos, no final da dcada de 1930, a maioria dos profissionais julgou-o uma anomalia. Mas, em seu livro publicado em 1948, Kinsey relata que alguns homens declararam ter mais de uma ejaculao com a mesma ereo. A partir da, embora mais receptiva a essa idia, a comunidade cientfica acreditou tratar-se de uma capacidade especfica de alguns homens e no considerou possvel um homem tornar-se multiorgstico. Somente a partir da dcada de 1970 comeou a ser aceita a possibilidade de o orgasmo mltiplo masculino poder ser aprendido.173
     Alguns sexlogos divulgam em seus livros exerccios a serem praticados pelos homens que desejam se tornar multiorgsticos. Tudo comea com o aprendizado do controle do msculo pubo-coccgeo. O msculo PC, como  conhecido,  na verdade um grupo de msculos que vai do osso pbico at o cccix.  ele que na ejaculao se contrai, levando o smen atravs do pnis para ser expelido. Como o orgasmo mltiplo masculino depende de um msculo PC forte, a maioria dos exerccios ensinados visa o seu fortalecimento. Barbara Keesling descreve o caso de James:
     
     "Quando James e sua parceira fazem amor, de modo geral ele leva dez minutos ou mais para atingir um orgasmo. Ele comea a relao sexual lentamente e vai deixando sua excitao aumentar. Ento, no instante em que est prestes a ejacular, com um movimento firme, ele se introduz profundamente em Sharon e contrai o msculo que se estende da base do pnis  rea situada atrs dos seus testculos. Isso lhe permite um orgasmo completo  inclusive com aumento rpido de batimentos cardacos, contraes musculares e aquela incrvel sensao de alvio , sem ejaculao. James mantm sua ereo, continua a fazer amor e pode ter mais dois a quatro orgasmos dessa forma. Quando quer parar, ele atinge o orgasmo final e ejacula. James consegue fazer isso porque conseguiu um perfeito controle dos msculos plvicos, que entram em espasmos quando o homem ejacula.174
    
Dificuldades sexuais
       
     As disfunes sexuais podem se localizar nas fases do desejo, da excitao ou do orgasmo da resposta sexual.

Fase do desejo
     
     PRIMEIRA FASE: INIBIO DO DESEJO SEXUAL  Em alguns casos, a falta do desejo faz com que a mulher nunca busque qualquer situao sexual. Mas, mesmo no desejando nem gostando muito, ela pode ter relaes sexuais e ter orgasmo. Ela no nega o sexo, apenas no lhe ocorre procur-lo. Essa inibio absoluta implica que uma mulher pode passar a vida inteira sem vontade de fazer sexo, mas, se acontecer, ela no evita e o faz normalmente.
     Na inibio relativa, a mulher evita as relaes sexuais, mas nada impede que num determinado momento ela as deseje. Se estiver casada ou numa relao estvel,  comum a mulher lanar mo de pretextos para se furtar ao desejo do marido. Geralmente, ela no tem nenhum desejo ou motivao para qualquer atividade sexual.
     As causas dessa disfuno podem ser encontradas numa educao extremamente repressora, que leva a mulher a sentir vergonha ou culpa em relao ao sexo. Um especialista pode tratar essa disfuno com exerccios de sensibilizao, auto-erotismo e com um trabalho psicolgico simultneo.
      comum, entretanto, encontrarmos uma inibio do desejo sexual total ou relativo em mulheres casadas, devido a mgoas, ressentimentos ou pela prpria rotina da vida conjugal. Apesar do carinho e da amizade pelo marido, esses so fatores que podem conduzir  ausncia do desejo sexual. No  raro encontrar uma mulher que, apresentando um quadro de inibio de desejo, evita o sexo com o marido h vrios anos e, ao primeiro encontro com outro homem, vive um sexo intenso e ardente.
     A disfuno do desejo  mais comum nas mulheres, mas os homens tambm podem ser afetados. Para ambos, entretanto, as causas devem ser cuidadosamente investigadas. Entre os fatores orgnicos esto as doenas hormonais, as doenas plvicas infecciosas, alcoolismo, diabetes, uso de anorexgenos, antidepressivos e outras drogas.175
     
     SEGUNDA FASE: EXCESSO DE DESEJO SEXUAL OU HIPEREROSIA  A insaciedade sexual nas mulheres denomina-se ninfomania e caracteriza-se pela busca infindvel de homens, com o objetivo de obter satisfao sexual, porm raramente conseguindo.
     Historicamente, o exemplo clssico de ninfomanaca  a imperatriz romana Messalina. Conhecida por seu comportamento extravagante  alm de ter vrios escravos sexuais, ainda saa pelas tavernas da cidade tentando satisfazer-se  diz-se que jamais conseguiu se saciar. Messalina, a terceira esposa do imperador Cludio, especializou-se em exigir a morte de homens. Em 42 a.C, convenceu o marido a condenar  morte o senador Apio Silano, porque ele resistiu s suas investidas. A partir da, muitos outros senadores foram executados aps serem por ela denunciados.
     Geralmente, devido aos preconceitos, confunde-se a ninfomanaca com a mulher que gosta de sexo e tem relaes sexuais freqentes e com vrios parceiros diferentes, mas encontrando satisfao. So coisas distintas. O termo ninfomania s se aplica aos casos em que se busca obsessivamente a satisfao sexual, nunca a encontrando.
     As causas desse distrbio so psicolgicas, como tenses emocionais, baixa auto-estima, necessidade patolgica de se sentir aceita pela figura masculina, negao do homossexualismo ou necessidade de provar que no  frgida (no alcana prazer no contato ntimo com o homem).176
     No homem, a insaciedade sexual recebe o nome de satirismo ou satirase. So os popularmente conhecidos tarados sexuais. Na mitologia greco-romana, os stiros habitavam os bosques e viviam em torno do deus Dionsio (ou Baco, para os romanos) em orgias regadas a vinho e sexo. O mais famoso era Prapo, possuidor de pnis enorme e sempre ereto, cujos desejos sexuais eram insaciveis.
     Esses homens tambm tentam, numa interminvel busca, encontrar a satisfao sexual. Necessitam provar a si mesmos que continuam potentes, devido a um temor inconsciente da impotncia. Em alguns casos, a negao de uma possvel homossexualidade tambm pode ser a causa da satirase.177
     
Fase de excitao
     
     PRIMEIRA FASE: DISFUNO SEXUAL GERAL  A mulher sente pouco ou nenhum prazer com a estimulao sexual. Pode at ter orgasmo, mas o contato fsico lhe  desagradvel; quer que termine logo. Anteriormente, denominava-se frigidez.
     Muitas dessas mulheres consideram angustiante a experincia sexual, embora varie a importncia dessa averso. As mulheres que sofrem dessa disfuno podem ser divididas em dois grupos:

a)	A mulher que nunca experimentou prazer sexual com nenhum parceiro, em qualquer situao.

b)	A mulher que j respondeu alguma vez  estimulao sexual. Algumas delas no do resposta sexual apenas em situaes especficas. Nesta disfuno situacional, pode acontecer de a mulher sentir raiva ou nusea pela perspectiva da relao sexual com o marido e ficar excitada e lubrificada instantaneamente quando outro homem a quem est tentando seduzir apenas lhe tocar a mo.
     
     Existem mulheres que, para manter o casamento, suportam a situao de no se excitar, distraindo-se com um pensamento qualquer, enquanto usam o corpo para que seu marido possa rapidamente ejacular e terminar logo. Outras procuram desculpas ou provocam uma briga antes da hora de se deitar. Muitos homens aceitam a falta de resposta sexual de suas parceiras como natural, por estarem submetidos  idia de que a mulher no gosta muito de sexo. Mas a maioria deles, nessas situaes, vive uma profunda rejeio. Para aplacar a mgoa do parceiro, a mulher tenta convenc-lo de que no sente desejo por ningum, que o problema no  com ele.  importante a mulher perceber se seu desinteresse  somente em relao ao marido ou a qualquer outro homem. Se for uma disfuno primria, independentemente da situao,  indicada uma terapia sexual. Caso contrrio, o casal deve avaliar a prpria relao. Podem ocorrer nessa fase o vaginismo e a dispareunia, problemas relacionados  disfuno sexual geral.
     
     SECUNDA FASE: VAGINISMO E DISPAREUNIA  Os rgos genitais da mulher com vaginismo so anatomicamente normais, mas a contrao involuntria da musculatura da entrada da vagina e os msculos do nus impedem totalmente a introduo do pnis e at de um dedo. Na maioria das vezes, os exames ginecolgicos precisam ser feitos sob anestesia. O vaginismo atinge 4% da populao feminina. Se ao tentar a penetrao a mulher sentir fortes dores, trata-se de dispareunia. A mulher pode chegar ao orgasmo com a estimulao do clitris, mas afasta qualquer possibilidade de penetrao vaginal.
     "A mulher com vaginismo, normalmente, tem medo do pnis, repugnncia e desconhecimento dos prprios rgos genitais, e o espasmo involuntrio do esfncter vaginal  apenas uma defesa."178
     A afeco pode ter origem orgnica: tricomonas, fibroma, quisto de ovrio, infeco do aparelho genital; mas at nesses casos o fator psquico est presente.
     
     TERCEIRA FASE: DISFUNO ERTIL (IMPOTNCIA)  A impotncia  a incapacidade do homem para realizar a relao sexual de modo satisfatrio, apresentando dificuldades em obter ou manter a ereo rgida do pnis. Nossa sociedade patriarcal associa equivocadamente virilidade com ereo do pnis, alm de impor ao homem estar sempre pronto para o sexo e nunca falhar.
     "O homem, com freqncia, dirige-se ao ato sexual na qualidade de 'macho'. Vai confirmar que  macho. E isso na medida da ereo. Quanto melhor a ereo, mais macho ele . (...) O homem pode avaliar pela rigidez do pnis  e pelo tempo que ela se mantm  sua juventude, sua segurana interna, a sensao de dever cumprido. A ereo  o centro de gravidade do seu ser. (...) A ausncia de ereo precipita o macho no nada sartreano. Uma angstia impossvel de expressar em palavras o invade, e um medo ancestral, que vem l do fundo de sua histria filogentica, o assalta como a gua que rompe um dique. Para o homem, o smbolo da masculinidade e do seu ser no  o pnis, e, sim, o pnis ereto. Nenhum homem pode-se conceber como tal quando a ereo falha, pois para ele a ereo  sua essncia, assim como a gua  para o rio, que, ao secar, deixa de ser rio." 179
     O maior problema da impotncia  que ela no pode ser escondida.  diferente na mulher que, mesmo sem desejo, pode realizar o ato sexual e at fingir. Para o homem, a falta do que ele acredita ser a prpria essncia da sua virilidade faz desmoronar sua auto-imagem, afetando profundamente sua vida psquica.
     Geralmente, quando falha a ereo, o homem no quer conversar com a parceira. Muitas vezes, a mulher deseja encarar o fato com naturalidade e recomear as carcias amorosas. Mas o homem, no. Ele quer se curar sozinho. "Neste momento, deseja desaparecer magicamente e voltar montado no pnis ereto, como cavaleiro ressuscitado do apocalipse vivido." 180
     O pavor de novo fracasso pode criar um crculo vicioso. Se um homem fica ansioso durante o ato sexual, so liberadas substncias como a adrenalina, afetando o funcionamento do seu sistema nervoso autnomo. Isso leva  contrao dos vasos sangneos, impedindo o fluxo de sangue para o pnis, o que torna difcil obter ou manter a ereo. A preocupao com o desempenho acaba, ento, ocasionando a impotncia ou at mesmo fazendo o homem desistir antes do tempo, antecipando essa possibilidade.
     
     Vera conheceu Lus Mauro e logo iniciaram uma relao amorosa. Na primeira semana de namoro, ele a convidou para jantar em sua casa. O clima no podia ser mais romntico. Vinho, velas na mesa e msica suave. Aps algumas horas, beijavam-se no tapete da sala com paixo; Lus Mauro deitado sobre o corpo de Vera. De repente, ele levantou-se bruscamente, dizendo: " melhor pararmos por aqui." Desconcertada, Vera nada entendeu, j que estavam ambos bastante excitados.
     
"Da em diante, ficou impossvel continuarmos namorando. Ele no encostava mais em mim. Passados alguns meses, nos reencontramos e ficamos bem amigos, quando eu j estava namorando outra pessoa. S ento descobri o que aconteceu naquela noite. Ele me contou que tinha tanto medo de broxar, ficava to ansioso, que no conseguia nem arriscar, j temendo o fracasso."
     
     As dificuldades de ereo podem ocorrer em homens de todas as idades. Pelo menos a metade dos homens j experimentou episdios ocasionais e transitrios de impotncia e considera-se que estejam dentro dos limites do comportamento sexual normal.
     A impotncia pode ser devido a fatores fsicos ou psicolgicos. A impotncia psicognica pode estar associada  perda geral da libido e  dificuldade ejaculatria, mas a patologia essencial  a falha do reflexo ertil. O mecanismo de reflexo vascular deixa de bombear sangue suficiente nos corpos cavernosos do pnis para torn-lo firme e ereto. O homem impotente, embora capaz de sentir-se estimulado e excitado numa situao sexual e querer fazer amor, no fica com o pnis ereto. Como os reflexos erteis e ejaculatrios so dissociveis, alguns homens impotentes so capazes de ejacular, apesar do seu pnis flcido.
     Helen Kaplan descreve as variaes do padro da impotncia, visto que a situao sexual que gera a ansiedade  diferente em cada homem.181
     
"Alguns homens no conseguem ereo durante as carcias preliminares; outros atingem-na facilmente, mas perdem-na depois, e o pnis fica flcido no momento da introduo ou durante a relao sexual. Outros homens so impotentes aps a penetrao, mas so capazes de manter a ereo durante a manipulao ou a prtica do sexo oral. Alguns podem ter ereo enquanto vestidos, mas a perdem logo que ficam nus; outros ficam excitados e tm erees durante as carcias preliminares, quando sabem que o coito no  possvel, mas no mantm a ereo se sabem que a relao sexual  possvel e esperada. Alguns podem ter ereo se a mulher dominar a situao sexual, enquanto outros tomam-se impotentes se a parceira tenta assumir o controle. Outros ainda so capazes de erees parciais, mas no podem conseguir erees firmes, enquanto alguns sofrem de impotncia 'total', isto , no podem ter nem mesmo ereo parcial com parceira alguma, em qualquer circunstncia. Outros sofrem de impotncia puramente situacional e experimentam dificuldades erteis apenas em circunstncias especficas. Por exemplo, podem no ter dificuldades erteis num encontro casual, mas ser impotentes com a prpria esposa. Do outro lado, o que no  raro, um homem  impotente com a amante de quem est enamorado ou com qualquer outra mulher atraente, mas  capaz de funcionar bem com a esposa, que ele acha idiota e feia."
     
     Antenor, qumico industrial, de 31 anos, est casado h trs anos. No incio da relao com a esposa, com quem tinha uma vida sexual intensa e satisfatria, nunca pensou em procurar outra mulher. Mas, de alguns meses para c, comeou a sentir desejo de variar um pouco e de viver outras experincias. Apesar do medo de ser descoberto, tomou coragem e foi para um motel com Clara, colega de trabalho, por quem sempre teve atrao.
     
"Foi uma tragdia. Tenho o maior teso por ela e estava excitado. Mas, na hora H, nada. Ficamos na cama e eu no consegui a mnima ereo. Nunca falhei antes. Com a minha mulher, j cheguei a transar at trs vezes numa noite. No podia ficar com isso atravessado na garganta. Convidei Clara novamente para sair. No teve jeito. Broxei em grande estilo novamente."
     
     Plnio, empresrio, de 52 anos, est casado h 24. Cerca de oito anos atrs, ficou impotente. No conseguia ter ereo com a esposa. Desesperado, temendo ter perdido a virilidade, procurou outra mulher para se certificar se era mesmo impotncia. Surpreso, descobriu que no tinha dificuldade alguma de ereo, que tudo no passava da sua falta de desejo pela mulher com quem vivia h tanto tempo. A partir da, intensificou sua vida sexual fora de casa e aproveitou a oportunidade para convencer a esposa que sua impotncia era irreversvel. Continuam casados, mas ela, compreensiva, no o solicita mais para o sexo.
     Dependendo do padro particular da disfuno ertil, podemos ter duas categorias clnicas:
     
1.	Homens que sofrem de impotncia primria, isto , nunca foram potentes com uma mulher, embora possam ter erees com a masturbao e erees espontneas em outras situaes.
2.	Homens com impotncia secundria, que funcionaram bem durante algum tempo, at o desenvolvimento da disfuno ertil.182
     
     As causas da impotncia podem ser:
     
a)	De origem orgnica  endcrinas: diabetes; vasculares: arteriosclerose e obstrues traumticas; neurolgicas: leses cerebrais, medulares ou do sistema nervoso central; urolgicas: leses congnitas do pnis; farmacolgicas: drogas, lcool, tabaco e alguns medicamentos.

b)	De origem psicolgica  medo do fracasso; ansiedade, preocupao com o prprio desempenho sexual; sentimento de culpa; insegurana sexual; ejaculao precoce prvia; preocupaes (com a vida conjugal, trabalho ou filhos); traumas infantis ou adolescentes; diminuio do desejo sexual etc.
     
     Como a impotncia tem diversas causas,  importante uma avaliao cuidadosa para a indicao de um tratamento adequado: mdico, psicoterpico ou terapia sexual.

Fase de orgasmo
     
     PRIMEIRA FASE: FALTA DE ORGASMO  A impossibilidade total ou parcial de atingir o orgasmo denomina-se anorgasmia e  a mais freqente das disfunes sexuais femininas. As estatsticas americanas apontam que h apenas 25% de mulheres orgsticas e 75% de mulheres que apresentam algum tipo de dificuldade em alcanar o orgasmo, e no Brasil as pesquisas do informaes semelhantes.
     Todas as mulheres so capazes de ter orgasmo, a no ser que estejam sofrendo de alguma doena neurolgica, endocrinolgica ou ginecolgica, que tenha destrudo a base fsica do orgasmo, mas isso  muito raro. A maioria das causas  psicolgica; entretanto,  importante que se faa uma avaliao com um especialista em sexologia para indicar a terapia adequada.
     "Paradoxalmente, tem sido nossa experincia, em geral, que as formas mais severas de inibio orgsmica so mais facilmente influenciadas pela terapia do sexo do que as benignas. Assim, nunca falhamos ao ajudar uma paciente que sofre de disfuno orgsmica absoluta (que nunca, em toda a sua vida, havia experimentado um orgasmo, apesar da estimulao adequada) a atingir orgasmo por quaisquer meios. Tambm raramente falhamos ao diminuir o nvel de estmulo necessrio para o disparo orgsmico, a fim de que a mulher possa ter orgasmo mais facilmente do que antes do tratamento. Entretanto, temos tido sucesso mais limitado, dentro da forma do tratamento breve, para facilitar o orgasmo no coito de mulheres que, de qualquer outra forma, so sexualmente responsivas." 183
     Nos dias de hoje, as mulheres reivindicam o direito ao prazer sexual e se sentem frustradas se no atingem o orgasmo numa relao. Algumas, entretanto, tendem a negar a importncia do orgasmo, esforando-se para adaptar-se a essa disfuno, usufruindo apenas dos aspectos no orgsmicos da relao. Mas, ao serem repetidamente frustradas durante algum tempo, acabam ficando pouco a pouco desinteressadas de sexo.
     "Em alguns casos, a compreensvel angstia da mulher pela sua incapacidade de atingir o orgasmo e a antecipao do fracasso, quando comea a fazer amor, podem ocasionar-lhe perturbao suficiente para dar origem a uma frigidez secundria ou ausncia geral de responsividade, que no poder ser completamente restaurada, a menos que ela aprenda a libertar seu reflexo orgsmico inibido." 184
     Os preconceitos e tabus quanto ao sexo fazem com que muitas mulheres fiquem tensas, no se sentindo livres para participar ativamente do ato sexual, descobrindo suas reas mais sensveis, as posies que lhe do mais prazer e comunicando isso ao parceiro.
     Entre os fatores psicolgicos que podem inibir o orgasmo, podem-se relacionar os seguintes: o sentido simblico do orgasmo; a mulher ser atemorizada pela sua intensidade; ou conflitos inconscientes evocados pelas sensaes erticas. Sentimentos de culpa em relao  sexualidade, hostilidade inconsciente ao parceiro, temor de ser abandonada podem contribuir para estabelecer o supercontrole involuntrio do reflexo orgsmico que gera a disfuno orgsmica. "Nas mulheres anorgsmicas  muito freqente o medo de perder o controle sobre as sensaes e o comportamento; os mecanismos simultneos de defesa da 'conteno' e supercontrole so provavelmente cruciais na patognese desta desordem." 185
     O medo de se entregar s sensaes pode fazer com que a mulher fique alerta, controlando tudo, mesmo sem perceber. A excitao, assim, s chega at certo ponto, no atingindo a fase de plat, que  o nvel de excitao mximo necessrio para desencadear o orgasmo.
     Mas os homens no tm nada a ver com o orgasmo da mulher? Tm, e muito. A maioria deles ainda est presa ao mito da masculinidade e vai para o ato sexual para cumprir uma misso: provar que  macho. Mas o medo de falhar, do pnis no se manter ereto,  grande. A ocorre o desencontro. Para a mulher  fundamental que a fase do plat  que antecede a fase do orgasmo  se prolongue ao mximo para que seus rgos genitais sejam irrigados com bastante sangue, proporcionando um alto nvel de excitao. O homem  por desconhecimento ou por ansiedade , quando seu pnis fica ereto, parte para a penetrao, supondo estar a mulher to excitada quanto ele. S que ela ainda no est suficientemente lubrificada e, portanto, no est pronta nem para a penetrao nem para o orgasmo.
     Elza, mulher divorciada, de 32 anos, namora Wagner h trs anos. Por ele ser casado, encontram-se uma vez por semana, quando vo a um motel. H muito amor entre eles e uma grande atrao fsica. Entretanto, uma atitude de Wagner a intriga:
     
"No consigo entender. Vamos no carro de mos dadas, no maior carinho. Quando ele estaciona dentro da garagem individual do motel e comeamos a subir a escadinha que leva ao quarto, ele se transforma. Me agarra, arranca minha cala, s vezes at rasga, e me penetra ali mesmo na escada. Sempre levo um susto.  pssimo, no estou ainda excitada e  at doloroso. Mas, depois que ele goza, fica timo. A noite toda  maravilhosa. Transamos outras vezes, com muita calma, tomamos vinho e conversamos muito. A, eu o reconheo."
     
     Alguns homens precisam se afirmar como machos para depois se sentir transformados em homens e se dispor a participar com a mulher da troca recproca de prazeres erticos. Em outros casos, a mulher est bastante excitada, mas mesmo assim no consegue ter orgasmo. Quando o homem penetra a mulher, parece haver uma certa pressa em ejacular logo. "Desde o incio da introduo do pnis na vagina, o ato vai se centrando num esforo cada vez mais espasmdico e convulsivo para livrar-se de, para expulsar (o esperma)."186 Se a freqncia do vaivm do pnis dentro da vagina  rpida, se a profundidade da penetrao  grande, se o ritmo  o mesmo, se o vaivm tem a mesma trajetria (ida e volta sempre com a mesma forma) e se a ateno se concentra nos genitais, o homem em pouco tempo ejacula, mas a mulher dificilmente chega ao orgasmo. Ao contrrio, se o movimento depois da penetrao for mais lento e circular, de forma a tocar toda a parede do canal vaginal e pressionar o ponto G, a mulher atingir o orgasmo mais facilmente.
     Por ser muito grande o nmero de mulheres que apresenta dificuldade de orgasmo, alguns homens procuram ler no olhar da parceira a prova de que conseguiram proporcionar-lhe prazer. Mas muitas mulheres preferem no encarar o problema e enganam-se e aos parceiros. Cerca de 35% das mulheres fingem sistematicamente ter orgasmos. As razes so distintas. H casos em que, temendo ser considerada fria ou decepcionar o parceiro, ela no encontra outra sada.
     Mary tem 24 anos e est casada h dois. Sente-se decepcionada com a vida sexual no casamento, mas no sabe o que fazer. Para o marido, segundo afirma, o sexo  muito rpido; no lhe faz carcias preliminares  no mximo acaricia seu clitris com certa fora que, alm de no excit-la, causa desconforto e, s vezes, at dor antes da penetrao. J tentou conversar e pedir a ele que faa diferente, mas ele se zangou alegando que  o homem da relao e, portanto, detesta ser conduzido. No incio, Mary no fingia ter orgasmo. Isso irritava o marido que, sentindo-se ultrajado na sua virilidade, contava-lhe sobre outras mulheres que teve e que se sentiam plenamente satisfeitas.
     
"Acabei me convencendo de que o problema  meu. Fiquei com medo de ele se desinteressar de fazer sexo comigo e procurar as antigas namoradas que tinham orgasmos. Comecei a fingir. Ele no percebe e j me conformei com isso."
     
     Existem tambm mulheres que fingem o orgasmo porque no sentem teso pelo marido e desejam que o ato sexual seja o mais curto possvel. Ao v-las gozar, o marido se v liberado para buscar logo o seu prazer.
     Sara casou-se com Miguel quando os dois tinham 20 anos e eram bastante inexperientes. Esto juntos h sete anos e, durante esse tempo, ela nunca teve orgasmo com ele. Entretanto, desde as primeiras vezes, fingiu orgasmos mltiplos, levando-o a acreditar tratar-se de uma mulher extremamente ardente, necessitando mais de sexo do que a maioria. A partir da, no passou um dia em que Miguel no a procurasse sexualmente. Podia estar cansado, gripado ou mesmo com febre, no admitia deix-la insatisfeita.
     Por outro lado, no tendo desejo algum pelo marido, Sara, com freqncia, fingia estar dormindo ou com uma forte dor de cabea. Mas no adiantava recusar, Miguel insistia em cumprir o seu papel. No tendo mais como reverter esse quadro que j se tornara crnico  a no ser que contasse toda a verdade , Sara passou a fingir cada vez mais rpido.
     
"So sete anos de uma farsa tragicmica. J fiz at as contas. Devo ter fingido aproximadamente 2.608 Orgasmos. A coisa est num nvel que, para acabar logo, mal ele encosta o pnis na minha vagina, comeo a gozar. Mas agora no d mais. Vou ter que fazer alguma coisa. H trs semanas transei com outro homem pela primeira vez desde que casei. Voc acredita que no primeiro encontro gozei de verdade, e muito?"
     
     Shere Hite, em sua pesquisa, constatou que as mulheres que nunca gozaram sentem-se com freqncia deprimidas ou lesadas por saber que esto perdendo um grande prazer. Algumas dessas mulheres que gostariam de um dia ter essa experincia declararam:187
     
"Faria meu amante feliz. Eu, realmente, nunca quero um orgasmo at o momento em que ele pensa em desistir. Os orgasmos so um grande mito para mim. Que  orgasmo?"
     
"Para mim, ter orgasmos  um alvo inatingvel, convenientemente artificial. Acho que o orgasmo relaxaria as minhas tenses  especialmente as sexuais. Sinto que o orgasmo  uma realizao. Sinto que  necessrio que eu os tenha. s vezes, eu os simulo, ficando to envolvida que quase chego a pensar que eles esto realmente acontecendo."
     
"Os orgasmos me escapam, por mais que eu tente, e Deus sabe o quanto eu tentei. Curto chegar at onde chego, mas juro por Deus que, antes de morrer, vou gozar pelo menos uma vez, nem que seja aos 85 anos!"
       
"Eu no gosto mais de sexo realmente porque estou obcecada com a possibilidade de ter um orgasmo e desapontada pela milionsima vez por no conseguir."
       
"Ainda no consegui gozar, portanto, quando termino uma relao sexual, ela geralmente fica meio deteriorada. Fico muito excitada e me sinto muito bem quando meu parceiro goza, mas, mesmo assim, sinto-me muito deprimida, mal-amada e com vontade de chorar  s vezes eu choro.  difcil descrever o quanto isso me faz sentir mal, ignorada e completamente s."
       
     Hite e a maioria dos estudiosos da sexualidade afirmam que o melhor jeito de uma mulher aprender a gozar  com a masturbao.
     No seu Relatrio, a porcentagem de mulheres que nunca gozaram  cinco vezes maior entre aquelas que nunca se masturbaram. "Naturalmente, isso pode significar apenas que, se elas se sentissem bastante livres para se tocar, tambm seriam livres o bastante para se masturbar, aprendendo assim o orgasmo. Se uma mulher nunca se masturbou porque sente averso peta idia e, mesmo assim, recusa-se a tentar pelas mesmas razes, o 'tratamento' ento seria faz-la superar esses sentimentos." 188
       
     SEGUNDA FASE: EJACULAO PRECOCE  Essa  a mais comum das disfunes sexuais masculinas. Nela, o homem  incapaz de exercer controle sobre seu reflexo ejaculatrio. Quando excitado, atinge o orgasmo rapidamente. Qual o tempo de resposta orgsmica que define um homem como ejaculador precoce? Um autor definiu a ejaculao precoce como a ocorrncia do orgasmo 30 segundos depois da introduo do pnis na vagina; um clnico prolongou esse critrio para um minuto e meio; outro, para dois minutos, enquanto um terceiro considera ejaculao precoce quando o orgasmo ocorre antes de dez impulsos. Para Masters e Johnson, trata-se dessa disfuno se o homem atingir o orgasmo antes que sua parceira tambm o faa em mais de 50% do tempo.189
     Alguns desses homens ejaculam logo que iniciam as carcias, ou simplesmente ao ver a parceira se despindo. Muitos ejaculam antes ou imediatamente depois de introduzir o pnis na vagina da mulher, mas outros so capazes de alguns impulsos antes de atingir o orgasmo. Entretanto, "a prematuridade no pode ser definida em termos quantitativos porque a patologia essencial nessa condio no est na verdade relacionada ao tempo".190 O que importa na ejaculao precoce no  que ocorra em dois ou cinco minutos, ou aps cinco ou oito impulsos, ou, ainda, antes que a mulher atinja o orgasmo. O aspecto fundamental  a ausncia de controle voluntrio sobre o reflexo ejaculatrio. Por alguma razo, o ejaculador prematuro nunca aprendeu a focalizar sua ateno nas sensaes que anunciam o orgasmo e, por isso, no adquiriu o controle voluntrio adequado. O orgasmo ocorre como um reflexo quando o homem atinge um nvel intenso de excitao sexual. Considera-se que o controle ejaculatrio est estabelecido quando o homem pode tolerar os elevados nveis de excitao da fase de plat sem ejacular como reflexo. A capacidade do homem de controlar sua ejaculao  precondio para uma relao sexual mais plena para ele e sua parceira. "Na melhor das hipteses, a prematuridade restringe a sexualidade do casal e, na pior,  altamente destrutiva."191
     Na nossa sociedade patriarcal, alguns homens negam que essa condio prejudique seu prazer sexual potencial e de sua parceira. Podem at considerar normal ou desejvel seu funcionamento rpido, utilizando-o como testemunho de sua masculinidade. No jovem, por exemplo, como a premncia para o alvio orgsmico  intensa, ele pode no ser motivado a tentar retardar a ejaculao. Alm disso, a primeira prtica sexual de um adolescente  a masturbao feita escondida, perseguida pela culpa e com medo de que algum descubra. Ento, quase todos eles tentam alcanar o orgasmo o mais rpido possvel. Quando um grupo de meninos se masturba em conjunto, o vencedor  o que ejacula primeiro.192
     Na primeira experincia sexual, o impulso em direo ao desempenho rpido se repete. "Tipicamente, a primeira relao sexual de um rapaz pode acontecer no banco de trs de um automvel, de um jeito apressado, no planejado, ou num sof, na casa da garota, com medo de que os pais dela possam voltar a qualquer momento, ou com uma prostituta que faz presso para que o homem acabe rpido para que ela possa atender a outros fregueses." 193 Essas experincias iniciais podem imprimir uma associao ntima entre alta excitao e alta ansiedade. A ejaculao precoce seria o resultado dessa associao. Entretanto, a maioria dos homens que sofre dessa disfuno sente um fracasso sexual e fica angustiada.
     O tratamento da ejaculao precoce inclui exerccios destinados a aumentar a capacidade de controlar a intensidade da estimulao. "Os mtodos que focalizam repetidamente a ateno do homem nas sensaes que precedem o orgasmo so rpida e intensamente eficientes para conseguir a continncia ejacula-tria." 194 H exerccios que devem ser feitos com a colaborao da parceira, como o da tcnica de compresso, e outros que o homem faz sozinho, durante a masturbao. No mtodo pare-reinicie, o homem se estimula at sentir que se aproxima o ponto de inevitabilidade ejaculatria. Pra, ento, o estmulo e permite que a excitao prossiga. Isso  repetido duas ou trs vezes at, por fim, ejacular. Dessa forma, a conexo entre os graus elevados de excitao e ansiedade pode ser rompida.
       
     TERCEIRA FASE: EJACULAO RETARDADA   uma inibio especfica do reflexo ejaculatrio. Um homem com essa disfuno responde aos estmulos sexuais com sensaes erticas e uma ereo firme. Contudo,  incapaz de ejacular, embora deseje o alvio orgsmico e mesmo que a estimulao que ele receba seja mais do que suficiente para disparar o reflexo orgsmico.
     O grau de gravidade da ejaculao retardada pode variar de uma inibio ocasional da ejaculao at o ponto de uma inibio de tal ordem que o homem jamais experimentou um orgasmo em toda a vida. O mais comum  o homem no ser capaz de atingir o orgasmo durante o coito, apesar de todos os esforos para consegui-lo. Muitas vezes, ele prolonga ao mximo  at uma hora de durao , bebe, lana mo de fantasias, mas nada resolve. Entretanto, com freqncia ejaculam sem dificuldade com a estimulao manual ou oral pela parceira. Muitos se empenham em proporcionar prazer  parceira, mas s atingem o orgasmo se retirarem o pnis e se masturbarem. Em alguns casos, o homem no consegue se masturbar na presena da mulher e se retirar para outro cmodo a fim de obter alvio da tenso sexual.195
     Como a mulher demora mais tempo que o homem para atingir o orgasmo, muitos supem que essa disfuno seja benfica para ela. Mas o que ocorre  o contrrio. A maioria das mulheres se sente mal ou porque vive como uma rejeio a elas ou porque, no plano mais objetivo, o excessivo prolongamento do ato sexual, com impulsos constantes, leva ao cansao e ao desprazer.
     Da mesma forma que no  raro mulheres anorgsmicas simularem orgasmo, alguns homens, depois de uma longa tentativa, fingem ejacular e esperam a parceira dormir para se masturbarem em segredo.
     Os terapeutas sexuais empregam uma combinao integrada de tcnicas psicoteraputicas associadas a experincias sexuais especificamente estruturadas para tratar do ejaculador retardado. Masters e Johnson informam haver obtido a cura de dez pacientes dos 17 que trataram.196

Prticas sexuais

     Agora vamos abordar comportamentos sexuais assumidos largamente por homens e mulheres, mas que, por no levarem  procriao, j foram objeto de severas punies e, ainda hoje, so vistos com preconceitos e tabus. Uma atividade sexual  considerada normal ou no dependendo exclusivamente da poca e do meio sociocultural em que  praticada.
     No Ocidente, desde o advento do cristianismo, a posio mais aceita para o ato sexual, considerada mesmo como universal e correta para o coito humano,  quando a mulher fica deitada de costas, o homem por cima e a penetrao  vaginal, hoje vulgarmente chamada de "papai e mame". Em nossa cultura, o que foge desse estilo  considerado desvio ou, na melhor das hipteses, variao do comportamento sexual.
     Quando as terras da Oceania foram descobertas, os habitantes das ilhas passaram a denomin-la posio de missionrio, j que a posio natural para eles era o homem por trs, com a mulher de joelhos, apoiada nas mos.197
     Como prticas sexuais no convencionais, as mais comuns so a masturbao, o sexo oral e o sexo anal.


Masturbao
     
     "Pai para o filho, ao descobri-lo se masturbando:
      Pare com isso! No sabe que a masturbao pode fazer voc ficar cego?
     Resposta do filho:
      Puxa, papai... Ser que no posso continuar s at ficar mope?"198
     
     Lionel Tiger era um adolescente criado na severa comunidade judaica na dcada de 1950 em Quebec, Canad, com estrito controle religioso, um prestigiado esquadro de moral e bons costumes e sem muito lugar para o prazer. Certa noite, na casa de parentes de cujos filhos cuidava na ausncia dos pais, resolveu masturbar-se pela primeira vez:
     
     "Era portanto muito difcil para um menino, este menino que vos fala, descobrir as misteriosas possibilidades do corpo. Nem mesmo os jovens mais empenhados na investigao do assunto podiam valer-se de manuais de instruo ou experincia em sala de aula ou no laboratrio escolar. Eu sabia por confusa experincia que o pnis ficava ereto e que era bom demais manipul-lo. Conhecia seu papel na reproduo, embora em termos de macroteoria. Minha principal pista quanto  empreitada que contemplava era o linguajar chulo dos colegas, especialmente numa senha das mais explcitas: 'Tocar punheta'. Qualquer simplrio seria capaz de adot-la como guia de ao. Resolvi, ento, tocar uma punheta. Mas quando? E se desmaiasse? E se meu rosto ficasse vermelho durante horas? E se meu rgo sexual me impedisse de despedir-me decentemente dos primos, e eu ainda estivesse ofegante e bufando? E se no conseguisse atender s crianas sob meus cuidados, quando precisassem de ajuda? O principal era escolher o momento certo. Esperei que os bebs cassem em sono profundo, sem nenhum sinal de queixa ou qualquer manifestao consciente durante quase urna hora. Calculei, ento, a metade do tempo que faltava dali at a hora que meus 'patres' deviam voltar. Seria aquele o meu momento!
     "Mas, onde? Dependia do que ia acontecer, e isto eu no sabia. Tinha praticamente certeza de que expeliria um fluido. Mas em que quantidade? E se deixasse minha roupa escandalosamente suja? E se eu fosse denunciado por uma porcariada de chamar a ateno? E se a coisa acabasse com uma mancha federal no papel de parede da sala de visitas? E se ficasse no ar um odor inconfundivelmente carnal?
     "Encontrei a soluo perfeita: ficaria completamente nu na banheira! Nada de roupas lambuzadas.  claro que a banheira seria perfeitamente capaz de conter tudo que eu conseguisse expelir. As provas seriam apagadas com um abrir de torneiras. Era uma soluo higinica e conveniente para o dilema criado por minha ardente perturbao.
     "Mas quanto tempo demoraria? E se eu perdesse a noo do tempo? Tinha de me arriscar. Decidi ento que mesmo dentro da banheira manteria no pulso o meu relgio, que no era  prova d'gua." 199
     
     Na Antigidade, a masturbao era considerada uma forma aceita de obter prazer, embora os greco-romanos a desestimulassem at a idade de 21 anos. No Egito Antigo, a religio descrevia a criao do mundo pela masturbao do deus Atum, e muitas mulheres eram enterradas mumificadas com os objetos flicos com que se masturbavam.200
     Entretanto, a condenao bblica  masturbao perdurou por milnios. A lei religiosa judaica impunha que os homens fossem produtivos e se multiplicassem. Portanto, o coitus interruptus no era admitido como tcnica contraceptiva e o termo onanismo que lhe foi atribudo ficou associado tambm ao prazer solitrio. Pelo costume antigo dos judeus, quando uma mulher contraa matrimnio, estava casada com o marido e com toda a famlia dele. Ela havia sido comprada e paga. Se ela no lhe tivesse dado filhos, o marido ao morrer desaparecia como se jamais tivesse vivido. O casamento por levirato era a soluo. Se um irmo mais velho morria sem deixar herdeiro, cabia ao irmo mais novo a responsabilidade de tomar a viva como esposa e criar o primeiro filho nascido de ambos como um filho legtimo do morto.201 No Gnese (38:6-10) vemos a rebeldia de Onan: "Jud tomou para seu primognito Er uma mulher, a qual se chamava Tamar. Ora, Er, o primognito de Jud, era um homem mau aos olhos do Senhor; assim, o Senhor o matou. Disse Jud a Onan: 'Vai at a mulher de teu irmo, toma-a e d sucesso a teu irmo!' Onan, sabendo que essa posteridade no seria sua, sempre que se unia  mulher de seu irmo deixava cair o smen no cho, para que no desse sucesso a seu irmo. O que ele fazia era mau aos olhos do Senhor, que matou tambm a ele."
     A masturbao foi, ento, punida com a morte. No  de se estranhar que durante muito tempo se acreditou que a masturbao causava ataques epilpticos, loucura, reumatismo, impotncia, acne, asma, idiotice, cegueira e at crescimento de plos nas palmas das mos. Muitos adolescentes hoje no tm certeza de que no sofrero nenhum tipo de prejuzo pela atividade masturbatria, j que a idia de pecado ainda est presente, provocando culpa e medo.
     Na Idade Mdia, a ejaculao do homem s devia ocorrer com a finalidade de procriao, e na Inquisio o acusado de masturbao era considerado herege, podendo ser condenado  morte na fogueira. Para os padres dessa poca, a masturbao era produto do demnio.
     No sculo XVIII, em 1760, Tissot escreveu uma obra constantemente reeditada at 1905 com o ttulo; O onanismo  Dissertao sobre as doenas produzidas pela masturbao. Com esta condenao cientfica, o onanismo ascende ao estatuto de doena extremamente grave. Para Tissot, o esperma  leo essencial, e desperdi-lo enfraquece o organismo e o torna vulnervel a agentes patgenos. "A partir dessa doutrina absurda se desenvolver uma literatura mdica cuja extravagncia raramente foi igualada. Ela est repleta de quadros clnicos dramatizados em que se distinguiram numerosos mdicos e que causaram estragos na Frana e em outros lugares at a Segunda Guerra Mundial." 202
     Inmeros textos do sculo XIX aterrorizam as pessoas quanto ao malefcio da masturbao. Em 1825, o doutor Rozier escreve: "As pessoas que se entregam a perniciosos atos secretos no tm febre no incio, entretanto, embora mantenham o apetite, seu corpo emagrece e se consome; elas sentem que formigas lhes descem da cabea ao longo da espinha. Andar, mesmo que simples passeios, sobretudo em caminhos difceis, as deixa sem flego, as enfraquece, lhes provoca suores, peso na cabea e barulhos nos ouvidos; ocorrem doenas do crebro e dos nervos, estupidez e imbecilidade. O estmago se desarranja, as pessoas se tornam plidas, entorpecidas, preguiosas. As que so jovens adquirem o aspecto e as enfermidades da velhice, seus olhos ficam cavos, o corpo se curva, suas pernas no conseguem carreg-las; elas tm um desconforto geral; so incapazes para tudo; vrias ficam paralisadas."203
     O padre J. C. Debreyne, doutor em medicina e com incontestvel autoridade na poca, escreveu sobre as conseqncias da masturbao: "Palpitaes, diminuio da viso, dores de cabea, vertigens, tremores, cimbras dolorosas, movimentos convulsivos como os de epilpticos e, freqentemente, a verdadeira epilepsia; dores gerais nos membros ou fixadas atrs da cabea, na espinha dorsal, no peito, no ventre; grande fraqueza nos rins, s vezes um entorpecimento quase total." 204
     O doutor Lallemand, um dos mais respeitados da faculdade de medicina de Montpellier, publicou uma smula nica na literatura mdica. Em trs volumes, num total de 1.784 pginas, ele revelava tudo sobre as "perdas seminais involuntrias".205
     As terrveis descries que os mdicos faziam das pessoas que se masturbavam so inacreditveis. Um dos exemplos  a do doutor C. Bougl: "Quem no viu, ao menos uma vez na vida, estas runas humanas que a volpia devastou e em que no se poderia mais perceber nenhum vestgio das nobres faculdades que outrora a habitavam? Quem no viu vagar, como espectros sados de sua tumba, esses cadveres cujo olhar mortio, a boca vazia de sorrisos, os traos fanados que no podem mais florescer sob um raio de alegria e felicidade, cujos membros pesados mal se prestam aos mais simples movimentos e cujo corpo inteiro parece abatido sob o peso das iniqidades que atacam sua vida?"206
     Essa loucura antimasturbatria, nascida no Sculo das Luzes,  um novo valor inventado pela burguesia, que buscava todos os poderes. Tentando se distinguir da nobreza  classe degenerada , a famlia burguesa exalta a decncia como virtude suprema. Para manter essa decncia, alguns usavam nos filhos adolescentes um detetor de ereo ligado a um sino em um quarto adjacente, o qual alertaria o pai ou a me. Existem tambm absurdas peas de museu, como um perverso anel de metal com quatro pregos voltados para dentro; ajustados ao pnis  noite, era uma garantia de sono sem erees.207
     As crianas que entram no internato na sexta srie so rigorosamente vigiadas. O doutor Pavet de Courteille, ligado ao Colgio Saint-Louis, em Paris, escreve: "Seria bom, acho eu, vestir camisas  noite que descessem abaixo dos ps, em algumas crianas suspeitas de se entregarem a hbitos funestos. Seria necessrio que essas camisas fossem munidas interiormente de um cordo embutido a ser atado de noite aps ter satisfeito as necessidades de excreo." 208 Os alunos reconhecidos culpados de masturbao eram presos e devolvidos  famlia. O doente ser submetido a um tratamento especial: obrigao de se deitar de lado, nunca de costas; aplicaes refrigerantes locais sero feitas por meio de uma bolsa contendo gelo picado, neve ou gua muito fria, salgada com sal de cozinha. Para os casos rebeldes, o professor Lallemand s indica um mtodo: cauterizao da poro prosttica do canal da uretra por meio de nitrato de prata. At 1914, vendem-se na Frana bandagens contra o onanismo, fabricadas sob medida e de acordo com a idade dos indivduos. Eram receitadas tambm rigorosas dietas em que se deviam evitar peixes em salmoura, lcool, caf, carne (especialmente de acordo com as fases da Lua), e as roupas apertadas eram contra-indicadas.209
     As meninas sofriam o mesmo rigor. "O padre Debrey sabe que as filhas de Eva possuem um rgo fatal, fonte de todas as tentaes: seu clitris. Um pnis em miniatura, ele s serve para a volpia. Ora, este no , de modo algum, necessrio  procriao. Conseqentemente, se o clitris se revela uma fonte de excitao permanente, deve-se consider-lo doente e sua ablao torna-se lcita."210 A clitoridectomia foi preconizada na Europa, no sculo XIX, demonstrando uma atitude extrema de represso sexual desse perodo vitoriano, sem similar em outra poca do cristianismo. As maiores sumidades mdicas a praticaram sem hesitao. Em Londres, o doutor Jules Gurin, da academia de medicina, afirmara ter curado vrias meninas afetadas pelo onanismo queimando seu clitris com ferro quente. O doutor Pouillet, em 1894, aconselha cauterizar com um lpis de nitrato de prata toda a superfcie da vulva, assim qualquer atrito provoca uma dor muito forte e a mulher fica impossibilitada de se manusear. Ele preconiza tambm a camisa-de-fora e lana um apelo para a inveno de um cinto constritivo, "um aparelho leve e bem acondicionado que fecharia hermeticamente o orifcio vulvar, afastando um pouco as coxas e deixando uma pequena abertura para a passagem da urina e da menstruao, prestaria, acredito, um destacado servio s masturbadoras".211
     A partir do perodo entre as duas guerras, provavelmente sob a influncia das teorias de Freud sobre a sexualidade infantil, alguns militam em favor da educao sexual e estabelece-se um consenso em considerar a masturbao normal durante a infncia e a adolescncia. Com o crescimento da sexologia, a masturbao torna-se um hbito desejvel para os jovens. "Os adolescentes que no conheceram essa etapa para o amadurecimento, que  a masturbao, quando chegam  idade adulta passam por muito mais dificuldades do que os outros." 212 A medida dessa evoluo  indicada pela revista Vital, que afirma: "Os bilogos se esforam em descobrir as leis do prazer sexual (...). Seja pelos corpsculos da voluptuosidade das zonas ergenas primrias ou pelas morfinas fabricadas pelo crebro, est provado que o prazer no  um pecado da civilizao, mas uma realidade inscrita no corpo," 213 Jean-Ren Verdier v na masturbao uma tripla funo: fisiolgica, compensatria e ldica, resumindo assim a opinio comum dos sexlogos.
     A masturbao na infncia  importante, j que equivale  auto-explorao do corpo, mas muitos no aceitam isso com naturalidade. O peso de tantos anos da masturbao associada ao pecado e  doena leva muitos pais  at os que se consideram livres de preconceitos  a se sentirem incomodados quando os filhos manipulam seus prprios rgos sexuais, e geralmente procuram desviar a ateno da criana para outros interesses, o que de qualquer maneira deixa nela o registro de que essa atividade no  bem aceita.
     Na puberdade, o desejo sexual  muito intenso tanto no menino quanto na menina. Como existe mais permissividade para toda expresso sexual masculina, a masturbao do menino  bem mais aceita do que a da menina. Em um estudo sobre a sexualidade adolescente feito em 1981, 80% dos meninos e 59% das meninas de 18 anos afirmaram se masturbar; em razo disso, algumas mes exigiam que suas filhas dormissem com os braos para fora das cobertas para evitar a masturbao.214 Entretanto, a masturbao na adolescncia  vista pelos sexlogos como uma prtica fundamental para a satisfao sexual na vida adulta, por permitir um autoconhecimento do corpo, do prazer e das emoes. "As adolescentes femininas que se iniciam na masturbao tambm apresentam o orgasmo clitoridiano, sendo isso um sinal de evoluo sexual sadia. Mulheres multiorgsticas investigadas na nossa clnica normalmente iniciavam a masturbao antes do casamento e durante a adolescncia." 215
     Mas muitas mulheres se sentem envergonhadas e culpadas devido a uma educao que lhes ensina que o interesse e o desejo sexual pertencem ao sexo masculino. Ao no conseguirem controlar seus prprios desejos, muitas se sentem indignas, imaginando que s elas se masturbam, e no contam nem para a melhor amiga. As mulheres que conseguem romper com esses tabus muitas vezes utilizam variados objetos para se masturbar, estimulando a vulva ou a vagina. So vibradores, pnis artificiais, bolas ben-wa e outros, vendidos em sex-shops, alm do cabo da escova de cabelo, ou mesmo legumes ou outros objetos macios.
     Barry McCarthy afirma em seu livro sobre a sexualidade masculina que, devido s advertncias que todos recebem desde crianas e devido  reputao que a masturbao tem de pobre substituto das relaes sexuais, a maioria das pessoas se sente culpada quando se masturba. Contudo, isso no impede que todos se masturbem. A prova  que 95% dos homens, incluindo os casados, masturbam-se. Mas a culpa impede que se desfrute o mximo, no permitindo que a masturbao seja a experincia libertadora e satisfatria que ela pode ser, H uma insistncia em afirmar que essa prtica tem uma nica finalidade: aliviar a tenso acumulada. Ento, o ato  feito s pressas. Quase ningum se concede a oportunidade de perceber que a masturbao, longe de ser vergonhosa necessidade,  na verdade uma das melhores maneiras possveis de se aprender sobre as prprias reaes sexuais e de se aumentar a sensibilidade  estimulao sexual. Por essa razo, ele recomenda uma masturbao lenta, sensual e envolvendo o corpo todo.
     Na terapia de sexo para o tratamento das disfunes orgsticas, a masturbao  o elemento principal para capacitar a mulher a ter o primeiro orgasmo. A instruo de que a mulher se masturbe quase sempre gera ansiedade nas pacientes que aprenderam a considerar a masturbao algo perigoso e vergonhoso. A psicoterapia paralela se prope tratar desses preconceitos, enquanto ela  aconselhada, em condies de muita segurana, a empenhar-se nessa atividade. Sugere-se, por exemplo, que ela se masturbe apenas quando estiver sozinha e livre do medo da interrupo e de ser descoberta. A princpio, a paciente deve masturbar-se manualmente, mas se a estimulao assim produzida no for suficientemente intensa para ter orgasmo,  aconselhada a usar um vibrador. 216
     Em seu estudo sobre a sexualidade feminina, Shere Hite constata que a masturbao tem aspectos favorveis  orgasmos fceis e intensos, fonte inesgotvel de prazer  mas, infelizmente, todos sofremos alguma influncia de uma cultura que diz que as pessoas no devem se masturbar. Atualmente, tornou-se aceitvel que as mulheres tenham prazer no sexo, desde que preencham seus papis femininos  dando prazer aos homens e nunca tendo prazer sozinhas. Hite acredita que talvez no futuro as mulheres possam ter o direito de ter prazer na masturbao tambm, como declarou uma de suas entrevistadas: "A importncia da masturbao  que se masturbando voc se ama e cuida de si mesma totalmente, numa forma natural de relacionamento com seu prprio corpo.  uma atividade normal que deveria logicamente fazer parte da vida de qualquer mulher." 217
     A maioria das mulheres pesquisadas por Hite declarou que tinha prazer fsico na masturbao, mas no psicolgico:
     
"Gosto de me masturbar. A sensao fsica e o orgasmo so timos, mas com freqncia me sinto envergonhada depois, como se houvesse alguma coisa de errado comigo, porque eu deveria ter um homem para me dar essa sensao sempre que eu quisesse, e eu no tenho."
     
     Quanto  importncia da masturbao, a maioria das mulheres declarou que era importante como substituto do sexo (ou do orgasmo) com um parceiro:
     
"Acho que  importante para aliviar parte da frustrao de no ter dado uma boa trepada." "A masturbao no deixa voc ficar pirada quando voc est a fim de sexo." "Se o seu parceiro vira para o outro lado e dorme, voc pode se virar sozinha." " uma questo de sobrevivncia: meu marido no pode gastar tanto tempo na cama quanto eu gostaria." "Costumava-se dizer que a masturbao enlouquece a pessoa  eu  que enlouqueceria sem ela."
" um meio seguro e rpido de obter gratificao sexual. Melhor do que sexo malfeito com um parceiro incompatvel."
     
     No estudo de Hite sobre a sexualidade masculina, em que foram entrevistados 7.239 homens entre 13 e 97 anos de idade, 99% declararam que se masturbam, sendo que quase todos, casados ou solteiros, tendo ou no uma vida sexual ativa, disseram que a masturbao era algo constante em suas vidas.  Mas a maioria se sente culpada e incerta sobre a masturbao, ao mesmo tempo que gosta imensamente  muitos tm seus orgasmos mais fortes, fisicamente, durante a masturbao. Os homens se sentem mais livres para se estimular da maneira que gostam e quase nenhum conta a outras pessoas que faz isso. Muitos homens declararam que os orgasmos durante a masturbao eram os fisicamente mais intensos, j que no havia presses de desempenho, e eles tinham a liberdade de se dar exatamente a estimulao adequada:
       
"Posso me proporcionar orgasmos muito melhores do que posso ter com outras pessoas, j que sei exatamente o que quero e quando quero. Gosto de prolongar o tempo que precede o orgasmo, fazendo uma presso bem leve e movimentos tentos. Isto produz um acmulo tremendo de energia e resulta num orgasmo avassalador, mas esse processo  to minucioso que  quase impossvel ser feito por outra pessoa. Logo, satisfao-me fisicamente muito melhor com a masturbao, apesar de o sexo oral, s vezes, se aproximar dessa sensao. Mas nenhuma dessas formas  a minha favorita para gozar, porque so solitrias."
     Hite conclui que a masturbao  uma atividade sexual muito importante e vlida. Os homens falaram dela com entusiasmo e descreveram os intensos orgasmos experimentados. Com a masturbao, eles conseguem a estimulao que geralmente no obtm de outra pessoa, como a anal, nos testculos e, talvez, tambm uma estimulao emocional ou psicolgica. Na medida em que aos homens s  permitido um papel na relao com uma mulher, as fantasias criadas na masturbao podem ser uma maneira de desfrutar outro papel, a parte que falta. Ser completamente passivo.

Sexo oral
     
     Compreende-se por sexo oral a excitao sexual produzida pela estimulao dos genitais do parceiro sexual. Denomina-se cunilngua  estimulao dos genitais femininos. Essa palavra  derivada do latim cunnus (vulva) e /ingere (lamber). A estimulao dos genitais masculinos denomina-se felao, do latim fellare, que significa sugar.218 As prostitutas egpcias e fencias praticavam a felao e maquiavam os lbios bucais para os fazerem semelhantes aos lbios vulvares.219
     Na cultura judaico-crist o sexo oral, uma variao sexual muito antiga, sempre foi condenado, assim como todas as prticas que no levassem  procriao.
     Uma pesquisa americana com adolescentes femininas mostrou que 42% das entrevistadas se referiram  estimulao oral-genital, sendo que 37% delas mantinham-se virgens. E, em 1991, num estudo sobre universitrios paulistanos, 83% das estudantes de faculdade particular referiram-se  prtica do sexo oral.220
     O sexo oral  a atividade heterossexual que mais se pratica antes da cpula. "Como a boca, nossos rgos genitais so ricamente dotados de terminaes nervosas e profundamente receptivos para as sensaes de prazer. No , pois, natural e adequado que, procurando experimentar e repartir o prazer sexual, devemos empregar estimulao oral-genital? Isso porque nossa boca e nossos rgos sexuais, que tambm tm tanto em comum e tanto a oferecer um ao outro, podem se unir para produzir uma sensao muito especial e intensa de prazer."221
     Entretanto, muitas pessoas evitam essa prtica sexual ou a utilizam, sentindo-se ansiosas e constrangidas, apenas para agradar o parceiro. Alm dos preconceitos morais, existe tambm a idia de que o sexo oral-genital no seria uma atividade higinica. "Na verdade, porm, tais preocupaes carecem  e muito  de fundamento. Se a pessoa se lava adequadamente, nenhum resto de urina ficar nos rgos genitais. Com a higiene comum, os rgos sexuais podem ficar to livres de germes e bem cheirosos como qualquer outra parte do corpo. Geralmente, a boca contm muito mais germes do que o pnis ou a vulva. As secrees sexuais so substncias protenicas e perfeitamente inofensivas." 222
     Temores em relao ao sexo oral se manifestam de vrias maneiras. Alguns alegam ser um sinal de imaturidade, afirmando que a nica forma adulta de sexualidade seria o ato sexual na posio do missionrio. Outros supem que o uso da boca no sexo indicaria a falta de virilidade do homem, e h tambm homens que tm medo de que a mulher se vicie no sexo oral-genital e comece a preferi-lo  relao sexual. Mas parece que nada disso tem fundamento. As pesquisas indicam que cerca de 75% dos casais experimentam a estimulao oral-genital e uns 40% a usam com alguma freqncia, sendo que os que a praticam tendem a ser sexualmente mais bem ajustados. "Aprender a encarar o sexo oral-genital como uma atividade natural, saudvel e permissvel  um pr-requisito essencial para obter um grau mximo de prazer com ela. Somente dessa maneira seremos capazes de abordar o sexo oral-genital como uma espcie de tcnica amorosa de mtua cooperao, de mtua ajuda, que  caracterstica da atividade sexual mais satisfatria." 223
     A diviso das mulheres em Evas e Marias, ou seja, mulheres sem escrpulos e mulheres respeitveis, faz com que muitos homens que desejam o sexo oral encarem-no como um prazer proibido, impossvel de ser partilhado com as esposas ou namoradas. A maioria dos homens casados que procura prostitutas solicita como forma de satisfao mais felao do que relao sexual. As mulheres educadas na mesma cultura patriarcal introjetam esses valores e muitas imaginam estar se prostituindo ao praticar esse tipo de atividade sexual.
     S  possvel um casal desenvolver uma sexualidade realmente satisfatria se houver uma comunicao franca. O sexo  um aprendizado e alguns comportamentos como a felao e a cunilngua, por exemplo, exigem, alm de descontrao, um grau de orientao e informao entre os parceiros.
     McCarthy relata o exemplo de um casal, clientes seus em terapia sexual: "O homem vinha pressionando a mulher para chup-lo h muito tempo, mas ela no tinha coragem e se recusava. Por fim, uma noite em que ela estava embriagada, ele convenceu-a a tentar e bastou vencer a resistncia dela esta nica vez que, depois, ela foi capaz de repetir o ato regularmente. No entanto, o marido, achando que tinha conseguido o que queria e que no tinha o direito de pedir mais nada, nenhuma ajuda ou orientao ofereceu  esposa. Neste nterim, ela havia criado um mtodo prprio de praticar a felao com o marido, de acordo com o que parecia confortvel e excitante para ela. Em vez de pegar a cabea do pnis e coloc-la na boca, a mulher preferia concentrar-se na suco e estimulao do corpo do pnis. Quando reservadamente perguntei ao marido se estava satisfeito com a estimulao que ela estava fazendo, ficou muito embaraado. 'Olhe, por favor, no diga isso para minha mulher, mas a verdade  que detesto a maneira como ela me chupa; ela me machuca.' Posteriormente, concordou em comunicar  mulher sua insatisfao e, por fim, chegaram a um estilo de estimulao oral-genital que era satisfatrio para ambos."224
     Outro problema que pode ocorrer na felao  quando a mulher no deseja engolir o esperma e o homem se sente rejeitado por isso. Na verdade, a mulher engolir ou no o esperma no altera o prazer do homem, e a felao no tem obrigatoriamente que culminar em ejaculao. Pode ser simplesmente uma tcnica de excitao preliminar, mas, se o homem vai ejacular ou s se excitar,  fundamental que seja prazeroso para os dois.
     A cunilngua tambm requer comunicao entre os parceiros. "Com freqncia, os homens que no se deram ao trabalho de examinar a anatomia de suas companheiras ou que no receberam orientao adequada de sua parceira podem usar a estimulao oral de maneira ineficaz. Podem aqui surgir dois problemas distintos. Por um lado, o homem pode fixar toda a ateno na vagina ou nos grandes lbios, onde a concentrao de terminaes nervosas  esparsa, da resultando um mnimo de sensaes de prazer. Ou pode estimular o clitris de uma maneira muito rude, causando mais dor do que prazer." 225
     Shere Hite nos mostra o que pensa a maioria das mulheres e dos homens sobre a cunilngua e a felao.
     Em relao  cunilngua, muitas mulheres se sentem inibidas e envergonhadas. A preocupao mais comum  se o cheiro da vagina  desagradvel:
     
"Eu ainda no superei a idia de que sou suja l embaixo."

"Se eu fosse homem, nunca faria isso."

"Eu fico sempre preocupada se estou cheirando mal ou com uma aparncia nojenta ali."
     
"Meu homem tem um bloqueio mental nesse ponto. Ele acha que a regio da vulva cheira horrivelmente mal e tem nsias de vmito quando tenta. Ele j tentou, mas no consegue."

"Eu sinto que no cheira bem, no tem bom gosto. Tenho vergonha."
     
"No gosto porque  como se ele se sentisse obrigado, e eu no gosto de sacrifcios."
     
"No acredito que a nossa sociedade goste de vaginas. Eles acham vagina suja, malcheirosa, cabeluda, molhada etc. Eles querem que a gente borrife spray com desodorante l."

"Agora eu gosto, mas levou anos para que eu me permitisse ter prazer assim. Por que ns temos de nos sentir to sujas?"

     Mas algumas mulheres gostam de cunilngua e explicam a melhor maneira de obter prazer:

"Gosto de carcias orais leves, delicadas, mas constantes."
"No gosto quando a lngua dele penetra muito junto do nervo clitorial, porque machuca."
     
"As carcias orais deveriam ser feitas com o nariz, a boca e o queixo. A lngua no deve ficar rgida e pontuda."
     
"Desde que ele aprendeu como fazer presso com a boca para me fazer gozar, eu passei a gozar sempre. A lngua dele atinge uma rea muito maior do que o dedo, o que ajuda bastante."

"Gosto de beijos macios no cabelinho e entre as pernas. Longas lambidas da vagina e do nus, para cima e para baixo. Tem que ser mido e barulhento."
     
     E qual a opinio dos homens sobre a cunilngua? A maioria disse gostar, mas um grande nmero deles se declarou enojado de fazer cunilngua  incluindo muitos dos que se mostraram entusiasmados.
     
"Gosto de cunilngua porque, se eu agradar  mulher, ela vai se sentir obrigada a me agradar. Gosto de v-la se contorcendo com a cunilngua. No gosto do cheiro nem do gosto dos genitais femininos, elas no conseguem mant-los suficientemente limpos para o meu gosto, nem mesmo depois de t-los lavado.  repulsivo me ver esborrachado contra a abertura vaginal da mulher. Fecho os olhos."
     
     A metade dos homens declarou ficar preocupada se os genitais da mulher estariam realmente limpos e muitos disseram que eles cheiram mal.
     
"Como se pode pedir delicadamente a uma mulher para ela se lavar?"

"Acho que as mulheres consideram sua rea pbica suja, com mau cheiro, viscosa etc. Me desculpe, mas eu tinha de fazer essa distino. Se topo com uma situao desagradvel (sem brincadeira) sugiro um banho ertico e excitante."
     
"Primeiro voc cheira. Se achar que no deve lamber, no lamba. Estou tentando superar meu condicionamento cultural, que diz que genitais de mulher tm mau cheiro, mas at agora estou de acordo."
     

"s vezes cheira mal, mas o ser humano se acostuma com qualquer coisa."
     
     Na concluso desse tema, no seu relatrio, Hite diz:
     
     "Ser que as mulheres no so asseadas? Um dos temas mais freqentes sobre a vagina e a vulva est relacionado com o asseio da mulher, ou se ela se lavou recentemente. Embora nem seja preciso mencionar o fato de todos os corpos precisarem regularmente de banho, nenhum homem se referiu  necessidade de lavar os dentes regularmente para que o beijo seja agradvel. O fato de tantos homens sentirem desejo de enfatizar esse ponto com relao s vulvas das mulheres parece refletir a influncia das antigas opinies patriarcais sobre a sexualidade feminina (e sobre as mulheres) como algo sujo, srdido, ou no muito bonito. Ainda hoje, todas as crianas aprendem isso na histria de Ado e Eva: foi a sexualidade e o desejo carnal que ps fim ao Paraso, e, por isso, ainda hoje homens e mulheres esto sendo punidos  especialmente as mulheres, a quem se disse que da por diante dariam  luz seus filhos com dor e sofrimento. E claro que as mulheres com vida sexual liberada so muitas vezes punidas pela sociedade com seu duplo conceito, que ainda classifica mulheres entre srias e fceis.
     "Em nossa sociedade, infelizmente, durante sculos, a sexualidade da mulher foi considerada suja: uma mulher sensual  uma vagabunda, suja, vadia e por a afora, enquanto um homem sensual  admirvel e muito viril. A vulva, da qual, conforme lhes disseram, as mulheres deviam se envergonhar (o termo mdico para vulva  pudendum, uma palavra latina que significa 'da qual nos devemos envergonhar'), ficou escondida durante tanto tempo que a maioria das pessoas nem sabe como se parece. A impresso geral que muitos homens tm  de um lugar escuro e mido, com um cheiro que no  familiar, uma espcie de espao desconhecido onde o pnis corajosamente se aventura." 226
     
     Pelas respostas que encontrou sobre a felao, Hite concluiu que quase todos os homens gostam dessa prtica, embora a maioria no tenha tido experincias regulares nem freqentes de felao, principalmente at o orgasmo.
     Os homens se queixam de que as mulheres no fazem isso com freqncia nem muito bem:
     
"Felao  o ponto alto da experincia sexual de todo homem, s ultrapassado pela felao at o orgasmo!"

"Acho que o sonho de todo homem  ter, desculpe a vulgaridade, uma mulher que o chupe todo. Se encontrasse uma mulher que me chupasse de manh para me acordar, eu poria a minha vida a seus ps, porque ela seria a nica em um milho."

"Felao  a maior. Uma boca amante e ardente  mais estimulante e excitante que a vagina."

"Gosto do simbolismo disso  acho que ela est honrando minha virilidade."

"Felao  o melhor. Alm das sensaes fsicas, sinto que a mulher me ama realmente e gosta do meu corpo  o meu eu verdadeiro. Alm disso, no preciso atuar  no preciso nem mesmo ter uma ereo."
     
"A maioria das mulheres no  boa nisso."

"O que eu acho mais chato? Uma mulher que analise em termos freudianos por que exatamente eu quero que ela me chupe, chamando isso de infantil ou de outra merda qualquer."
     
"Gosto muito de felao. Mas preciso achar uma mulher que faa isso bem. S tive orgasmo assim uma vez, e uma outra com auxlio de muita masturbao. Muitas vezes, sinto que poderia ter orgasmo dessa maneira, mas sempre tem alguma coisa no jeito que ela faz isso que me broxa, ou porque  muito repetitivo, ou ouo um suspiro, ou ela morde, ou sinto que ela no est nessa."
     
     A minoria acha que  um ato degradante, especialmente para a mulher, e outros sentem uma forte repugnncia pela felao:
     
"J me fizeram felao, mas nunca me senti muito legal. Uma mulher nunca deveria se sentir obrigada a fazer isso.  totalmente desnecessrio para o orgasmo de um homem. Nunca encontrei uma mulher que gostasse verdadeiramente de fazer isso. Apesar de ter encontrado algumas que queriam, acho degradante para as duas partes."

"No gosto de felao. Nunca consegui um orgasmo com esse mtodo. Suponho que fico aterrado s de imaginar aqueles dentes enormes e afiados se movendo para a frente e para trs ao longo de minha 'virilidade'. E bem l no fundo sempre tive a suspeita de que o cara que entra nessa de felao , s escondidas, um clssico porco chauvinista, que gosta de ver a mulher submissa, de joelhos. Mas talvez eu esteja errado."
     
E o que as mulheres sentem quando praticam a felao?
     
"Tudo bem se o smen no acabar na minha boca."

"Fao at o orgasmo, mas evito engolir."

"Gosto por pouco tempo, mas no quero que ele goze na minha boca."

"Parece que minha boca est sendo estuprada."

"Tenho certeza de que eu iria morrer de sufocao. No agento a idia de esperma na minha boca, e tenho certeza de que ele iria urinar."

"Eu pensaria na idia de chupar um pau se tivesse um revlver apontado para minha cabea, s assim."

"Tudo bem, mas a boca fica cansada de ficar tanto tempo aberta."

"A gente devia fazer fellatio e cunnilingus vrias vezes antes de se decidir contra."

Sexo anal
     
     O sexo anal implica a introduo do pnis no nus para a obteno de prazer sexual. Essa variao j foi muito usada na Antigidade como mtodo anticoncepcional. Na Mesopotmia, era praticado naturalmente, sendo que entre os assrios chegou a ser elemento de cultos religiosos. Na Roma Antiga, na noite de npcias, os homens se abstinham de tirar a virgindade da noiva em considerao  sua timidez, entretanto, praticavam sexo anal com ela.227
     Em muitas pocas da histria da humanidade o sexo anal foi considerado pecado ou crime. Na Frana, antes da Revoluo, essa prtica era passvel de condenao  morte na guilhotina, e na Inglaterra, no sculo XVII, era considerada crime contra a natureza, com penas de morte e priso perptua. Para o cristianismo, era um pecado mortal. Em 1988, na Gergia, Estados Unidos, um homem foi condenado a cinco anos de priso por ter confessado ter mantido relao sexual anal com a esposa com o consentimento desta. Naquele estado vigorava uma lei de 1832.228 Mas, apesar de todas as sanes legais, o sexo anal sempre foi praticado.
     Os homens desejam e apreciam mais o sexo anal do que as mulheres. Masters e Johnson afirmam que 43% das mulheres casadas j o experimentaram, embora a maioria no goste muito dessa atividade.229 Mas, de qualquer forma, o intercurso anal  uma prtica comum, embora no costume ser bem-sucedida. Para que possa ser desfrutada,  fundamental que as pessoas envolvidas no tenham preconceitos e no encarem o sexo anal como algo sujo e feio. Em segundo lugar,  necessrio que se aprenda a controlar os msculos do nus, j que o esfncter foi treinado desde cedo a ficar fechado. S assim esse tipo de prtica no produzir dor. Alm disso,  indicado o uso de lubrificantes que facilitem a penetrao, na medida em que essa regio no produz lubrificantes naturais na quantidade necessria.
     Os homens so geralmente os que mais desejam, pois o aperto do nus proporciona um prazer bastante intenso. A maioria das mulheres evita ou at mesmo recusa o sexo anal, alegando dor ou desconforto. Os msculos do nus so muito mais apertados do que os da vagina e, se a introduo do pnis for feita de forma brusca, pode realmente machucar. Independentemente da penetrao, a estimulao anal  muito excitante para homens e mulheres que muitas vezes se estimulam nessa rea durante o ato sexual. O fato de um homem sentir prazer em ser estimulado no nus ou de desejar fazer sexo anal freqentemente com uma mulher no significa tendncias homossexuais. O que define o homossexualismo  o desejo sexual por algum do mesmo sexo e no a rea do corpo que proporciona prazer.                                                              
     A estimulao por penetrao anal conduz ao orgasmo, embora no existam estatsticas determinando o nmero de pessoas que sentem orgasmo anal.
      importante que aps a penetrao anal o pnis no seja introduzido na vagina sem se proceder  limpeza adequada para que as bactrias prprias do reto e do intestino no sejam conduzidas para o interior da vagina, causando infeces.
     Alguns homens responderam a Shere Hite sobre o prazer que sentem com a penetrao anal:230
     
"Um nus  um lugar firme, quente, fascinante e confortvel para um pnis duro entrar e brincar. Todas as cavidades anais so diferentes em tamanho e contorno. Dependendo da lubrificao, o deslizamento do pnis  diferente, mas sempre uma delcia."

"O intercurso anal  o mximo (se ela gosta) porque  apertado, no  mido e  muito quente. Sempre tenho orgasmo e ejaculao quando fao sexo anal com uma mulher. Mas s uma garota quis sexo anal. Para que ela gozasse tambm, estimulei seu clitris enquanto me movimentava em seu nus. Embora ela gostasse de sexo anal, s vezes a penetrao inicial machucava, por isso ns parvamos e eu retirava, lavava meu pnis com gua e sabo e terminava o intercurso na vagina."

"S penetrei minha mulher duas vezes (s a glande) e posso na verdade admitir que fiquei surpreso ao descobrir como a penetrao era sensual e fcil (vaselina  uma boa ajuda).  o aperto muscular e o controle que o nus proporciona que tornam isso excitante. No entanto, minha mulher ainda se sente um pouco inibida com esse tipo de relao, mas acho que devamos explor-la mais antes de desistir."
     
     O sexo anal, assim como tantas outras prticas sexuais, s se justifica se for prazeroso para ambos os parceiros, e no por obrigao ou para agradar o outro. No se pode esquecer, porm, que a penetrao anal por si s no causa Aids, mas, segundo os estudiosos,  a forma mais fcil de transmisso do vrus, que  absorvido diretamente pela corrente sangnea atravs da mucosa anal.

O desempenho sexual
       
     A preocupao do homem quanto  sexualidade foi encoberta na mesma medida em que a necessidade da mulher de expressar sua sexualidade no podia se manifestar. Durante muito tempo, acreditou-se que apenas o homem sentia prazer sexual. A mulher no se interessava pelo assunto. Seu aparelho genital servia to-somente  procriao, o prazer era restrito a ter e criar filhos. Mulher gostar de sexo era motivo de vergonha. O homem parecia, ento, no ter problemas quanto ao desempenho sexual, j que vrias influncias os ocultavam. Elas incluem: 1  o domnio do homem na esfera pblica; 2  o padro duplo; 3  a diviso das mulheres em puras (casveis) e impuras (sedutoras, prostitutas e todas que gostavam de sexo); 4  a compreenso da diferena sexual proporcionada por Deus, pela natureza ou pela biologia; 5  a viso de que as mulheres eram irracionais em seus desejos e aes; 6  a diviso sexual do trabalho.231
     Da dcada de 1960 para c, com o movimento de liberao dos costumes e o advento dos anticoncepcionais, as influncias que protegiam socialmente o homem comearam a ser destrudas. A mulher, que antes s tinha experincia sexual com o marido, mesmo assim de forma restrita, agora exige mais prazer. J vimos no captulo sobre o homem masculino que as origens da auto-identidade masculina esto ligadas a uma profunda sensao de insegurana gerada pelo afastamento precoce da me. Essa renncia ocorre quando o amor e a ateno materna so ainda fundamentais para o menino. A dependncia emocional masculina, to cuidadosamente ocultada, torna-se insustentvel quando as mulheres rejeitam manter a cumplicidade com ela.232 O homem, que se mostrava seguro e absoluto, comea a se preocupar em ser avaliado e passa a sofrer muito com sua sexualidade. O temor da impotncia, de ter o pnis pequeno ou fino e a ejaculao precoce geram insegurana. Muitas vezes, partir para uma relao sexual causa tanta ansiedade quanto participar de um embate decisivo. Nessa guerra h vrios fatores envolvidos. O homem se dirige ao ato sexual para se afirmar como macho. Agradar  mulher, satisfaz-la em todos os seus desejos, reais ou imaginrios, para ser considerado bom de cama,  uma preocupao constante.
     
     Carla, 27 anos, cantora, foi se apresentar fora de sua cidade. Aps o espetculo, seguiu-se um coquetel onde encontrou Jlio, advogado muito conhecido no meio artstico local. Passaram toda a festa conversando, num clima de seduo mtua. Mais tarde, foram a um motel. Enlouquecido de teso, seu corpo ia e vinha dentro da parceira. Carla, num timo de lucidez, lembrou-se de que no havia colocado o diafragma, que levava na bolsa. Aflita, tentando interromper o vaivm frentico, disse a ele:
      
 O diafragma!
Jlio, como se no a estivesse ouvindo, intensificava a velocidade de seu vaivm. Carla, sem entender direito o que se passava, repetiu mais alto:
 O diafragma!
Mais empolgado do que antes, Jlio colocava toda a sua energia no mesmo movimento. A essa altura, j se sentindo ultrajada, Carla gritou:
 O diafragma!
Percebendo que seu parceiro no a levava em conta, empurrou-o com toda a fora. Jlio se afastou com ar de perplexidade, Carla olhou-o e perguntou:
 Cara, voc no ouviu eu t avisar que tinha que colocar o diafragma?
Jlio a olhava assustado:
 Eu entendi que voc tava pedindo para eu ir at o seu diafragma.
 Como? Voc pretendia me furar toda para chegar at o meu diafragma?
Jlio, atnito e constrangido com a irritao dela, s conseguiu responder:
 Sei l, voc  cantora...
     
     Provavelmente, a ansiedade em satisfaz-la era tanta que no estava em sintonia com ela nem a percebeu na relao.
     
     Andr, 32 anos, msico, fazia muito sucesso com as mulheres. Era bonito, inteligente e bastante sensual. Convivia com muitos artistas. Sua vida social era intensa, assim como seu sofrimento. No havia lugar em que no fosse assediado, mas sempre acontecia o mesmo. Costumava ficar com a mulher mais gostosa da festa. Seduo para l e para c. Beijos e carinhos. No final, a convidava para ir no seu carro. A noite prometia. No meio do caminho, sem nada dizer, mudava os planos. Deixava-a em casa e ia dormir sozinho. Julgava seu pnis muito pequeno e no suportava imaginar as mulheres comentando sobre isso. Elas contavam tudo umas para as outras. Disso ele tinha certeza.
     
     Com freqncia, se ouve dizer que os homens so "incapazes de expressar sentimentos" ou "no tm contato" com suas prprias emoes. "Em vez disso, deveramos dizer que muitos homens so incapazes de construir uma narrativa do eu que lhes permite chegar a um acordo com uma esfera de vida pessoal cada vez mais democratizada e reordenada."233
     Na verdade, os homens tendem a reprimir a autonomia emocional que propicia a intimidade com o outro. Um estudo nos Estados Unidos mostrou que dois teros dos homens entrevistados no conseguiram citar um amigo ntimo. Entre os que conseguiram, o amigo era uma mulher. Ao contrrio, das mulheres pesquisadas, trs quartos puderam facilmente citar um ou mais amigos ntimos, e para elas era, virtualmente, sempre uma mulher.234
            
      
      
  V - O FUTURO QUE SE ANUNCIA     

      
  Amor
       
       
     
     O amor romntico povoa as mentalidades do Ocidente desde o sculo XII. Como vimos, esse tipo de amor  regido pela impossibilidade, pela interdio, e caracteriza-se pela idealizao do outro. Mas somos to condicionados a desejar viv-lo que  comum se falar de amor como se ele nunca mudasse. Para o historiador ingls Theodore Zeldin, "os seres humanos so capazes de introduzir novos significados no amor, sem parar, e ficar surpresos como quem acabou de transformar trigo em po, pudim de frutas em mil-folhas".1
     Originalmente, o homem exibia fora e riqueza para seduzir uma mulher. Ele acreditava que assim ela ficava impressionada, portanto, presa fcil da conquista. No sculo XV, a moda era "fazer a corte". Ambos os sexos desenvolveram uma espcie de jogo, enquanto passavam muitas horas juntos. A terceira linguagem, a conversa civilizada, acentuava a arte da vida em comum com a marca da decncia. A honestidade e a delicadeza eram fundamentais. Os sentimentos femininos eram objeto de ateno, e para conquistar a mulher amada enaltecia-se suas qualidades, sempre com palavras. A quarta linguagem foi a do amor romntico, que se originou do amor corts, no sculo XII.2 Cada uma das conversas amorosas inventadas deu uma forma diferente aos nossos relacionamentos. Mas todos acabaram se transformando em linguagens que no nos servem mais.3
     O psicanalista Jurandir Freire Costa considera que "o amor ertico no  apenas uma atrao sexual acompanhada de sentimentos ternos  enlevo, carinho, preocupao, cuidado, dedicao, devoo etc.  ou violentos  desejos de posse exclusiva, cimes, desconfianas, rivalidades etc. Pensar no amor dessa maneira j faz parte do aprendizado amoroso, pois significa estar convencido de que ele foi sempre o que  hoje, ou seja, uma emoo sem memria e sem histria".4
     Quando o amor romntico comeou a ser uma possibilidade no casamento, foi uma revoluo. Os jovens diziam aos pais: "No vou me casar com a pessoa que voc escolheu, s vou casar com quem eu amo." Nesse sentido, houve uma liberao, uma destruio do poder dos pais, mas uma liberao no satisfatria, porque o amor romntico  baseado na idealizao. Por ser idealizado, no requeria muita conversa. Era possvel amar sem precisar conversar, estar apaixonado sem falar, s olhando nos olhos.  como ser atingido por um raio e ficar paralisado, prisioneiro desse raio.5
     Para Jurandir, a gnese do amor romntico " indissocivel do enorme enriquecimento da esfera da vida ntima, da represso  sexualidade e, por fim, da valorizao moral da famlia nuclear e conjugal. No  surpreendente, assim, que a liberalizao da sexualidade, a ruptura com a tradio familiar e a diluio da intimidade na publicidade estejam mudando a face do amor".6

O amor romntico comea a sair de cena
      
     A fuso proposta pelo amor romntico  extremamente sedutora. A grande maioria das pessoas acredita que no h remdio melhor para o nosso desamparo do que a sensao de nos completarmos na relao com outra pessoa. Entretanto, nesta primeira dcada do sculo XXI, com tantas opes de vida, o que homens e mulheres mais desejam: estabilidade nas relaes amorosas ou liberdade? Vivemos um perodo de grandes transformaes no mundo, e, no que diz respeito ao amor, o dilema atual parece se situar entre o desejo de simbiose com o parceiro e o desejo de liberdade.
     Elisabeth Badinter apresenta nosso triplo desafio: conciliar o amor por si prprio e o amor pelo outro; negociar nossos dois desejos  de simbiose e de liberdade ; adaptar, enfim, nossa dualidade  do nosso parceiro, tentando constantemente ajustar nossas evolues recprocas. O peso do indivduo coloca o casal em xeque. A durao da relao passa a ser um ideal e no mais uma obrigao.7
     Baseado em estatsticas dos Estados Unidos e da Europa, Zeldin acredita que o mundo est dividido em trs partes. Um tero das pessoas anseia por liberdade, criatividade. O outro tero  cuidadoso, quer a rotina, a segurana, e no se preocupar, O ltimo tero  composto de pessoas que esto incertas entre as duas possibilidades. Se a pessoa se preocupa com a estabilidade na relao, vai se preocupar com cada amigo ou amiga que seu parceiro tenha, e isso impede que se desenvolva a liberdade.8
     "Novos mundos, novos sujeitos, novas emoes. No momento, estamos, pouco a pouco, aceitando que a experincia amorosa  fugaz e seu destino  a provisoriedade. Resta saber, portanto, para onde vai migrar a vontade de ir alm do bom senso, o desafio de realizar o impossvel ou o mpeto de vencer a brevidade, em matria de felicidade emocional. O amor romntico encarnava essas promessas. Em sua ausncia, quem ou o que vai se ocupar do sentido da vida de cada dia ou da fantasia da redeno afetiva? Ainda o mesmo amor? Outras formas de amar? Ou outras maneiras de criar um mundo emocional sem a onipresena do romantismo? Difcil de responder; impossvel no querer responder; a cada um a tarefa de procurar responder", diz Jurandir.9
     No passado, havia a idia de possesso e sacrifcio pelo outro. A paixo significava uma escravido. Embora haja pessoas ainda vivendo no passado, est surgindo uma nova dimenso do amor, em que h mais troca e a tentativa de um equilbrio, sem sacrifcios. As fantasias do amor romntico se baseiam na dependncia entre os amantes. Por essa razo, elas no conseguem mais satisfazer os anseios daqueles que pretendem se relacionar com seus parceiros de maneira autntica e viver de forma mais independente.
     A tendncia hoje  o desejo de viver um amor baseado na amizade. Para isso, so necessrias novas estratgias, novas tticas por meio de experincias nunca antes tentadas. Para conhecer o outro,  preciso um encontro sem idealizao, reproduzir o passado no  mais suficiente. Muitos gostariam de inventar uma nova arte de amar, e pela histria fica claro que existem precedentes, portanto,  possvel faz-lo.10
     O amor romntico comea a sair de cena, levando com ele a idealizao do par romntico, com a idia de os dois se transformarem num s e, conseqentemente, a idia de exclusividade. Com isso, abre-se a possibilidade de se amar e de se relacionar sexualmente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Uma nova conversa de amor
     
     No passado, quando se conversava sobre amor, o objetivo era o elogio, a seduo, as fantasias, mas tudo para atrair a ateno do outro. s vezes, para atrair o sexo oposto, recorria-se  mgica, tanto quanto palavras adequadas  seduo. Hoje, para se desenvolver um entendimento no amor, quando se procura a igualdade,  necessrio perceber o que a outra pessoa deseja e o que ela . Essa nova forma de amar, diferente da expectativa do amor romntico de sermos a nica pessoa importante para o outro, ter como ingredientes principais o companheirismo e a solidariedade. "O amor que nasce do olhar est com os dias contados. Evoluiremos da amizade para amor."11
     O psicoterapeuta Flvio Gikovate acredita que estamos diante do nico modo de amar que pode sobreviver s tendncias individualistas  que ele v com muita simpatia e otimismo , prprias desse perodo da nossa histria. Para ele, as relaes vo ser de natureza a respeitar a individualidade dos envolvidos. A aproximao ser entre pessoas inteiras e no fuso de metades.  um outro tipo de amor.  o fim do amor romntico.12
     Est cada vez mais distante o tempo em que se acreditava que amar exigia sacrifcios. At meados do sculo XX, todos valorizavam quem abria mo dos prprios anseios em prol do outro. Ceder era a palavra de ordem para um bom relacionamento. E quem no se dispusesse a isso corria o risco de ser rotulado de imaturo ou de egosta. Gikovate afirma que sai de cena a palavra concesso, at porque no mundo mais individual a capacidade de fazer concesses obrigatoriamente diminui, e no lugar dela entra a palavra respeito, "Corresponde ao sentimento que aproxima pessoas que conseguiram ter sucesso na dificlima tarefa de superar os acontecimentos infantis e a presso na direo da perpetuao de relaes de dependncia, que ainda so majoritrias em nossa sociedade."13
     Como foi dito, a vida a dois, numa relao estvel  namoro ou casamento  tornou-se difcil de suportar diante das transformaes e dos apelos da sociedade atual. Principalmente porque sempre se aceitou como natural que um casal vivesse numa relao fechada, na qual s participavam a possessividade, o controle e o cime. Mas, no momento em que os modelos de amor, casamento e sexo se tornaram insatisfatrios, abriu-se espao para novas experimentaes no relacionamento afetivo-sexual.
     O socilogo ingls Anthony Giddens chama de "transformao da intimidade" o fenmeno sem precedentes de milhares de homens e mulheres que, estimulados pelos amplos movimentos sociais atuais, esto tentando, consciente e deliberadamente, desaprender e reaprender a amar.14
     Tudo indica que as relaes amorosas no futuro sero mais livres e, por isso mesmo, mais satisfatrias. No alimentando fantasias romnticas de fuso com outra pessoa, cada um tem a oportunidade de pretender se sentir inteiro, sem necessitar de outro para complet-lo. A, ento, ser possvel descobrir as incontveis possibilidades do amor e como ele pode se apresentar para cada pessoa, em cada momento, de diferentes maneiras.

Educao para amar
     
     "O ser humano est nos primrdios da comunicao, apenas no limiar de abandonar a etiqueta destrutiva, o ftil jogo das aparncias", afirma Zeldin. Para ele, o rudo do mundo  feito de silncios, na medida em que  muito difcil a verdadeira comunicao entre as pessoas. H incompreenso e desentendimento nas conversas. Na maior parte dos encontros, orgulho ou cautela ainda probem algum de dizer o que sente no ntimo.  um desperdcio de oportunidades sempre que um encontro se realiza e nada acontece. No passado, a comunicao era criada para, principalmente, dominar os outros, e era usada para transmitir informaes e se dizerem coisas que eram esperadas pelas pessoas. Havia uma obedincia  etiqueta, que era mais importante do que ser sincero. A seu ver, o sculo XXI precisa de uma nova meta: desenvolver no simplesmente a arte de falar, mas a verdadeira arte da conversa, que, esta sim,  capaz de mudar as pessoas. Estamos nos primeiros estgios da aprendizagem de como se falar com o outro. Estamos na infncia da comunicao.15
     Uma boa conversa  estimulante e irresistvel; no  s transmitir informaes ou compartilhar emoes, tampouco apenas um modo de incutir idias na cabea de outras pessoas. Toda conversa  um encontro entre espritos que possuem lembranas e hbitos diversos. Quando os espritos se encontram, no se limitam a trocar fatos: eles os transformam, do-lhes nova forma, tiram deles implicaes diferentes, empreendem um novo encadeamento de pensamentos. "Conversar no  apenas reembaralhar as cartas:  criar novas cartas para o baralho. O aspecto da prtica da conversa que mais me estimula  o fato de poder mudar os sentimentos, as idias e a maneira como vemos o mundo, alm de poder mudar at mesmo o prprio mundo." 16
     Na maioria das vezes, no  o que acontece. H muito tempo, a comunicao amorosa  prejudicada pelo antagonismo entre os sexos. As escolas tradicionais sempre se esforaram para ensinar aos alunos modos de ser e de se relacionar que os condicionem a se ajustar aos modelos estabelecidos. Isso implica na aceitao incondicional dos papis at agora desempenhados por homens e mulheres. Um artigo escrito por dois psiclogos americanos, publicado no Journal of Sex Research, analisa como os roteiros de "machos" fazem parte de uma ideologia na qual os homens so vistos como superiores s mulheres, e as emoes associadas com a masculinidade so consideradas superiores s associadas com a feminilidade.
     Somente alguns tipos de sentimentos, como repulsa, raiva, desprezo, so "masculinos", ou seja, sentimentos adequados a quem tem de dominar. Para garantir que aprendam a ser adequadamente "masculinos", os meninos tambm so ensinados a desprezar e a repelir as emoes "femininas" de medo e vergonha e, assim, nunca admitir que esto com medo ou errados.
     Entretanto, educadores progressistas comearam pela primeira vez, nos Estados Unidos, a abordar a educao para amar, ou seja, a educao para a alfabetizao emocional , a fim de ajudar os estudantes a aprender maneiras de ser e de se relacionar que os capacitem a se ajustar a uma sociedade de parceria, no de dominao. Essa educao est sendo introduzida lentamente no currculo escolar.
     H escolas que ensinam seus alunos de literatura e histria a empatia atravs do que chamam de "monlogos interiores", nos quais os estudantes so encorajados a pensar a partir da perspectiva dos diferentes personagens na histria, na literatura e na vida. Outra escola tem como objetivo elevar o nvel da competncia emocional e social das crianas como parte da educao. Como exigncia para alunos do ensino mdio, uma escola na Califrnia pretende estimular dimenses da inteligncia quase sempre omitidas: sensibilidade em relao aos outros, autocompreenso, intuio, imaginao e conhecimento do corpo.17

Amor virtual
       
     Talita, pedagoga, de 48 anos, est separada h bastante tempo. O computador na sua vida teve funo limitada  enviar e receber e-mails e digitar alguns textos  at se decidir a entrar numa sala de bate-papo. Foi a que conheceu Z Roberto, e por ele se apaixonou.
     
"Nunca nos vimos, mas nos amamos muito. H seis meses, todos os dias, no final do expediente dele na empresa, nos 'encontramos'. Sabemos tudo da vida do outro. Sei quando ele est preocupado e percebo claramente quando est precisando de mim. H dias em que sinto tanta saudade do Z Roberto que fico ansiosa esperando o momento do nosso 'encontro'. Quando acontece alguma coisa boa na minha vida, penso logo em contar para ele. Se estou com algum problema, ele me d grande apoio; pensa junto comigo e me faz perceber vrios ngulos da questo. Ele  casado, mas s vezes viaja a trabalho. Nessas ocasies, ficamos muitas horas juntos  noite, cada um em frente ao seu computador, Quando vou dormir, sozinha na minha cama, sinto-me profundamente ligada a ele. Arriscaria dizer at que nunca amei ningum com tanta intensidade."
     
     Muitos se espantam com o relato de Talita. Acreditam tratar-se apenas de fantasias solitrias de pessoas carentes. "Como  possvel amar uma pessoa sem poder v-la, toc-la, sentir seu cheiro?", perguntam. Penso, entretanto, que essa estranheza ocorre porque qualquer forma de pensar e viver diferente da que estamos habituados gera insegurana e medo. Afinal, o novo assusta. Ainda mais no que diz respeito aos relacionamentos amorosos.
     Mrcio Souza Gonalves, professor de Teoria da Comunicao da UERJ, que defendeu tese de doutorado sobre o tema,  partidrio da idia de que no  possvel julgar negativamente os relacionamentos virtuais em favor dos reais, porque nos dois casos estamos diante de processos culturais e sociais de construo de uma experincia que nunca  natural. A anlise da histria do amor revela que os comportamentos amorosos humanos, as representaes ligadas a eles e as sensibilidades que os sustentam so extremamente variados, sendo impossvel encontrar uma forma universal de amor. Grandes diferenas distinguem o amor vivido na Grcia antiga, na Idade Mdia e na modernidade.
     O que Mrcio sustenta, em resumo,  que os amores virtuais no devem ser entendidos como amores incompletos, artificiais, desviantes, menores, e, sim, como amores plenos, ainda que de um tipo novo e estranho. A histria do amor  a de uma sucesso de artifcios e neste momento estamos diante de mais um, to artificial quanto todos os outros. " evidente que a expresso amores virtuais no designa um s tipo de experincia amorosa, mas, antes, uma gama de experincias, Temos minimamente amores virtuais duradouros, verdadeiros relacionamentos estveis e tambm relacionamentos virtuais efmeros, rpidos, que no implicam nenhuma forma de durao."18

Os encontros
     
     Theodore Zeldin v vantagens nos relacionamentos virtuais. "Pode ser interessante de duas formas: a primeira  as pessoas exercitarem ser o que no so, desempenhando papis. A segunda forma  dizerem coisas que normalmente no diriam, se no estivessem no anonimato. Com isso podem ser mais sinceras. Por ltimo, ajuda numa habilidade, muito importante, que  o flerte. Voc tem de aprender como se tornar atraente para outra pessoa. H uma troca humana de interesses. Quando duas pessoas tm uma relao de qualidade entre elas, com respeito pelo outro, isso ajuda a mudar o mundo."19
     A Internet oferece a rara possibilidade de algum se interessar por uma pessoa que no  vista e, portanto, ficar livre da ditadura da beleza fsica. No so poucos os que admitem que jamais teriam se aproximado de uma pessoa feia, gorda ou baixa, mas que aps o perodo de namoro virtual, quando se deu o encontro, isso j no importava tanto. Num primeiro encontro virtual, as pessoas conversam e marcam novos encontros. Na hora combinada, ficam ansiosas, exatamente como ao vivo. Quando o outro se atrasa para entrar no chat, vem logo aquela sensao to conhecida do medo da rejeio. Apaixonar-se pela Internet no  muito diferente do que acontece na vida real.
     Num chat, os internautas adotam um nome fictcio e podem mentir a respeito de muitas coisas para garantir o anonimato e parecer mais atraentes: idade, profisso, tipo fsico, lugar em que moram etc. Contudo, mesmo desejando conquistar o outro, ningum consegue mentir no que de fato importa: caractersticas de personalidade, como sensibilidade, generosidade, inteligncia, humor, e tambm a viso que a pessoa tem do mundo, so transmitidas desde o primeiro momento. Aps vrios encontros no chat, muitos se sentem ntimos e, dependendo do estado de excitao, decidem pelo sexo virtual. "A Internet abre um novo universo de relaes humanas, possibilitando ao ser humano realizar aquilo que efetivamente : um n de relaes voltado para todos os lados. No jogo de relaes de todo tipo  comerciais, culturais e outras que se do via Internet , ocorre tambm a relao afetiva. Da pode surgir enamoramento e paixo", comenta o telogo e escritor Leonardo Boff.20

Nunca foi to fcil no ser sozinho
     
     No  verdade que a solido seja uma praga moderna. Os hindus dizem, em um dos seus mais antigos mitos, que o mundo foi criado porque o Ser Original se sentia solitrio.  infundada a crena de que a sociedade moderna condena os indivduos  solido. Quando a Internet surgiu, h poucos anos, dizia-se que o ser humano estaria definitivamente perdido, e que as pessoas, cada vez mais solitrias, iriam se relacionar exclusivamente com a mquina. Acreditavam que o avano tecnolgico vencia, subjugando a todos, e em breve no haveria qualquer possibilidade de troca afetiva nas relaes humanas.
     Mas a Internet surpreendeu. Os solitrios conheceram gente, os tmidos ganharam coragem para trocar idias e falar de si, e muitos grupos se formaram. H quem confesse nunca ter tido tantos amigos e feito tantos programas como depois que passou a freqentar um chat. Existem grupos que se encontram trs vezes por semana em bares e restaurantes, e uma vez por ms vo a reunies em outros estados, onde os internautas se hospedam reciprocamente.  claro que no  s amizade que as pessoas buscam quando se conectam  rede. Isso se torna cada vez mais freqente, o que faz o nmero de divrcios causados por infidelidade virtual crescer bastante.

Cresce o adultrio on-line
     
     A pesquisadora Beatriz Avila Mileham, da Universidade de Gainesville, na Flrida, Estados Unidos, que estudou o impacto dos chats nos relacionamentos, prev que muito em breve a Internet se tornar a principal forma de infidelidade entre casais, se j no o . Tem havido um nmero cada vez maior de rompimentos, aps serem descobertas relaes extraconjugais on-line por um dos parceiros. Segundo o estudo, muito embora os relacionamentos cibernticos possam nunca levar s vias de fato, eles desencadeiam, quando desmascarados, os mesmos sentimentos de fria e traio de uma relao real. Nos Estados Unidos, as salas de papo on-line tm sido a mais crescente causa de divrcios ultimamente, e tendncia similar se delineia na Gr-Bretanha.

Relaes mltiplas
     
     A experincia amorosa via Web acontece nos sites dedicados ao amor. Esses endereos virtuais possuem elementos multimdia que permitem o envio de imagens, anncios  procura de parceiros virtuais ou reais, rpidos ou duradouros. O e-mail tambm permite a relao direta, antes do primeiro contato pessoal.
     Os programas de chat possibilitam que as pessoas dialoguem em tempo real, em canais especficos, com temas variados. Os dilogos podem ser abertos ou privados, ou seja, com todo o grupo vendo ou reservado aos interessados. H opo de anonimato. O usurio pode partir de um contato na Internet para um encontro real, de carne e osso, que pode visar apenas um contato breve ou algo mais srio. A outra opo  que o relacionamento continue virtual, e nesse caso ele poder ser breve ou duradouro, como o real. Outra caractersticas dos encontros amorosos virtuais  a prtica de se relacionar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo.
     Pedro Henrique, mdico, solteiro, de 29 anos, costuma ter vrios amores virtuais.
     
"Independentemente de estar namorando algum no mundo real, tenho minhas namoradas virtuais. H pocas em que me relaciono com trs ou quatro mulheres. Envio e-mail para uma delas e marcamos hora para nos encontrar nos chats. Claro que tenho minhas preferncias. Como no mundo real, com algumas tenho mais afinidade do que com outras."
     
     Acredito que daqui para a frente haver grande variedade de relacionamentos. No futuro, as pessoas vo experimentar diferentes formas de estar juntas. A prtica de relaes amorosas virtuais mltiplas abre espao para se amar vrias pessoas ao mesmo tempo tambm no mundo real.  o que se pode observar com o crescente nmero de adeptos do poliamor.

Poliamor
       
     Elaine  advogada, tem 34 anos e est separada h trs. Aps alguns namoros e muitas brigas por conta do cime de seus parceiros, decidiu que no teria mais nenhuma relao amorosa em que se exigisse qualquer tipo de exclusividade.
     
"Em vrios momentos da minha vida amei mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Mas sempre que isso acontece, voc se sente: na obrigao de ter que decidir entre elas. No acho natural; no quero isso para a minha vida. Porque no podemos amar vrias pessoas? No amamos diversos amigos? No amo meus trs filhos? Cansei dessa histria; aderi de corpo e alma ao poliamor. Sei que no  fcil encontrar; parceiros que concordem com isso, mas estou tentando. Tenho a esperana que daqui a algum tempo as cabeas fiquem mais abertas."
     
     Na mesma semana em que ouvi, no consultrio, o relato de Elaine, recebi o telefonema de uma reprter de uma revista semanal querendo me entrevistar sobre poliamor. So esses pequenos sinais que indicam as tendncias. Existe hoje um movimento organizado com a inteno de difundir a idia de se amar vrias pessoas ao mesmo tempo. A Wikipdia, enciclopdia livre da Internet, d a seguinte definio:
     
"Poliamor  a traduo livre para a lngua portuguesa da palavra polyamory (palavra hbrida: poly  grego e significa muitos, e amor vem do latim), que descreve relaes interpessoais amorosas que recusam a monogamia como princpio ou necessidade. Por outras palavras, o poliamor como opo ou modo de vida defende a possibilidade prtica e sustentvel de se estar envolvido de modo responsvel em relaes ntimas, profundas e eventualmente duradouras com vrias/os parceiras/os simultaneamente. (...) Poliamor como movimento existe de um modo visvel e organizado nos Estados Unidos nos ltimos 20 anos, acompanhado de perto por movimentos na Alemanha e no Reino Unido. Recentemente, a imprensa comeou a cobrir abertamente quer o movimento poliamor em si, quer episdios que lhe so ligados. Em novembro de 2005, realizou-se a Primeira Conferncia Internacional sobre Poliamor em Hamburgo, Alemanha."
     
     O verbete  ilustrado com uma passeata em Londres dos adeptos dessa prtica amorosa, com uma grande faixa na qual se l: Polyamory. No Google, so encontradas 769 citaes para a palavra poliamor e 840 mil para a palavra polyamory, nos mais diversos idiomas.
     No poliamor uma pessoa pode amar seu parceiro fixo e amar tambm as pessoas com quem tem relacionamentos extraconjugais, ou at mesmo ter relacionamentos amorosos mltiplos em que h sentimento de amor recproco entre todos os envolvidas. Os poliamoristas argumentam que no se trata de procurar obsessivamente novas relaes pelo fato de ter essa possibilidade sempre em aberto, mas, sim, de viver naturalmente tendo essa liberdade em mente. "O poliamor pressupe uma total honestidade no seio da relao. No se trata de enganar nem de magoar ningum. Tem como princpio que todas as pessoas envolvidas esto a par da situao e se sentem  vontade com ela. A idia principal  admitir essa variedade de sentimentos que se desenvolvem em relao a vrias pessoas, e que vo alm da mera relao sexual."21
     O poliamor aceita como fato evidente que todos tm sentimentos em relao a outras pessoas que as rodeiam. Como nenhuma relao est posta em causa pela mera existncia de outra, mas, sim, pela sua prpria capacidade de se manter ou no, os adeptos garantem que o cime no tem lugar nesse tipo de relao. "No  o mesmo que uma relao aberta, que implica sexo casual fora do casamento, nem na infidelidade, que  secreta e sinnimo de desonestidade. O poliamor  baseado mais no amor do que no sexo e se d com o total conhecimento e consentimento de todos os envolvidos, estejam estes num casamento, num mnage  trois, ou no caso de uma pessoa solteira com vrios relacionamentos. Pode ser visto como incapacidade ou falta de vontade de estabelecer relaes com uma nica pessoa, mas os poliamantes se sentem bastante capazes de assumir vrios compromissos, da mesma forma que um pai tem com seus filhos."22

O poliamor ganha visibilidade
     
     Nan Wise, psicoterapeuta que pratica o poliamor, reconhece que  necessrio muita estabilidade emocional. Ela  casada com John Wise h 24 anos e os dois mantm uma relao amorosa com outro casal, Jlio e Amy. Como muitas dessas relaes, Nan tem com John sua "relao primria", e com Jlio e Amy uma relao secundria, termos que servem para atribuir nveis de importncia a quem participa de um mesmo grupo. "As modalidades e escalas de valores desse tipo de relacionamento podem parecer complexos para quem desconhece como operam, mas o fenmeno est sendo mostrado em grupos de discusso, sites na Internet, eventos e filmes."23
     Embora a relao amorosa entre trs ou mais pessoas permanea  margem da sociedade, os que a praticam so cada vez mais visveis ao compartilhar sua experincia. Sites como www.polyamory.com e www.polyamory.org oferecem desde dicas para a relao entre poliamantes at msicas, ensaios, artigos de opinio, filmes e literatura de fico sobre o assunto. A Polyamory Society  uma organizao sem fins lucrativos que promove e apia os interesses de indivduos com relacionamentos ou famlias mltiplas. Para a escritora americana Barbara Foster, que estuda o poliamor e o pratica com seu marido h mais de 20 anos, trata-se de um movimento social muito importante e que est na moda.24 Os poliamoristas advertem que essa prtica amorosa  uma escolha, assim como  a monogamia, e traz consigo tantos ou mais desafios. Ela, definitivamente, no  uma soluo para um mau casamento ou outros problemas de relacionamento.

"Ficar": antecessor do poliamor
     
     Entre a classe mdia urbana brasileira, h o fenmeno do "ficar", uma espcie de namoro que se esgota num prazo curto. Comeou nos anos 80 entre os adolescentes, e consiste em trocas de carcias que vo dos beijos e abraos at alguma coisa mais, geralmente sem chegar ao ato sexual. O "ficar" dispensa um conhecimento prvio e qualquer tipo de continuidade. Tudo comea e termina na mesma noite ou dia, numa festa ou na praia, sem culpas ou explicaes. O ficar  uma forma no compromissada de relacionamento afetivo, no qual no h o pressuposto de fidelidade/exclusividade. Alguns jovens ficam com vrias parceiros(as) numa mesma noite.
     "Visto dessa perspectiva, fica claro que o poliamor  a forma mais evoluda de relacionamento amoroso, pois no existe o desejo de posse e domnio sobre o outro. Cada parceiro est interessado na felicidade do outro e no se sente inteiramente responsvel por ela, tampouco cobra do outro responsabilidade integral sobre a sua felicidade no amor."25 Os poliamoristas afirmam que, entre eles, o fato de se amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo no provoca o cime, mas, sim, um sentimento chamado de "comperso"  sentir-se feliz ao ver seus parceiros com outras pessoas. "O cime  um sentimento primitivo, baseia-se no desejo de posse do outro como se fosse um objeto. Isso no  amor,  necessidade, egosmo. O amor  algo que se doa sem nada pedir em troca, a no ser o que o outro quiser e puder dar espontaneamente. O amor no comporta ressentimento e mgoa, isso  produto do cime, que por sua vez  produto da frustrao do desejo de posse exclusiva do outro, o qual se origina do desejo infantil de ter o pai ou a me s para si." 26

A fidelidade no  natural
       
     Apesar de nosso tabu cultural contra a infidelidade, so muito comuns as relaes extraconjugais. Todos os ensinamentos que recebemos desde que nascemos  famlia, escola, amigos, religio  nos estimulam a investir nossa energia sexual em uma nica pessoa. Mas a prtica  bem diferente. Uma porcentagem significativa de homens e mulheres casados compartilha seu tempo e seu prazer com outros parceiros.
     A antroploga americana Helen Fisher conclui que nossa tendncia para as ligaes extraconjugais parece ser o triunfo da natureza sobre a cultura. "Dezenas de estudos etnogrficos, sem mencionar inmeras obras de histria e de fico, so testemunhos da prevalncia das atividades sexuais extraconjugais entre homens e mulheres do mundo inteiro. Embora os seres humanos flertem, apaixonem-se e se casem, eles tambm tendem a ser sexualmente infiis a seus cnjuges."27
     O professor de cincias sociais Elias Schweber, da Universidade Nacional Autnoma do Mxico, refora essa idia. "Na infidelidade influem fatores psicolgicos, culturais e genticos, que nos levam a afastar a idia romntica da exclusividade sexual. No existe nenhum tipo de evidncia biolgica ou antropolgica na qual a monogamia  'natural' ou 'normal' no comportamento dos seres humanos. Ao contrrio, existe evidncia suficiente na qual se demonstra que as pessoas tendem a ter mltiplos parceiros sexuais." 28
     A poligamia  o homem ter mais de uma esposa de cada vez   permitida em 84% das sociedades pr-industriais. Durante muito tempo, acreditou-se que s os homens tinham relaes mltiplas. Entretanto, quando surgiram os mtodos contraceptivos eficazes e as mulheres entraram no mercado de trabalho, houve uma mudana no comportamento feminino.
     Anete, casada h dez anos, relata o conflito que a atormenta:
     
     "Tenho um casamento-estvel e feliz, amo meu marido e sinto que ele me ama. Fui trada e perdoei. Em primeiro lugar, pela dependncia financeira, em segundo, pelos meus filhos, e em terceiro, porque eu o amava muito e homem para mim s existia ele. Com o passar dos anos, fui amadurecendo, tomando-me mais independente financeira e emocionalmente e isso fez com me sentisse mais segura. Conheci uma pessoa, um vizinho, que, de tanto passar na minha, porta, acabou me despertando o interesse. Depois de alguns meses, conversamos pelo celular e resolvemos nos conhecer pessoalmente. Estamos nesse relacionamento h trs anos. Ele tambm  casado.
     "Meu casamento, depois disso, melhorou; meu marido me trata com carinho e demonstra amor como nunca tinha feito antes. A qualidade do sexo tambm melhorou; ele me acha mais gostosa, me curte mais, e eu tenho o maior teso por ele. Meu conflito interior  o seguinte: como posso estar num casamento to bom e satisfatrio para mim e ainda conseguir levar adiante um relacionamento extra? At que ponto isso  bom para mim e para meu casamento? Como devo agir diante de tal situao? O conflito se torna ainda maior pois sou catlica, e pela minha criao o adultrio sempre foi visto como um grave pecado."
       
     Um dos pressupostos mais universalmente aceitos em nossa sociedade  o de que o casal monogmico  a nica estrutura vlida de relacionamento sexual humano, sendo to superior que no necessita ser questionado. Na verdade, nossa cultura coloca tanta nfase nisso, que uma discusso sria sobre o assunto dos relacionamentos alternativos  muito rara. Entretanto, as sociedades que adotam a monogamia tm dificuldades em comprovar que ela funciona. Ao contrrio, parece haver grandes evidncias, expressas pelas altas taxas de relaes extraconjugais, de que a monogamia no funciona muito bem para os ocidentais.  comum pessoas deixarem um bom casamento porque se apaixonaram por algum novo, no que vem sendo chamado de monogamia seqencial. O argumento de que o ser humano  "predestinado"  monogamia  difcil de sustentar. Portanto, uma vez que ns humanos nos damos to mal com a monogamia, outras estruturas de relacionamento livremente escolhidas tambm devem ser consideradas.29
     Em 1976, o psicoterapeuta e escritor Roberto Freire tomou como base a letra da msica de O Seu Amor, de Gilberto Gil, para a discusso da sua proposta de amor libertrio.
       
     O seu amor
     ame-o e deixe-o livre para amar
     O seu amor
     ame-o e deixe-o ir aonde quiser
     O seu amor/ame-o e deixe-o brincar
     ame-o e deixe-o correr
     ame-o e deixe-o cansar
     ame-o e deixe-o dormir em paz
     O seu amor
     ame-o e deixe-o ser o que ele 
       
     Na msica de Gil,  ressaltada a idia de que o verdadeiro ato de amor  o que garante a quem amamos a liberdade de amar, alm e apesar de ns e de nosso amor. Ele acredita que, apesar de muita gente considerar que essa ideologia amorosa  pura utopia, quase todos sonham com essa possibilidade. "Pessoalmente,  tudo o que desejo: o meu amor, tanto meu sentimento quanto a pessoa que amo, alm de am-los apenas do jeito que gosto, deixo-os livres para amar do jeito que gostam, at mesmo alm e apesar de mim. Procuro pessoas que tambm amam assim. Tem sido difcil, mas acabo sempre por encontr-las.  fascinante, assustador, maravilhoso, doloroso, prazeroso, novo, imprevisvel, incontrolvel, rico, maluco, romntico, catico, aventureiro."30

Poliamor: o que  e o que no 
     
     Os psiclogos americanos Derek McCullough e David S. Hall escreveram um longo texto sobre poliamor, publicado no Journal of Sex and Sensibility, do qual reproduzo alguns pontos.31
     Para eles  comum encontrar-se em colunas de aconselhamento amoroso a seguinte histria: "Eu realmente amo meu marido, mas me apaixonei tambm por um colega de trabalho. O que devo fazer?" A resposta , usualmente, alguma variao do seguinte conselho: "Saia fora disso, voc ir arruinar sua vida." Os terapeutas acreditam que a verdadeira resposta  que muitas pessoas esto adotando um novo tipo de esquema em sua vida. Elas esto aprendendo a amar mais do que uma pessoa ao mesmo tempo, com honestidade e integridade.

No que os poliamoristas em geral acreditam?
     
 	Os poliamoristas dizem que sua filosofia nada mais  do que aceitao direta e a celebrao da realidade da natureza humana.

	Os poliamoristas dizem que o sexo no  o inimigo, que o real inimigo  a quebra e a traio de confiana resultante da tentativa de reprimir nosso ser natural em um sistema social rgido e antinatural.

	Os poliamoristas dizem que o sexo  uma fora positiva se aplicada com honestidade, responsabilidade e verdade.

	Os poliamoristas no tm que atender a todas as necessidades de cada parceiro; eles devem ajudar. Se sua esposa ama pera e voc no gosta, talvez algum de seus amantes apreciar lev-la  pera. Se ele for tambm um mago da informtica e ajudar a consertar seu computador quando ele no funciona direito, voc  uma pessoa de sorte.

	Os poliamoristas dizem que o amor  um recurso infinito, e no finito. Ningum duvida de que voc possa amar mais de um filho. Isso tambm se aplica aos amigos  quando voc encontra um novo amigo, no precisa se preocupar com quem ter que descartar para coloc-lo no lugar.

	Os poliamoristas dizem que o cime no  inato, inevitvel e impossvel de superar. Mas eles lidam com o cime usualmente de forma bem-sucedida. H um novo termo para o oposto do cime: compersion (sem traduo para o portugus ainda, talvez possa ser traduzido como "comprazer"). Compersion  o sentimento de contentamento que advm do conhecimento de que uma pessoa que voc ama  amada por mais algum.

	Os poliamoristas dizem que o amor deve ser incondicional, no lugar da proposio monogmica de que "Eu irei amar voc sob a condio de que voc no amar mais ningum", "Desista de todos os outros",  como usualmente isso  colocado. E, conforme demonstrado pela histria, o casamento monogmico no d nenhuma garantia de que no se ir amar mais ningum ao longo da vida.

	Os poliamoristas acreditam em um investimento emocional de longo prazo em relacionamentos; assim como esse objetivo nem sempre  alcanado no poliamor, ele tambm nem sempre  alcanado na monogamia.

	Os poliamoristas acreditam que eles representam os verdadeiros "valores familiares". Eles tm a coragem de viver um estilo de vida alternativo que, embora condenado pela sociedade,  satisfatrio e recompensador para eles. Crianas que tm muitos pais/mes tm mais chances de serem bem cuidadas e menos risco de se sentirem abandonadas se algum deixa a famlia.
       
     Derek McCullough e David S. Hall afirmam que nossa cultura  adepta de trs crenas bsicas sobre relacionamento que provocam cime na maioria das pessoas. Identificar e desmantelar essas crenas  a forma mais eficaz de lidar com o cime.

Crena bsica 1
     
     Se meu parceiro(a) realmente me ama, no deve haver nenhum desejo de uma relao sexual ntima com qualquer outra pessoa.
     Isso se baseia no modelo de carncia de amor, no qual o interesse emocional ou amoroso do parceiro por algum mais significa que eu serei menos amado. Isso  to absurdo quanto a idia de que ter um segundo filho  um indicativo de que voc no ama suficientemente seu primeiro filho. Isso tambm presume que sexo e amor so as mesmas coisas e preenchem as mesmas necessidades.

Crena bsica 2
     
     Se eu for um bom parceiro/marido/esposa/amante, meu parceiro(a) estar to satisfeito(a) que no vai desejar se envolver com mais ningum.
     Essa crena  ainda mais insidiosa. Com a primeira crena voc pode, no mnimo, jogar a culpa no(a) parceiro(a). Essa crena faz com que seja sua falta no ter sido um(a) amante perfeito(a). Essa  tambm a base do disseminado mito romntico da "uma e nica pessoa no planeta". Isso tambm acarreta srios problemas de auto-estima, os quais so um terreno frtil para o cime.

Crena bsica 3
     
      simplesmente impossvel amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo.
     Isso, novamente, se baseia na teoria da carncia de amor, de que eu tenho apenas uma quantidade finita para dar.
     
     Todas essas crenas esto ligadas ao medo primrio, porm infundado, de perda e abandono. Os poliamoristas substituram essas crenas bsicas por trs novas crenas bsicas:

Nova crena bsica 1
     
     Meu(minha) parceiro(a) me ama e confia tanto em mim que ns podemos permitir que nosso relacionamento se expanda e se enriquecia ao experimentar mais amor de outras pessoas. H uma abundncia de amor no mundo e h o suficiente para todos. Amar mais de uma pessoa  uma escolha que pode expandir o potencial para dar e receber amor.

Nova crena bsica 2
       
     Meu(minha) parceiro(a)  to confiante em mim e em nosso relacionamento que ter outros parceiros no ir provocar cime nem a idia de que isso ir destruir nosso amor.

Nova crena bsica 3
     
     Apesar do arranjo socialmente fora do comum que ns estabelecemos em nossa vida amorosa, eles foram acordados de forma consciente e responsvel por todos os envolvidos. Ns insistimos em integridade em nossos relacionamentos.

Tornando-se poliamorista
     
     Naturalmente, ningum chega ao poliamor de uma hora para outra, isso  resultado de um longo processo de desenvolvimento pessoal, do qual, por enquanto, poucos so capazes.  necessrio fazer toda uma reviso de conceitos, de condicionamentos culturais e emocionais, para ver as coisas a partir de um outro paradigma. Entretanto, os poliamoristas tambm sustentam o direito de qualquer um optar pela monogamia como escolha de vida e acreditam que essa seja a escolha certa para muitas pessoas.
     A psicloga americana Deborah Anapol, autora do livro Polyamory: The New Love Without Limits (Poliamor: O novo amor sem limites), afirma: "Nossa cultura coloca tanta nfase na monogamia de modo que poucas pessoas se do conta de que podem decidir sobre quantos parceiros amorosos/sexuais desejam ter. Ainda mais difcil de aceitar  a idia de que uma relao de mltiplos parceiros possa ser estvel, responsvel, consensual, enriquecedora e duradoura. Poliamor no  sinnimo de promiscuidade."32
      importante ressaltar que o poliamor no  a nica forma satisfatria de relacionamento amoroso. Cada pessoa deve ter o direito de escolher a que mais se adapta s suas necessidades e caractersticas de personalidade. "Provavelmente, muitos anos iro passar ainda at que o poliamor seja um forma de relacionamento universalmente aceita e praticada sem barreiras legais e preconceitos sociais. As pessoas que esto praticando o poliamor atualmente so como desbravadores de um novo continente, abrindo caminhos para chegar aonde nenhum homem jamais esteve e tornar realidade a utopia de que novas formas de relacionamento so possveis como alternativa  antiga ditadura da monogamia compulsria."33

Sem medo de ser sozinho
       
     A maioria ainda acredita que s  possvel encontrar a realizao afetiva numa relao amorosa com algum. A propaganda a favor  to poderosa que a busca da "outra metade" se torna incessante e muitas vezes desesperada. Entretanto, nas grandes cidades dos pases desenvolvidos, h cada vez mais gente optando por morar sozinha. Isso indica que as mentalidades esto mudando. " crescente o nmero de pessoas para as quais a tendncia na direo da individualidade, de uma vida sem muitas concesses, em que a liberdade de deciso e de locomoo se torna muito maior, passa a ser mais forte do que nossa outra tendncia, a que nos impulsiona na direo da fuso romntica, na qual predomina a busca da sensao de aconchego", comenta Gikovate.34
     Roberto Freire afirma que lhe custou muita dor, solido e desespero aprender que sentir amor era uma potencialidade vital sua, produo criativa prpria, e que para amar dependia apenas dele mesmo. A expresso e comunicao do seu amor eram produtos da liberdade pessoal e social conquistada. "Em minha inocncia e ignorncia, eu atribua a algumas pessoas o poder de liberar, produzir, fazer exercer-se e se comunicar o amor em mim e de mim. Esse amor pertencia, pois, exclusivamente a essas pessoas, ficando eu delas dependente para sempre. Se, por alguma razo, me deixassem ou no quisessem produzi-lo em mim, eu secava de amor e  o que  pior  ficava em seu lugar, na pessoa e no corpo, uma sangrenta ferida, como a de uma amputao, que no cicatrizaria jamais." 35
     No  fcil deixar o hbito de formar um par. Fomos condicionados a desej-lo, convencidos de que se trata de pr-requisito para a felicidade. Entretanto, quando algum alcana um estgio de desenvolvimento pessoal em que descobre o prazer de estar sozinho, d-se conta de uma profunda mudana interna. Preservar a prpria individualidade passa a ser fundamental.
     O futuro aponta para uma nova forma de estar s. Mais pessoas vo perceber que viver sozinho no significa solido. Contudo, a condio essencial para ficar bem sozinho  o exerccio da autonomia pessoal. Isso significa, alm de alcanar nova viso do amor e do sexo, libertar-se da dependncia amorosa exclusiva e "salvadora" de algum.
     O caminho fica livre para um relacionamento mais profundo com os amigos, com o crescimento da importncia dos laos afetivos.  com o desenvolvimento individual que se processa a mudana interna necessria para a percepo das prprias singularidades e do prazer de estar s. "O que caracteriza e diferencia a amizade do amor no  a inexistncia de trocas erticas. Estas poderiam at existir nas amizades, se no tivssemos a mentalidade que temos a respeito do que pode ou no ser feito em termos sexuais", explica Flvio Gikovate.36 Ao afastarmos a idia da fuso com o outro, poderemos estabelecer um relacionamento afetivo e sexual mais sofisticado do que o amor romntico e apropriado a esse futuro de pessoas ss e autnomas.

Rede de amigos
     
     Pela primeira vez na histria humana, algumas pessoas de pases ocidentais comearam a escolher seus parentes, criando uma nova rede de parentesco baseada na amizade, e no no sangue. Segundo Helen Fisher, as associaes so compostas de amigos. Os membros se falam regularmente e compartilham suas vitrias e dificuldades. Quando um adoece, os outros cuidam dele. Essa rede de amigos  considerada uma famlia, que, segundo Fisher, poder gerar novos termos de parentesco, novos tipos de poltica de seguro, novos pargrafos nos planos de sade, novos acordos de aluguel, novos tipos de desenvolvimento de moradia e muitos outros planos legais e sociais.37
  
  
Casamento
       
       
     
     
     O modelo de casamento que conhecemos d sinais de que ser radicalmente modificado. Como vimos, muitos o consideram um obstculo  liberdade. Apreciam a descoberta, a aventura, a falta de rotina, o convvio com pessoas diferentes e, principalmente, no se sentem obrigados a fazer alguma coisa s para agradar ao outro. A insatisfao na vida a dois da grande maioria dos casais impulsionou essas mudanas. Estatsticas mostram que homens e mulheres americanos casados gastam, em mdia, apenas meia hora por semana conversando.
     O amor romntico saindo de cena, provavelmente, levar com ele a idia de exclusividade sexual, ou seja, a fidelidade conjugal, to cobrada ainda hoje, perder sua importncia. Com a crescente liberdade sexual que se observa, prticas antes nem imaginadas pelos casais ganham espao.

Mnage  trois
     
     H algum tempo, passei a receber grande quantidade de mensagens de pessoas casadas dispostas a praticar sexo a trs com seus cnjuges. Resolvi, ento, lanar a pergunta no meu site www.camanarede.com.br: "Voc gostaria de fazer sexo a trs? Por qu?" Aproximadamente 1.500 usurios responderam. Quase 80% disseram sim. A palavra que mais aparece nas respostas  "excitante". O argumento favorvel mais comum  o de que a viso do(a) parceiro(a) com outro  muito... excitante.
     Alguns defendem a total falta de compromisso entre as partes e somente o desejo sexual conduzindo as aes. Outros, ao contrrio, s vem validade em tal experincia se houver paixo, envolvimento, enlace profundo. Os que assumem a bissexual idade so percentual expressivo. Esses argumentam que o sexo a trs  o relacionamento perfeito. H um forte contingente daqueles que gostariam, mas acham que os parceiros jamais admitiriam. E h tambm os que s o praticam fora de casa, lamentando ter de recorrer ao adultrio.
     Em histrias e cartas para revistas pornogrficas, o mnage  trois geralmente compreende um casal hetero que se envolveu com outro homem ou mulher. Em alguns casos, as trs pessoas estabelecem um vnculo e desenvolvem uma relao estvel. Entretanto, na maioria das vezes, a terceira parte  tratada como um brinquedo a ser usado, mais do que parte integral da relao.
     Silvana, publicitria, de 28 anos,  casada com Jonas h trs. O casal tem uma filha de um ano e meio. Desde antes do nascimento da criana, Jonas propunha convidar mais um homem para fazer sexo com eles. Silvana relutou um pouco, mas, diante da grande insistncia do marido, resolveu aceitar:
     
" sempre o Jonas que escolhe um homem para transar conosco.  freqente ele me avisar que naquela noite teremos visita. No incio, eu ficava meio constrangida de transar com algum na frente do meu marido, mas acabei gostando da idia. Nunca repetimos a mesma pessoa nem sei como Jonas combina a participao do outro. Tem sido uma experincia excitante ser tocada por dois homens ao mesmo tempo, mas, s vezes, fico meio culpada. Deve ser por conta da minha educao religiosa."
     
     O termo mnage vem do latim mensa e refere-se  mesa ou refeio. Poderia significar, ento, trs pessoas  mesa,  vontade.  como estar em famlia. Talvez essa seja uma das maiores caractersticas do mnage  trois: o estar  vontade, em famlia, evitando, porm, a formao de um casal e de todo o tdio que isso pode representar. O terceiro elemento desequilibra e, ao faz-lo, repe o equilbrio perdido pela simples existncia do casal.
     O mnage tem uma longa histria. Jean-Jacques Rousseau foi participante e incentivador do mnage  trois. Casanova integrou vrios trios. Catarina da Rssia e Friedrich Engels aderiram ao formato, mas a trade contempornea mais famosa foi composta pelo filsofo Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Bianca Bienenfeld. Madame Beauvoir declarou: "Fomos pioneiros de nossos prprios relacionamentos, de sua liberdade, intimidade e franqueza. Pensamos na idia do trio."
     Mas o mnage  trois no  um hbito apenas de intelectuais, como pode parecer pelos exemplos anteriores. Sua prtica  documentada tambm entre os bandidos. Butch Cassidy, Sundance Kid e Etta Place amavam-se entre um assalto a trem e um assalto a banco. Bonnie Parker, Clyde Barrow e Willian Jones, tambm no Oeste, faziam o mesmo. Quem no se lembra de Bonnie e Clyde, algumas dcadas depois?
     Em 2002, para matria da extinta revista Muito Prazer, que editei, enviamos cartas para 30 casais que anunciam em revista, buscando sexo a trs. Propusemos uma reportagem contando como acontecem tais relaes. O resultado est no texto a seguir escrito pelo jornalista Fauzi Duran, que relata as experincias de um casal de Niteri.
       
     "Joo e Dilma casaram-se por insistncia dela. Ele admitia existir uma grande amizade entre os dois, mas preferia a vida livre dos solteiros. Dilma insistia. Ela era sua confidente, melhor amiga e eles, vez ou outra, ainda transavam bem. Joo acabou concordando. O casamento deu aos dois uma linda filha, que lhes trouxe muitas alegrias, mas o sexo diminuiu. Dilma, que tinha enorme teso pelo marido, ressentiu-se do esfriamento do pouco que existira de sexo. Enfim, tornou-se tudo muito chato. Joo sugeriu que ela arranjasse um amante. nica ressalva: ele gostaria de assistir aos encontros da esposa.
     "A possibilidade extraconjugal excitou Dilma, tornando-a atenta aos olhares dos homens e ao assdio. Logo ela colecionava pretendentes de todos os tipos.  uma mulher desejvel, carnuda sem ser flcida, com um toque de sensualidade no rosto que talvez refletisse sua busca. Mas como saber que homem estaria disposto ao mnage ou, pelo menos, permitisse o voyeurismo de Joo?
     "Quando entrei em contato com o casal Joo e Dilma, eles tinham descoberto recentemente as revistas de encontro. Consultando a Brazil e a Private, deram com anncios de vrios homens que desejavam encontrar-se com casais. Era s escolher. Havia negros que expunham seus membros avantajados nas fotos. E tambm homens de meia-idade que se ofereciam aos casais. Durante dois meses, Joo e Dilma analisaram dezenas de anncios e acabaram selecionando alguns, que enviaram cartas de resposta.
     "Duas semanas depois, eles saram com Jlio, jovem de 36 anos que mandara sua foto de corpo inteiro e nu, como haviam pedido nos contatos. Marcaram para um sbado  noite em Icara. Beberam juntos uns drinques e resolveram terminar a noite num motel em So Gonalo. Jlio no decepcionou. Dilma ficou encantada com o desempenho forte e constante do rapaz. Depois de vrias horas, ela adormeceu nos braos do novo amigo. Acordou sozinha na cama. Ouviu rudos no banheiro e foi espiar. Encontrou Joo gemendo sob o domnio de Jlio, que o penetrava. A bissexualidade em Joo no era desconhecida de Dilma. O flagrante apenas a confirmou. Jlio tornou-se parceiro constante do casal.
     "O encontro do reprter de Muito Prazer com Joo e Dilma ocorreu na casa dos dois, no Ing, em Niteri. Dilma explicou que Jlio costumava se relacionar com ambos, separadamente. Isso gerava entre os trs a formao de dois casais, e a renovao de todos os vcios decorrentes de uma relao a dois. Jlio continuava a encontr-los, mas uma vez por ms saam com outras pessoas para manter o frescor do mnage. Naquela noite, eles receberiam a visita de uma mulher. Joo convencera Dilma a experimentar a relao bissexual.
     "'Gata sapeca para casais liberais', este foi o ttulo do anncio publicado por Eleonora em duas revistas de encontros. Joo respondeu dizendo que pretendia iniciar a mulher no 'bi feminino', conforme o jargo desse gnero de publicao. Eleonora descreveu-se como 'gostosa e tarada, 24 anos, 1,66m, 57kg, casada e liberada'. Anexou  carta uma foto em que est ajoelhada sobre uma poltrona, com ndegas e sexo expostos.
     "Ela chegou  casa de Joo e Dilma com disposio. Sabia da presena de um reprter e mostrou-se tranqila. Eleonora sentou-se ao lado de Dilma. Tocou seu cabelo. Dilma sorria, mas continuava constrangida. Joo voltou para a sala com uma fita cassete na mo. Explicou que ali estavam algumas faanhas da mulher, mas s poderamos v-las no quarto, uma vez que o videocassete ficava l. Fomos todos. Sentamos na cama. As imagens do vdeo mostravam Dilma, seminua, entre Joo e Jlio.
     "Eleonora continuou passando a mo nas costas de Dilma e dando beijinhos em seu pescoo. Dilma levantou-se e olhou-nos, depois disse que gostaria, mas no podia. Saiu em direo  sala. Joo foi atrs. Eu e Eleonora o seguimos logo depois. Dilma estava se servindo de bebida.
     "Dilma revelou que estava recebendo Eleonora por insistncia de Joo, que a queria experimentando uma relao homossexual. Perguntei se Dilma estava resistente quanto  Eleonora por conta de minha presena, ou se ela no se julgava capaz de uma relao homossexual. Ela custou a responder, mas por fim disse que sim, eu a inibia, e que certamente ela e Eleonora acabariam transando. Era s aguardar o momento certo.
     "Algum tempo depois, liguei para Dilma. Ela est se encontrando com Eleonora, com quem tem transado. Perguntei por Joo, mas Dilma disse que ele no participa. Esto procurando outras pessoas para se relacionar. Homens ou mulheres, mas sempre a trs."
       
     O nmero 3 tem significaes msticas. O I Ching o considera um fator para a transformao da escurido em luz. Os romanos usavam uma trpode para segurar a chama sagrada, competiam em carruagens de trs rodas, que tinham mais estabilidade. Na mitologia escandinava, a rvore da vida tem trs razes.
     Essas idias ressaltam a natureza do casai versus a trade, indicando que esta  superior  forma mais tradicional. Um praticante de sexo a trs com a esposa explica: "O adultrio e o mnage  trois compartilham no seu incio um desejo de viver plenamente. Mas rapidamente tomam caminhos diferentes. O adultrio floresce sobre a suspeita, o cime e a raiva. O mnage exige honestidade e, no mnimo, a aquiescncia dos trs. Sua plena cooperao produz melhor resultado. E talvez seja seu segredo."
     Os adeptos do mnage o fazem para defender a prpria famlia ou para deton-la de vez. Um grupo acha que a famlia nuclear acabou e que novas configuraes surgiro de suas runas. Outro quer a permanncia dela, mas sem o tdio, o cime e os outros vcios do casamento tradicional. Ambos concordam, no entanto, que a mera existncia do casal no se sustenta.
    
Swing
       
       
     A troca de casais chegou  classe mdia do Ocidente em fins da dcada de 1970, nos Estados Unidos, embalada pela revoluo sexual recente, mas sua prtica  antiga em outras civilizaes. Os esquims costumavam deixar suas mulheres emprestadas ao vizinho, quando saam para caar. O objetivo era a preservao da mulher, que podia no resistir s baixas temperaturas, sem apoio de algum. A China tambm tinha o costume, at a Revoluo Cultural, de os maridos, quando se ausentavam, alugarem as esposas. Os filhos que nascessem no perodo pertenceriam quele que alugara a mulher. No Tibete, na frica e no Hava h registro sobre o costume em questo.
     As sociedades ocidentais modernas, com seu alto nvel de tolerncia aparente, convivem com clubes e publicaes especializadas. Os casais anunciam suas intenes, com fotos e endereos. Aps uma correspondncia por e-mail, marcam encontros. Grupos mais organizados e com atividade regular mantm casas exclusivamente para esse fim.
     O Clube de Swing da Amrica do Norte calcula que os adeptos da prtica, nos Estados Unidos, sejam mais de cinco milhes de pessoas. No Brasil, nos ltimos dez anos, aumentou muito o nmero de casas para esse fim e tambm o nmero de casais interessados em participar.

Clubes de swing
     
     H locais destinados  prtica de swing, com acesso restrito apenas a casais, e clubes que tm apenas um dia da semana reservado para essa prtica. Alguns permitem o acesso a pessoas sozinhas em determinados dias da semana. A maioria dos clubes de swing  dividida em dois espaos: uma boate com msica de diversos tipos (gravada ou ao vivo) e um "espao ntimo", acessvel por uma porta discreta.
     
     A boate: sua estrutura pouco difere de uma boate convencional. Os casais danam, consomem bebida e tira-gostos como em qualquer boate. O diferencial est nas brincadeiras erticas e na apresentao de stripteases masculinos e femininos. s vezes, tambm ocorrem performances de casais strippers, ou com objetos erticos. Os strippers costumam interagir com a platia, mas s o fazem se devidamente autorizados pelo casal ou pessoa abordada. No primeiro sinal de desinteresse, afastam-se. Geralmente, h nos andares superiores labirintos escuros, cabines cheias de sofs  meia-luz e at piscinas. So playgrounds de adultos. Os mais inibidos ficam nos drinques. Os olhares so exatamente os mesmos de qualquer lugar de conquista. Homens e mulheres flertam. Subindo as escadas, comeam as surpresas.
     
     O espao ntimo: varia conforme a casa de swing, embora camo e darkroom sejam tradicionais. A seguir, uma breve descrio do que  possvel encontrar na rea ntima de uma casa de swing:38
     
	Camo ou tatame: cama enorme na qual vrios casais praticam sexo simultaneamente. Ao seu redor,  comum a presena de vrios casais assistindo a tudo e estimulando os demais participantes.

	Darkroom: ambientes sem iluminao, completamente escuros, com poltronas ou sofs nos quais os casais trocam carcias ou mesmo relacionam-se sexualmente. O estmulo desejado  mais auditivo que visual. Permite grande privacidade.

	Aqurio: quartos com paredes de vidro nos quais os casais se relacionam a portas fechadas, enquanto do lado de fora outros assistem.

	Confessionrio: salas com camas ou poltronas individuais, separadas do ambiente externo por trelia. Permitem a quem est de fora assistir  relao sexual.

	Labirinto: sala com pouca iluminao, estruturada na forma de labirinto, cujo objetivo  encontrar a sada. No trajeto, os casais trocam carcias e encontram pequenas surpresas, como confessionrios, espalhados pelo ambiente.

	Cadeira ertica: cadeira especialmente projetada para facilitar grande nmero de posies sexuais.
     
     Uma das regras intrnsecas desses locais , justamente, a completa discrio: dentro e fora dos clubes para swingers ningum conhece ningum e ponto. Outra regra: o absoluto respeito  vontade alheia. Quem no estiver a fim de participar pode, sem ser incomodado, simplesmente ficar observando. Alis, voyeurs so bem-vindos, porque h aqueles que gostam mesmo  de platia. Os adeptos consideram o swing, antes de tudo, uma forma de sair da rotina de suas relaes e a liberao das fantasias.

As regras do jogo
     
     H um cdigo que deve ser observado para a prtica do swing, conforme as regras a seguir:
     
	O casal deve estar sempre de acordo. Os dois precisam saber de que se trata de uma casa de swing. No vale surpresa.

	A relao tem que estar boa. Ningum deve procurar no swing uma soluo para crises amorosas.

	O respeito  vontade alheia  prioridade. Se algum preferir s ficar olhando, no deve ser assediado.

	Nenhuma fantasia deve ser condenada. Porm, ningum pode comentar o que rola entre os casais ali dentro com conhecidos.

	A sutileza  a alma do negcio. Basta um olhar ou um toque para sugerir a troca. Sentar-se por perto tambm  um bom comeo.

	Todos devem ficar annimos. Dentro e fora das boates ningum conhece ningum. Dar nomes, jamais.

	Os homens no devem ir acompanhados de mulheres que no sejam a esposa, a namorada ou uma amiga.

	 preciso evitar ser exibicionista, para no causar constrangimento. Sobretudo, homens solteiros.

	 bom ficar pelo menos uma horinha tomando um drinque ou danando na boate "normal", antes de subir para as cabines do amor.
     
     Alm dos clubes, h festas, com ingressos pagos, especialmente organizadas para casais que desejam participar da troca de parceiros.

O swing de perto
     
     Da mesma forma em que atuou para a matria sobre sexo a trs, o jornalista Fauzi Duran, decidido a investigar como funciona o swing, enviou carta para 30 casais expondo seu desejo de fazer uma matria sobre o tema, todos anunciantes interessados em encontrar outros casais com as mesmas intenes, Os anncios eram publicados na revista Brazil, especializada nessa modalidade de contato. Foi escolhido um casal. A seguir, o relato do jornalista:
     
     "Renata senta-se no almofado ao lado da filha Cludia. A menina abraa a me e recebe o beijo estalado na face rsea. Cludia tem 8 anos e  a filha mais nova de Renata, que completou 32 anos em fevereiro. Ela e Paulo tm ainda um menino de 12, Gilmar.  uma famlia feliz, de classe mdia, sem problemas, alm dos comuns  maioria dos brasileiros de seu segmento social. Renata ajeita a camiseta de Cludia e ergue-se com a menina no colo. Grita para Gilmar descer tambm. O pai est esperando no carro para lev-los at a casa da av. Nessa sexta-feira, eles dormiro l, porque Paulo e Renata vo receber amigos muito especiais.
     "Cenas como essa se repetem em vrios lares brasileiros todas as semanas. So casais que se encontram para trocar experincias sexuais, praticar o swing. Alm do simples prazer do ato sexual, esses casais alegam que tais encontros reforam seus casamentos, combatendo a mesmice e o tdio do matrimnio.
     "Logo que Paulo volta da casa da me, onde deixou os filhos com a av, encontra Renata recm-sada do banho, preparando-se. Ela  uma mulher que os homens chamam de gostosa. Tem o corpo firme, malhado, a boca sensual, e escolhe para essa noite um vestido curto e colado ao corpo, que reala suas formas. Paulo est excitado com a mulher vestida assim, mas prefere manter seu teso contido, para mais aument-lo com as possibilidades que a noite traz.
     "Paulo e Renata encontraram os amigos dessa noite nas revistas especializadas em encontros. So vrias, com edies mensais e anncios com fotos e texto de intenes. Foi Paulo quem mostrou a revista para a mulher pela primeira vez. Ela admite que se sentiu atrada desde o primeiro momento, mas no deixou transparecer. A idia de que era uma mulher casada prevaleceu, mesmo com a clara posio simptica de Paulo sobre a questo. Os dois haviam falado em algumas ocasies sobre as fantasias de ambos. Renata lembrou de como Paulo insinuara-se para a sua prima numa noite em que ela dormira na casa deles. Aps rpida crise de cimes, Renata reconhecera que era natural que a pujante moa despertasse o teso no marido. Ela tambm contou como o tio de Paulo a excitara. Dessa conversa mais franca, meses atrs, nasceu em Paulo a idia de trazer a revista Brazil para casa.
     "Paulo e Renata encontraram larga oferta de casais na revista, em vrias faixas etrias e com os enunciados mais diretos possveis, embora alguns mantenham o recato sob o rtulo de 'iniciantes'. Paulo disse  esposa que cabia a eles escolherem os anncios a que responderiam, e existiam muitos de seu agrado. Vrios foram os anncios em que os casais demonstravam serem de perfil etrio e social muito semelhante aos deles. Casais jovens.
     "Paulo e Renata selecionaram o casal que vo encontrar nessa sexta entre muitas cartas que receberam por seu anncio, de todo o Brasil. Eles analisaram as propostas e as fotos recebidas. Segundo Renata, Paulo vetou mais a aparncia fsica de homens do que das mulheres, nos casais. Ela disse isso ressaltando que Paulo no  homossexual, mas estava preocupado com ela.
     "Acabaram respondendo a 22 cartas, sendo que, dessas, apenas seis do Rio de Janeiro, e entre elas, trs de Niteri, onde residem. Renata ficou excitada em imaginar que um vizinho seu fosse um swinger. O encontro dessa sexta-feira  o quarto que o casal tem com Jorge e Astrid. Eles contam como foi a primeira vez, nas palavras de Paulo: 'Marcamos na praia. Seria uma forma de mostrarmos nossos corpos  luz do sol. Era uma manh de sbado e eu no podia crer que logo mais, ou um dia desses, Astrid seria minha,  uma morena de corpo cheio e duro, simptica e bonitinha. Ela me analisou com olhar experimentado. Eles j estiveram com vrios casais.'
     "Paulo continua falando, Renata interrompe para dizer que Jorge tambm ' um teso' e os dois riem com certa cumplicidade. Naquele mesmo sbado saram da praia para o almoo num restaurante  beira-mar. Jorge elogiou o corpo e o sorriso de Renata. Mas foi um lance mnimo que Paulo admite ter mexido com ele. Ao voltar do banheiro, Jorge deu a volta na mesa e falou no ouvido de Renata, ela sorriu, ruborizando, uma intimidade comeava a surgir entre a mulher com quem Paulo estava casado e um estranho.
     "Os casais seguiram, depois do almoo, para a praia de Itaipu. Acompanharam o cair da tarde juntos. Foram no carro de Jorge, e Renata sentou-se ao lado do motorista, enquanto Paulo e Astrid acomodaram-se no banco traseiro. Renata conta que estava dividida entre o desejo de ir paquerar Jorge e o sentimento de que o marido estivesse sofrendo com a situao. Mas ela forou-se a no quebrar a evoluo dos acontecimentos. Em frente  praia, anoitecera, Paulo e Astrid saram do carro para caminhar. Renata e Jorge ficaram sentados, olhando os dois se afastarem. Jorge correu a mo por sua coxa at o vrtice, mas seu olhar no desgrudava de Paulo caminhando l adiante. Ela viu quando ele enlaou a cintura de Astrid, ento ofereceu a boca a Jorge. Esses comentrios, feitos uma hora antes do quarto encontro, ainda trazem um frisson impregnado na voz de Renata. Paulo sorri malicioso e diz que ela e Jorge ficaram em melhor posio dentro do carro, enquanto ele e Astrid precisaram conter-se para no correr o risco de serem presos por atentado ao pudor, trepando na praia. A noite acabou num motel, onde alugaram dois quartos, mas ocuparam um s. Entraram nus na hidromassagem, beberam vinho branco e finalmente trocaram de companheiros na cama, fazendo sexo lado a lado.
     "Paulo, Astrid, Jorge e Renata, numa noite de sexta-feira do ano 2002, representam uma parcela de casais que busca vencer a monotonia do casamento? Ou o que os move  a paixo sexual desenfreada? Esto querendo preservar o matrimnio ou vivem uma tara que leva a abismos ignorados? Vamos acompanhar os fatos precedentes a essas atitudes.
     "Paulo e Renata conheceram-se no curso de preparao para o vestibular. Ela tinha um namorado, mas no resistiu ao charme de Paulo, e foram para a cama. Paulo a satisfez inteiramente. Fizeram sexo durante um fim de semana inteiro. Ela largou seu par e passou a namorar Paulo. Um ano e meio depois, casaram-se. Renata foi cantada pelo ex-patro, sentiu muita vontade de transar com ele, era um cara bonito, malhado, mas segurou-se. Paulo tambm conta que quase 'comeu' a empregada, uma colega de trabalho, uma prima de Minas que passou pelo Rio, a gerente do restaurante onde almoa e a frentista do posto de gasolina onde abastece. Esse 'quase' estava pesando, segundo ele. Comeou a imaginar que Renata era cada uma delas, e no achou legal; foi quando um amigo deixou a revista Prvate sobre a sua mesa de trabalho. Ele folheou a revista e leu um dos depoimentos: 'Queremos contato com casais em que o homem seja hiperdotado, acima de 23 centmetros. Foto comprovando o dote  indispensvel...', 'Somos um casal sem experincia, desejamos pessoas de alto nvel que tenham local. Adoramos amizades, viagens, e muito sexo com segurana...', 'Dispensamos os sofisticados, barbudos, bigodudos, fumantes, indecisos e complicados..,', 'Somos maduros, conservados, claros, desejamos amizade ntima com casais e moas, de preferncia orientais, bem peludos no sexo...', 'Somos adeptos do sexo anal, oral e vagirial...', 'Sinceros, boa aparncia, de bem com a vida...', os anncios so os mais variados e induzem s mais diversas realidades.
     "Paulo e Renata providenciaram uma caixa postal, gastaram algumas horas sentados em torno de uma mesa imaginando o texto de seu anncio e das cartas-respostas: 'somos bonitos...', somos? , somos... simples, amantes das coisas boas da vida... quem no ? Chegaram a um acordo e responderam a 22 anunciantes. Uma semana depois obtiveram as primeiras respostas, do interior de So Paulo, Minas e Esprito Santo, mas o sangue gelou quando o retorno foi dali mesmo, de Niteri. No havia mais como dizer no. 'Temos alguma experincia, mas no encontramos ainda um casal que nos complete. Gostamos de sua carta. Gostaramos de conhec-los. Informem o telefone, por favor...' foi o trecho da carta-resposta de Jorge e Astrid.
     "Mais uma semana, e enderearam um retorno com o telefone. Dois dias depois, Astrid ligou, Renata atendeu. As crianas gritavam brincando na sala, e demorou para Renata entender quem estava na linha. 'Astrid, somos os anunciantes para quem vocs ligaram...', disse a voz um pouco rouca, sensual. Duas semanas depois, Renata via a curvatura alongada das coxas de Astrid balanando-se suavemente sobre as pernas de seu marido, que suava para mant-la flexionada sobre si, enquanto a prpria Renata era invadida e gemia com Jorge beijando seu pescoo e dizendo obscenidades em seu ouvido.
     "No segundo encontro, foi totalmente diferente, conta Paulo. Encontraram-se numa boate do Rio, danaram e beberam usque, com os casais trocados. Entre eles j no havia muito segredo, mas Paulo no deixou de pensar o tempo todo que um colega de trabalho ou um familiar pudesse encontr-los naquela situao. Esses pensamentos no excluam o raciocnio lgico de que no tinham colegas que conhecessem a ambos como casal e que freqentassem boates na lagoa Rodrigo de Freitas, muito menos parentes, mas o pensamento no se afastou nunca. Num determinado momento, Renata chegou perto dele e disse: 'Eu e Jorge vamos a um motel. Encontramos vocs mais tarde em casa.' E ele ficou com Astrid mais um pouco, e depois foram tambm procurar um lugar para amar. Voltando para Niteri, alta madrugada, com Astrid de olhos fechados e a mo entre suas pernas, pensou que era como se fosse casado com ela.
     "O terceiro encontro foi um tanto traumtico para Renata e Paulo. A convite do outro casal, resolveram visitar um clube de swingers. Eram, ento, dois casais trocados. Quando saem de Niteri vo em dois carros, para a eventualidade de separarem-se, como da ltima vez. Caminham de mos dadas como se sempre houvessem sado juntos. Mas o clube no agradou a Paulo e Renata, embora Jorge e Astrid se sentissem bem l. A aparncia geral era de uma orgia de filme pornogrfico, em que casais nus e seminus danavam abraados, ou transavam nos vrios ambientes. Mas o que mais chocou Renata foi o tatame. Um quadriltero onde uma mulher, deitada sobre a lona, ofereceu-se ao apetite de cinco machos vorazes. Faziam uma DP, ou seja, um lhe penetrava na vagina e outro no nus, por isso chamada 'Dupla Penetrao'. Ela praticava sexo oral num terceiro, e dois outros masturbavam-se ajoelhados ao lado, para finalmente ejacularem sobre ela. Tudo isso pareceu a eles um tanto animalesco. Jorge e Astrid acharam excitante a cena. Saram os quatro para um motel na Barra, aps o clube. Astrid convidou Renata para um banho de chuveiro, enquanto os maridos conversavam na piscina, bebericando. Pela primeira vez, Renata sentiu a mo de uma mulher entre suas pernas, acariciando sua vagina. Ia tirar a mo da outra, mas ouvia Astrid dizer em seu ouvido: 'Vamos fazer uma surpresa para nossos maridos, homem adora ver mulher transando...' Renata sorriu, mas no topou. Foi criticada por Paulo, que soube mais tarde da proposta. Renata perguntou se ele sentaria no pnis de Jorge para agrad-la, mas no obteve resposta.
     "Na sexta-feira em que recebem minha visita, e estaro pela quarta oportunidade em companhia do casal Jorge e Astrid, e em sua prpria casa pela primeira vez, Renata e Paulo assumem a tranqilidade de swingers experientes, embora ressaltem que o bom desse jogo  torn-lo sempre uma novidade, sendo assim uma atitude contra a mesmice.
     "A presena de um jornalista fazendo uma matria  um fator de excitao. Afinal, o que fazem de excepcional que merea a ateno especial dos outros? Sero eles extraordinrios ou a maioria  que se acomodou em casamentos montonos? No nos cabe dizer.
     "s 9h da noite chegam Astrid e Jorge. Ela  uma mulher mais exuberante do que Renata. Tem 28 anos que aparenta por ser grande, mas transpira sexo, ou ser o clima do encontro que me envolve? Jorge  tambm um homem portentoso, grande, mas no gordo, forte sem ser musculoso. So simpticos e sorridentes, mas menos desarmados que Renata e Paulo. Ao perguntarem sobre a matria, falo da proposta etc... Insistem no compromisso de sigilo absoluto, reafirmo minha responsabilidade em manter as fontes protegidas. Todos riem com a seriedade do momento, e Paulo oferece bebidas. Aceito gua mineral. Jorge diz que posso no beber, mas a roupa vou ter que tirar na hora certa. Concordo, tentando lembrar com que cuecas estou.
     "Jorge trouxe um vdeo que ele e Astrid fizeram com outro casal. Paulo fecha as cortinas da sala antes de colocar a fita. As primeiras cenas so dela no chuveiro, ensaboada, ento Jorge entra no boxe em ereo, abraa-a por trs, comeam a transar nessa posio. A umidade do ar cria uma nvoa que envolve o casal numa aura romntica. Seguem-se vrias cenas em que Astrid recebe o marido e depois um segundo homem. Ela faz sexo vaginal com o marido e oral com o amante, um jovem negro, de compleio forte. Noutra cena, Astrid e uma jovem negra, bonita, de pele lustrosa, esto sentadas lado a lado na cama, nuas. Os dois aproximam-se, e logo todos aderem ao jogo do sexo. Astrid apresenta o casal amigo que aparece no vdeo como Walmir e Eliana.
     "Quando o vdeo termina, Jorge est com uma cmera de vdeo na mo, avisa que pretende registrar a performance dos casais hoje. Todos sorriem, cmplices e um pouco tensos. Pergunto se o fato de se verem no vdeo aumenta o prazer. Depois de algum silncio Jorge responde que sim, principalmente quando o casal est s. Assistem a seus prprios desempenhos e acabam excitando-se. Paulo levanta para buscar mais gelo e Jorge aproxima-se de Renata, diz alguma coisa em seu ouvido enquanto agarra o seu seio. Astrid olha para mim e sorri, eu correspondo e ela pergunta sobre o meu trabalho, explico. Quando Paulo volta com as bebidas, Jorge est beijando Renata com a mo entre suas pernas. Ns conversvamos ao lado da cena ardente como se nada acontecesse.
     "Jorge agarrou Renata nos braos e ergueu-se, ela fingiu protestos que no convenciam. Os dois saram em direo ao quarto.  bom notar que era a primeira vez que Jorge entrava na casa. Foi guiado por ela. Paulo ria, mas um pouco contrafeito. Quando ficamos ss na sala, Astrid beijou-o na boca e olhou para mim. 'Vamos assistir?', perguntou. E samos em direo ao quarto. Astrid apanhou a cmera sobre a mesa. Entramos no quarto. Os dois giravam na cama, seminus. Astrid comeou a filmar. O ato durou uns 20 minutos, at que Jorge saiu de dentro de Renata aps o gozo, ergueu-se e apanhou a cmera das mos de Astrid. Ela beijou Paulo e o arrastou para a cama, ajudando-o a despir-se. Jorge pediu que eu tambm tirasse a roupa. Agradeci argumentando que estava ali a trabalho. Sentei numa poltrona. Logo aps o coito da mulher, Jorge largou a cmera e se voltou para Renata. Os quatro ficaram deitados por um momento lado a lado. Lembrei de um filme da dcada de 1970, chamado Bob and Carol, Ted And Alice. Entrava a madrugada de sbado, estvamos no ano 2002, no Rio de Janeiro."
     
      difcil imaginar se a prtica do swing vai se consolidar como instituio social ou se  apenas um fenmeno casual. Mas, ela sinaliza, sem dvidas, para um novo patamar de conscincia da diviso entre amor e sexo.
    
Separao
       
      cada vez menor o tempo em que dura um casamento satisfatrio. Alega-se que hoje ningum tem pacincia, que, por vivermos numa sociedade de consumo, na qual tudo  descartvel, o cnjuge tambm deve ser sempre substitudo. Mas, como vimos, a questo no  essa. As dvidas em relao a manter ou no um casamento comearam a surgir depois que o cnjuge passou a ser escolhido por amor, no mais por interesses familiares.
     No Ocidente, h algumas dcadas, o nmero de divrcios no pra de crescer. Como desapareceu a maioria dos imperativos  sociais,  econmicos  e  religiosos  que  pesavam  a favor  da durao do casamento, pode ser que dentro de algum tempo mais pessoas optem por outros tipos de relacionamento nada convencionais.
     O aprisionamento numa relao esttica tornou-se insuportvel. "A sede de novas experincias, do desconhecido, do novo,  maior do que nunca. Assim, unir dois exilados para formar uma famlia segura e auto-suficiente deixou de ser satisfatrio. A tentao moderna  por uma criatividade mais ampla. O fascnio pelo novo  tal e qual o jogo, um passo para a criatividade.", afirma Zeldin.39
     A separao inicia seu processo lentamente, na maior parte das vezes de forma inconsciente. A relao vai se desgastando e a vida cotidiana do casal deixa de proporcionar prazer. Aos poucos, o desencanto se instala. O psicoterapeuta Jos ngelo Gaiarsa, aps 50 anos de experincia em consultrio, arrisca algumas estatsticas sobre casamento: "Dois por cento de bons casamentos acho que existem. Uns 15 ou 20% dos casamentos diria que so aceitveis, d para ir levando, tm suas brigas, seus atritos, tm seus acertos, suas compensaes. Na minha estimativa, 80% so de sofrveis para precrios e pssimos. A vida em comum  muito ruim para a maioria das pessoas." 40
     Atualmente, a durao mdia das unies  de dez anos e meio. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica), 72% dos pedidos de separao litigiosa so feitos por mulheres. "A tendncia atual no est mais ligada  noo transcendente do casal, mas, antes,  unio de duas pessoas que se consideram menos como as metades de uma bela unidade do que como dois conjuntos autnomos. A aliana dificilmente admite o sacrifcio da menor parte de si. (...)  verdade que nossos objetivos mudaram e que no desejamos mais pagar qualquer preo apenas para que o outro esteja presente ao nosso lado. A procura da autonomia no significa necessariamente a incapacidade de estabelecer uma relao dual, mas a recusa de pagar qualquer preo por ela." 41

Aumenta a separao entre os mais velhos
     
     Contudo, a mdia de idade nas separaes aumentou. Casais mais velhos, no Brasil e em outros pases, tm dado preferncia ao divrcio. O jornal The New York Times publicou, em 9 de agosto de 2004, matria em que mostra que entre os norte-americanos mais velhos  aqueles com mais de 55 anos, assim como os que j passaram dos 80  o divrcio  mais aceitvel e comum que nunca, segundo o depoimento de advogados e terapeutas de casais. Esses profissionais, bem como as pessoas que esto passando pelo chamado "divrcio grisalho", dizem que vrios fatores determinam o fenmeno, incluindo o aumento da longevidade dos norte-americanos e a crescente independncia econmica das mulheres.
     Robert Stephan Cohen, advogado de famlia de Nova York, tambm aponta para a melhora da sade proporcionada pelos coquetis farmacuticos que reduzem o colesterol e a presso sangnea, erradicam a depresso e estimulam a libido. Para os homens, h o Viagra, e para as mulheres a terapia de reposio hormonal. "So pessoas que aos 65 anos decidiram que tm mais 25 anos pela frente, e resolveram que no vo se acomodar." Observa-se entre homens e mulheres a cultura de reformulao de vida, que se disseminou entre os indivduos mais velhos. "Eles fazem aulas de cozinha escandinava", conta. "Tentam ioga. E procuram terapias para tentar se entender melhor. Alm disso, comeam a se divorciar por aquilo que eu chamo de 'motivos leves': 'No estou feliz', 'Minhas aspiraes no se realizam', 'No nos comunicamos'."

Festa de divrcio
     
     Nos Estados Unidos, em 2005, tornou-se comum festa de divrcio. Um misto de despedida de solteiro e bacanal ligth est se tornando uma celebrao completa, com listas de presentes e um conjunto de protocolos sociais. Antes motivo de vergonha, a separao tornou-se um rito de passagem peculiar. O matrimnio mudou para acolher pessoas mais livres, e no devemos nos surpreender com outras mudanas que viro por a. Afinal, a instituio se ajusta  humanidade, no o contrrio.

A famlia
       
     Nas ltimas dcadas, a famlia foi se transformando radicalmente. Aps a revoluo sexual, na dcada de 1970, comeou a surgir um novo tipo de famlia: pais separados que formam nova unio e agregam os filhos de casamentos anteriores com os filhos do casamento atual. Que tipo de famlia vir a seguir? Ou melhor, ser que a famlia, como conhecemos, continuar existindo?
     O modelo de famlia nuclear  homem e mulher casados e filhos  j no  mais maioria nos Estados Unidos. Pela primeira vez, menos de um quarto dos lares americanos  constitudo por famlias nucleares  mais exatamente 23,5%, percentual que em 1990 era de 25,6% e, em 1960, de 45%. O censo de 2000 naquele pas constatou tambm que, pela primeira vez, o nmero de pessoas que vivem sozinhas  maior do que o nmero de famlias nucleares.
     O sculo XXI dever assistir ao estabelecimento de uma indita sociedade de solteiros. Muitos homens e mulheres esto demorando a se casar e desistindo de ter filhos; e aumentou o nmero de filhos criados por apenas um dos pais. Nos anos 90, o nmero de mulheres que criam filhos sozinhas cresceu a uma velocidade cinco vezes maior que o de casais que criam seus filhos. Em todo o mundo ocidental, o nmero de pais solteiros tambm est crescendo. Ao contrrio de outras pocas, quando, em caso de separao, nem se discutia com quem o filho iria viver  s em casos excepcionais a criana ficava com o pai , hoje muitos pais solicitam a guarda dos filhos. Uma causa importante para esta concepo de famlia  a separao entre amor e sexo. Quando o sexo  apenas um prazer a dois, prevalece a amizade e torna-se desnecessrio o casal.
     A famlia nuclear no  a nica organizao possvel ou mesmo a nica forma saudvel de famlia. Nenhum tipo de famlia pode realmente ser reconhecido pela excluso de todos os outros.

Famlia dupla
      
     O Tribunal de Justia do Rio Grande do Sul, em julho de 2006, reconheceu uma unio estvel paralela ao casamento. O relacionamento mantido por um homem ao longo de 16 anos, embora ele fosse casado h mais de 30 anos,  a prova cabal de que uma pessoa pode manter duas famlias.  o que entendeu a 8a Cmara Cvel, que manteve deciso da 1a Vara de Famlia e Sucesses de Porto Alegre.
     O homem, que j morreu, tinha dois filhos com a mulher. Ele nunca se separou de fato. Tambm tinha duas filhas com uma funcionria de sua lanchonete. "Est-se diante de uma entidade familiar concomitante ao casamento", concluiu o desembargador Jos Atades Siqueira Trindade. Ele afirmou que o homem mantinha dois endereos, mesmo para fins de correspondncia oficial. Fotografias retrataram o convvio social e familiar com a mulher e com a funcionria.
     A autora da ao, a funcionria, responsabilizou-se pela internao hospitalar do companheiro. A mulher e os filhos do casamento pagaram as despesas com funeral. Ambas recebem do INSS penso por morte.
     Segundo o desembargador, o relacionamento fora do casamento teve parte de sua vigncia e seu trmino (1980-1996) embasado na Constituio Federal de 1988, que elevou a unio estvel  condio de entidade familiar. O desembargador determinou que o patrimnio adquirido durante a vigncia da unio estvel deve ser dividido da seguinte maneira: a companheira ter direito a 25% e outros 25% ficam com a mulher.
     Ele citou trecho de voto do desembargador Rui Portanova em outra apelao (Processo 700.097.864-19): "Reconhecida a unio dplice ou paralela, por bvio, no se pode mais conceber a diviso clssica de patrimnio pela metade entre duas. Na unio dplice do homem, por exemplo, no foram dois que construram o patrimnio. Foram trs: o homem, a esposa e a companheira." 42

Casamento gay
     
     Um clube em Greenwich Village, Nova York, Estados Unidos, o Stonewall Inn, lugar de encontro de gays, lsbicas e travestis, foi invadido pela polcia. Os bares gays dos Estados Unidos sofriam inspees rotineiras. Os policiais prendiam os travestis mais provocantes e todos os que vestiam mais de trs peas do sexo oposto. No havia nada de especial na batida do Stonewall, a no ser que, pela primeira vez, os gays reagiram. Isso aconteceu em 28 de junho de 1969 e definiu a causa gay.
     Quase 40 anos depois, os gays continuam a luta pela cidadania plena. Vrios pases, de alguma forma, aprovam a unio entre homossexuais. Entretanto, a conquista que mais marcou o mundo GLS foi na Espanha, pas extremamente catlico que, depois da Holanda e da Blgica, aprovou em junho de 2005 o casamento homossexual.
     O Parlamento espanhol d aos cnjuges do mesmo sexo todos os benefcios que tm os casais heterossexuais, inclusive direito a herana, a penso para o vivo, a adoo de crianas e ao divrcio. Com a aprovao da lei, o trecho do Cdigo Civil espanhol que trata do matrimnio incluir o seguinte pargrafo: "O matrimnio ter os mesmos requisitos e efeitos quando ambos os contraentes forem do mesmo ou de diferente sexo." A redefinio do casamento, de forma a incluir casais do mesmo sexo, deixa claro que a unio tradicional de homem e mulher perde sua importncia.
     O conceito de famlia se ampliou. Um exemplo  o texto final da Conferncia das Naes Unidas sobre a Mulher, realizada em Pequim no final de 1995, no qual a palavra famlia foi substituda por famlias. Portanto, no  difcil imaginar que, dentro de algum tempo, casais gays com seus filhos, adotivos ou no, sero to comuns quanto casais heterossexuais.
     Durante muito tempo, o casamento foi o grande objetivo de vida das pessoas. Homens e mulheres se encontravam  sentindo atrao mtua ou em encontro preparado pela famlia , e a histria j estava escrita de antemo, Em todos os casos, o casamento nunca tardava e ficavam juntos pelo resto da vida.
     Hoje, o envolvimento e o compromisso amorosos no so coisas evidentes, que acontecem de maneira to natural. Os questionamentos so muitos. Ser que devemos ir mais adiante? Considerar a possibilidade de fazer projetos? De morarmos juntos ou de criar uma nova famlia? "O prncipe encantado ou a princesa da nossa infncia dificilmente ir desaparecer do nosso imaginrio. Mas, o conto de fadas j se tornou datado. No lugar, houve uma tendncia  individualizao,  reivindicao por parte das mulheres da autonomia e da igualdade, o desenvolvimento de uma sexualidade mais livre, o fim de toda dramatizao das relaes extraconjugais e das separaes: desde o seu nascimento, os amores contemporneos buscam se harmonizar com o princpio de realidade." 43
     Quem mora sozinho, cada vez mais descobre as vantagens da independncia, da tranqilidade de uma vida livre das obrigaes e dos conflitos do cotidiano conjugal.  bem possvel que, num futuro prximo, casais estejam ligados por questes afetivas, profissionais ou mesmo familiares, sem que isso impea que sua vida amorosa se multiplique com outros parceiros. Viver junto ser uma deciso que vai se ligar muito mais a aspectos prticos.
     Como j foi dito, as pessoas podem vir a ter relaes estveis com vrias pessoas ao mesmo tempo, escolhendo-as pelas afinidades. Talvez uma para ir ao cinema e ao teatro; outra, para conversar; outra, para viajar; a parceria especial para o sexo e assim por diante. A idia de que um parceiro nico deva satisfazer a todos os aspectos da vida pode se tornar coisa do passado.
  
  
  
Sexo
       
       
       
       
     
     Daqui a algumas dcadas existiro relaes duradouras, mas talvez no sejam predominantes. As tendncias apontam para o aumento do nmero de relaes do tipo instantneo e efmero e do sexo em grupo.
     Comparando sexo com culinria, Theodore Zeldin observa que "o desejo no  mais inexplicvel que o gosto. Ao longo dos sculos, tem sido extraordinariamente flexvel e verstil, servindo a causas opostas, desempenhando papis muito diferentes na histria, como um ator a um s tempo cmico e trgico, s vezes papis simples, que reproduzem esteretipos corriqueiros, e outras vezes papis experimentais, complexos, deliberadamente misteriosos. Isto sugere que outras alianas, outros excitamentos, tambm so possveis." 44
    
Sexo grupal
       
     A prtica do sexo em grupo, conhecida como orgia ou bacanal,  uma das variveis mais curiosas da sexualidade humana. Freqentemente ignorada, ocultada e reprimida, ela  mais comum do que se imagina. As orgias servem para desopilar o esprito da mesmice do cotidiano e  atributo de ricos e poderosos, mas tambm so praticadas, embora com menos pompa e freqncia, pelo povo. Os bordis so at hoje locais de orgia em todo o mundo, mas elas podem ser encontradas em motis e casas particulares. A recente prtica do swing entre casais, legitimamente casados, renovou essa prtica milenar. Pela histria, temos muitos exemplos de sexo em grupo.

Os gregos
     
     Eles foram bero de nossa civilizao e, se no inventaram a orgia, foram seus praticantes mais organizados. O governo subsidiava as chamadas dionisacas, que constavam de um grande banquete aberto a todos. Os participantes se vestiam como ninfas, stiros, bacantes etc. e atravessavam a noite realizando jogos erticos animados pelo vinho que corria livremente. Tais festas rapidamente se transformavam em orgias pblicas.
     Aristfanes descreve as Tesmofrias, um festival que ocorria em toda a Grcia: "Todas as mulheres que desejassem poderiam participar deles, desde que se abstivessem de relaes sexuais nos nove dias precedentes. A esperteza dos sacerdotes exigia isso como ato de piedade; a verdadeira razo  que, estimuladas pela longa abstinncia, participassem das orgias com menos come-dimento. Para fortalecer a castidade durante o perodo de abstinncia, era hbito comerem bastante alho a fim de manter os homens distantes com o cheiro desagradvel da boca." 45

Os romanos
     
     A prtica de orgias pelos romanos  claramente perversa, ao contrrio da grega. O sofrimento e o sadomasoquismo faziam parte de seus rituais. Era comum o aoitamento at a morte para a diverso dos nobres. A arena do Coliseu se enchia de adoradores do sangue e h registro de que, aps o espetculo, os espectadores buscavam bordis ou suas amantes para aplacar o desejo ertico.
     Vnus, deusa do amor romano, tinha muitas faces. Tanto era a protetora do casamento quanto da luxria. As meretrizes pediam sua bno e ela era conhecida por "virar" os coraes. A festa para sua celebrao era conhecida como Volgivaga, ou aquela que perambula pelas ruas, como as prostitutas.
     Ainda mais cruis eram os cultos s bacanais, que no sem razo se tornaram sinnimo de orgia. Essas festas populares avanavam noite adentro em praas e ruas. O som de tambores e cmbalos ocultava defloramentos de homens e mulheres.



Os imperadores
     
     Os cultos s deusas eram orgias considerveis, mas no chegavam a impressionar diante do que a corte realizava, em especial os csares. Augusto mantinha um agente de sua confiana percorrendo as ruas e identificando corpos para as suas festas. A expresso corpos  correta. O alcovitero conhecia o gosto do imperador e escolhia a dedo as virgens para o seu prazer. Os banquetes promovidos por esse rei eram famosos. Durante a comilana, simultaneamente, praticava-se sexo.
     Outro especialmente lascivo foi Tibrio, que criou o cargo de Mestre dos Prazeres Imperiais. Mandou construir um palcio em Capri, especialmente para suas orgias. Como era impotente, comprazia-se em assistir trios de jovens em ao. Sempre participavam dois rapazes e uma moa. Um dos homens ficava no meio, penetrado pelo segundo, enquanto a mulher se entregava a este. As alcovas desta vivenda eram decoradas com gravuras erticas e havia livros pornogrficos para azeitar a imaginao dos convidados. Na ampla piscina, o rei se entregava a jovens que chamava de "meus peixinhos".
     Calgula passou  histria como o mais louco e cruel entre tantos imperadores de Roma. Mandou assassinar um sem-nmero de homens de sua corte pelos motivos mais torpes. Ficar com a mulher da vtima era um dos seus atos mais comuns. Durante seus banquetes, aos quais nobres eram convidados compulsrios, convidava as esposas para um reservado e as estuprava. Ao retornar  mesa, contava detalhes de seu barbarismo. Estuprou e prostituiu as irms e transformou o prprio palcio num bordel, para o qual cobrava ingresso dos prprios sditos.
     O imperador Cludio, se no superou seus pares na dimenso das orgias, se fez notvel por sua esposa Messalina Suas orgias duravam dias, quando se entregava a vrios homens na mesma noite.

O sexo reprimido, mas no para todos
       
     A Idade Mdia foi o mais reprimido dos perodos da histria humana. Nem por isso o sexo deixou de ser praticado com voracidade. O domnio poltico da Igreja tentou por todos os meios refrear a luxria de seus fiis, mas s conseguiu faz-la mais reprimida e mais doentia.
     As orgias aconteciam em todos os espaos controlados pela Igreja. A Abadia de So Pedro, um dos smbolos mximos do catolicismo, tornou-se durante certo perodo (sculo X) um bordel. Arquibaldo, bispo de Sens, levou suas concubinas para alegrar o ambiente. Um dos responsveis pela situao foi o papa Gregrio VII, de nome lldebrando, que dirigiu a reforma, obrigando ao celibato todos os membros da Igreja. Era proibido o prazer.

Na atualidade
     
     No so raros casais, homens e mulheres solteiros, e tambm muitos casados, irem sozinhos experimentar o sexo grupal nos clubes especializados. O sexo grupal est ganhando adeptos tambm entre os jovens. O ttulo da matria de 13 de agosto de 2004, do portal AOL, na Internet,  ntimo e grupal, e a chamada : "Est nos filmes, nos videoclipes e at nas novelas. Fala-se nos corredores das escolas sem constrangimento. Os adolescentes e jovens da classe mdia de So Paulo assumem uma nova atitude em relao ao sexo."
     A matria da reprter Patrcia Vieira, da redao AOL, afirma que o sexo grupal comea a fazer parte do dia-a-dia das mais diversas tribos teens de So Paulo. Est se tornando uma forma de diverso dos jovens, uma evoluo ertica da onda de "ficar" na balada.
     A novidade  a atitude em relao a esse tipo de coisa,  a forma como os adeptos de prticas pouco ortodoxas so vistos. Na escola, no clube, na balada, os adolescentes que fazem sexo grupal no so tidos por seus colegas como promscuos, desavergonhados, imorais. "Ns falamos na escola, muita gente da turma sabe, e nunca sentimos censura", diz Marina, 15 anos, estudante do Io ano do ensino mdio, de um colgio tradicional de So Paulo.
     A matria jornalstica do site AOL de modo algum  uma exceo extica. Outras notcias semelhantes, do Brasil e do mundo, do conta de que o lazer amoroso dos adolescentes est mudando radicalmente.

Sexo virtual
       
     Ana Clara, psicloga, casada, de 36 anos, aproveitando uma viagem do marido, resolveu entender realmente o que  o sexo virtual.
"Durante 15 dias me dediquei a fazer sexo pela Internet. Todas as noites, l pelas dez horas, entrava num chat de sexo e ficava at quatro ou cinco horas da manh. Transava com vrios homens e ia deletando os que no julgava interessantes, at encontrar um que me desse prazer ficar junto aquela noite. s vezes, marcava encontro para o dia seguinte. Houve at casos de eu encontrar vrias vezes com a mesma pessoa. Sei que muita gente no entende como isso pode ser excitante, mas posso garantir que tive grandes emoes. Dependendo do parceiro, a excitao era tanta que, apesar de eu no me tocar, tinha a sensao de ter orgasmo na alma. Continuo amando meu marido do mesmo jeito, mas sempre que posso busco um parceiro para fazer sexo virtual."
     
      grande o nmero de adeptos do sexo pela Internet. Muitos processos de separao se baseiam na comprovao de sexo virtual praticado pelo cnjuge. Isso s comprova que  comum o desejo de variar de parceiro, e que a Internet est sendo um facilitador para as relaes extraconjugais.
     Ao contrrio do que muitos pensam, o sexo na Internet no  masturbao, no sentido de prazer solitrio, porque nele interagimos com o outro. Naquele momento, o mundo ciberntico e o mundo real so um s. O bem-estar afetivo pode ser conseguido na Web, por qualquer um. Ele no precisa mais estar coincidindo com o mundo fsico.
     "O acesso instantneo a informaes e contatos praticamente sem limites trouxeram  tona uma torrente de desejos que, dcadas depois da revoluo sexual, ainda surpreendem. O anonimato e a multiplicao de oportunidades alimentam o furor ertico, seja para procurar parceiros, reais ou virtuais, seja para escarafunchar todas as variantes sexuais j inventadas pelo ser humano  e algumas outras das quais ningum nunca tinha ouvido falar. Liberados, ainda que momentaneamente, dos freios que delimitam o eterno embate entre pulses sexuais e civilizao, os usurios aproveitam."46

Sexo teraputico
     
     Valquria, viva que mora h dez anos numa cidade do inte ror, relata como encontrou na Internet um prazer sexual que no imaginava ser possvel:
     
     "Sempre me achei uma pessoa muito bem-informada sexualmente, mas como estou fora do exerccio h longo tempo estou aprendendo, pela Internet, coisas que eu pensava que nunca poderiam acontecer. Ns brasileiras ainda estamos longe de um sexo livre, satisfatrio e sem preconceitos.
     "Nos Estados Unidos a coisa j chegou a uma tal evoluo que ningum mais fica sem ter um prazer generoso. Pela Internet, tenho conhecido muita gente (s participo de chats americanos) e no princpio fiquei meio apreensiva, achando que as propostas para o tal cybersex eram indecorosas. Mas no  nada disso! Estou com 64 anos e tenho tido orgasmos maravilhosos. Ser que isso  normal? Fico me sentindo amadssima e as palavras ditas ao meu ouvido so simplesmente adorveis!
     "Penso que essa maneira de se fazer sexo  fruto de uma enorme evoluo, mesmo porque os parceiros sabem da minha idade e adoram o prazer que me do. Sou viva h 30 anos e nunca havia experimentado tanto gozo como agora. Nos Estados Unidos, como voc deve saber muito bem, os homens de mais de 60 preferem mulheres da idade deles e nos amam deliciosamente como jamais pude imaginar. Que bom, no ?
     "Tive cncer de mama h nove anos e, portanto, me recolhi, achando que havia morrido para o sexo e o amor. Mas na Internet descobri que os americanos esto acostumados a fazer sexo com mulheres mastectomizadas e as tratam com o maior respeito. Estou me sentindo uma garota!!! No, estou me sentindo uma MULHER INTEIRA!"
       
     A maioria das pessoas se espanta ao ler esse relato. Acreditam tratar-se apenas de fantasias solitrias de pessoas carentes. Penso, entretanto, que essa estranheza ocorre porque qualquer forma de pensar e viver diferente da que estamos habituados gera insegurana e medo. Afinal, o novo assusta. Ainda mais no que diz respeito aos relacionamentos amorosos e sexuais!
     Na pesquisa do professor de Teoria da Comunicao Mrcio Souza Gonalves, inmeros relatos indicam que as sensaes fsicas experimentadas so to reais quanto as de um relacionamento no-virtual. "A ausncia do encontro face a face e de contato fsico no implica a excluso radical do corpo: ainda que no tendo acesso ao corpo do parceiro, cada um dos envolvidos tem um corpo que sente, sofre, se emociona e goza", diz ele.
     No  possvel avaliar com certeza quantos dos casos virtuais transformam-se em sexo real. Mas, segundo a revista americana Psychology Today, estudos recentes indicam que, em 60% dos casos, um relacionamento contnuo e profundo pela Internet termina na cama.

Brasileiro  o mais namorador da Web
     
     A Global Market Insite, Inc (GMI), fornecedora de solues globais integradas para pesquisas de mercado na Internet, acaba de completar a primeira verso da Pesquisa do Amor, um estudo realizado pela empresa sobre o comportamento e a opinio dos internautas no Brasil e no mundo quanto aos relacionamentos virtuais.
     Entre os mais de 17.500 entre 18 a 64 anos entrevistados no total de 18 pases, os brasileiros apareceram como os que mais buscam relaes casuais com inteno sexual. Atrs deles, os alemes. Em terceiro lugar, os mexicanos. Por ltimo, os poloneses.
     Entre os brasileiros, 29% admitem buscar esse tipo de relao. Por outro lado, 32% preferem ir atrs de namoros srios e duradouros  pelo menos 9% sonham em conseguir um relacionamento verdadeiramente srio como o casamento.
     Pelo que se detecta no estudo, no Brasil a populao virtual  bem-sucedida no namoro virtual: 59% dos entrevistados j tiveram xito em relacionamentos on-line; apenas 9% responderam que no.
     Quando o foco da pesquisa cai no tema traio, a maioria dos brasileiros (56%) considera os relacionamentos on-line ou de sexo virtual como tal. Quando perguntados se j traram algum pela Internet, 32% deles afirmaram que sim. Mas, nesse ponto, perdem de leve para os internautas da Malsia, pois 33% afirmam trair pela Internet. Os mais fiis aqui so os holandeses: apenas 9% dizem ter trado pela rede.
     Coincidindo com o resto dos pases includos no estudo, a maioria dos brasileiros (80%) acredita que os candidatos a namorado(a) se descrevem fantasiosamente quando paqueram on-line. Dois teros de todos os entrevistados afirmam que namoram pela Internet de alguma forma. Para 45% de todos os entrevistados, o namoro virtual  importante e pelo menos 46% acertaram em seus namoros virtuais.47



Operando em trnsito
       
     H todo tipo de sexo na Web. Os j conhecidos e outros que esto em uso no norte da Europa, via celular ou rede sem fio, para quem vive em trnsito.  um misto de Web e real, que opera em espao hbrido. So servios para quem viaja muito e fica no mximo uma ou duas semanas em cada lugar.
     No passado recente, um viajante dessa categoria estava reduzido a espaos e tempos mortos. Eles costumam evitar relaes com a prpria equipe, que  trabalho, e se restringem  prostituio. Hoje, com o celular ligado  Web, esse ser em movimento pode conectar os grupos do lugar onde ele est e reproduzir todos os contatos de uma vida normal.
     So empresas, como a Lovecat (Ducon), onde se criam perfis, recebe-se um nickname e se expem os gostos: comida, recreao, sexo, temas de conversa etc. via celular (short messages). O viajante  avisado das pessoas naquela regio que tm afinidades com ele e onde encontr-las.

Sexo on-line: dados
     
     A pesquisa realizada por uma rede de notcias americana, MSNBC, com 38 mil usurios da Web, concluiu que 10% deles estavam viciados em sexo on-line, ou seja, passam 15% de seu tempo na rede em atividade sexual.
     Estima-se que 64% de todos os sites sejam de contedo sexual. Estudos da revista Fortune levantaram dados de que funcionrios das 500 maiores empresas americanas passavam a maior parte de seu tempo no trabalho em sites de sexo. Houve demisses. Quanto aos relacionamentos via Web, a American Psychological Association levantou que 24% dos usurios de Viagra o utilizam para sexo online. Finalmente, o reconhecimento de que comeamos a viver a era do sexo incorpreo  a escolha de Aki Ross, atriz virtual do filme e do jogo Final Fantasy, para a capa da revista Maxim, na edio especial "Maiores estrelas em ascenso". O primeiro smbolo sexual virtual do terceiro milnio.


O futuro dos sexy games
     
     Havia um jogo, em p&b (sem cores) para Macintosh chamado MacPlaymate. Uma animao comandada pelo mouse, em que uma mulher despida na cama era o objeto do jogo. O jogador a levava ao orgasmo tocando nela com o cursor e movendo o mouse ao redor. Ela respondia com gemidos e meneios de corpo. Era possvel vestir a MacPlaymate com uma variedade de trajes, mudar sua aparncia e assim por diante. Mas o jogador no ficava confortvel.
     Esse foi o primeiro de uma srie de jogos em que o sexo  algo que se faz a algum e no com algum. O MacPlaymate e seus sucessores perpetuaram a noo de eletronic love doll ou mulher de brinquedo, manipulada pelo jogador. Ela no est realmente ali, no pode haver reciprocidade.
     H obstculos tcnicos para uma simulao ldica realista de um coito, alm da hiptese de uma armadura de metal carregada de sensores. As alternativas que roteiristas, designers e programadores esto trabalhando envolvem um controle direto do jogador sobre uma pessoa que o representa na tela. Ela ser um avatar (transmutao) desse jogador, e suas aes sero comandadas nas teclas ou no mouse.
     Outra opo ser o controle indireto, quando o jogador ser uma espcie de diretor de cinema, podendo escolher as aes de todos os personagens. A complexidade de reproduzir a atividade sexual est na variedade de movimentos intrincados envolvendo o corpo inteiro do jogador.
     Embora nos parea que  quase impossvel aumentar a velocidade dos novos meios de comunicao, as surpresas surgem a toda hora. O sexo acompanha essa evoluo nos endereos do tipo site e blogs, nos quais os encontros virtuais condensam e conduzem o real. O aprimoramento de cybergames erticos remete a um mundo estranho. O amor foi posto de lado. Ser?
     Observando sobre outro ngulo podemos concluir que cyber-games libertaro o amor de suas necessidades erticas, ou melhor, o desejo sexual pela pessoa amada existir de verdade ou se preferir um bom orgasmo virtual.

Sex shops
       
     Apesar de o famoso ator americano Stephen Baldwin ter empreendido uma batalha judicial contra a instalao de uma sex shop em sua cidade, Nyack, prxima a Nova York, esse tipo de comrcio no pra de crescer. A cena de homens e mulheres, jovens ou no, procurando novidades nas vitrines das lojas, j est se tornando comum e representa um grande avano na liberdade sexual.
     As mulheres representam 70% dos consumidores de sex shops espalhados pelo Brasil, e esto perdendo a vergonha de buscar um prazer mais intenso. Na masturbao ou na relao sexual, elas lanam mo dos mais diversos produtos e artigos: desde simples leos de massagem, lubrificantes, gis trmicos, lingeries sensuais e fantasias, at os mais modernos vibradores.
     Marta, tem 38 anos e est separada h seis. Experimentou pela primeira vez um vibrador quando conheceu Fbio num chat da Internet e logo passaram a se comunicar por telefone.
     
     "Quando eu transava por telefone, comprei uma mo, com trs pilhas no punho. O dedo do meio girava dentro da minha vagina e o dedo vibrava no litris. Tive orgasmos maravilhosos com a voz do Fbio no meu ouvido. Mas nunca pensei que iria usar um vibrador na transa ao vivo com atgum. Acho que os homens se sentem diminudos, como se a mulher estivesse dizendo que seu pnis no  suficiente. Poucos se garantem e incentivam a mulher a ter mais prazer. Depois da minha experincia por telefone, comecei a namorar o Andr. Ele  totalmente sem preconceitos e, por isso, no tive dificuldade de introduzir um vibrador na nossa transa. Comprei um em forma de pnis, com duas pilhas, e outro mais fino para o nus. Apesar de sempre ter tido orgasmos, tenho sentido um prazer que nem sabia que existia. Acho que  o orgasmo elevado  potncia mxima, Devia at ter outro nome, de to mais forte que . Enquanto Andr me penetra, conduzo o Vtorador no clitris. Ele me estimula tambm com o outro pnis de borracha, no nus. Se as mulheres soubessem o prazer que podem ter, no iam nunca mais abrir mo de um vibrador na relao sexual com o parceiro."
       
     " bastante comum as pessoas acreditarem que para o exerccio de uma sexualidade satisfatria e prazerosa baste a relao sexual com um parceiro em determinada periodicidade ou, em menor medida, a auto-estimulao por meio da masturbao. Entenda-se a relao sexual restrita  penetrao vaginal ou anal e a prtica do sexo oral, sem levar em conta o que est em seu entorno. Esta  a viso hegemnica do que  'normal' e 'natural' no sexo. No entanto, orbitam em torno do ato sexual propriamente dito vrios fatores que promovem a estimulao, o desejo, a exci-tao e favorecem decisivamente a qualidade do prazer sexual. Entre tais fatores podem ser citados o ambiente no qual h a relao sexual, um vesturio atrativo, um perfume, uma msica, um odor, uma nudez sugerida ou completa, uma fantasia, um drinque, um filme romntico ou ertico, alm da atrao fsica ou dos laos de afeto entre os parceiros. Alguns destes fatores tm diferentes impactos em cada pessoa, pois podem ser importantes para uns e indiferentes, desconhecidos ou inacessveis para outros. A este conjunto de fatores que orbitam o ato sexua com parceiro e a masturbao soma-se o uso dos chamados brinquedos erticos, cuja existncia remonta ao antigo Egito, mas se consolidou como objeto de consumo apenas nas ltimas duas dcadas."48

Ch-de-lingerie
     
     Frigideira, avental, rolo de pastel, forminha de empada... Eram alguns dos itens da longa lista de presentes do ch-de-panela. As utilidades recebidas se incumbiam de manter o perfil domstico da futura esposa. Entretanto, de uns tempos para c, um novo ch vem ganhando espao.
     O nosso velho conhecido ch-de-panela, como no poderia deixar de ser, se modernizou. E trocou de nome: ch-de-lingerie. Mas o melhor de tudo  que a idia  outra. Agora a lista dos utenslios fica em lojas bem mais originais: nas sex shops. Todos visando intensificar o prazer sexual e deixar a imaginao correr solta.

Tecnologia para o prazer
     
     Entre as novidades est o Slightest Touch (Leve toque), fabricado por uma empresa chamada Stimulation Systems,  um dispositivo movido a bateria que estimula nervos da plvis feminina. Ele custa 200 dlares e no produz orgasmos  apenas deixa as mulheres prontas, alega o fabricante.
     Com o tamanho aproximado de um walkman, o Slightest Touch funciona com um par de eletrodos, que devem ser colados nos tornozelos. Segundo o fabricante, a corrente eltrica produzida estimula dois pontos de acupuntura relacionados a trs nervos da regio plvica. " um timo casamento de alta tecnologia, teoria clssica dos nervos e a antiga teoria chinesa dos meridianos", disse Norman Camparini, chefe de design.

O prazer no mercado
     
     Apesar de ainda haver muito preconceito, o consumo de produtos erticos est em franca expanso. Em 2003, o setor faturou 350 milhes de dlares somente no Brasil. Os produtos so adquiridos por curiosidade, por brincadeira, para uso s escondidas ou por uma conscincia positiva de benefcio  prpria vida sexual e/ou do parceiro. "Entre os mais procurados destaca-se o vibrador. A aceitao desse aparelho como um dos fatores que auxiliam na qualidade da vida sexual de homens e mulheres vem desmistificando antigos receios. Cada vez mais pessoas reconhecem que o ato de se excitar e provocar uma reao orgstica por meio de um vibrador  uma experincia fsica to bsica e natural como o que se faz em outras formas de auto-estimulao ou estimulao feita por um parceiro." 49 No  difcil imaginar que em breve poderemos escolher o objeto que vai aumentar nosso prazer em prateleiras de supermercado.

Androginia
       
     Quando se fala em androginia, logo nos vem  mente uma imagem, que j foi popular na arte e na literatura: rapazes delicados, que se vestem como almofadinhas, ou mulheres com corpo e semblante de rapaz. Andrgino significa, na raiz, homem/mulher, mas a idia de androginia no  claramente percebida.
     Para corresponder ao ideal masculino ou feminino da nossa sociedade, cada um tem que rejeitar em si aspectos que so considerados do outro sexo, de alguma forma, se mutilando. "A norma imposta foi o contraste e a oposio. Cabe  educao calar as ambigidades e ensinar a recalcar a outra parte de si. O ideal  parir um ser humano unissexuado: um homem 'viril', uma mulher 'feminina'. Mas os adjetivos revelam o que se quer esconder: toda uma srie de intermedirios possveis entre os dois tipos ideais." 50
     As qualidades que se enquadram nos esteretipos masculinos e femininos so facilmente observveis. Os homens devem ser fortes, ousados, corajosos, agressivos, dominadores, competitivos, racionais e perseguir o sucesso e o poder. As mulheres devem ser passivas, ternas, dceis, meigas, emotivas, delicadas, saber cuidar dos outros. Como j dissemos,  evidente que homens e mulheres possuem todos esses aspectos  ambos podem ser fracos ou fortes, corajosos ou medrosos , dependendo do momento e das caractersticas que predominam em cada um, independentemente do sexo.
     Para a psicanalista americana June Singer, autora do livro Androginia, h muitos indcios de uma tendncia andrgina no Ocidente, seja nos hbitos e costumes sociais, na morai ou na percepo de milhes de pessoas que buscam como expandir a conscincia de si e do mundo em que vivem. Androginia  uma forma arcaica e universal de exprimir a totalidade. Mais do que uma situao de plenitude e de poder sexual, a androginia simboliza a perfeio de um estado primordial, ainda no condicionado pela cultura.  uma forma geral de exprimir a autonomia, a fora, a totalidade.  o reconhecimento de uma tendncia natural, espontnea, para a unidade psicolgica e sua conseqente manifestao nos demais pianos da vida.51

Somos todos andrginos?
     
     Singer acredita que o potencial andrgino est presente em todos e sua expresso ir variar conforme o arcabouo da personalidade de cada um.  verdade que o potencial andrgino individual tem sido freqentemente relegado, e mais freqentemente reprimido, principalmente no mundo ocidental.52 "Quando exploramos o material sexual nos nveis profundos da psique, inevitavelmente chegamos a um estado no qual os sentimentos sexuais so muito mais soltos e fluentes do que as pessoas normalmente se dispem a admitir. Minha experincia clnica sugere que a orientao bissexual  muito mais difundida do que a maioria acredita. Poucas so as pessoas que no nutrem sentimentos erticos por parceiros reais ou potenciais de ambos os sexos." 53 Badinter concorda com essa idia. "Na verdade, somos todos andrginos, porque os humanos so bissexuados, em vrios planos e em graus diferentes. Masculino e feminino se entrelaam em cada um de ns, mesmo se a maioria das culturas se deleitou em nos descrever e nos querer como sendo inteiramente de um sexo." 54

Libertando o andrgino que h em cada um
     
     So cada vez mais numerosas as evidncias na cultura de que um tipo de pessoa est se tornando um novo padro da identidade sexual, um desejo de aspirao. A americana Melinda Davis, autora do livro A nova cultura do desejo, que considera essas pessoas como pertencentes ao "terceiro sexo", acredita que se trata de uma identidade autodefinida que soma o melhor de ambos os mundos.  ter tudo.
     Ela observa que entre os jovens esta  uma fonte de inveja no muito discreta: as pessoas do "terceiro sexo", que conseguiram integrar ambos os "papis sexuais" em suas vidas, parecem estar se divertindo mais, desfrutando de sexo mais interessante, e libertas de qualquer conflito entre os lados "masculino" e "feminino" de suas personalidades. "Eles so mais abertos ao rompimento das regras antiquadas de comportamento, aos relacionamentos com o mesmo sexo." 55

Seres inteiros
     
     Singer sinaliza que, ao contrrio do que possa parecer, ns no nos tornamos andrginos; ns j somos andrginos. Basta sermos ns mesmos. Pode parecer a coisa mais fcil do mundo, mas para uma sociedade que se tornou perita em manipular, forar, condicionar a psique a adaptar-se a um mundo que aparentemente exige essa adaptao, talvez haja muito a desaprender no processo. "No precisamos mais nos ver como exclusivamente masculinos ou exclusivamente femininos; somos seres inteiros nos quais as qualidades opostas esto sempre presentes. No se trata meramente de uma hiptese, mas de um importante princpio norteador que afeta todos os aspectos da vida, como me foi permitido verificar com as pessoas com quem trabalhei terapeuticamente." 56

Masculino e feminino no existem
     
     A aceitao de nossa androginia s pode gerar melhor qualidade de vida, compreendida como potncia para fruio de caractersticas que hoje identificamos como masculinas e femininas. Antepem-se a essa necessidade as dificuldades acumuladas em milhares de anos de ciso. Registramos aqui a tendncia a que talvez nenhum de ns assistir em sua plenitude. Mas o que importa  a irreversvel inclinao que a androginia toma para dar ao ser humano o que lhe foi tomado: a integralidade.
     Caminhamos para o fim do gnero sexual. "A identidade sexual se tornar meramente uma caracterstica secundria, como tipo sangneo. Seremos identificados e escolheremos parceiros no segundo o sexo, mas segundo a compatibilidade psquica", diz Melinda.57 J em 1965, a americana Evelyne Sullerot percebeu que a semelhana era o modelo do futuro, e que nossas sociedades evoluam "para a diferenciao dos indivduos e dos grupos segundo clivagens mais sutis do que o sexo".58
     No momento em que se impe a plasticidade dos papis sexuais, em que as mulheres podem escolher no serem mes, torna-se cada vez mais difcil determinar, de forma exata, a diferena entre o homem e a mulher. "A semelhana dos sexos  uma inovao tal que podemos encar-la em termos de mutao." 59 O modelo de semelhana  propcio para se levar em conta nossa natureza andrgina. "De bom grado admite-se hoje que o desabrochar do indivduo passa pelo reconhecimento de sua bissexualidade." 60

Bissexualidade
       
     Fernando, engenheiro, de 34 anos,  casado h cinco e tem uma filha. Procurou ajuda teraputica por ter percebido sentir forte atrao sexual por um novo colega de trabalho.
     
     "Adoro o sexo com a minha mulher, mas o teso que estou sentindo por um homem est me perturbando. No posso continuar assim. Tenho perdido o sono, estou trabalhando mal e em casa tenho evitado qualquer contato com minha famlia. Passo a maior parte do tempo trancado no meu escritrio. Sempre desejei mulheres; sei que no sou gay. No aceito estar desejando um homem, mas tenho sonhado que estou transando com ele e, o pior, sinto um prazer enorme. O que est acontecendo comigo? Tenho medo de destruir meu casamento e pavor que algum descubra os meus desejos."
     
     O pesquisador americano Alfred Kinsey acredita que a homossexualidade e a heterossexualidade exclusivas representam extremos do amplo espectro da sexualidade humana. Para ele, a fluidez dos desejos sexuais faz com que, para cada heterossexual, exista pelo menos uma pessoa que sinta, em graus variados, desejo pelos dois sexos. Na pesquisa feita pelo americano Harry Harlow, mais de 50% das mulheres, numa cena de sexo em grupo, engajaram-se em jogos ntimos com o mesmo sexo, contra apenas 1% dos homens. Entretanto, quando o anonimato  garantido, a proporo de homens bissexuais aumenta a um nvel quase idntico.
     Os bissexuais sempre foram acusados de indecisos, de estar em cima do muro, de no conseguir se definir. Os heterossexuais costumam ver a bissexualidade como um estgio e no como uma condio alcanada na vida. Muitos gays e lsbicas desprezam os bissexuais acusando-os de insistir em manter os "privilgios heterossexuais" e de no ter coragem de se assumir. Por isso,  comum esconderem sua dupla orientao na tentativa de se proteger das crticas.
     Em 1975, a famosa antroploga Margareth Mead declarou: "Acho que chegou o tempo em que devemos reconhecer a bissexualidade como uma forma normal de comportamento humano.  importante mudar atitudes tradicionais em relao ao homossexualismo, mas realmente no deveremos conseguir retirar a carapaa de nossas crenas culturais sobre escolha sexual se no admitirmos a capacidade bem documentada (atestada no correr dos tempos) de o ser humano amar pessoas de ambos os sexos." 61
     Marjorie Garber, professora da Universidade de Harvard, que elaborou um profundo estudo sobre o tema, compara a afirmao de que os seres humanos so heterossexuais ou homossexuais s crenas de antigamente, como: o mundo  plano, o Sol gira ao redor da Terra. Acreditando que a bissexualidade tem algo fundamental a nos ensinar sobre a natureza do erotismo humano, ela sugere que, em vez de hetero, homo, auto, pan e bissexualidade, digamos simplesmente sexualidade.62
     Desde os anos 90 fala-se muito em bissexualidade. A manchete de capa da revista americana Newsweek de julho de 1995 era: "Bissexualidade: nem homo nem hetero. Uma nova identidade sexual emerge."  possvel que num futuro prximo, com a dissoluo da fronteira entre o masculino e o feminino, as pessoas escolham seus parceiros amorosos e sexuais pelas caractersticas de personalidade, no mais por serem homens ou mulheres. A bissexualidade poder se tornar, ento, bastante comum. A ponto de predominar.
  
  Concluso
      
      
      
      
     Como vimos nos primeiros captulos, as mulheres sempre dividiram as tarefas com os homens e sempre foram respeitadas at o surgimento do patriarcado. Com uma estrutura social rgida, esse sistema dividiu a humanidade em duas partes  homens e mulheres , opondo uma  outra, definindo claramente os papis de cada uma e aprisionando ambas. Sua principal caracterstica foi a apropriao pelo homem da capacidade reprodutiva e sexual da mulher e a opresso da decorrente.
     O estabelecimento do patriarcado precedeu um pouco o advento da propriedade privada, que dividiu a sociedade em classes. A partir de ento, as relaes humanas se transformaram. Com a prtica da opresso sobre as mulheres, no foi difcil para o homem dominar e hierarquizar homens do seu prprio grupo, assim como outros povos.
     As deusas foram gradativa mente substitudas por deuses masculinos e a ascenso do monotesmo hebreu representou a derrota definitiva do culto politesta da fertilidade.
     A imagem anterior da mulher respeitada foi trocada pela de simples objeto sexual a ser possudo pelo homem. Essa desvalorizao simblica da mulher em relao  divindade tornou-se um dos dogmas da civilizao ocidental. O outro dogma encontra-se na filosofia aristotlica, que considera a mulher um ser incompleto e deficiente, pertencendo a uma ordem inteiramente diversa da do homem. Introduzidas essas idias, a subordinao da mulher passou a ser vista como natural, universal, inquestionvel, imutvel, e o patriarcado se estabeleceu, ento, como ideologia e realidade.
     O discurso conservador foi repetido incansavelmente, justificando a subordinao da mulher ao homem, por ser vontade de Deus. Devido ao fenmeno de assimetria sexual, homens e mulheres deveriam desempenhar funes distintas. Um argumento confortvel  as diferenas sexuais so desgnios de Deus ou da natureza , j que isentava de qualquer culpa quem defendesse a desigualdade sexual e a dominao masculina.
     Outro argumento patriarcal ainda utilizado para a manuteno da superioridade masculina  o de que a mulher no desempenhou nenhum papel na histria. Isso, alega-se, devido a ser biologicamente dirigida  criao e  emoo, o que a torna essencialmente inferior ao homem no que tange ao pensamento abstrato.
     As mulheres, durante alguns milnios, foram cmplices na perpetuao do sistema patriarcal que as oprime, acreditando nessa inferioridade e transmitindo o mesmo sistema, ao longo das geraes, aos filhos de ambos os sexos.
     O patriarcado  um sistema histrico e, portanto, pode terminar tambm por um processo histrico. Os seres humanos, com suas mentes superiores, podem transformar rapidamente padres de comportamento. Ao contrrio das outras espcies, em que essas mudanas s ocorrem ao longo da evoluo biolgica e envolvem modificaes na estrutura fsica e mental.
     Tanto homens como mulheres tm o mesmo potencial para os diversos comportamentos. A supremacia masculina criada pelo patriarcado envenena todas as relaes humanas, prejudicando tambm os homens.
     Aps esse longo perodo de submisso sexual e econmica, as duas metades da humanidade despertaram.  Desencadeou-se um processo de questionamento da premissa maior da sociedade patriarcal: a de que a dominao e a violncia masculina so inevitveis. E isso se estendeu a outras reas.
     O movimento ecolgico ganha fora. Na tentativa de conscientizar as pessoas da importncia de se integrar ao meio ambiente natural, utilizam-se imagens de focas, pssaros, golfinhos, florestas verdes, que eram outrora smbolos da unidade da vida sobre o poder divino da Deusa. A conquista da natureza  tanto tempo considerada uma virtude masculina  deixa de ser admirada. Preserv-la, em vez de domin-la, passa a ser a nova ordem.
     Na educao das crianas surgem sinais de que o valor maior agora est em ensinar o cuidado e o respeito humano, em detrimento da conquista e dominao, expressas no universo infantil por heris assassinos, como Rambo e seus congneres. Em alguns pases, a fabricao de brinquedos de guerra foi proibida. Nunca, em toda a histria, o modelo patriarcal para as relaes humanas foi desafiado por tanta gente.
     At 40 anos atrs, as diferenas entre homens e mulheres eram creditadas de tal forma  natureza que se aceitava como legtimo que no exercessem as mesmas tarefas, nem tivessem os mesmos direitos. Os espaos reservados a cada um dos sexos eram bem delimitados, reforando a separao e a diferena.
     O movimento feminista da dcada de 1970 contribuiu para pr fim  discriminao sexual. As escolas passaram a ser mistas, todas as profisses tornaram-se acessveis s mulheres  Foras Armadas, policiais, motoristas de nibus, jogadoras de futebol.
     Os papis sexuais transformam-se profundamente, atenuando a distino entre eles, trazendo em conseqncia o fim da guerra entre os sexos. Agora, as mulheres podem escolher entre ser ou no mes. O controle da fecundidade da mulher e a diviso de tarefas  pilares do patriarcado  so coisas do passado.
     Na relao com os filhos, surge um novo pai, com atitudes at ento ignoradas pelo homem. Alimentam, trocam fraldas, do banhos e passeiam sozinhos com seus filhos. A percentagem dos pais que tm a guarda dos filhos aumenta progressivamente. So sinais que reforam a crena no fim do patriarcado.
     A relao entre homens e mulheres est sendo subvertida, assim como a viso do amor, do casamento e do sexo, O mundo mudou muito mais da dcada de 1960 para c do que do perodo Paleoltico at ento. Entretanto, o processo de transformao das mentalidades no atinge todas as pessoas, ao mesmo tempo, e  por isso que nos exemplos citados encontramos anseios e comportamentos to diversos, variando de uma submisso total s normas sociais s transgresses mais extremas.
     Quando nascemos, somos colocados no mundo com padres de comportamentos fixos e determinados. Com a educao e o convvio, vamos absorvendo os valores da nossa cultura. E isso  feito de tal forma que na vida adulta torna-se difcil saber o que realmente desejamos e o que aprendemos a desejar. Observa-se que a insatisfao  geral  nunca se venderam tantos ansio-lticos e antidepressivos como agora , mas modificar a maneira de viver e de pensar gera ansiedade. O novo, o desconhecido, assusta. Entretanto, repetir o que  aprendido como verdade absoluta gera sofrimento.
     H cerca de 30 anos, assisti  pea No natal a gente vem te buscar, de Naum Alves de Souza, que ilustra de uma forma dramtica a submisso aos valores sociais. Tentarei reproduzir a parte da histria que registrei e o dilogo que nunca me saiu da memria.
     Duas irms e um irmo. Uma delas no saa, ficava em casa com os pais, totalmente submetida aos conceitos de certo/errado, bom/mau, que tinha absorvido. Sua vida se resumia a ser a guardi da moral e dos bons costumes. Recriminava a tudo e a todos por suas atitudes e comportamentos. Os irmos, por sua vez, buscavam viver suas vidas. O tempo passa, os pais morrem e ela torna-se cada vez mais amarga. Num determinado momento, os irmos so chamados para acudi-la, pois est enlouquecendo de tanto sofrimento. Ao v-la naquele estado deplorvel, o irmo, perplexo, comenta com a irm: "Eu no entendo. Ela ouviu de nossos pais as mesmas coisas que ns ouvimos." A irm, ento, lhe diz: "... s que ela acreditou."
     O fim do patriarcado traz nova reflexo sobre o relacionamento entre homens e mulheres, o amor, o casamento e a sexualidade. Nossas convices ntimas mais arraigadas so abaladas, projetando-nos num vazio. Os modelos do passado no respondem mais aos nossos anseios e nos deparamos com uma realidade ameaadora, por no encontrarmos modelos em que nos apoiar, em tempo algum, em nenhum lugar.
     Essa pode ser a grande sada para o ser humano. Percebendo as prprias singularidades e no tendo mais que se adaptar a modelos impostos de fora, abre-se um espao em que novas formas de viver, assim como novas sensaes, podem ser experimentadas.
     
  Referncias
      
      
      
I - O PASSADO DISTANTE

1. Eisler, Riane, O clice e a espada, Imago, 1989, p. 27.
2. Tannahill, Reay, O sexo na histria, Francisco Alves, 1983, p. 36.
3. Feuerstein, Georg, A sexualidade sagrada, Siciliano, 1994.
4. Badinter, Elizabeth, Um  o outro, Nova Fronteira, 1986.
5. Eisler, R., op. cit.
6. Ibidem.
7. Ibidem, p. 49.
8. Ibidem.
9. Ibidem.
10. Tannahill, R., op. cit.
11. Eisler, R., op. cit., p. 80.
12. Badinter, op. cit.
13. Fisher, Helen, Anatomia do amor, Eureka, 1995.
14. Feuerstein, op. cit.
15. Ibidem.
16. Badinter, op. cit.
17. Ibidem.
18. Todas as citaes das novas lendas foram tiradas de Badinter, op. cit., p. 99.
19. Muraro, Rose M., A mulher no terceiro milnio, Rosa dos Tempos, 1992.
20. Feuerstein, op. cit.
21. Badinter, op. cit.
22. Russel, Bertrand, O casamento e a moral, Cia. Editora Nacional, 1955.
23. Brien Richards, O pnis, Loveland, 1980.
24. Ibidem.
25. Ibidem.
26. Badinter, op. cit., p. 113.
27. Eisler, R., op. cit.
28. Kreps, Bonnie, Paixes eternas, iluses passageiras, Saraiva, 1992.
29. Badinter, op. cit., p. 93.
30. Kreps, B., op. cit.
31. Lerner, Gerda, The creation of patriarchy, Oxford University Press, 1986.
32. Badinter, op. cit., p. 102.
33. Burns, Edward M., Histria da civilizao ocidental, vol. I, Globo, 1973.
34. Transcrio literal. Bblia Ilustrada, S. Hastings. Editora tica, 1995.
35. Kreps, B., op. cit.
36. Ruffi, Jacques, O sexo e a morte, Nova Fronteira, 1979.
37. Ibidem.
38. Feuerstein, G., op. cit., p. 125.
39. Ibidem.
40. Ibidem.
41. Tannahill, R., op. cit.
42. Rougemont, Denis de, O amor e o ocidente, Guanabara, 1988.
43. Feuerstein, G., op. cit. p., 127.
44. Kreps, B., op. cit., p. 42.
45. Idem.
46. Histria de Lilith tirada de Sicuteri, Roberto, Lilith: a lua negra. Paz e Terra, 1985.
47. Cherman, Sheiva, Sexo e afeto, Topbooks, 1992.
48. Paiva, Vera, Evas, Marias, Liliths... As voltas do feminismo, Brasiliense, 1993, p. 59.
49. Russel, B., op. cit.
50. Badinter, op. cit.
51. Ibidem, p. 135.
52. Idem.
53. Idem.
54. Ibidem, p. 136.
55. Idem.
56. Ibidem, p. 143.
57. Jornal do Brasil, 30/3/1993.
58. Badinter, op. cit., p. 149.
59. Ibidem, p. 151.
60. Ibidem, p. 150.
61. Ibidem, p. 103.
62. Ibidem, p. 104.
63. Tannahill, R., op. cit.
64. Ibidem, p. 151.
65. Idem.
66. Russel, B., op. cit., p. 37.
67. Ibidem, p. 43.
68. Idem.
69. Tannahill, R.t op. cit.
70. Ruffi, J., op. cit.
71. Aris, P. e Duby, G. (direo), Histria da vida privada, vol. II, Companhia das Letras, 1992.
72. Ruffi, J., op. cit.
73. Tannahill, R, op. cit., p. 159.
74. Ibidem, p. 160.
75. Russel, B., op. cit.
76. Ibidem.
77. Tannahill, R., op. cit.
78. Ruffi, J., op. cit.
79. Tannahill, R., op. cit.
80. Ruffi, J., op. cit., p. 148.
81. Ibidem.


II  AMOR

1. Campbell, Joseph, O poder do mito, Palas Athena, 1995.
2. Ibidem.
3. Tannahill, R., op. cit, p. 290.
4. Eisler, R., op. cit.
5. Tannahill, R., op. cit.
6. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. II.
7. Duby, Georges, Idade Mdia, idade dos homens, Companhia das Letras, 1990.
8. Ibidem.
9. Ibidem, p. 30.
10. Ibidem, p. 37.
11. Ibidem, p. 32.
12. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. II, p. 32.
13. Ibidem.
14. Ibidem.
15. Ibidem.
16. Ibidem.
17. Duby, G, op. cit., p. 63.
18. Idem.
19. Ibidem, p. 64.
20. Ibidem, p. 65.
21. Rougemont, D., op. cit.
22. Johnson, R., We, Mercuryo, 1987, p. 103.
23. Rougemont, D., op. cit.
24. Johnson, R., op. cit., p. 104.
25. Ibidem.
26. Ibidem.
27. Ibidem, p. 105.
28. Russel, B., op. cit., p. 50.
29. Ibidem.
30. Johnson, R., op. cit., p. 105.
31. Rougemont, D., op. cit., p. 23.
32. Ibidem, p. 27.
33. Kreps, B., op. cit.
34. Ibidem, p. 93.
35. Porchat, leda (organizao), Amor, casamento, separao, Brasiliense, 1992, p. 96.
36. Kreps, B., op. cit., p. 137.
37. Jornal do Brasil, 28/4/1993.
38. Johnson, R-, op. cit.
39. Kreps, B., op. cit.,   p. 72.
40. Ibidem, p. 80.
41. Ibidem, p. 134.
42. Ibidem, p. 135.
43. Ibidem, p. 136.
44. Idem.
45. Rougemont, D., op. cit., p. 41.
46. Kreps, B., op. cit, p. 13.
47. Fisher, H., op. cit., p. 47.
48. Ibidem.
49. Kreps, B., op. cit., p. 22.
50. Ibidem, p. 79.
51. Wilson, Glenn, Um toque sensual, Marshall Cavendish Limited, 1989.
52. Giddens, Anthony, A transformao da intimidade, Unesp, 1992.
53. Aris, Philippe, Histria social da criana e da famlia, Guanabara, 1978.
54. Badinter, E., Um amor conquistado, Nova Fronteira, 1980, p. 55.
55. Aris, P., 1978, p. 55.
56. Badinter, 1980, p. 57.
57. Ibidetn, p. 67.
58. Aris, P., 1978, p. 162.
59. Badinter, 1980, p. 120.
60. Ibidem, p. 121.
61. Ibidem, p. 123.
62. Ibidem, p. 125.
63. Idem.
64. Ibidem, p. 126.
65. Aris, P., 1978, p. 56.
66. Badinter, 1980, p. 105.
67. Badinter, E., XY  Sobre a identidade masculina, Nova Fronteira, 1993, p. 12.
68. Ibidem, p. 13.
69. Badinter, 1980, p. 154.
70. Ibidem, p. 181.
71. Ibidem, p. 194.
72. Ibidem, p. 208.
73. Ibidem, p. 212.
74. Ibidem, p. 213.
75. Ibidem, p. 223.
76. Ibidem, p. 235.
77. Ibidem, p. 138.
78. Ibidem, p. 255.
79. Badinter, 1980, p. 255.
80. Ibidem, p. 184.
81. Gaiarsa, Jos ngelo, Poder e prazer, Agora, 1986.
82. Ibidem.
83. Muraro, R. M., op. cit., p. 125.
84. Giddens, A., op. cit, p. 54.
85. Johnson, R., op. cit.
86. Ibidem.
87. Giddens, A., op. cit., p. 51.
88. Ibidem, p. 56.
89. Idem.
90. Ibidem, p. 54.
91. Idem.
92. Muraro, R. M op. cit., p. 124.
93. Kusnetzoff, Juan Carlos, A mulher sexualmente feliz, Nova Fronteira, 1988, p. 21.
94. Ibidem, p. 23.
95. Badinter, 1993, p. 41.
96. Ibidem, p. 201.
97. Kusnetzoff, op. cit., p. 25.
98. Idem.
99. Idem.
100. Idem.
101. Ibidem, p. 26.
102. Kreps, B., op. cit., p. 103.
103. Johnson, R., op. cit.
104. Kreps, B., op. cit., p. 105.
105. Ibidem, p. 99.
106. Ibidem, p. 65.
107. Idem.
108. Ibidem, p. 66.
109. Ibidem, p. 64.
110. Ibidem, p. 23.
111. Ibidem, p. 150.
112. Badinter, 1993.
113. Ibidem, p. 4.
114. Ibidem, p, 13.
115. Ibidem, p. 14.
116. Ibidem.
117. Ibidem, p. 20.
118. Badinter, 1986.
119. Badinter, 1993, p. 34.
120. Ibidem, p. 70.
121. Ibidem, p. 72.
122. Ibidem, p. 74.
123. Ibidem, p. 133. Retirado por Badinter do livro The forty-nine percent majority, de Deborah S. David e Robert Brannon.
124. Ibidem, p. 134.
125. Idem.
126. Ibidem, p. 143.
127. Ibidem, p. 138.


III  CASAMENTO

1. Reich, Wilhelm, Casamento indissolvel ou relao sexual duradoura?, Livraria Martins Fontes, 1972, p. 30.
2. Gaiarsa, op. cit., p. 156.
3. Programa Fantstico, TV Globo, 7/4/1996.
4. Folha de S. Paulo, 23/12/1993.
5. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V.
6. Rougemont, Denis, op. cit.
7. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V, p. 87.
8. Idem.
9. Idem.
10. Durant, Will, Os grandes pensadores, Cia. Editora Nacional, 1956.
11. Aris, P. e Duby, G, op. cit, vol. V, p. 89.
12. Ibidem, p. 90.
13. Ibidem, p. 91.
14. Badinter, 1986, p. 278.
15. Muszkat, Malvina, em Porchat, leda, op. cit., p. 89.
16. Gikovate, Flvio, Amor nos anos 80, MG Editores Associados, 1984, p. 49.
17. Russel, B op. cit., p. 107.
18. Reich, W., op. cit., p. 35.
19. Jornal do Brasil, 1993.
20. Reich, op. cit, p. 18.
21. Idem.
22. Ibidem, p. 23.
23. Aris, P. e Duby, G., op. cit, vol. V, p. 91.
24. Ibidem, p, 92.
25. Jornal do Brasil, 25/11/1995.
26. Aris, P. e Duby, G, op. cit, vol. V, p. 94.
27. Rougemont, D., op. cit., p. 195.
28. Gomes, Purificacion Garcia, em Porchat, leda, op. cit, p. 132.
29. Ibidem, p, 133.
30. Gaiarsa, op. cit, p. 182.
31. Rougemont, D., op. cit., p. 200.
32. Reich, op. ct., p. 38.
33. Giddens, op. cit.
34. Reich, op. cit.
35. Ibidem, p. 19.
36. Gaiarsa, op. cit., p. 167.
37. Reich, op. cit., p. 19.
38. Russel, op, cit.
39. Gomes, Purificacion Garcia, em Porchat, leda, op. cit., p. 129.
40. Ibidem, p. 130.
41. Fisher, Helen, op. cit., p. 111.
42. Ruffi, J., op. cit., p. 176.
43. Russel, B., op. cit., p. 11.
44. Fisher, H., op. cit., p. 115.
45. Idem.
46. Reich, op. cit, p. 27.
47. Jablonski, Bernardo. At que a vida nos separe, Agir, 1991, p. 119.
48. Ibidem, p. 121.
49. Veja, 8/6/1994.
50. Fisher, H., op. cit., p. 119.
51. Idem.
52. Ibidem, p. 121.
53. Ibidem, p. 124.
54. Idem.
55. Muszkat, Malvina, em Porchat, leda, op. cit., p. 97.
56. Badinter, 1986, p. 278.
57. Giusti, Edoardo, A arte de separar-se, Nova Fronteira, 1987, p. 198.
58. Gomes, Purificacion Garcia, em Porchat, leda, op. cit., p. 127.
59. Reich, op. cit., p. 33.
60. Badinter, 1986, p. 290.
61. Idem.
62. Freud, S., O mal-estar na civilizao, Imago, 1972.
63. Badinter, 1986, p. 285.
64. Ibidem, p. 290.
65. Jablonski. op. cit., p. 95.
66. Badinter, 1986, p. 278.
67. Ibidem, p. 291.
68. Gikovate, F., op. cit., p. 61.
69. Ibidem, p. 26.
70. Kreps, B., op. cit., p, 218.
71. Ibidem, p. 219.
72. Ibidem.
73. Alberoni, Francesco, A amizade, Rocco, 1992, p. 10.
74. Kreps, B., op. cit., p. 229.
75. Gikovate, op. cit., p, 127.
76. Idem.
77. Ibidem, p. 86.

IV - SEXO

1. Chau, Marilena, Represso sexual, Brasiliense, 1984, p. 10.
2. Ibidem, p. 11.
3. Freud, S., op. cit.
4. Russel, B., op. cit., p. 212.
5. Reich, W., A funo do orgasmo, Brasiliense, 1975, p. 18.
6. Gaiarsa, op. cit., p. 19.
7. Ibidem, p. 20.
8. Tiger, Leonel, A busca do prazer, Objetiva, 1993, p. 106.
9. Idem.
10. Gaiarsa, Sexo, Reich e eu, Agora, 1985, p. 33.
11. Idem.
12. Chau, M., op. cit., p. 9.
13. Feuerstein, G., op. cit., p. 28.
14. Ibidem, p. 29.
15. Ibidem, p. 30.
16. Reich, 1972.
17. Ibidem.
18. Feuerstein, G., op. cit., p. 18.
19. Ibidem, p. 23.
20. Gaiarsa, 1985, p. 84.
21. Richards, Jeffrey, Sexo, desvio e danao, Jorge Zahar Editor, 1993.
22. Ibidem, p. 123.
23. Idem.
24. Aris, P. e Duby, G, op. cit., vol. V, p. 381.
25. Ibidem, p. 383.
26. Idem.
27. Idem.
28. Idem.
29. Ibidem, p, 384.
30. Idem.
31. Badinter, 1986, p. 268.
32. Beauvoir, Simone de, O segundo sexo, Nova Fronteira, 1980, p. 324.
33. Rougemont, D., op. cit., p. 47.
34. Tannahill, R., op. cit., p. 92.
35. Ibidem, p. 94.
36. Edio especial da revista L'Histoire/Seuil: "Amor e Sexualidade no Ocidente L&PM Editores, 1992.
37. Foucault, Michel, Histria da sexualidade  o uso dos prazeres, Graal, 1984.
38. Tannahill, R., op. cit., p. 95.
39. Idem.
40. Richards, J., op, cit., p. 138.
41. Edio especial da revista L'Histoire/Seuil., p. 41.
42. Ibidem, p. 42.
43. Ibidem, p. 43.
44. Idem.
45. Richards, J., op. cit., p. 136.
46. Ibidem, p. 139.
47. Ibidem, p. 150.
48. Aris, P. e Duby, G, op. cit., vol. V, p. 368.
49. Badinter, 1993, p. 101.
50. Ibidem, p. 100.
51. Ibidem, p. 102.
52. Ibidem, p. 105.
53. Ibidem, p. 106.
54. Ruffi, J., op. cit., p. 178.
55. Fisher, H., op. cit., p. 195.
56. Idem.
57. Badinter, 1993, p. 106.
58. Idem.
59. Ibidem, p. 107.
60. Hite, Shere, O relatrio Hite sobre a sexualidade masculina, Bertrand Brasil 1981.
61. Badinter, 1993, p. 109.
62. Ibidem, p. 215.
63. Ibidem.
64. Fisher, H., op. cit., p. 194.
65. Jornal do Brasil, 24/7/1996.
66. Jornal do Brasil, 28/7/1996.
67. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V, p. 369.
68. Ibidem, p. 565.
69. Giddens, op. cit., p. 23.
70. Idem.
71. Badinter, 1993, p. 113.
72. Ibidem, p, 114.
73. Ibidem, p. 216.
74. Giddens, op. cit, p. 24.
75. Badinter, 1993, p. 114.
76. Ibidem, p. 115.
77. Idem.
78. Aris, P. e Duby, 6., op. cit., vol. V, p. 374.
79. Badinter, 1993, p. 116.
80. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V, p. 372.
81. Idem.
82. Costa, Ronaldo P., Os onze sexos, Gente, 1994, p. 91.
83. Ibidem, p. 90.
84. McCarty, Barry, O que voc (ainda) no sabe sobre a sexualidade masculina, Summus Editorial, 1992, p. 113.
85. Costa, Ronaldo P., op. cit., p. 93.
86. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V, p. 371.
87. Badinter, 1993, p. 163.
88. Idem.
89. Ibidem, p. 164.
90. Ibidem, p. 228.
91. McCarty, B., op. cit., p. 114.
92. Ibidem.
93. Badinter, 1993, p. 119.
94. Ibidem, p. 118.
95. Ibidem, p. 217.
96. McCarty, B op. cit., p. 115.
97. Costa, Ronaldo P., op. cit.
98. Costa, Ronaldo P., op. cit., p. 99.
99. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V, p. 565.
100. Costa, Ronaldo P., op. cit.
101. McCarty, B., op. cit.
102. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V, p. 372.
103. Idem.
104. Giddens, op. cit., p. 160.
105. Idem.
106. McCarty, B., op. cit., p. 117.
107. Ibidem.
108. Ibidem.
109. Ibidem.
110. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V, p. 373.
111. Idem.
112. Costa, Ronaldo P., op. cit., p. 101.
113. Ibidem, p. 106.
114. Ibidem, p. 108.
115. Hite, Shere, O relatrio Hite  um profundo estudo sobre a sexualidade feminina, Difel, 1979, p. 291.
116. Giddens, op. cit., p. 158.
117. Hite, 1979, p. 295.
118. Giddens, op. cit., p. 139.
119. O Globo, 26/5/1996.
120. Giddens, op. cit., p. 61.
121. Tiger, L, op. cit., p. 110.
122. Eisler, R., op. cit.
123. Ibidem, p. 135.
124. Richards, Brien, op. cit.
125. Tiger, L, op. cit., p. 110.
126. Idem.
127. Idem.
128. Jablonski, B., op. cit., p. 109.
129. Idem.
130. Idem.
131. Giddens, op. cit., p. 62.
132. Ibidem, p. 59.
133. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V, p. 357.
134. Ladas, Whipple e Perry, O ponto G, Record, 1982, p. 21.
135. Ibidem, p. 22.
136. Idem.
137. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V, p. 352.
138. Idem.
139. Masters, W. e Johnson, V., A conduta sexual humana, Civilizao Brasileira, 1968.
140. Vargas, Marilene, Manual do orgasmo, Civilizao Brasileira, 1995.
141. Ibidem, p. 32.
142. Kusnetzoff, J. C, op. cit., p. 51.
143. Ibidem.
144. Ibidem, p. 54.
145. Vargas, M., op. cit.
146. Ibidem, p. 35.
147. Ibidem, p. 39.
148. Ladas. Whipple e Perry, op. cit., p. 27.
149. Ibidem, p. 28.
150. Ibidem.
151. Ibidem.
152. Ibidem, p. 30.
153. Ibidem, p. 31.
154. Ibidem, p. 33.
155. Ibidem, p. 36.
156. Ibidem, p. 37.
157. Ibidem, p. 39.
158. Ibidem, p. 40.
159. Ibidem, p. 50.
160. Ibidem, p. 60.
161. Idem.
162. Ibidem, p. 70.
163. Ibidem, p. 56.
164. Hite, 1979, p. 114.
165. Ladas, Whipple e Perry, op. cit, p. 73.
166. Ibidem, p. 75.
167. Vargas, M., comunicao pessoal.
168. Ladas, Whipple e Perry, op. cit., p. 92.
169. Ibidem, p. 93.
170. Ibidem.
171. Ibidem, p. 91.
172. Vargas, M., op. cit., p. 71.
173. Keesling, Barbara, Como fazer sexo a noite toda..., Record, 1995.
174. Ibidem.
175. Vargas, M., op. cit.
176. Rodrigues Jr., O., Objetos do desejo, Iglu, 1991.
177. Ibidem.
178. Kusnetzoff, op. cit., p. 84.
179. Ibidem, p. 31.
180. Ibidem, p. 32.
181. Kaplan, Helen, A nova terapia do sexo, Nova Fronteira, 1977, p. 250.
182. Ibidem, p. 252.
183. Ibidem, p. 365.
184. Idem.
185. Ibidem, p. 360.
186. Gaiarsa, 1985.
187. Hite, 1979, p. 126.
188. Ibidem, p. 131.
189. Kaplan, H., op. cit., p. 280.
190. Idem.
191. Ibidem, p. 282.
192. McCarty, B op. cit., p. 179.
193. Idem.
194. Kaplan, H., op. cit., p. 289.
195. Ibidem, p. 304.
196. Ibidem.
197. Rodrigues Jr., O., op. cit.
198. McCarty, B op. cit, p. 29.
199. Tiger, L, op. cit., p. 1.
200. Rodrigues Jr., op. cit.
201. Tannahill, R., op. cit.
202. Edio especial da revista L'Histoire/Seuil, p. 254.
203. Ibidem, p. 259.
204. Ibidem.
205. Ibidem.
206. Ibidem, p. 254.
207. Wilson Glenn, op. cit., p. 121.
208. Edio especial da revista L'Histoire/Seuil, p. 256.
209. Rodrigues Jr., op. cit., p. 29.
210. Edio especial da revista L'Histoire/Seuil, p. 257.
211. Ibidem, p. 258.
212. Aris, P. e Duby, G., op. cit., vol. V, p. 352.
213. Ibidem, p. 357.
214. Rodrigues Jr., op. cit.
215. Vargas, M., op. cit., p. 53.
216. Kaplan, H, op. cit., p. 365.
217. Hite, 1979, p. 15.
218. Rodrigues Jr., op. cit.
219. Ibidem.
220. Ibidem.
221. McCarty, B., op. cit., p. 103.
222. Ibidem, p. 104.
223. Ibidem, p. 107.
224. Ibidem, p. 108.
225. Ibidem, p. 109.
226. Hite, 1981, p. 815.
227. Aris, P. e Duby, G, op. cit., vol. I.
228. Rodrigues Jr., op. cit.
229. Ibidem.
230. Hite, 1981, p. 697.
231. Giddens, op. cit., p. 125.
232. Ibidem, p. 132.
233. Idem.
234. Ibidem, p. 142.

V - O FUTURO QUE SE ANUNCIA

1. Zeldin, Theodore, Uma histria ntima da humanidade, Record, 1996, p. 74.
2. Idem.
3. Zeldin, Theodore, Conversao, Editora Record, 1998, p. 35.
4. Freire Costa, Jurandir, Folha de So Paulo, "Caderno Mais!", Milnio para Iniciantes  AMOR, 31 de dezembro de 2000.
5. Zeldin, Theodore, comunicao pessoal  autora.
6. Freire Costa, Jurandir, op. cit.
7. Badinter, Elisabeth, Um  o outro, Nova Fronteira, 1986.
8. Zeldin, Theodore, comunicao pessoal  autora.
9. Freire Costa, Jurandir, op. cit.
10. Zeldin, Theodore, Conversao, op. cit.
11. Zeldin, Theodore, comunicao pessoal  autora.
12. Gikovate, Flvio, Ensaios sobre o amor e a solido, MG Editores, 1998, p. 175.
13. Ibidem, p. 176.
14. Giddens, Anthony, A transformao da intimidade, Unesp, 1993.
15. Zeldin, Theodore, comunicao pessoal  autora.
16. Zeldin, Theodore, comunicao pessoal  autora.
17. Eisler, Riane, O prazer sagrado, Rocco, 1996, p. 492.
18. Gonalves, Mrcio Souza, Comunicao virtual e amor na sociedade contempornea, tese apresentada  Escola de Comunicao da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito  obteno do ttulo de Doutor em Comunicao.
19. Comunicao pessoal  autora.
20. Comunicao pessoal  autora.
21. Texto retirado do site http://poliamor.yatros.com.br.
22. Texto retirado da pgina na Internet http://actualidad.terra.es/sociedad/articulo/poliamor
23. Idem.
24. Idem.
25. Texto de Mrio Polly, retirado do site http://poliamor.yatros.com.br.
26. Idem.
27. Fisher, Helen, Anatomia do amor, Eureka, 1995, p. 86.
28. www.geocities.com/losafp/semestre03/Trabajo-GuionPolyamor.htm.
29. www.yatros.com.br/poli Texto: "Poliamor: o que  e o que no ."
30. Freire, Roberto, Ame e d vexame, Sol e Chuva, 1987, p. 28.
31. www.yatros.com.br/poli Texto: "Poliamor: o que  e o que no ."
32. Anapol, Deborah, Polyamory: The New Love Without limits, Softbound, 1997.
33. Texto de Mrio Polly, retirado do site http://poliamor.yatros.com.br.
34. Gikovate, F., op. cit., p. 181.
35. Freire, R., op. cit., p. 41.
36. Gikovate, Flvio, op. cit., p. 52.
37. Fisher, H., op. cit, p. 359.
38. http://pt.wikipedia.org/wiki/Swing.
39. Zeldin, T., op. cit., p. 80.
40. (Vrios autores), Vida a dois, Siciliano, 1991, p. 37.
41. Badinter, E., op. cit., p. 267.
42. Revista Consultor Jurdico, 25 de julho de 2006  www.conjur.com.br.
43. Vincent, Catherine, texto Vida contempornea muda as relaes amorosas, retirado do site UOL.
44. Zeldin, T., op. cit., p. 120.
45. Tannahill, R., op. cit., p. 45.
46. Texto retirado da matria Trair e teclar,  s comear", da revista Veja, escrito pela reprter Daniela Pinheiro.
47. Texto publicado na revista Cincia Hoje, de agosto de 2000.
48. Texto retirado do site http://portalamazonia.globo.com/noticias, publicado em 31 de janeiro de 2006.
49. Texto retirado do site www.museudosexo.com.br.
50. Idem.
51. Badinter, E., op. cit., p. 236.
52. Singer, June, Androginia, Editora Cultrix, 1990, p. 28.
53. Ibidem, p. 207.
54. Ibidem, p. 34.
55. Badinter, E., op. cit., p. 236.
56. Davis, Melinda, A nova cultura do desejo, Record, 2003, p. 204.
57. Singer, J., op. cit., p. 207.
58. Davis, M., op. cit., p. 247.
59. Badinter, E., op. cit., p. 235.
60. Ibidem, p. 219.
61. Ibidem, p. 236.
62. Garber, Marjorie, Vice-versa, Record, 1997, p. 27.


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  A autora
      
      
      
      
      
      
     Regina Navarro Lins nasceu no Rio de Janeiro. Psicanalista e sexloga, trabalha em seu consultrio particular em terapia individual e de casais. Ex-professora de psicologia do Departamento de Comunicao Social da PUC-Rio, durante dois anos e meio apresentou um programa dirio sobre sexo na Rdio Cidade. Foi, por oito anos, colunista do Jornal do Brasil e realizou mais de duzentas palestras e workshops sobre amor, casamento e sexo em vrias cidades do pas. Coordena um site interativo na Internet sobre os mesmos temas.
      autora de seis livros, entre eles O sexo no casamento e Separao, da Coleo Amores Comparados. Nessa coleo  que Regina assina com seu marido, o romancista Flvio Braga , literatura e crtica unem-se para analisar questes inquietantes do relacionamento humano na sociedade atual. Cada volume apresenta duas histrias de fico, escritas por Flvio: uma ambientada na atualidade e outra em alguma poca do passado. s narrativas, rigorosamente baseadas em pesquisa histrica e casos de consultrio, so acrescidos os comentrios de Regina. O resultado so reflexes de leitura agradvel que propiciaro novas vises sobre relacionamentos amorosos e sexuais. Os temas escolhidos so de constante interesse, como o que  abordado no terceiro volume da coleo, A fidelidade obrigatria e outras deslealdades, com lanamento previsto para o segundo semestre de 2007.
     Site da autora: www.camanarede.com.br
     E-mail:  rlnl@uol.com.br
      


Digitalizao, reviso e formatao:
Dayse Duarte

      
     
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